Expedição Rivenwood – Parte 2 terça-feira, dez 8 2015 

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CAPÍTULO IV.

SOBREVOANDO O DESERTO DE COBRE EM UMA AERONAVE.

“É simplesmente extraordinário. Eu nunca imaginei que pudesse existir um lugar assim.”

Vianne estava no parapeito da Goldenheart, uma elegante aeronave a vapor de hélice dupla, se segurando em uma das cordas para se inclinar para fora e enxergar melhor a paisagem à sua frente. No planalto, dentro de um cânion pontilhado por árvores verdejantes, a grande capital do Povo do Céu estendia suas torres de pedra vermelha e seus totens colossais até as nuvens. Inúmeras tendas cônicas ocupavam de forma organizada tanto o topo do planalto como o terreno ao redor, delimitadas por um muro que parecia ter crescido do próprio solo rochoso. Um sistema sofisticado de roldanas, velas de couro e hélices de pano percorria todo o lugar, subindo e descendo enormes plataformas de madeira apenas com a força do vento, domesticado pela magia do Povo do Céu. Parte dessas plataformas móveis percorria a face do planalto, permitindo um acesso fácil entre o pé e o topo, enquanto outras se erguiam como asas até as nuvens, dando ao local um aspecto ainda mais grandioso.

Era em uma dessas plataformas suspensas que a Goldenheart atracava, sendo amarrada pela tripulação com a ajuda de um grupo de nativos habilidosos que aguardava. Vianne não perdeu um segundo em aproveitar a parada para saltar e dar uma olhada melhor naquela cidade, deixando a capitã Jezebel cuidar das compras de suprimentos e outros afazeres. Uma senhora de cabelos grisalhos e brilhantes como uma teia de aranha veio em sua direção, envolta em um manto ornamentado que indicava uma posição de respeito como anciã. Ela parecia estar esperando para receber a Marechal, como algum tipo de diplomata local.

“Boa tarde, querida senhora. É uma honra estar no coração do Povo do Céu. A Guilda dos Aeróstatas já havia me contado sobre as maravilhas de Mahpiya, mas devo confessar que não esperava que fosse um lugar tão…”

“Civilizado?” disse a anciã com um risinho, como se já estivesse acostumada a ouvir aquilo. “Vocês de além-mar acham que vivemos em cavernas e tocas no chão como os animais, e sempre acho graça em como ficam surpresos ao ver nossa cidade. Mas seus olhos não estão enganados, Mahpiya é mais do que apenas uma grande aldeia. Se estiver interessada em negócios, irei te mostrar a nossa praça do mercado, que recebe mercadores de peles do sul do deserto até as montanhas nevadas do norte. Ou talvez esteja aqui para visitar nosso santuário de sabedoria, onde os xamãs e engenheiros de toda a nação trocam suas experiências e as transmitem aos mais jovens. Nossa ‘universidade indígena’, como vocês windleses costumam dizer com espanto.”

“É mesmo um lugar incrível, boa senhora” murmurou Vianne com um sorriso constrangido, sentindo pelos olhares direcionados a ela pelos nativos que sua presença como militar não era muito bem vista. “Infelizmente estou apenas de passagem para o oeste. Espero poder voltar em uma ocasião melhor.”

“O vento que sopra do oeste agora traz o fedor de pólvora e cinzas que caem como neve.” respondeu a velha encarando a Marechal com um olhar franco. “E com as disputas por terras e as pragas matando nossos irmãos no leste, sinto que não existam mais boas ocasiões para sua gente vir até aqui.”

“Como uma das oficiais encarregadas pelas colônias de Roonock, farei tudo o que estiver ao meu alcance para assegurar que Mahpiya permaneça imperturbada e os conflitos com seu povo sejam apaziguados” afirmou Vianne sentindo o estômago gelar. Sabia que não seria nem um pouco fácil chegar a um acordo com a Coroa sobre a situação dos nativos, e no momento tinha uma longa e imensurável jornada pela frente, mas quando retornasse iria lutar para que nem mais um único tiro fosse disparado na direção daquela gente que tanto havia ajudado os colonos a sobreviver no Novo Mundo.

“Não é essa minha única preocupação. Nossos sentinelas totêmicos podem nos proteger dos canhões e da magia de seus homens, ainda que eu não deseje ver Mahpiya cercada pelo sangue de meus filhos. Sinto que suas palavras são sinceras, então irei lhe dar um aviso. Não é apenas ouro, prata e metal do céu que seu povo irá encontrar abaixo do solo do deserto. Existem coisas nesse lugar que se alimentam da cobiça no coração dos homens, e elas se escondem nos mesmos veios escuros onde está aquilo que vocês tanto procuram”.

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CAPÍTULO V.

NO INCRÍVEL TATU MECÂNICO DA SENHORITA THUNDERFOX.

Não havia nada além de aridez para além dos territórios do Povo do Céu. O deserto se estendia para todas as direções, como se o mundo inteiro estivesse resumido naquela vastidão de pedra e poeira. A expedição havia sido um fracasso. Três dos quatro povoados de mineração windleses haviam sido perdidos. Crooktown estava ocupada por mortos-vivos que caminhavam sob o sol escaldante, deixando a carne secar e apodrecer até expor seus crânios sorridentes. Sandwell era uma cidade-fantasma tomada por uma praga desconhecida, que tinha levado não apenas a vida como também a cor do vilarejo, transformando tudo em uma desolação cinzenta. E Thunderscape teve sua população exterminada quando os autômatos que trabalhavam no lugar enlouqueceram após terem sido possuídos por alguma entidade sombria desenterrada nas minas. A senhorita Thunderfox, a única sobrevivente dessa última comunidade mineradora, acabou por concordar em levar Vianne para além do deserto após a Marechal ter dispensado suas tropas cansadas e feridas em Tortoise’s Crossing, o povoado restante, com ordens para se recuperarem e prestarem ajuda aos colonos no que fosse necessário.

“São eles denovo?” gritou Vianne sobre o motor ruidoso do tatu mecânico que conduzia as duas através da planície árida, trotando de forma vigorosa. Na distância, uma nuvem de poeira ia se aproximando aos poucos, por mais que o autômato encardido de poeira tentasse acelerar com sua pesada carcaça de metal.

“Esses cabeças de lata não desistem fácil!” respondeu a inventora afastando os cachos loiros do óculos de proteção. “De algum jeito eles não precisam mais parar pra esfriar os mecanismos. Mesmo quando tão parados eles ficam fumegando, como se tivesse alguma outra coisa queimando dentro deles além de carvão e água”.

Logo a silhueta dos cavaleiros autômatos surgiu no meio da poeira, ficando cada vez mais próximos. Os olhos de seus cavalos de ferro brilhavam como lanternas no crepúsculo que se aproximava e tingia o céu de vermelho. Vianne encaixou a última peça do rifle e demorou alguns instantes fazendo mira até acertar em cheio uma perna dianteira de uma das montarias mecânicas, fazendo com que ela desabasse levando junto seu condutor. A inventora por sua vez acendeu uma banana de dinamite enquanto conduzia as alavancas do tatu com os pés e a lançou para trás, levantando uma forte explosão de areia que retardou a perseguição por alguns instantes.

“Eles são muitos! Não dá pra acertar todos antes que cheguem até nós!” avisou a Marechal se abaixando no banco de couro para escapar dos tiros que ricocheteavam na carapaça do veículo.

“Volta pra lá! Eu tenho uma surpresinha pra eles!” Retrucou a senhorita Thunderfox com um sorriso de alguém que só podia ter perdido o juízo. Ela girou uma manivela abaixo do painel de controle e Vianne ouviu um compartimento se abrindo às suas costas. Sendo um voto de confiança sua única opção, ela se levantou e viu que uma arma robusta estava montada na traseira do autômato, com uma fileira de balas vindo do que parecia ser um compartimento de munição até o cano cilíndrico com várias aberturas.

“Achei que só a Mitternacht tivesse essas coisas!” disse a Marechal com espanto, procurando uma posição que não a deixasse muito exposta para atirar. “O que eu faço com isso? É difícil de mirar!”

