Andina quarta-feira, mar 28 2012 

“Na Estrada do Céu estão as linhas que apenas os Aeons podem ler”

Monsieurs, dou início ao encontro de hoje com esta frase do Navegador Guthierre Malter, o primeiro homem de Belchiora a pisar na região de Andina. Guthierre dedicou sua vida inteira a desbravar os segredos desta terra virgem de conhecimento, fazendo contato com nativos que muito lhe ensinaram sobre as tradições da região. Devido ao prestígio que conquistou entre os indígenas, ele foi um dos poucos estrangeiros a receber a honra de pisar no lugar sagrado chamado de Estrada do Céu. Nesta planície deserta, aqui ao norte das montanhas como podem ver no mapa, estão gravados grandes pictogramas que podem ser vistos apenas de um balão a grande altitude.  Eles representam tanto figuras antropomórficas como animais, além de formas geométricas complexas, como estes círculos sobrepostos que desenhei na parte esquerda da lousa.

Sim, meus queridos alunos, estes últimos lembram os círculos rituais utilizados para estudar os movimentos planetários em antigas culturas, bem como os próprios círculos mágicos que vocês utilizam em uma infinidade de conjurações. A questão é: as dimensões alcançadas por estes desenhos na Estrada do Céu tornam improvável sua execução por uma cultura primitiva, que não dispusesse de meios para observar o progresso do trabalho enquanto era realizado. E esta não é a única característica peculiar de Andina, como vocês irão notar mais a frente.

Infelizmente, caros aprendizes, Guthierre desapareceu na sua última viagem a mais de cem anos atrás, em algum lugar nos Mares do Sul. Relatos incertos da época dão conta de que ele havia encontrado um grande templo escondido em algum ponto desta região escura, chamada de Selva dos Sussurros. Vocês podem ter ouvido falar de muitas lendas a respeito deste desaparecimento, sobre a descoberta de uma cidade inteira feita de ouro, ou sobre o roubo do olho esquerdo da Morte. Estas histórias podem ser exageradas, mas dão o indício de que Guthierre fez uma importante descoberta em Andina. Uma descoberta que infelizmente continuará oculta até que possamos encontrar o que restou de sua derradeira aventura.

As cartas de navegação do Capitão Malter são talvez a única fonte de informação confiável sobre as civilizações que testemunharam ou participaram na construção da Estrada do Céu. Andina possui atualmente vários grupos indígenas, e ainda é discutido se todos eles descendem de um mesmo ancestral em comum. A Selva dos Sussurros é lar de pelo menos três tribos conhecidas de humanoides. Além da população de homens-pássaro que se auto-denomina Krokan, temos dois grandes grupos humanos: as tribos Obsidiana e  Turquesa. Estas duas últimas demonstram uma perícia refinada em seus trabalhos com argila, pedra e metais preciosos. Elas também possuem raízes profundas de conhecimento místico, especialmente no que diz respeito à necromancia.

Também temos uma cultura bastante desenvolvida nas montanhas, o chamado Povo do Sol. Eles se dizem o mais nobre dentre os povos de Andina, e são os únicos a ter uma capital conhecida: Chakana, a também chamada Cidade do Lago. É triste que nos últimos anos as pesquisas no lugar tenham sido quase impossíveis, devido a presença de colonos de Windlan que estabeleceram acampamentos na região. Os windleses, como seria de se esperar, dão pouco valor à rica fonte de conhecimento antigo do Povo do Sol, estando mais interessados em explorar suas grandes reservas de ouro e prata. E eles são incapazes de perceber um dos maiores mistérios de Andina, aquilo que torna esta região tão única em termos arqueológicos.

Há algo nos detalhes da cultura de Andina que muito me intriga, uma constante de elementos que me faz estabelecer um paralelo com um único lugar: a Cidadela de Theocratia.

O que estou querendo dizer é que no cerne das antigas culturas de Andina, dentro de sua arquitetura e organização religiosa,  há estranhas coincidências com aquilo que sabemos da Cidadela dos Deuses. A influência do movimento dos astros, a presença de entidades com cabeças de animais, os complexos processos de preparação para o pós-vida, tudo leva a crer que existe alguma ligação entre a cidade sagrada dos Reis Sacerdotes e esta região montanhosa e isolada do resto do mundo.

