Tekeli quinta-feira, jul 19 2012 

Tekeli, atual colônia de Windlan, é uma região situada no sudoeste de Andina. O difícil acesso e o clima inóspito já seriam motivos suficientes para que a região não despertasse interesse no Povo do Sol, mas o lugar aparentemente possui ameaças ainda piores.

A Costa dos Albatrozes é o centro da ocupação windlesa na região, abrigando a cidade de Port Jane Guy. Ela também é o lar de pequenos grupos indígenas relacionados aos que vivem em outras regiões de Andina.

Já as Ilha de Tsalal, por sua vez, é habitada por nativos de uma etnia desconhecida. Distante da costa e ainda pouco explorada, ela apresentam diversas particularidades não encontradas em nenhum outro lugar do mundo.

A Fronteira do Mundo é o lugar mais ao sul de toda Keleb. Atrás de sua inexpugnável muralha de gelo existem lugares ainda desconhecidos pelo homem, desafiando exploradores de Windlan e outros países.

Costa dos Albatrozes

O litoral sul de Andina é um lugar de praias cinzentas e grandes paredões de pedra, banhados por um mar agitado. Bandos de albatrozes, pinguins e outras aves marinhas fazem seus ninhos na área, gerando uma algazarra que se eleva entre o rugido de uma onda e outra. Recifes pontiagudos e uma constante neblina tornam o lugar perigoso para a navegação, e mesmo os capitães mais experientes admitem que o percurso é um notável desafio. A Marinha dos Dragões de Rubi defende com coragem a Costa, tendo sua base na colônia de Port Jane Guy. O principal interesse de Windlan na região é sua localização estratégica nos Mares do Sul, oferecendo rotas para Ashurya e servindo como ponto de apoio para ataques contra os navios de Aurin que partem de Araruma.

Na área continental próxima à Costa se estendem grandes planaltos e pampas. Das paredes pinceladas de limo à beira-mar até as encostas que encontram as Montanhas do Mar de Neblina se encontram inúmeras cavernas, que exibem uma curiosa característica: mesmo em suas entradas mais distantes do oceano, uma brisa marítima respira através da terra, levando os exploradores a acreditar em um complexo de túneis que percorre todo o subterrâneo da Costa. Acredita-se que a Ordem da Meia-Noite esteja utilizando esse labirinto para ocultar seus submarinos, mas expedições enviadas até o local não conseguiram confirmar essa teoria.

Ilha Tsalal

Ainda mais a sudoeste da Costa dos Albatrozes existe uma região onde as águas são estranhamente quentes, mesmo estando em latitudes polares. Nesses mares fervilhantes de vida, habitados por invertebrados pré-históricos, existe uma ilha que parece desafiar ainda mais a lógica da natureza. Tsalal, como é conhecida, é uma grande extensão rochosa de terra isolada dos continentes. Florestas de árvores negras rodeiam montanhas de rocha também escura, dando um aspecto quase monocromático à ilha. As águas fluviais de Tsalal possuem uma bizarra cor púrpura, se dividindo em veios com diversas tonalidades que não se misturam. Ainda mais surreais que a ilha são seus habitantes, homens cuja pele, cabelo e até dentes e olhos são da cor de carvão, e que possuem uma aversão involuntária contra a cor branca, que não existe em nenhum lugar em Tsalal. Esses humanos vivem de maneira rudimentar em cabanas improvisadas, mas parecem dispostos a interagir de maneira pacífica com forasteiros, principalmente se essa interação envolver negócios lucrativos para seu povo. Longe das aldeias, os desfiladeiros das montanhas guardam estruturas e inscrições misteriosas, complexas demais para serem atribuídas aos primitivos indígenas.

A Fronteira do Mundo

Próximo ao Pólo Sul de Keleb se estende uma colossal geleira, de onde se desprendem icebergs do tamanho de ilhas. Esse paredão glacial é apenas a primeira barreira da Fronteira do Mundo, um vasto continente gelado que ainda aguarda para ser desbravado. Açoitada por constantes nevascas na maior parte de seu território, a Fronteira é um lugar inóspito e desolado, abrigando lugares como desfiladeiros capazes de mumificar a carne pela mera ação do vento. Apesar da maioria de suas formas de vida serem mamíferos marinhos e criaturas bizarras que residem abaixo dos mares, a Fronteira do Mundo tem sua principal extensão formada por uma plataforma continental, com formações rochosas como planaltos, desfiladeiros e montanhas de proporções gigantescas, ajudando a manter a alcunha do lugar. É nessas paisagens desertas que estranhas ruínas são avistadas como miragens em meio às tempestades de vento. Enquanto algumas lembram a arquitetura da antiga Theocratia, outras possuem uma estrutura inteiramente alienígena, com edifícios estreitos erguidos em formas surreais pelas mãos de engenheiros inumanos.