“Só gira a manivela e atira no que der, tem muita bala aí dentro!” respondeu a inventora tentando manter o tatu mais ou menos estável no tiroteio. “Eu me inspirei nas metralhadoras giratórias da Mitternacht, mas eu mesma projetei essa daí! Primeiro eu usei uma liga de metal mais leve…”

“Desculpe, mas não dá para te ouvir agora!” Vianne berrou entre dentes cerrados, metralhando os autômatos, cavalos, rochas, cactos e tudo mais que estava à sua frente, com exceção do céu que deixava escapar os últimos raios de sol enquanto era iluminado pelo clarão efêmero das explosões.

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CAPÍTULO VI.

PARA A COSTA OESTE EM UMA CARROÇA COBERTA

Vianne já não conseguia lembrar a quantos dias estava viajando sozinha pela imensidão selvagem que se escondia além do Deserto de Cobre. A carroça que tinha montado com ajuda da senhorita Thunderfox havia se tornado seu novo lar, especialmente depois de todos os remendos e aprimoramentos feitos durante a travessia das infindáveis planícies, montanhas e rios. O motor à vapor improvisado que a inventora havia lhe deixado como um presente de despedida havia funcionado por apenas algumas semanas, especialmente depois que o inverno chegou e ficou a cada dia mais difícil arrumar lenha seca para a caldeira. O calor seco do Deserto de Cobre havia dado lugar a um frio sepulcral, que cobria tudo ao redor em um silêncio branco, quebrado apenas por nevascas fantasmagóricas, que ameaçavam soterrar a carroça com um manto gelado. Foi apenas a engenhosidade de Rivenwood que a manteve viva, e antes que seu corpo se entregasse ao torpor e a febre ela conseguiu construir uma vela usando os canos de cobre da estrutura do motor e um de seus lençóis, conectando tudo ao timão de controle da carroça.

Na nevasca seguinte, Vianne deixou que a ventania conduzisse a carroça através das campinas cobertas de neve e dos lagos congelados, mantendo uma caneca de chá quente ao lado para se manter acordada enquanto tentava enxergar na escuridão com a luz fraca das lanternas cobertas ofuscando seus óculos de couro. A luz de fogueiras a atraiu até uma pequena aldeia do Povo do Céu, onde conseguiu trocar uma pistola Kingsley e algumas munições por peles novas para se proteger do frio, além de informações sobre o melhor caminho a seguir. Por alguns dias ela permaneceu entre os nativos, descansando da febre e os ajudando a caçar com pólvora, ou compartilhando de sua comida enlatada quando as tempestades não os deixavam ir muito longe. Com a ajuda da medicina do xamã da aldeia, ela logo estava com o vigor renovado e pronta para partir, antes que ficasse presa nas planícies outra vez.

Quando finalmente alcançou as florestas ao pé da cordilheira de montanhas azuladas, ela se sentiu como se estivesse diante de um mundo novo. Nem mesmo o Povo do Céu se aventurava além das margens sombrias daquela vegetação, e os imensos e velhos pinheiros lhe lembravam dos bosques de fadas de sua terra natal, selvagens e cheios de magia antiga. Estava de volta à sua juventude agora, as pequenas fugas para os arvoredos da propriedade de sua família, que sempre terminavam com um vestido rasgado e um longo sermão sobre comportamentos inapropriados para uma dama. “Mas dessa vez ninguém vai me impedir de ir aonde eu quero” falou para si mesma satisfeita.

Consertar o motor para seguir em frente estava longe de ser a melhor das ideias. Mesmo que ainda fosse possível, seria arriscado demais seguir pelo terreno acidentado e desconhecido das montanhas. Mas as orientações do Povo do Céu já haviam lhe dado uma ideia do que fazer. Ela havia parado perto de um largo rio que vinha do norte e serpenteava entre a cordilheira. Com o fim do inverno, uma corredeira estava se formando, e provavelmente ficaria mais forte com os outros cursos d’água que se juntariam a ele descendo das montanhas. Vianne se desfez da caldeira do motor e manteve apenas o necessário na carroça, a deixando leve o suficiente para ser puxada até a margem e calafetada para flutuar nas águas como uma balsa.

A viagem pelo rio começou mais tranquila do que o esperado. A beleza da paisagem animava a Marechal a seguir em frente, entre as sombras das grandes árvores que se enfileiravam como sentinelas. Foi entre as raízes de um dos pinheiros que Vianne encontrou seu novo companheiro de viagem. O filhote órfão de lontra-dragão era um bocado temperamental, mas não parava de segui-la desde que ela havia oferecido uma das estranhas trutas de pelagem branca que tinha conseguido pescar no rio. Em um fim de tarde, a Marechal descobriu a criatura dormindo entre as roupas de seu varal que tinha acabado de derrubar, e resolveu treiná-lo como a um cão de guarda, tendo um sucesso razoável. Keoonik, como havia batizado a lontra, crescia rapidamente e passava longas horas nadando ao lado da carroça, ajudando a afastá-la das criaturas perigosas e furtivas que perdiam a timidez cada vez que a floresta ficava mais fechada, como as feras do rio que erguiam seus longos pescoços da vegetação aquática e os gigantes peludos com grandes pés que espreitavam entre os troncos na margem.

Numa manhã de densa neblina, Vianne despertou com um som estarrecedor, como se o mundo estivesse se abrindo ao meio. Keoonik entrou agitado na parte coberta da carroça, derrubando o gramofone que ainda tocava enquanto a Marechal havia adormecido. “O que foi agora? Outro monstro?” Saindo para ver o que tinha acontecido, ela mal teve tempo de tentar virar antes da carroça se chocar contra uma grande pedra. As corredeiras tinham ficado mais fortes durante a noite com a chuva que havia caído sobre as montanhas, e a carroça havia se soltado de suas amarras. Vianne caiu na água turva e se debateu com os cabelos soltos atrapalhando sua visão, se chocando contra o casco de um arquelônio que nadava pela correnteza. Se agarrando na grande tartaruga, ela conseguiu se estabilizar e tomar impulso para a margem, onde Keoonik corria de um lado para o outro assustado.

Encharcada, suja de lama e com seu uniforme arruinado, Vianne não pôde deixar de rir da situação ao pensar no que sua família diria. “Vamos lá Keoonik, isso aqui não é brincadeira. Vamos ver onde essa carroça foi parar”. Procurando por toda a manhã entre as pedras do rio, a Marechal conseguiu recuperar a maleta com o rifle, algumas das peles do Povo do Céu e a sua bolsa de pertences pessoais. Com os restos de madeira da carroça ela acabou fazendo uma fogueira para poder se aquecer, secar as vestes e assar os mexilhões que havia conseguido pegar com a ajuda da lontra-dragão. Com o ânimo renovado, Vianne decidiu subir até o topo de um dos montes mais próximos, para poder ver o melhor caminho que poderia seguir dali.

A longa e exaustiva escalada levou o resto do dia, mas a beleza da vista que surgia com a névoa sumindo e a companhia de Keoonik eram suficientes para que ela continuasse. Uma trilha tosca acompanhava o declive rochoso, sinalizada por totens rústicos que pareciam bem diferentes daqueles feitos pelo Povo do Céu. As cabeças de pássaro daqueles totens, com longos bicos e grandes olhos enigmáticos, a intrigavam sobre que tipo de comunidade vivia naqueles vales distantes, mas o pensamento fugiu quando Vianne finalmente alcançou o topo do monte. Além das montanhas, florestas e lagos que se estendiam tingidos pelo laranja do entardecer, o grande oceano se estendia iluminado pelo sol que lentamente mergulhava no horizonte. Aquele era o fim da jornada, o outro lado do continente de Asabikesh que nenhum windlês havia visitado antes. Pegando sua faca da cintura, Vianne Rivenwood escreveu seu nome no tronco da maior árvore que crescia naquele monte, um lugar que futuramente se tornaria um ponto de referência a todas as caravanas vindas do leste em busca de uma vida melhor nos férteis vales do Oeste.

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Expedição Rivenwood – Parte 1 sexta-feira, jun 12 2015 

BIBLIOTECA DE PEÇAS DE COBRE DE PORT SMOKE

Vianne Rivenwood em Asabikesh

ou,

RUMO AO SOL POENTE

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Pelo Autor de “Vianne Rivenwood e o Grande Íbis de Safira”

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CAPÍTULO I.

 EM UM NAVIO PARA O CONTINENTE.

“Como vamos manter o curso no meio dessa tempestade, Capitão?”