Por muito tempo acreditamos que o Império de Theocratia havia se limitado à região que hoje corresponde ao norte de Arthaban e oeste de Balthazir. A magia dos Reis Sacerdotes era voltada para suas cerimônias, para a defesa de seu território e para a manutenção política. Apesar de possuírem grandes poderes divinatórios, nunca pareceram demonstrar interesse no que existia além dos horizontes do mundo conhecido na época. Muitos estudiosos acreditam que eles não chegaram sequer a desenvolver o uso de portais e outros meios de transporte pelo Aether, satisfeitos como estavam com os vastos domínios que possuíam.

A cada dia que se passa estamos mais certos de que eles estão enganados. Há evidências cada vez mais fortes de que Theocratia estabeleceu contato com outras culturas, e Andina é a maior prova disso. Mas, mesmo que possamos comprovar este intercâmbio milenar, ainda resta outra questão a ser esclarecida: o que exatamente motivou os emissários da Cidadela dos Deuses a viajar até um ponto tão remoto, escolhendo uma dentre tantas outras culturas que povoavam o mundo?

É neste momento, monsieurs, que voltamos para a Estrada do Céu e suas peculiaridades. Alguns dos descendentes de colonos que ainda vivem nas ilhas dos Mares do Sul guardam consigo objetos remanescentes das explorações de Guthierre. Entre eles estão alguns fragmentos de rocha coletados durante a visita do Capitão ao local sagrado. Durante a análise geológica destes fragmentos, nos deparamos com algo incrível. O deserto que recobre a Estrada do Céu possui resíduos de materiais não encontrados em nenhuma outra parte do mundo, elementos tão diferentes que nem sequer podem ser identificados ou classificados. Alguns deles são tão voláteis que desaparecem ao serem expostos ao ar, outros são tão resistentes quanto diamantes, e parecem estar lá a milhares de anos. O ponto onde quero chegar, caros alunos, é que a Estrada do Céu pode ser a porta de entrada para outros mundos.

Sim, vocês podem achar essa ideia absurda agora, mas há outras evidências que podem provar o que estou falando. Nas geleiras de Tekelili, a parte sul de Andina, foram encontrados artefatos que não pertencem a nenhuma cultura conhecida até então. Eu mesmo pude pôr as mãos em uma esteatita lapidada, de manufatura Pré-Teocrática. Acredito que ainda haja muito mais a ser desenterrado naquele lugar inóspito, onde uma parte importante da história de Keleb pode estar escondida.

O mais provável é que a Estrada do Céu contenha algum tipo de falha na sutil trama que separa nossa realidade das demais. E não estou falando apenas dos níveis de consciência aos quais estamos habituados, meus caros estudantes. Estou falando de mundos palpáveis, e até universos inteiros como o nosso, espalhados pelo Aether em um mosaico infinito. Se Theocratia estava atrás disso, então eles talvez estivessem buscando a Fonte de origem dos Aeons. Outra possibilidade é que eles estivessem tentando deter uma incursão de Horrores Antigos, que como sabemos não fazem parte de nossa realidade e existem para além do Aether. Talvez ambas as hipóteses estejam corretas, mas como já disse são apenas hipóteses, e apenas um estudo mais aprofundado poderá trazer à luz estas questões.

No próximo mês, quando os assistentes escolhidos estiverem partindo comigo rumo a Tekeli no navio do Sr. Gunnarson, quero que tenham isso em mente. Estaremos explorando um lugar que pode desvendar não apenas segredos de Keleb, mas de todo o nosso universo e provavelmente de outros mundos, sobre os quais nada sabemos.

Nos veremos na semana que vem monsieurs, onde teremos uma discussão mais aprofundada sobre as viagens de Guthierre Malter. Estudem os diários e biografias que estão na biblioteca. Bonne nuit, e quando estiverem voltando para casa prestem atenção nas estrelas, tentando imaginar quantas coisas podem existir no espaço entre elas.