Introdução – Tekeli quinta-feira, jul 12 2012 

Uma escuridão azulada preenchia a caverna submersa, onde o Emissário nadava graciosamente entre estalagmites de gelo. Seus olhos vasculhavam as paredes espelhadas, até finalmente encontrarem a passagem por onde se lançou com um movimento vigoroso de suas asas membranosas. O som da água espirrando ao emergir ecoou pelo silencioso túnel de pedra, desgastado pelos milhares de anos de abandono. Na total ausência de luz, a criatura usou seus filamentos sensoriais para encontrar o caminho até as escadarias que conduziam para a antiga cidade na superfície. Enquanto prosseguia, as extremidades de seus tentáculos tateavam as figuras em alto-relevo nas paredes, imagens de um passado que ele havia testemunhado. Aquele lugar já havia sido uma grandiosa metrópole, habitada por seus irmãos da superfície. As gravuras ainda traziam o contorno dos primeiros Antigos chegando a Keleb como estrelas cadentes, dando início a uma próspera colonização. Um período de paz e esplendor, antes da terrível rebelião que condenou sua espécie a ser caçada pelos próprios filhos pródigos de sua avançada ciência.

O brilho fraco da luz solar atraiu a atenção do Emissário até uma larga torre circular, que se estendia acima até uma claraboia em formato de estrela. Em um dos andares inferiores havia uma porta entreaberta, de onde se podia ouvir o barulho do Cientista trabalhando nos espécimes que havia coletado após a grande hibernação. Embora fosse um dos últimos sobreviventes da casta terrestre, o estudioso mantinha o pragmatismo comum à sua equipe.

De pé no centro da sala, o Cientista parecia ter voltado aos tempos áureos de sua civilização. Cada tentáculo ramificado se ocupava em uma atividade diferente, dando ao pesquisador um aspecto pitoresco em sua simetria radial. Os olhos cor de rubi eram movidos constantemente pelos apêndices da cabeça em forma de estrela-do-mar, analisando com cuidado as amostras e placas de leitura espalhadas no balcão circular ao seu redor. Ainda assim, um deles se voltou ao Emissário, voltando a atenção ao trabalho após um breve instante. Só ao terminar uma anotação com sua pequena haste energizada o Cientista o saudou, falando através da música melodiosa e penetrante emitida por seus orifícios vocais.

É interessante como algumas das criaturas deste planeta sofreram alterações ínfimas nos últimos milênios. Os mares próximos à sua cidade estão povoados por águas-vivas praticamente idênticas às que seu povo comercializava como iguaria.”

O Emissário respondeu em uma melodia mais grave e profunda, enquanto recolhia as asas para passar pela porta do laboratório.

Não são necessárias grandes mudanças quando já se tem o suficiente.”

O Cientista silvou antes de responder.

“Esse conceito se aplica apenas a seres desprovidos de racionalidade, é claro. Se nossas mentes desenvolvidas estivessem presas a este idealismo simplório, jamais teríamos construído prodígios como essa cidade.”

Utilizando como mão-de-obra as criaturas que quase nos destruíram depois” rebateu o outro Antigo.

Isto foi apenas uma falha causada pela nossa distração durante a guerra com os outros colonizadores. Se tivéssemos continuado a direcionar nossos esforços no aprimoramento dos escravos eles jamais teriam se libertado do controle psíquico. E assim teríamos resistido até mesmo à glaciação.”

O Emissário não contestou, embora não concordasse. Os Antigos da superfície confiavam demais em sua tecnologia para resolver qualquer impasse durante a colonização de um novo planeta. Eles eram sempre os pioneiros, os aventureiros que levavam seus esporos aos locais mais inóspitos. E, na maioria das vezes, eram também os que mais sofriam os reveses em épocas difíceis. Ao observar os painéis que recobriam as paredes da sala, ele vislumbrou um retrato da paisagem durante o auge daquela cidade. Selvas exuberantes cercavam suas torres e passadiços, abrigando lagartos bípedes e gigantescas feras. Agora, nada mais restava além de um deserto coberto de gelo.