A chuva incessante escorria pelas janelas da cabine do Liberty, tornando difícil enxergar qualquer coisa além da proa castigada pelas águas escuras que a cobriam cada vez que uma das imensas ondas a atingia, fazendo o navio balançar com um rangido assustador. Era o quarto dia desde que a Marechal Vianne Rivenwood havia deixado a cidade  flutuante de Port Smoke para explorar as terras de Roonock no Novo Mundo, onde os colonos enviados por Windlan estavam descobrindo ouro, adamante e outras riquezas. O objetivo da expedição era chegar até o Deserto de Cobre, no Oeste do continente, e confirmar os relatos sobre as minas locais, mas Vianne tinha também seus próprios objetivos. Ela planejava ir ainda mais longe, e ser a primeira a descobrir o que existia além do Deserto, atravessando o continente até encontrar a distante costa oeste. Mas para isso, precisaria primeiro colocar os pés em terra firme, o que a súbita tormenta parecia disposta a impedir.

“Não se preocupe, dona Marechal. Esse clima pode parecer intimidador mas é comum por aqui. Lembra que ‘cê tá a bordo de um dos navios mais robustos dos Arautos do Vapor. Mesmo com as velas recolhidas, vamos manter uma boa velocidade com a força das caldeiras impulsionando as rodas de pá. As chaminés tão cuspindo fumaça como um dragão, vai ser preciso mais do que esse aguaceiro pra nos tirar do nosso rumo.”

Enquanto o Capitão Bullhorn continuava pilotando inabalável através da tormenta, Vianne analisou outra vez os mapas sobre a mesa na cabine, notando que o Liberty passava ao norte de um pequeno conjunto de ilhas rochosas próximas da Costa de Brimmouth, onde pretendiam desembarcar. Afastando o vidro de uma das janelas circulares, ela vasculhou o horizonte com sua luneta, tentando encontrá-las no meio da chuva que açoitava o navio.

“Dá pra ver umas luzes azuis naquelas ilhas. O que elas são?”

“Isso aí ninguém sabe ao certo” respondeu Bullhorn tirando o cachimbo da boca enquanto mantinha a outra firme no timão. “Mas já foram a ruína de muitos marinheiros. Aquelas ilhas são problema. Mesmo com o nosso casco reforçado com placas de aço a gente ia brincar muito com a sorte se a tempestade nos arrastasse até lá. Como se as rochas afiadas e traiçoeiras não fossem o bastante, o lugar ‘inda é infestado de demônios marinhos. Os índios dizem que são esses demônios que provocam esse tempo, quando cultuam seus velhos deuses. Eu prefiro não ter que ir ‘té lá descobrir.”

Vianne apertou os lábios e permaneceu observando o brilho fantasmagórico, sinalizando a silhueta das ilhas que se erguiam como garras contra o céu cinzento. Aquela era uma aventura que teria de ficar para outra ocasião. Subitamente, a embarcação gemeu em um rangido mais forte, e começou a se inclinar vigorosamente para cima enquanto o mar à frente ia se contorcendo em uma muralha de água.

“Aí vem uma das grandalhonas. É melhor se segurar bem, viu Marechal!” alertou o Capitão puxando a corda do alarme, fazendo o apito soar várias vezes antes de se lançar contra a onda, como se estivesse desafiando aqueles que tentavam impedir o Liberty de chegar ao Novo Mundo.

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CAPÍTULO II.

 PELOS CAMPOS COM UM GIGANTE A VAPOR.

Vianne já estava agora há dois dias viajando pela estrada de terra que deixava o vilarejo de Hallow Port e seguia até o povoado mais distante de Owlight Hill, e tudo o que enxergava ao seu redor eram os campos cultivados pelos colonos se estendendo até as florestas e charcos mais distantes. Tudo estava tingido pela luz azulada do crepúsculo, com exceção dos pequenos pontos incandescentes que indicavam as casas dos fazendeiros e algumas fogueiras de acampamento. Um espantalho solitário estendia os braços sobre uma plantação de mirtilos, sua face de abóbora tão inexpressiva quanto a do gigante de ferro que puxava a carruagem blindada, soltando vapor pelo escapamento em suas costas. Aquelas máquinas humanoides conseguiam cruzar longas distâncias pelo terreno acidentado sem dificuldade, apenas tendo que parar por algumas horas a cada dia para repor o combustível da caldeira e resfriar os motores. Todo trabalho era realizado com diligência por Ghix, um engenhoso goblin que era um pioneiro em construir e direcionar aquelas máquinas entre os dois assentamentos colonos.

“A maior parte das peças dá pra conseguir nos ferro-velhos da costa, tem um monte de coisa da antiga baleia de ferro que não se perdeu quando ela afundou e fizeram uma nova pra colônia. Claro que não é fácil conseguir gente pra trabalhar lá , as pessoas tem medo das assombrações e tudo mais, mas qual é o lugar por aqui que não é mau assombrado, não é?”

Mais tarde, enquanto ouvia os soldados conversarem em uma das pausas para a manutenção do gigante na beira da estrada, ela não podia deixar de concordar com as palavras de Ghix. Cada um dos homens parecia ter sua própria história sobre cavaleiros fantasmagóricos, seres do espaço e damas do pântano que compartilhavam aquelas terras com os colonos. Alguns militares de patente mais alta tinham adquirido propriedades nas colônias e pareciam desconfiar de seus próprios empregados, que faziam rituais considerados pagãos em Windlan a cada colheita. “Parem com essa tolice.” ela disse visivelmente incomodada quando se cansou de ignorar a conversa. “É sobretudo graças a essas pessoas que a colônia está prosperando. Se as bruxas que o Império enviou para cá não fossem tão boas em lidar com a terra, Roonock não estaria enviando tantas mercadorias para a Capital”. Ela sabia que suas palavras eram ousadas, e que o receio de Windlan com as antigas religiões era justamente o motivo de seus praticantes serem enviados para tão longe do Velho Continente. Mas além de não aprovar a maneira como aquelas mulheres eram vistas, era irresistível a sua curiosidade pelo mundo de espíritos e fadas que elas traziam consigo, deixando aquela paisagem campestre tão cheia de mistérios.

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CAPÍTULO III.

 ATRAVESSANDO AS MONTANHAS EM UM TREM.

“O que vai querer, senhorita?” disse a moça albina cruzando o vagão com um carrinho de frutas, doces e bebidas. Vianne desviou os olhos por um momento do mapa que estudava, mostrando os caminhos que poderia tomar das Montanhas Silverfox após chegar na parada final do trem, que avançava rápido e fazia Owlight Hill aos poucos desaparecer como um brilho esverdeado na distância. “Estou bem, obrigada” respondeu a marechal espiando a funcionária com rabo dos olhos enquanto ela ia embora. Desde que havia embarcado, um frio na espinha a estava deixando intranquila naquele expresso noturno, e o luxuoso vagão de primeira classe onde estava acomodada separada de sua tropa não ajudava. O barulho incessante das rodas sobre os trilhos e a sensação de movimento eram as únicas coisas que conseguiam mantê-la focada em seus preparativos de viagem, pois a decoração refinada ao seu redor fazia com que se sentisse presa em alguma velha memória de sua infância entre a aristocracia de Windlan.

Quando as horas no relógio de bolso sobre a mesa já começavam a se arrastar e o sono não vinha, ela tentou se distrair olhando para a escuridão além da janela. Estavam passando por um arvoredo na encosta agora, e ela conseguia ver a sombra das folhagens balançando sob o luar gélido do outono. Foi quando outro movimento lhe chamou a atenção e ela notou as figuras que perseguiam o trem, correndo de quatro com um brilho bestial em seus olhos lupinos. Haviam dezenas deles se aproximando, e as pancadas barulhentas no teto logo mostraram que não estavam apenas apostando corrida com o veículo. Rapidamente, Vianne abriu sua maleta e começou a montar as peças do rifle em seu interior. Mas antes que terminasse, a locomotiva assoviou com um uivo medonho enquanto o trem acelerou de súbito, fazendo com que os pedaços da arma se espalhassem pelo vagão. O revés não lhe causou mais que um suspiro de frustração, e se apoiando na mesa ela carregou a pistola de cano longo que trazia no coldre, seguindo na direção da caldeira.