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Real Sociedade Expedicionária de Windlan II quinta-feira, mar 22 2012 

Sejam bem-vindos leitores! Com o fim da longa viagem por Al-Gober, fica para trás o calor dos desertos e entram as florestas e montanhas do Sul de Gasparia, onde estão as próximas regiões do Ano I de Crônicas do Mar de Prata! O Novo Mundo de Keleb é um dos principais locais de disputa entre as Marinhas de Windlan e Aurin, que lutam pelos vastos recursos da região. Preparem-se para conhecer as estranhas ruínas de Huakan, as imensidões congeladas de Tekelili e as… familiares paisagens de Araruma.

Grimoire D’Sorciére irá participar do e-book Canções da Meia-Noite, organizado pelo Rpg Vale, junto a outros contos escritos pelos novos contadores de histórias. Em breve virão os primeiros capítulos da narrativa que contará o passado dos mais ilustres professores do Instituto Marque di Sauge.

Confiram também o texto de introdução de O Despertar de Baal, uma aventura para Pathfinder RPG que irá revelar muito do passado das quatro tribos de Al-Dasht, desvendando também alguns segredos da lendária cidadela de Theocratia.

Real Sociedade de Crônicas Independentes

Desta vez trazemos até vocês Murmúrios e Canções, um trecho do diário de campo de Megan Iolair, a cronista cigana da Biblioteca de Rosetta. A passagem foi escrita durante sua estadia em Al-Gober, mostrando as impressões da jovem viajante a respeito da Aridez Sombria.

Real Sociedade de Torneios e Competições 

A Esquadra Mercenária dos Caveiras Caolhas está a procura de novos tripulantes! O Capitão Caliban se prepara para lançar seu exército de piratas ex-criminosos sobre as águas de Al-Gober, e qualquer alma imunda disposta a viver uma vida de aventuras será recebida com uma caneca de rum! Os interessados em participar dos saques e pilhagens devem responder a apenas três perguntas.

-Qual será seu nome daqui para frente?

-De quais crimes você se livrou para se juntar à esquadra?

-Quais suas aptidões como pirata?

Os personagens criados aqui poderão aparecer futuramente em histórias e aventuras de RPG no universo das Crônicas!

Expedição Blackhawk – Parte 2 sábado, mar 17 2012 

23 de Beltane

O Major Atem e sua trupe partiram do forte esta manhã, pouco depois de recebermos outra visita inesperada. Nosso novo hóspede é ninguém menos que o lendário Professor Allhazred, doutor historiador da Biblioteca de Rosetta. Ele parecia muito interessado em algo que Megan descobriu ao sul de Gehenn, um lugar citado nas rimas de um poeta demente dos Nômades Azuis. A conversa imediatamente despertou meu interesse, afinal que descoberta fascinante traria alguém tão renomado a estas paragens áridas? Iremos acompanhá-lo nesta exploração, revelando aos cavalheiros de Windlan quaisquer tesouros secretos que estejam escondidos nas areias de Al-Gober.

24 de Beltane

No início da manhã, enquanto a tropa realizava reparos no forte, uma imensa nuvem de gafanhotos cobriu Gehenn. Estas pragas são uma presença comum aqui no deserto, e tal fato normalmente não chamaria a atenção. No entanto, nenhum dos sentinelas de guarda avistou a origem do enxame. Ao que parece, ele se formou dentro da cidade, engolindo todo o perímetro do Sultanato em poucos minutos. O Professor Allhazred parece preocupado com o ocorrido. O velho passou o dia resmungando de um lado para o outro, perturbando o espírito dos soldados. Enviarei um destacamento para investigar o terreno, assim que os insetos começarem a se dispersar.