“Os mares deste mundo ainda são familiares mesmo depois de tanto tempo” – disse finalmente o Emissário – “Mas não posso dizer o mesmo daqui. No fim, este próprio mundo encontrou meios de nos repelir”

Mas nós prevalecemos. Podemos dar início a uma segunda colonização. Você pensa que ainda estamos no final da glaciação, mas a verdade é que nós estamos confinados aqui. Além do oceano existem terras que não estão congeladas, e lá outras formas de vida se desenvolveram. É curioso como a atual espécie dominante descende daqueles primatas sem cauda, que haviam começado a se tornar populares como animal de estimação durante os últimos séculos antes da hibernação”.

“Então este planeta encontrou seu próprio rumo. Se ele desenvolveu uma espécie inteligente nativa, não há mais razão em tentar povoá-lo. Nossa raça não suportaria uma nova guerra. Estamos em desvantagem numérica, e não conhecemos nada sobre o novo ambiente”.

Ainda podemos utilizar os escravos. Meus companheiros estão à procura deles agora.  Aparentemente, após a glaciação eles se esconderam em locais remotos, nas cavernas ou em nossas próprias cidades. Se desenvolvermos uma nova maneira de controlá-los…”

O diplomata não deixou que terminasse de falar. Antes que o Cientista pudesse esboçar qualquer reação, o Antigo da casta aquática se lançou sobre ele, o derrubando atrás do balcão e dando início a uma lenta e violenta luta, cortando com precisão cirúrgica o corpo rígido do estudioso com a ponta de seus tentáculos. Se erguendo vitorioso, o Emissário das Profundezas caminhou de volta até o centro da torre, ainda coberto pelo sangue verde-escuro do Antigo despedaçado. Erguendo suas asas, ele alçou voo através da claraboia, se distanciando rapidamente da cidade agora vazia. Ele não podia deixar que sua raça cometesse os mesmos erros do passado, atiçando os horrores gerados pela ambição contra um mundo agora povoado e contra a sua própria espécie.

Além do Oceano de Éter – Parte 2 quarta-feira, jul 4 2012 

Just think of what my life might be
In a world like I have seen!
I don’t think I can carry on
Carry on this cold and empty life

(Rush – 2112)

As camadas do Aether, o mundo etéreo, se desdobram verticalmente de acordo com a essência do subconsciente coletivo que forma cada uma delas. Realidades formadas por infinitas mentes, combinando seus pensamentos desde o surgimento da primeira criatura senciente no universo. Lidar com a matéria da existência é um princípio básico da magia, mas as entidades que habitam as camadas dispostas acima e abaixo de nós possuem um nível de consciência complexo demais para garantir um contato seguro.

É por essas limitações que decidi levar minhas pesquisas além, fundamentado em algo que a princípio parecia um delírio, mas vem se mostrando assombrosamente possível. As histórias do povo cigano sobre uma “estrada das estrelas” sempre me interessaram, mas não passavam de folclore de beira de estrada até o dia em que tive a felicidade de conhecer o Professor Arqueólogo Zaenir, um elfo negro do Instituto que se tornou meu principal parceiro de pesquisas neste passeio pela Estrada do Céu.

Se o Aether se estende verticalmente de acordo com as consciências que o compõem, o que o impediria de também se estender horizontalmente? De se estender até outros mundos formados não por corpos astrais, mas pela matéria física que compõe o nosso? Zaenir parece mais convencido do que eu de que estes universos paralelos existem, e de que podem ser visitados quando dispusermos do conhecimento necessário para tanto. Durante os séculos em que viveu, meu colega reuniu fragmentos de histórias sobre planetas distantes, separados de nós através das barreiras do espaço, tempo ou mesmo outros parâmetros dimensionais que sequer conhecemos.

Ele me contou sobre Eryx, um planeta próximo ao nosso sol coberto por selvas lamacentas que escondem labirintos invisíveis de cristal. Também me falou de Barsoom, com suas planícies vermelhas cavalgadas por impetuosos gigantes de quatro braços. O distante Sadalsund, com montanhas delgadas sustentando cidades esféricas acima do oceano, e também Cerúlea, com seus desertos de areias azuis se estendendo ao horizonte em uma eterna noite. Syrinx, um mundo mecânico e frio além da dimensão do tempo, controlado por uma teocracia não muito diferente da que já governou o nosso mundo. E finalmente as Terras do Sonhar, onde a cidade de Kadath serve de morada para Aeons estranhos.

Esta última se tornou o principal interesse de Zaenir, por algum motivo particular que ele se recusa a contar. Dramas pessoais à parte, estou mais interessado em um meio físico de alcançar estes mundos, como a ferrovia experimental que o Instituto pretende construir em Al-Dasht com o auxílio dos Engenheiros de Mavi. Porém, a Estrada do Céu é agora a grande estrela da comunidade arcano-científica, e não poderia deixar passar a oportunidade de conhecê-la. Por toda a região há resquícios de contato com outras realidades, relíquias de mundos distantes que o Führer em sua inocência pensou que poderia guardar só para si.