Com o veículo acelerando cada vez mais, ela empurrou a porta do vagão e se deparou com um dos lobisomens rosnando para ela, se arrastando com dificuldade sobre o teto do trem com as garras. Com um tiro certeiro, a criatura foi derrubada e sumiu no mar de folhagens que cercava o trem. Avançando com cuidado até a porta da locomotiva, Vianne a abriu e enxergou o maquinista parado tranquilamente diante dos controles, puxando uma alavanca para desacelerar o expresso quando este entrou por um túnel, se livrando das últimas feras que ainda conseguiam se segurar.

“Espero que esteja apreciando a viagem, senhorita Rivenwood.” disse o maquinista se virando para ela, o lampião na cabine iluminando a alta cartola e os óculos de couro com lentes vermelhas. Quando percebeu os caninos afiados em seu sorriso zombeteiro, Vianne entendeu o porque daquele trem lhe trazer a sensação de uma sepultura de ferro sobre rodas.

“Vou precisar me lembrar de nunca mais pegar o expresso das onze.” respondeu a marechal aborrecida antes de bater a porta, se preparando para uma longa noite sem dormir.

Expedição Bloodbark sábado, set 28 2013 

BREVE RELATO VERÍDICO DOS MODOS E COSTUMES DOS POVOS DE ARARAUMA, com quem convivi durante minhas expedições pela selva.  Eles vivem no Novo Mundo a oeste do mar, na extensão de terra que percorre da foz dos Dezesseis Rios ao norte até os arredores da antiga Blackport ao sul, hoje tomada pelos aurineses.

Eu, James Cavendish Bloodbark, deixei Ravenest em 9 de Ostara de 1695 com a tarefa de fazer um reconhecimento das terras do Novo Mundo em favor e honra de Sua Majestade. Partimos em uma esquadra que pretendia se abastecer de frutas e especiarias nos territórios ainda não controlados por Aurin. Quando desembarcamos no Forte-Colônia  de Anchor’s Point, que era nosso destino, deixei a companhia de meus semelhantes e adentrei a mata para começar minha expedição. Nos três anos que se seguiram, entrei em contato com diversas tribos dessa terra febril, com quem fiz negócio e testemunhei estranhos hábitos.

Sobre os Ayapoan

Os Ayapoan são o povo mais numeroso do litoral de Ararauma. Eles são guerreiros fortes e astutos, que vivem em conflito entre si ou com tribos menores. Quando capturam um inimigo, o comem após um ritual de preparo que dura vários dias. Apesar de seus costumes canibais, os Ayapoans são amistosos com estrangeiros, desde que estejam dispostos a fazer negócio. Muitas tribos são aliadas da Coroa, e inclusive aceitam prisioneiros aurineses como pagamento por seus serviços. Além de mercenários eficientes, os Ayapoan nos fornecem madeiras e especiarias que cultivam em seus territórios. Na guerra, utilizam tacapes enfeitiçados e flechas de fogo. Seus pajés também lhes ensinaram a queimar arbustos de pimenta, usando a fumaça ardida como arma para afugentar e dispersar seus inimigos. Este e outros truques são atribuídos aos Curupiras, de quem muitos Ayapoan alegam serem descendentes. Por essa ligação, valorizam caninos pronunciados e gostam de pintar o corpo com cores vivas, especialmente vermelho. Também adotam como animais sagrados o queixada e o tigre dentes-de-sabre, e possuir uma presa desses animais é considerado grande honra. Curiosamente, os Ayapoan possuem um pavor absurdo de cães, evitando contato sempre que possível e se enchendo de superstições ao cruzarem com um simples rabujo nas terras colonizadas.

Sobre os Aroui

Os Aroui vivem mais distantes do litoral, e acredito que suas terras se estendam a oeste pelos Dezesseis Rios. Dentre todas as tribos, são as que mais parecem ter se aproximado de algum tipo de civilização. Suas aldeias são organizadas e a liderança política e espiritual cai sobre um único indivíduo, que pode ser um homem ou uma mulher. Apesar de fabricar lanças elaboradas e arcos de cinco pés, os Aroui são um povo pacífico, que se dedica a comungar com a natureza e ensinar aos mais jovens suas tradições. Durante o tempo em que estive com eles muito aprendi sobre as plantas e animais da selva. Além de grandes curandeiros, são também talentosos nos trabalhos com argila e tecido. Muito religiosos, veneram a Mãe d’Água e outros espíritos locais. Muitas das lendas de Ararauma fazem parte de sua cultura, manifestadas na forma de objetos e padrões mágicos. Como vivem nas margens dos rios e lagos, são também muito próximos dos botos e das sereias de rio. As moças Aroui gostam de imitar essas últimas, passando grande parte do tempo livre na beira da água, trançando os cabelos. Por algum tempo me questionei como um povo tão pacato e altruísta conseguiu prosperar entre canibais selvagens, até que descobri a resposta. As toxinas que extraem das rãs nos lagos turvos de seu território são mortais na dose certa, a ponto de até os Ayapoans temerem suas flechas envenenadas. Os Aroui costumam dizer que contra sapos não há argumentos.

 Sobre os Orube

Os Orube vivem mais ao sul, nas terras próximas de Porto Negro. São indígenas importunos e barulhentos, que riem mesmo quando estão em guerra. Muitos são amigos dos aurineses, com quem negociam redes de dormir, madeiras, aves tropicais e até mesmo mulheres. Usam em guerra a borduna, arma que combina um porrete com uma espada rudimentar. Apesar de terem muito contato com os colonos, possuem um péssimo comportamento e não gostam de seguir ordens. Lembro-me que trouxeram muito prejuízo para a Coroa durante o período em que Windlan dominava suas terras, por sempre arrumarem uma maneira de fugir do serviço ou pregar peças em seus patrões. Além de trapaceiros e preguiçosos, são também esquivos, desaparecendo com agilidade na mata quando bem entendem. Parte dessa habilidade é desenvolvida na infância, quando passam muito tempo trepando nos galhos na companhia de macacos e preguiças, que muitos mantém como animais de estimação. Algumas tribos mais isoladas que visitei constroem suas cabanas no topo de árvores elevadas, sem qualquer preocupação com o perigo de uma queda. Lá no alto, convivem com Monais, Mapinguaris e aves gigantes. Os Orube fumam e bebem em demasia, e usam apenas o mínimo de vestimenta necessário, geralmente feita com penas. Não é de se espantar que sejam a tribo que mais se miscigene com os libertinos aurineses.

Sobre os Apepuera

Os Apepuera estão espalhados por todo o litoral, erguendo suas aldeias de palha de palmeira em praias inacessíveis e mangues fechados. São um povo desconfiado e arisco que evita contato com os colonos e outras tribos, quiçá por serem muito vulneráveis a doenças. Apenas com muita dificuldade foi que encontrei algumas de suas modestas habitações. Apesar de viverem escondidos, são amistosos com náufragos e exploradores que não tragam nenhuma moléstia visível. Passam a maior parte do tempo no mar e nos estuários retirando caranguejos e ostras, seus principais alimentos. Os Apepuera são exímios nadadores, e alguns parecem desaparecer nas águas ao perceberem uma presença indesejada. Seus arpões e flechas são feitos com ossos de mamíferos marinhos e dentes de tubarão. Eles retiram esses materiais apenas de animais que encalham nas águas rasas, demonstrando certo respeito pelas criaturas do oceano. Parte disso vem de sua afinidade com sereias, botos de água salgada e algumas tribos da Corte Escamada, que lhes ajudam a expulsar ocasionais cardumes de Ipupiaras ou Diabos do Mar. Os Apepuera se ornam com conchas, sementes e adereços de palha. Suas tatuagens feitas com espinha de peixe exibem padrões de cascos de tartaruga, animal com quem parecem ter estreita ligação. Um fato curioso de seus costumes é que suas mulheres nunca falam, se comunicando apenas por gestos. Isso parece ter algo a ver com suas práticas mágicas, que estão ligadas a um aspecto salobro da Mãe d’Água.