25 de Beltane

O destacamento enviado a Gehenn retornou com terríveis notícias. O soldado Ronan, que havia sido designado para acompanhar o Major Atem na função de rastreador, foi encontrado em um túmulo pelos soldados. O corpo decapitado estava enterrado com honras militares, próximo ao portão da cidade. Alguns cadáveres nas cercanias sugerem que o grupo foi recebido com violência, mas não havia sinal do Major ou de seus companheiros. Dentro de Gehenn, a situação era catastrófica. Uma parte do chão parece ter simplesmente implodido, comprometendo a maior parte das estruturas. Não foram encontrados sobreviventes, e a maior parte da população parecia ter sido brutalmente assassinada. Um dos corpos espalhados despertou tanta atenção dos homens que teve de ser trazido até o forte. Trata-se de alguma espécie de híbrido insetóide, algo como um gafanhoto bípede em tamanho humano. A criatura não se parece com nenhum dos humanoides conhecidos em Al-Gober, e deixou o Sr. Allhazred profundamente transtornado. Ibrahim, nosso médico de campo, irá embalsamar o espécime, para que ele possa ser estudado pelos especialistas da Real Sociedade Científica.

29 de Beltane

A situação é grave. Estamos a quatro dias em uma luta incessante contra os selvagens homens-inseto que cercaram Gehenn. Os bastardos são capazes de se mover sob a terra, tornando inúteis as defesas de nosso forte. Alguns são até mesmo dotados de asas, sendo estes os mais rápidos e perigosos. Sete de nossos homens já caíram, e metade dos restantes está seriamente ferida. O Major Oliver foi atingido por um grande pedaço de pedra, e não mais poderá continuar nesta expedição. Subimos nas estruturas para evitar ataques-surpresa, mas enquanto os miseráveis alados dardejam em nossa direção com seus ferrões, os escavadores tentam trazer o que sobrou da muralha abaixo.  Os inimigos já tomaram o armazém e agora ameaçam o quartel, onde estão presos Allhazred e Ibrahim. Se o desespero atingir os soldados a operação irá fracassar. Meu maior objetivo agora é mantê-los firmes e disciplinados, repelindo os grupos de inimigos com rajadas de mosquete, e explodindo barris de pólvora para tirá-los da areia. Na última investida, entrei em combate corporal com um insetóide de dois metros e meio, que deixou uma profunda mordida em meu ombro antes que eu pudesse abatê-lo. Todavia, em nenhum momento penso em desistir desta empreitada. A Coroa conta conosco e continuaremos lutando até o último soldado vivo.

30 de Beltane

Os reforços chegaram bem a tempo. A expedição está salva. Afastamos os insetóides com bombas incendiárias e gases alquímicos. As tropas de apoio trouxeram canhões e morteiros, que foram disparados contra Gehenn. Temos nossos próprios balões de apoio e estendemos a Rota 68 até o forte, onde será construída uma plataforma de embarque improvisada. A Sargento Robin, responsável  pelo novo regimento, foi rápida e firme em suas decisões, mostrando um desempenho exemplar na operação de resgate e retaliação. Entreguei-lhe o merecido posto de Major em substituição a Oliver, que retornará a Ravenest com os demais enfermos. Ao recebermos os novos suprimentos, nos deparamos com um carregamento de cervejas e uísques de Port Smoke, agradável surpresa que elevou consideravelmente a moral das tropas. As bebidas foram um presente de Nicholas Copper, Almirante Chefe dos Arautos do Vapor, que em carta revelou ser um grande entusiasta da expedição, tendo inclusive pretensão de visitá-la no futuro.

06 de Midsummer

O novo forte está inteiramente concluído. Do antigo restou apenas o velho armazém, que terá sua carga transportada aos poucos. Desfrutamos do que há de mais moderno na engenharia de Windlan, incluindo um gerador de campos elétricos que vem se mostrando deveras efetivo contra os enxames de gafanhotos carnívoros que vêm se deslocando para nosso território. Nossas relações com os Nômades Azuis ficam a cada dia mais amistosas, apesar dos problemas causados por bandoleiros remanescentes, que mesmo sem liderança organizada se mostram cada vez mais ousados. Não obstante, recebi duas excelentes notícias nos últimos dias. A primeira é de que o Major Atem está vivo e será recebido pela Rainha em breve, encantada como ela está pelas histórias de bravura do homem. A segunda é que Nicholas está para enviar um soldado muito especial aos meus comandos: um dos autômatos de guerra experimentais desenvolvidos pela Guilda dos Relojoeiros, que terá seu primeiro teste de campo aqui em Al-Gober.