Um feitiço simples é o suficiente para me infiltrar no armazém da estação de pesquisa da Ordem da Meia-Noite. Nas caixas espalhadas pelas prateleiras encontro exóticos crânios de cristal e uma curiosa estátua desgastada, que parece representar um antigo ídolo com cabeça de polvo. Ainda estou examinando os artefatos quando escuto um gemido inumano vindo do corredor. Ao me virar, me deparo com um braço de pele costurada arrancando com violência uma das pesadas portas de ferro do recinto. O gigante que entra a seguir não passa de um amontoado grotesco de músculos, tubos de produtos químicos e pinos de ferro estalando com eletricidade. Uma máscara de couro negro cobre toda a sua face, permitindo ao monstro enxergar apenas pelos olhos vazios implantados nos antebraços. Apenas mais um produto da insana pseudo-ciência do Führer, tão cego e obtuso quanto os cientistas que o criaram.

Tenho tempo para uma única magia antes dele me alcançar. Uma conjuração de fogo poderia destruir o precioso material que eles tem aqui, então decido esfriar um pouco as coisas. O cristal na ponta de meu cajado brilha com uma luz gélida antes do raio polar ser disparado, criando uma trilha de cristais esbranquiçados até o gigante. Ele tenta em vão se proteger com o braço, mas logo sua carne em retalhos fica azulada e ele é coberto por uma grossa camada de gelo. A potente rajada elemental deveria transformar uma criatura desse porte em nada mais que uma estátua inerte e quebradiça. Porém, monstros artificiais como ele costumam ser um pouco mais teimosos, e mesmo congelado ele move seus olhos asquerosos em minha direção. Pelo menos isso o deixará quieto por alguns minutos, tempo que não posso perder agora para me livrar dele. Contornando o débil monte de carne, sigo em direção ao caminho que leva ao laboratório indicado no escritório da estação. Preciso descobrir o que está sendo guardado com tanta importância, e qual será seu papel em minha árdua jornada de conhecimento.

Encontro minha equipe de alunos ao retornar ao corredor. Estão exaustos pela luta contra os steamtroopers , e muitos sofreram ferimentos sérios. Parece que a brincadeira não foi tão divertida assim. Ignorando os protestos, peço que me acompanhem até o laboratório, onde a expressão de surpresa em seus rostos só não é maior que a minha própria.

Imersos como fadas engarrafadas nos tubos alquímicos da Ordem da Meia-Noite estão as criaturas mais belas que já contemplei. Seres adormecidos em um sono tranquilo, com uma expressão de profunda sabedoria. Sonhando talvez com os Aeons de Kadath, ou com as melodias proibidas da Syrinx de outro tempo. Há tantas coisas que preciso perguntar a eles…

Um alarme distante interrompe meus pensamentos, e percebo que o pelotão que havia deixado a base retornou. Logo uma horda de steamtroopers estará aqui. Pelo meu olhar, os alunos entendem que não deixarei este lugar. Eles não hesitam um único segundo antes de fugir, pois isso tudo é demais para suas pequenas mentes limitada, inebriadas por desejos juvenis.

Crianças tolas, sempre tão previsíveis. Acreditando estar diante do momento de resignação de seu mestre, que prefere passar seus últimos momentos admirando seu achado a tentar salvar a própria vida. Como sempre acontece nos romances de aventura baratos lidos por eles entre as aulas, onde sobrevivem os desapegados de conhecimento, os seguidores de costumes conservadores. Onde durante o calor da batalha sempre se enterra a perigosa descoberta, que os heróis ajudaram o obstinado estudioso a encontrar apenas pelo desafio.

Eles não terão a menor chance lá encima. Mesmo que pudessem lidar com a tropa três vezes maior do que aquela que nos recebeu, teriam que enfrentar também o monstro de carne, que já deve estar livre agora. Enquanto desenho o complexo círculo de teletransporte, escuto os gritos desesperados. A magia é uma arma perigosa nas mãos destes jovens arrogantes,  principalmente para eles mesmos. Este mundo miserável aprendeu a corromper as artes mais belas do conhecimento, as transformando em uma mera ferramenta para alcançar seus objetivos mesquinhos. É por esse motivo que meu trabalho na Estrada do Céu ainda não está terminado. Ainda não tenho as respostas que preciso.

Ainda não sei como os habitantes de outros mundos chegaram até aqui, e como eu poderei fazer o caminho de volta.