Sobre os Boiuna

Ninguém sabe ao certo quantas aldeias dos Boiuna existem nos recantos escuros da mata. Esses selvagens agourentos são um povo de canibais e feiticeiros, que assombra os outros nativos com suas práticas profanas. Pelas mãos deles perdi Pinon, meu servo Ayapoan, e passei seis meses fugindo pela selva com uma das tribos em meu rastro. Apesar desse incidente, continuei a tentar observá-los com mais cautela, e descobri mais do que banquetes antropófagos e pajelanças sombrias. Os Boiuna são extremamente hostis e atacam qualquer um que adentre suas terras, seja nativo, windlês ou aurinês. Capturam seus prisioneiros sempre durante a noite, usando redes de cipós ou bloqueando trilhas com touceiras de espinhos. Também usam zarabatanas e flechas de urtiga. Seus pajés auxiliam na caçada, usando suas bruxarias para confundir e atrasar os fugitivos. Os Boiuna são devotos de Anhangá, uma entidade da morte, e atribuem a ele os poderes mágicos de seus guias espirituais, a quem chamam Maauia. Como tal, são adeptos de uma necromancia primitiva, que parece ser a fonte de muitas das histórias de assombração contadas por indígenas e colonos antigos. Jaguarás, Cumacangas, Fogos-Fátuos, estão todos relacionados de alguma forma com as artes negras desse povo. Os próprios sentinelas de suas fronteiras se parecem com espíritos de mau presságio, usando máscaras de barro assimétricas e mantos de palha que cobrem o corpo inteiro. Morcegos e grandes serpentes sempre os acompanham, assim como corujas e pássaros de canto triste. Alguns dos poucos a escaparem dos territórios Boiuna me contaram histórias surpreendentes sobre como as aldeias negociam entre si usando olhos, dentes e dedos de seus cativos, e sobre como alguns deles são mantidos vivos enquanto devorados, até se tornarem crânios falantes que são guardados em jarros com mandioca fermentada.

Sobre a Corte Escamada

Os elfos do mar da Corte Escamada vivem em arquipélagos rochosos e cidades submersas próximas ao norte de Ararauma, na região conhecida como Reino Turquesa. São um povo antigo e recluso, dividido por guerras internas entre suas Três Grandes Ilhas. A maioria vive em aldeias pequenas, comandadas por um cacique, sendo que as funções religiosas são sempre exercidas por mulheres. Apesar de possuírem muitas superstições e costumes primitivos, expressam de maneira única a herança da magia élfica em seus artefatos e rituais. Recentemente, um incidente que testemunhei envolvendo uma sacerdotisa e uma bruxa do mar mostrou que estão dispostos a buscar mais poder, e que possuem interesse visível nas antigas ruínas dos nheengaíba no litoral. É preciso um cuidado particular ao lidar com esse povo traiçoeiro, mesmo que alguns pareçam dispostos a estabelecer relações diplomáticas com os colonos. A figura central do panteão da Corte Escamada, Rudah, é uma entidade cheia de caprichos relacionada ao clima e ao amor, o que obviamente atrai a atenção dos depravados aurineses. Os elfos do mar que vivem entre os colonos inimigos trocam seus simples trajes de algas, escamas, conchas e coral por roupas de tecido, preferindo as mais soltas de cor branca ou verde. É fácil descobrir se um navio avistado possui um deles a bordo, já que são frequentemente seguidos por cardumes de golfinhos, tubarões ou arraias. Dizem que os mais nobres entre eles possuem até mesmo dragões marinhos e krakens como aliados, o que me obriga a dizer mais uma vez que são gente perigosa e indigna de confiança.

Expedição Whiteroad terça-feira, fev 26 2013 

Arquivo de Acesso Restrito

Registro de Artefatos da Coleção Particular de Malachias Phillip Whiteroad

Edifício Sede da Real Sociedade Esmeralda, Avenida Ward 571, Port Jane Guy

Ano 1698 de Sua Majestade

Objeto 0067

Poliedro decagonal de material desconhecido, encontrado na cavidade ocular de um cadáver reanimado, abatido por um policial em um depósito de cerveja nas Docas da Luz Derradeira, 254. Possui superfície negra e lustrosa, semelhante ao ônix. Guarda muita semelhança com gemas de composição parecida usadas em rituais de necromancia, mas possui uma lapidação perfeita e mantém sua vibração energética mesmo após ter se desligado do corpo hospedeiro. Datações alquímicas são confusas, mas apontam a origem do artefato em mil anos ou mais.

“Aquele porão era imundo e estava impregnado com o cheiro de decomposição. Baratas de todos os tamanhos imagináveis caminhavam sobre o reboco solto, se escancarando em um sorriso grotesco de madeira podre. Eu ouvi a coisa rastejando antes mesmo de enxergá-la na luz amarelada das lanternas a óleo. Era como estar sozinho em um túmulo trancado, cada passo arrastado me dando a certeza de estar diante de algo morto e proibido. Quando a empregada surgiu na escadaria, o uniforme negro era o único vestígio de identidade que havia restado. O resto estava desfigurado de uma forma tão indescritível que aquela estátua hedionda sobre o altar parecia se deleitar com meu horror, esboçando um olhar zombeteiro em sua face coberta de tentáculos”

Objeto 0068

Grimório do necromante Mordecai Lamb, composto por um caderno com anotações, desenhos e recortes de antigos tomos colados com cera. Não possui qualquer organização ou divisão de assunto, tornando evidente a instabilidade mental de seu antigo dono. O conteúdo é formado principalmente por fórmulas mágicas e escritos religiosos. Muito do material é desconexo ou desprovido de sentido, mas alguns diagramas e inscrições são dignos de curiosidade. Referências ao Culto de Cthulhu são constantes, sugerindo uma obsessão pouco saudável por esta pseudo-religião de selvagens e dementes.

“Todas as noites ele fala comigo nos sonhos. Sua voz é profunda e melodiosa, vinda de algum lugar muito distante, além das estrelas que conhecemos. No início quase se pode flutuar em seu som, se deixando levar como em uma tragada do ópio mais refinado. Ele fala coisas bonitas e terríveis, profecias gravadas no cerne do universo quando a escuridão adormeceu, deixando que existências mais frágeis surgissem como chamas de velas na imensidão do cosmo. Ele fala de quando os pesadelos irão despertar e caminhar na luz do dia, quando então não haverá mais dia e nem luz. Você consegue imaginar a sinfonia de um mundo engolido por seus delírios mais perversos?”

Objeto 0071

Símbolo de proteção desenhado sobre um pedaço de madeira arrancada de mobília no asilo da Vigília dos Sonhos, em Chakana. Era usado por um dos internos da instituição, pendurado em seu pescoço com cadarços retirados de roupas. Não pertence a nenhuma tradição arcana conhecida, mas leituras mostram uma forte aura de cor azul celeste, descartando uma mera superstição. Seu proprietário foi encontrado morto em um dos corredores do asilo, com o corpo lacerado por ferimentos profundos, que de maneira peculiar não continham qualquer fluido vital. O colar improvisado lhe havia sido tomado na manhã do mesmo dia, por uma enfermeira desconfortável com sua fixação pelo objeto.

“…eles não vão me pegar dentes e olhos eles não vão me pegar tenho o símbolo antigo eles não vão me pegar através das paredes eles não vão me pegar escondidos nos cantos eles não vão me pegar bocas famintas eles não vão me pegar nas sombras do tempo eles não vão me pegar nos ângulos do espaço eles não vão me pegar corpos invertidos eles não vão me pegar por favor eles não vão me pegar…”

Objeto 0084

Máscara de pele humana utilizada pelo Círculo do Bode Negro, um culto indígena das selvas ao norte de Tekeli. É produzida a partir de cadáveres desenterrados em cemitérios de vilarejos locais. A gordura ainda fresca concede propriedades fosforecentes ao adereço. Não se sabe se possui uma aplicação prática ou se é mero fetiche ritualístico. Todos os membros do Círculo capturados por expedições enviadas à selva, como o xamã que trajava este item, apresentam um grau elevado de desequilíbrio psicológico, se recusando a dizer algo além de ameaças obscenas quando interrogados.

“Erga seus braços negros, senhora da entropia, e venha dançar junto de sua prole a canção fúnebre das estrelas! Nós lhe rogamos os mistérios da carne, lhe oferecendo essas donzelas maculadas para serem violadas nos galhos de sua floresta escura! Inspire-nos com sua infinita blasfêmia e conceda sua dádiva para que seus rebentos profanem o mundo em seus corpos deformados! Y’AI’NG’NGAH YOG-SOTHOTH! Mãe de Mil Filhos, Útero dos Horrores, Deusa das Abomanições! IA SHUB-NIGGURATH!”