29 de Setembro

A Major Robin partiu em uma importante missão, nos deixando órfãos de sua perspicácia brilhante e de sua graça jovial. Um ataque da Ordem da Meia-Noite ao Porto de Ravenest deixou a Coroa em alerta, colocando sob tensão a Marinha e as Rotas Aéreas. Ela foi designada para guiar um destacamento até a costa norte, onde irá defender a Rota 68 de possíveis ataques, após zepelins inimigos terem sido avistados na região. Neste momento de conflito, é vital assegurar o território da Aridez Sombria contra o domínio de Urwald. A província de Khaldur, a Oeste, ainda se mantém neutra até o momento, mas é necessário mantê-la sob vigilância constante. O Capitão Caliban, comandante da esquadra dos Caveiras Caolhas, será enviado até o Porto de Khaldur para assegurar suporte náutico caso se mostre necessária uma operação militar no local.

11 de Outubro

A primeira missão de Garruz, o autômato de guerra enviado para testes, foi um sucesso. Tutorado por um dos especialistas do Instituto Wolfsbane, Sr. Fenrich Coldsummer, o androide demonstrou grande habilidade e resistência durante uma operação em Gehenn. O objetivo do pequeno grupo enviado até o Sultanato era se apossar de um poço com propriedades aparentemente mágicas, conforme nos foi revelado pelos Nômades Azuis. Encantado ou não, o local forneceu um proveitoso suprimento de água para o forte, agora que não há mais como assegurar o suporte da Rota 68. Como era de se esperar, alguns dos insetóides que enfrentamos meses atrás ainda se encontram no Sultanato. Além disso, um grupo de bandoleiros tentou atacar o destacamento durante o caminho. Não poderemos mais tolerar esse tipo de contratempo enquanto temos preocupações maiores. Estamos a quase um ano sem qualquer avanço significativo nesse banco de areia. Chegou o momento de mostrar a bravura de Windlan a estes bárbaros do deserto. 

23 de Novembro

Uma grande equipe está sendo preparada para conduzir a expedição ao sul de Gehenn, liderada pelo Professor Allhazred e pelo arqueólogo Jonathan Brown, da Real Sociedade Expedicionária. Encontramos um grupo de Nômades Azuis que já esteve no local, e negociamos com eles alguns artefatos encontrados na região. Tratam-se de inúmeros fósseis, a maioria de curiosos animais aquáticos. Havia também um pedaço de âmbar fossilizado, que despertou bastante a atenção do Sr. Brown. O lugar para onde estamos nos dirigindo parece ser o que restou de um grande lago pré-histórico. Dunas móveis, chamadas de barchans pelos nômades, recobrem a maior parte da paisagem, ocupada também por antigas torres naturais de algum material fossilizado. Muito além delas há uma mata inexplorada, mais uma área no mapa que por séculos esteve em branco. Será uma viagem rumo ao desconhecido, a lugares que jamais alcançariam a luz da civilização, não fosse pela coragem de nossos homens.

Expedição Blackhawk – Parte 1 sábado, mar 17 2012 

SOBRE AS DUNAS NEGRAS

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Um relato das extraordinárias aventuras do Coronel Blackhawk em sua expedição aos Áridos Sombrios de Al-Gober, 1698.

Prensado e encadernado pela Linenfield Oficinas de Impressão & Associados, Rua das Tochas 141, Ravenest.

