SOBRE AS DUNAS NEGRAS

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Um relato das extraordinárias aventuras do Coronel Blackhawk em sua expedição aos Áridos Sombrios de Al-Gober, 1698.

Prensado e encadernado pela Linenfield Oficinas de Impressão & Associados, Rua das Tochas 141, Ravenest.

Foi com um profundo sentimento de orgulho que eu, Coronel Leomond Howitzer Blackhawk, recebi a honra de comandar uma Expedição em nome de Sua Majestade na Aridez Sombria, um imenso território desértico localizado em Al-Gober. Esta terra de ninguém se estende ao norte do continente de Arthaban, uma região repleta de mistérios e paisagens inexploradas. Nosso objetivo nesta empreitada é o de assegurar novas rotas de comércio entre Windlan e as nações artabanesas, especialmente Tawosret e as colônias de Iroko. O destino é um lugar hostil, infestado de bandidos da pior espécie e feras perigosas. Não temos qualquer contato com a Coroa além dos corajosos aeróstatas da Rota 68, que asseguram nosso abastecimento de mantimentos e armas, bem como o envio de eventuais reforços. Apesar dos incontáveis perigos que enfrentamos, estou certo de que minhas aptidões e a bravura de meus homens serão suficientes para superar os desafios e assegurar o sucesso desta expedição, conduzindo Windlan a horizontes jamais tocados pelo homem civilizado.

15 de Ostara

Estamos prontos para dar início às nossas operações, após uma viagem tranquila sobrevoando o mar pela Rota 68. Iniciamos a construção de um forte nas imediações de Gehenn, um Sultanato decadente de Al-Dasht. Nossa principal batalha até agora é contra o clima. Durante o dia, um homem descuidado pode ficar tão cozido quanto um sunday roast. Já a noite faz tanto frio quanto em Northgate, e é preciso se agasalhar. Apesar de termos conosco um bom suprimento de engradados de água, a escassez dela no terreno me precaveu a decretar um racionamento, o que gerou protestos de alguns soldados mais molengas. Fiz isso também pela água ser nossa principal mercadoria de interesse nas negociações com os Nômades Azuis, com os quais estabelecemos contato desde a nossa chegada. Apesar de viverem de maneira precária, estes nativos do deserto são generosos, e possuem esplêndidos dons culinários. Na noite passada fui o convidado especial do chefe de uma grande família de pastores, que me preparou um delicioso carneiro, assado dentro da areia em um fogão de barro improvisado. Assegurei-lhe boas relações em gratidão pela hospitalidade recebida, e trocamos comida enlatada por camelos e peles.

22 de Beltane

O cheiro de pólvora do nosso primeiro confronto em Al-Gober ainda paira nas estepes arenosas. Em nossa incursão ao Sultanato de Gehenn, descobrimos que o lugar havia sido abandonado por seu próprio governante, entregue a grupos de saqueadores que dominavam as ruas. Os grupos de Nômades Azuis com quem buscávamos aliança na cidadela estavam submetidos ao chefe dos bandidos, um velho horrendo chamado Hazan. Apesar de termos armas melhores, estávamos em considerável minoria, e aguardávamos a chegada de reforços da Rota 68 para invadir o Sultanato e depor a liderança criminosa. Porém, uma série de curiosos eventos fez com que o estopim do conflito acendesse antes do planejado. 

Uma semana atrás, encontrei em Gehenn o Sr. Atem, Major do Exército de Tawosret. Ele estava acompanhado por uma exótica trupe, da qual fazia parte uma linda historiadora cigana da Biblioteca de Rosetta, de pele morena e profundos olhos escuros. A presença de uma bela dama em meio àquele covil de bandidos aliviou meus ânimos. Descobri que seu nome era Megan Iolair e que ela havia nascido em Windlan, embora houvesse viajado o mundo inteiro junto a seu irmão e sua antiga kumpania. Inteligente e espirituosa, ela era de uma presença cativante. O Major também se mostrou um ilustre cavalheiro, resoluto e honrado como nossos mais bem instruídos guardas reais. Infelizmente, não pudemos desfrutar de muito tempo juntos pois também estavam ocupados em uma importante missão, buscando o paradeiro de uma criança de família influente em Tawosret que havia sido sequestrada.

Forneci-lhe um de meus rastreadores e alguns suprimentos para a longa viagem que tinham pela frente, vendo que dispunham de poucos recursos. O Major me agradeceu humildemente, se preparando para uma longa viagem rumo ao sul desconhecido, onde estava a criança que iriam resgatar. Porém, antes deles partirem, um incidente envolvendo uma corrida de camelos na arena local aumentou nosso atrito com Hazan. Nossas tropas tiveram que deixar Gehenn rapidamente, antes que nos víssemos cercados em território inimigo. Enquanto reforçávamos as defesas de nosso forte ainda em construção, a notícia se espalhava pelo deserto, fazendo com que os bandoleiros de Hazan surgissem de todos os lados. Sem canhões e com pouco mais de trinta homens, contávamos apenas com nossa audácia para enfrentar uma horda de mais de cem bandoleiros. 

Quando o iminente ataque estava prestes a se lançar sobre nós, o Major Atem retornou para pagar sua dívida de honra. Mesmo contando com apenas meia dúzia de companheiros, ele nos ajudou a elaborar uma estratégia, experiente como era em combates no deserto. Enterramos parcialmente barris de pólvora na areia, que meus homens explodiam a distância com disparos, atrasando o inimigo. Quando eles acabaram, o Major se lançou à linha de frente em uma investida montada, que parecia suicida com a quantidade de homens que rapidamente o cercaram. Porém, nem mesmo cem golpes de espada pareciam capazes de derrubar aquele homem que, segundo me foi contado, é capaz de aguentar até mesmo balas de canhão.

Com a distração causada pelo Major, aproveitamos para virar a maré, derrubando fileira após fileira de bandoleiros confusos com rajadas de mosquete. De minha posição, eu direcionava as tropas enquanto alvejava os bandidos mais perigosos, que tentavam se infiltrar para quebrar nossas defesas. Eles continuaram investindo sobre nossas muralhas até que uma delas veio abaixo, mas seus números já estavam reduzidos, e com a poeira ainda levantada colocamos os bandidos para correr com uma única carga de baioneta. O próprio Hazan foi morto por um dos companheiros de Atem, um guerreiro com pele de chacal que eliminou mais de uma dezena de inimigos, usando apenas um arco emprestado e uma grande foice. As areias cinzentas ao redor do forte ficaram vermelhas com o sangue dos cadáveres, e ordenei que pendurassem a cabeça de Hazan na entrada do forte, como um aviso aos outros grupos de bandoleiros da região. 

Enquanto meus homens cuidavam dos feridos e reparavam a muralha, eu comemorava a vitória junto ao Major e sua trupe. A bela Megan Iolair revelou mais um de seus muitos talentos, executando no violino uma melodia que ficará gravada para sempre em meus ouvidos. Suas canções falavam sobre as belezas de sua terra, a Floresta Evergreen, e sobre as muitas batalhas que havia lutado ao lado de seus companheiros, nas planícies de Tawosret onde uivam os chacais. Espero com avidez o dia em que poderei outra vez vislumbrar seus cabelos dourados, suas curvas graciosas e seu olhar misterioso, como o céu de um mundo desconhecido.

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