Objeto 0103

Artefato crinoide de esteatita esverdeada encontrado nas proximidades de um planalto na Fronteira do Mundo. Seu formato de estrela de cinco pontas é comum em diversos achados arqueológicos na região. As inscrições pontilhadas em sua superfície pertencem ao idioma utilizado pela antiga civilização que habitava a área hoje coberta pela geleira. Os sobreviventes da expedição que recolheu o objeto afirmam terem encontrado evidências de que o planalto era um local de importância para os Seres Antigos. Eles também relatam ter feito contato com um crinoide  uma descoberta extraordinária com relação a uma espécie que se acreditava estar extinta há milhares de anos.

“Estávamos a sessenta e dois passos abaixo da superfície do planalto, que media cento e cinquenta metros a partir do solo. A temperatura do lado de fora era de cinquenta e sete graus negativos, mas não houve tempo para medi-la dentro da caverna. A criatura que avistamos tinha um metro e oitenta centímetros, com um diâmetro de um metro e sessenta e oito. Em menos de cinco segundos nos alcançou, e em vinte segundos havia estrangulado Fritz, nosso fotógrafo, com um tentáculo cartilaginoso e azul de quarenta centímetros. Nosso corajoso capitão Victor a atacou nos três segundos seguintes, e oito segundos depois eu estava preservando minha vida, fugindo pela encosta. Uma carga de três litros de óleo de baleia foi detonada sete segundos depois, soterrando Sir Milo, o capitão e a criatura no interior oco da rocha. Eu teria recomendado uma explosão controlada, mas as circunstâncias dificultavam um procedimento organizado.”

Objeto 107

Estatueta representando um dos Seres Antigos, forjada em metal estelar e possuindo um encaixe na parte inferior, aparentemente para a haste de alguma variedade de cajado. Possui uma leitura de energia pulsante, mas contida, provavelmente necessitando de algum código para ativação. Foi adquirida na loja de antiguidades do senhor Kardal, um distinto dastiano que se instalou a alguns meses em Dolltown . Segundo o mercador, a peça foi adquirida de barqueiros nômades do extremo oriente, o que pode apontar para a presença dos crinoides em outros lugares além de Tekeli.

“Scim, posso te garantir que é legítima, scenhor Whiteroad. Já foi um artefato de grande poder, mas agora só possui valor histórico. E não pensce que é coinscidência encontrá-la aqui, vinda de tão longe. Estou scempre atento a boas oportunidades de negóscio. Scei o que voscês estão procurando debaixo do gelo, e que esce tipo de mercadoria iria lhes interessar. Sce me pagarem bem, trarei outras relíquias interessantes de minha próxima viagem a Leng. Nunca ouviu falar de lá? Não me surpreende, scenhor Whiteroad. É muito distante de onde voscê vem. Bem, aqui está seu rescibo. É scempre um prazer negosciar com sua espéscie.”

Expedição Blackhawk – Parte 2 sábado, mar 17 2012 

23 de Beltane

O Major Atem e sua trupe partiram do forte esta manhã, pouco depois de recebermos outra visita inesperada. Nosso novo hóspede é ninguém menos que o lendário Professor Allhazred, doutor historiador da Biblioteca de Rosetta. Ele parecia muito interessado em algo que Megan descobriu ao sul de Gehenn, um lugar citado nas rimas de um poeta demente dos Nômades Azuis. A conversa imediatamente despertou meu interesse, afinal que descoberta fascinante traria alguém tão renomado a estas paragens áridas? Iremos acompanhá-lo nesta exploração, revelando aos cavalheiros de Windlan quaisquer tesouros secretos que estejam escondidos nas areias de Al-Gober.

24 de Beltane

No início da manhã, enquanto a tropa realizava reparos no forte, uma imensa nuvem de gafanhotos cobriu Gehenn. Estas pragas são uma presença comum aqui no deserto, e tal fato normalmente não chamaria a atenção. No entanto, nenhum dos sentinelas de guarda avistou a origem do enxame. Ao que parece, ele se formou dentro da cidade, engolindo todo o perímetro do Sultanato em poucos minutos. O Professor Allhazred parece preocupado com o ocorrido. O velho passou o dia resmungando de um lado para o outro, perturbando o espírito dos soldados. Enviarei um destacamento para investigar o terreno, assim que os insetos começarem a se dispersar.

25 de Beltane

O destacamento enviado a Gehenn retornou com terríveis notícias. O soldado Ronan, que havia sido designado para acompanhar o Major Atem na função de rastreador, foi encontrado em um túmulo pelos soldados. O corpo decapitado estava enterrado com honras militares, próximo ao portão da cidade. Alguns cadáveres nas cercanias sugerem que o grupo foi recebido com violência, mas não havia sinal do Major ou de seus companheiros. Dentro de Gehenn, a situação era catastrófica. Uma parte do chão parece ter simplesmente implodido, comprometendo a maior parte das estruturas. Não foram encontrados sobreviventes, e a maior parte da população parecia ter sido brutalmente assassinada. Um dos corpos espalhados despertou tanta atenção dos homens que teve de ser trazido até o forte. Trata-se de alguma espécie de híbrido insetóide, algo como um gafanhoto bípede em tamanho humano. A criatura não se parece com nenhum dos humanoides conhecidos em Al-Gober, e deixou o Sr. Allhazred profundamente transtornado. Ibrahim, nosso médico de campo, irá embalsamar o espécime, para que ele possa ser estudado pelos especialistas da Real Sociedade Científica.

29 de Beltane

A situação é grave. Estamos a quatro dias em uma luta incessante contra os selvagens homens-inseto que cercaram Gehenn. Os bastardos são capazes de se mover sob a terra, tornando inúteis as defesas de nosso forte. Alguns são até mesmo dotados de asas, sendo estes os mais rápidos e perigosos. Sete de nossos homens já caíram, e metade dos restantes está seriamente ferida. O Major Oliver foi atingido por um grande pedaço de pedra, e não mais poderá continuar nesta expedição. Subimos nas estruturas para evitar ataques-surpresa, mas enquanto os miseráveis alados dardejam em nossa direção com seus ferrões, os escavadores tentam trazer o que sobrou da muralha abaixo.  Os inimigos já tomaram o armazém e agora ameaçam o quartel, onde estão presos Allhazred e Ibrahim. Se o desespero atingir os soldados a operação irá fracassar. Meu maior objetivo agora é mantê-los firmes e disciplinados, repelindo os grupos de inimigos com rajadas de mosquete, e explodindo barris de pólvora para tirá-los da areia. Na última investida, entrei em combate corporal com um insetóide de dois metros e meio, que deixou uma profunda mordida em meu ombro antes que eu pudesse abatê-lo. Todavia, em nenhum momento penso em desistir desta empreitada. A Coroa conta conosco e continuaremos lutando até o último soldado vivo.

30 de Beltane

Os reforços chegaram bem a tempo. A expedição está salva. Afastamos os insetóides com bombas incendiárias e gases alquímicos. As tropas de apoio trouxeram canhões e morteiros, que foram disparados contra Gehenn. Temos nossos próprios balões de apoio e estendemos a Rota 68 até o forte, onde será construída uma plataforma de embarque improvisada. A Sargento Robin, responsável  pelo novo regimento, foi rápida e firme em suas decisões, mostrando um desempenho exemplar na operação de resgate e retaliação. Entreguei-lhe o merecido posto de Major em substituição a Oliver, que retornará a Ravenest com os demais enfermos. Ao recebermos os novos suprimentos, nos deparamos com um carregamento de cervejas e uísques de Port Smoke, agradável surpresa que elevou consideravelmente a moral das tropas. As bebidas foram um presente de Nicholas Copper, Almirante Chefe dos Arautos do Vapor, que em carta revelou ser um grande entusiasta da expedição, tendo inclusive pretensão de visitá-la no futuro.

06 de Midsummer

O novo forte está inteiramente concluído. Do antigo restou apenas o velho armazém, que terá sua carga transportada aos poucos. Desfrutamos do que há de mais moderno na engenharia de Windlan, incluindo um gerador de campos elétricos que vem se mostrando deveras efetivo contra os enxames de gafanhotos carnívoros que vêm se deslocando para nosso território. Nossas relações com os Nômades Azuis ficam a cada dia mais amistosas, apesar dos problemas causados por bandoleiros remanescentes, que mesmo sem liderança organizada se mostram cada vez mais ousados. Não obstante, recebi duas excelentes notícias nos últimos dias. A primeira é de que o Major Atem está vivo e será recebido pela Rainha em breve, encantada como ela está pelas histórias de bravura do homem. A segunda é que Nicholas está para enviar um soldado muito especial aos meus comandos: um dos autômatos de guerra experimentais desenvolvidos pela Guilda dos Relojoeiros, que terá seu primeiro teste de campo aqui em Al-Gober.

29 de Setembro

A Major Robin partiu em uma importante missão, nos deixando órfãos de sua perspicácia brilhante e de sua graça jovial. Um ataque da Ordem da Meia-Noite ao Porto de Ravenest deixou a Coroa em alerta, colocando sob tensão a Marinha e as Rotas Aéreas. Ela foi designada para guiar um destacamento até a costa norte, onde irá defender a Rota 68 de possíveis ataques, após zepelins inimigos terem sido avistados na região. Neste momento de conflito, é vital assegurar o território da Aridez Sombria contra o domínio de Urwald. A província de Khaldur, a Oeste, ainda se mantém neutra até o momento, mas é necessário mantê-la sob vigilância constante. O Capitão Caliban, comandante da esquadra dos Caveiras Caolhas, será enviado até o Porto de Khaldur para assegurar suporte náutico caso se mostre necessária uma operação militar no local.

11 de Outubro

A primeira missão de Garruz, o autômato de guerra enviado para testes, foi um sucesso. Tutorado por um dos especialistas do Instituto Wolfsbane, Sr. Fenrich Coldsummer, o androide demonstrou grande habilidade e resistência durante uma operação em Gehenn. O objetivo do pequeno grupo enviado até o Sultanato era se apossar de um poço com propriedades aparentemente mágicas, conforme nos foi revelado pelos Nômades Azuis. Encantado ou não, o local forneceu um proveitoso suprimento de água para o forte, agora que não há mais como assegurar o suporte da Rota 68. Como era de se esperar, alguns dos insetóides que enfrentamos meses atrás ainda se encontram no Sultanato. Além disso, um grupo de bandoleiros tentou atacar o destacamento durante o caminho. Não poderemos mais tolerar esse tipo de contratempo enquanto temos preocupações maiores. Estamos a quase um ano sem qualquer avanço significativo nesse banco de areia. Chegou o momento de mostrar a bravura de Windlan a estes bárbaros do deserto. 

23 de Novembro

Uma grande equipe está sendo preparada para conduzir a expedição ao sul de Gehenn, liderada pelo Professor Allhazred e pelo arqueólogo Jonathan Brown, da Real Sociedade Expedicionária. Encontramos um grupo de Nômades Azuis que já esteve no local, e negociamos com eles alguns artefatos encontrados na região. Tratam-se de inúmeros fósseis, a maioria de curiosos animais aquáticos. Havia também um pedaço de âmbar fossilizado, que despertou bastante a atenção do Sr. Brown. O lugar para onde estamos nos dirigindo parece ser o que restou de um grande lago pré-histórico. Dunas móveis, chamadas de barchans pelos nômades, recobrem a maior parte da paisagem, ocupada também por antigas torres naturais de algum material fossilizado. Muito além delas há uma mata inexplorada, mais uma área no mapa que por séculos esteve em branco. Será uma viagem rumo ao desconhecido, a lugares que jamais alcançariam a luz da civilização, não fosse pela coragem de nossos homens.

Expedição Blackhawk – Parte 1 sábado, mar 17 2012 

SOBRE AS DUNAS NEGRAS

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Um relato das extraordinárias aventuras do Coronel Blackhawk em sua expedição aos Áridos Sombrios de Al-Gober, 1698.

Prensado e encadernado pela Linenfield Oficinas de Impressão & Associados, Rua das Tochas 141, Ravenest.

Foi com um profundo sentimento de orgulho que eu, Coronel Leomond Howitzer Blackhawk, recebi a honra de comandar uma Expedição em nome de Sua Majestade na Aridez Sombria, um imenso território desértico localizado em Al-Gober. Esta terra de ninguém se estende ao norte do continente de Arthaban, uma região repleta de mistérios e paisagens inexploradas. Nosso objetivo nesta empreitada é o de assegurar novas rotas de comércio entre Windlan e as nações artabanesas, especialmente Tawosret e as colônias de Iroko. O destino é um lugar hostil, infestado de bandidos da pior espécie e feras perigosas. Não temos qualquer contato com a Coroa além dos corajosos aeróstatas da Rota 68, que asseguram nosso abastecimento de mantimentos e armas, bem como o envio de eventuais reforços. Apesar dos incontáveis perigos que enfrentamos, estou certo de que minhas aptidões e a bravura de meus homens serão suficientes para superar os desafios e assegurar o sucesso desta expedição, conduzindo Windlan a horizontes jamais tocados pelo homem civilizado.

15 de Ostara

Estamos prontos para dar início às nossas operações, após uma viagem tranquila sobrevoando o mar pela Rota 68. Iniciamos a construção de um forte nas imediações de Gehenn, um Sultanato decadente de Al-Dasht. Nossa principal batalha até agora é contra o clima. Durante o dia, um homem descuidado pode ficar tão cozido quanto um sunday roast. Já a noite faz tanto frio quanto em Northgate, e é preciso se agasalhar. Apesar de termos conosco um bom suprimento de engradados de água, a escassez dela no terreno me precaveu a decretar um racionamento, o que gerou protestos de alguns soldados mais molengas. Fiz isso também pela água ser nossa principal mercadoria de interesse nas negociações com os Nômades Azuis, com os quais estabelecemos contato desde a nossa chegada. Apesar de viverem de maneira precária, estes nativos do deserto são generosos, e possuem esplêndidos dons culinários. Na noite passada fui o convidado especial do chefe de uma grande família de pastores, que me preparou um delicioso carneiro, assado dentro da areia em um fogão de barro improvisado. Assegurei-lhe boas relações em gratidão pela hospitalidade recebida, e trocamos comida enlatada por camelos e peles.

22 de Beltane

O cheiro de pólvora do nosso primeiro confronto em Al-Gober ainda paira nas estepes arenosas. Em nossa incursão ao Sultanato de Gehenn, descobrimos que o lugar havia sido abandonado por seu próprio governante, entregue a grupos de saqueadores que dominavam as ruas. Os grupos de Nômades Azuis com quem buscávamos aliança na cidadela estavam submetidos ao chefe dos bandidos, um velho horrendo chamado Hazan. Apesar de termos armas melhores, estávamos em considerável minoria, e aguardávamos a chegada de reforços da Rota 68 para invadir o Sultanato e depor a liderança criminosa. Porém, uma série de curiosos eventos fez com que o estopim do conflito acendesse antes do planejado. 

Uma semana atrás, encontrei em Gehenn o Sr. Atem, Major do Exército de Tawosret. Ele estava acompanhado por uma exótica trupe, da qual fazia parte uma linda historiadora cigana da Biblioteca de Rosetta, de pele morena e profundos olhos escuros. A presença de uma bela dama em meio àquele covil de bandidos aliviou meus ânimos. Descobri que seu nome era Megan Iolair e que ela havia nascido em Windlan, embora houvesse viajado o mundo inteiro junto a seu irmão e sua antiga kumpania. Inteligente e espirituosa, ela era de uma presença cativante. O Major também se mostrou um ilustre cavalheiro, resoluto e honrado como nossos mais bem instruídos guardas reais. Infelizmente, não pudemos desfrutar de muito tempo juntos pois também estavam ocupados em uma importante missão, buscando o paradeiro de uma criança de família influente em Tawosret que havia sido sequestrada.

Forneci-lhe um de meus rastreadores e alguns suprimentos para a longa viagem que tinham pela frente, vendo que dispunham de poucos recursos. O Major me agradeceu humildemente, se preparando para uma longa viagem rumo ao sul desconhecido, onde estava a criança que iriam resgatar. Porém, antes deles partirem, um incidente envolvendo uma corrida de camelos na arena local aumentou nosso atrito com Hazan. Nossas tropas tiveram que deixar Gehenn rapidamente, antes que nos víssemos cercados em território inimigo. Enquanto reforçávamos as defesas de nosso forte ainda em construção, a notícia se espalhava pelo deserto, fazendo com que os bandoleiros de Hazan surgissem de todos os lados. Sem canhões e com pouco mais de trinta homens, contávamos apenas com nossa audácia para enfrentar uma horda de mais de cem bandoleiros. 

Quando o iminente ataque estava prestes a se lançar sobre nós, o Major Atem retornou para pagar sua dívida de honra. Mesmo contando com apenas meia dúzia de companheiros, ele nos ajudou a elaborar uma estratégia, experiente como era em combates no deserto. Enterramos parcialmente barris de pólvora na areia, que meus homens explodiam a distância com disparos, atrasando o inimigo. Quando eles acabaram, o Major se lançou à linha de frente em uma investida montada, que parecia suicida com a quantidade de homens que rapidamente o cercaram. Porém, nem mesmo cem golpes de espada pareciam capazes de derrubar aquele homem que, segundo me foi contado, é capaz de aguentar até mesmo balas de canhão.

Com a distração causada pelo Major, aproveitamos para virar a maré, derrubando fileira após fileira de bandoleiros confusos com rajadas de mosquete. De minha posição, eu direcionava as tropas enquanto alvejava os bandidos mais perigosos, que tentavam se infiltrar para quebrar nossas defesas. Eles continuaram investindo sobre nossas muralhas até que uma delas veio abaixo, mas seus números já estavam reduzidos, e com a poeira ainda levantada colocamos os bandidos para correr com uma única carga de baioneta. O próprio Hazan foi morto por um dos companheiros de Atem, um guerreiro com pele de chacal que eliminou mais de uma dezena de inimigos, usando apenas um arco emprestado e uma grande foice. As areias cinzentas ao redor do forte ficaram vermelhas com o sangue dos cadáveres, e ordenei que pendurassem a cabeça de Hazan na entrada do forte, como um aviso aos outros grupos de bandoleiros da região. 

Enquanto meus homens cuidavam dos feridos e reparavam a muralha, eu comemorava a vitória junto ao Major e sua trupe. A bela Megan Iolair revelou mais um de seus muitos talentos, executando no violino uma melodia que ficará gravada para sempre em meus ouvidos. Suas canções falavam sobre as belezas de sua terra, a Floresta Evergreen, e sobre as muitas batalhas que havia lutado ao lado de seus companheiros, nas planícies de Tawosret onde uivam os chacais. Espero com avidez o dia em que poderei outra vez vislumbrar seus cabelos dourados, suas curvas graciosas e seu olhar misterioso, como o céu de um mundo desconhecido.

Expedição Winterwolf terça-feira, nov 8 2011 

Uma Narrativa dos Acontecimentos nas Ilhas de Jezirat, 1698, com considerações a respeito do naufrágio da fragata Shrapnel e do destino de seus tripulantes.

Em 1698, eu, Elijah Victarion Winterwolf, fui escalado como capitão da fragata Shrapnel, a serviço dos Arautos do Vapor e de Sua Majestade. Minha missão era guiar uma expedição até as Ilhas de Jezirat, realizando uma visita ao Sultão Behrouz na cidade de Aratta. Oficialmente, os motivos da visita eram de natureza comercial, com o propósito de estabelecer novas rotas e acordos com Al-Dasht. Não obstante, também partíamos em busca de um local onde pudesse ser estabelecido um porto regido pela Coroa, em uma das muitas ilhas desabitadas nas águas do Sultanato. Tal objetivo se tornava mais urgente depois que nossos superiores receberam a informação de que navios de Aurin exploravam as águas de Jezirat com o mesmo propósito. Por esse motivo a expedição acabou por ser organizada apressadamente, sem as devidas precauções que teria tomado se pudesse prever o que nos aguardava naquele pavoroso arquipélago.

12 de Setembro

Deixamos o Porto de Ravenest a seis dias. Trago em minha companhia minha filha Angelica e o Imediato Grey, meu sobrinho, além do Contramestre Rusty Cooley, o Comissário Duncan Sharpwind e uma tripulação de cinquenta homens. É um alívio deixar as vielas infestadas de ratazanas na cidade grande e poder respirar o ar puro do oceano mais uma vez. Espero que ele também faça bem a Angelica, que só está nessa viagem por ter recentemente me colocado em uma situação delicada com a Marinha, após ter detonado explosivos em uma fossa de esgoto, próxima a janela do prédio no qual eu estava em importante reunião. Esse incidente quase arruinou a expedição, mas felizmente pude contar com o financiamento de um velho amigo, dono de uma importante fábrica de bebidas da qual sou um dos mais fiéis clientes.

16 de Outubro

Ancoramos em uma pequena ilha ao norte de Jezirat. Quase toda sua extensão é ocupada por um bosque, que nos será de bastante utilidade para realizar os reparos necessários no navio. Entre as rochas da praia, encontramos caranguejos que chegavam a 1,5m de diâmetro. Nosso cozinheiro, John Lobster, logo descobriu que possuíam um sabor bastante aprazível, e passamos uma tarde inteira a caçá-los, usando tiros de pistola para tirá-los da água. Um de nossos homens, um jovem e amistoso corsário chamado Bobby, se mostrou bastante empenhado nessa atividade, e acredito que logo teremos comida o suficiente para reabastecer o navio pelo resto da viagem.

28 de Outubro

Não há no ocidente cidade que se equipare em beleza e sabedoria a Aratta. Hoje pude me encontrar com um dos nossos poucos conterrâneos nessa terra, o historiador cego Gilbert Bluestone, que me contou histórias incríveis sobre a Tribo de Sharyar e os povos que habitavam Jezirat mesmo antes de sua chegada. Porém, ele também me alertou dos perigos mortais que a cidade pode trazer para aqueles que se deixam deslumbrar por sua beleza e hospitalidade. O povo do Sultanato parece seguir um código sutil de conduta, escondendo suas reais intenções atrás de uma generosidade e educação inesperadas entre aqueles que recebem forasteiros. Todavia, tive a sorte de estabelecer um vínculo verdadeiro com alguns dos nativos, especialmente depois de salvar a filha de um pescador que havia se perdido na costa durante uma tempestade. Tal prestígio facilitou minhas audiências com o Sultão Behrouz, nas quais temos negociado nossas mercadorias por preciosos minérios e jóias, incluindo lustrosas pérolas azuis, que ficariam magníficas no pescoço de algumas damas abastadas de Windlan.

03 de Novembro

Um acontecimento terrível deixou toda a tripulação transtornada esta manhã. Nosso Comissário, Sr. Sharpwind,  foi encontrado morto dentro de um bordel no Bazar. Ao contrário de mim, Duncan jamais deu quaisquer ouvidos aos avisos do Dr. Bluestone, e agora está claro que o perigo contra o qual ele nos alertou é real. Não sabemos quem o executou, se foram Hassassin, espiões de Aurin ou algum outro inimigo de nossa nação, mas é evidente que o motivo da morte não foi nenhum outro senão eliminar a presença de Windlan em Aratta. Meus aliados na cidade desconfiam dos escravos elfos que chegam de Bergard, que aparentemente estão recebendo ajuda de Aurin em troca de serviços para o Imperador. Preciso retornar para Ravenest imediatamente, e passar essas informações á Coroa. Partiremos ao amanhecer.

11 de Novembro

Eu falhei. Esta expedição foi um desastre. Estou náufrago em uma ilha no noroeste de Jezirat, depois de ficar á deriva por dois dias, sem saber que destino levou minha filha Angelica e minha tripulação. Poucos dias após deixarmos Aratta, fomos interceptados pelos sanguinários Piratas de Iblis, cães miseráveis que se escondem nas ilhas mais ao sul. Eles nos atacaram em meio a uma tempestade, e mais de um marinheiro relatou ter ouvido cânticos profanos minutos antes de abrirmos fogo. Não sei que tipo de feitiçaria utilizaram, mas o fato é que navegavam tranquilamente pela tormenta enquanto éramos açoitados pelas ondas. Mesmo em desvantagem, lutamos bravamente, até que nossa fragata foi tragada para o fundo do oceano. Penso ter visto uma ilha enquanto lutava no convés, embora horas antes não houvesse qualquer sinal de terra nas proximidades. Mas se ela estava mesmo lá, então talvez alguém tenha conseguido se salvar. Não posso descansar enquanto não encontrá-la.