Foi com um profundo sentimento de orgulho que eu, Coronel Leomond Howitzer Blackhawk, recebi a honra de comandar uma Expedição em nome de Sua Majestade na Aridez Sombria, um imenso território desértico localizado em Al-Gober. Esta terra de ninguém se estende ao norte do continente de Arthaban, uma região repleta de mistérios e paisagens inexploradas. Nosso objetivo nesta empreitada é o de assegurar novas rotas de comércio entre Windlan e as nações artabanesas, especialmente Tawosret e as colônias de Iroko. O destino é um lugar hostil, infestado de bandidos da pior espécie e feras perigosas. Não temos qualquer contato com a Coroa além dos corajosos aeróstatas da Rota 68, que asseguram nosso abastecimento de mantimentos e armas, bem como o envio de eventuais reforços. Apesar dos incontáveis perigos que enfrentamos, estou certo de que minhas aptidões e a bravura de meus homens serão suficientes para superar os desafios e assegurar o sucesso desta expedição, conduzindo Windlan a horizontes jamais tocados pelo homem civilizado.

15 de Ostara

Estamos prontos para dar início às nossas operações, após uma viagem tranquila sobrevoando o mar pela Rota 68. Iniciamos a construção de um forte nas imediações de Gehenn, um Sultanato decadente de Al-Dasht. Nossa principal batalha até agora é contra o clima. Durante o dia, um homem descuidado pode ficar tão cozido quanto um sunday roast. Já a noite faz tanto frio quanto em Northgate, e é preciso se agasalhar. Apesar de termos conosco um bom suprimento de engradados de água, a escassez dela no terreno me precaveu a decretar um racionamento, o que gerou protestos de alguns soldados mais molengas. Fiz isso também pela água ser nossa principal mercadoria de interesse nas negociações com os Nômades Azuis, com os quais estabelecemos contato desde a nossa chegada. Apesar de viverem de maneira precária, estes nativos do deserto são generosos, e possuem esplêndidos dons culinários. Na noite passada fui o convidado especial do chefe de uma grande família de pastores, que me preparou um delicioso carneiro, assado dentro da areia em um fogão de barro improvisado. Assegurei-lhe boas relações em gratidão pela hospitalidade recebida, e trocamos comida enlatada por camelos e peles.

22 de Beltane

O cheiro de pólvora do nosso primeiro confronto em Al-Gober ainda paira nas estepes arenosas. Em nossa incursão ao Sultanato de Gehenn, descobrimos que o lugar havia sido abandonado por seu próprio governante, entregue a grupos de saqueadores que dominavam as ruas. Os grupos de Nômades Azuis com quem buscávamos aliança na cidadela estavam submetidos ao chefe dos bandidos, um velho horrendo chamado Hazan. Apesar de termos armas melhores, estávamos em considerável minoria, e aguardávamos a chegada de reforços da Rota 68 para invadir o Sultanato e depor a liderança criminosa. Porém, uma série de curiosos eventos fez com que o estopim do conflito acendesse antes do planejado. 

Uma semana atrás, encontrei em Gehenn o Sr. Atem, Major do Exército de Tawosret. Ele estava acompanhado por uma exótica trupe, da qual fazia parte uma linda historiadora cigana da Biblioteca de Rosetta, de pele morena e profundos olhos escuros. A presença de uma bela dama em meio àquele covil de bandidos aliviou meus ânimos. Descobri que seu nome era Megan Iolair e que ela havia nascido em Windlan, embora houvesse viajado o mundo inteiro junto a seu irmão e sua antiga kumpania. Inteligente e espirituosa, ela era de uma presença cativante. O Major também se mostrou um ilustre cavalheiro, resoluto e honrado como nossos mais bem instruídos guardas reais. Infelizmente, não pudemos desfrutar de muito tempo juntos pois também estavam ocupados em uma importante missão, buscando o paradeiro de uma criança de família influente em Tawosret que havia sido sequestrada.

Forneci-lhe um de meus rastreadores e alguns suprimentos para a longa viagem que tinham pela frente, vendo que dispunham de poucos recursos. O Major me agradeceu humildemente, se preparando para uma longa viagem rumo ao sul desconhecido, onde estava a criança que iriam resgatar. Porém, antes deles partirem, um incidente envolvendo uma corrida de camelos na arena local aumentou nosso atrito com Hazan. Nossas tropas tiveram que deixar Gehenn rapidamente, antes que nos víssemos cercados em território inimigo. Enquanto reforçávamos as defesas de nosso forte ainda em construção, a notícia se espalhava pelo deserto, fazendo com que os bandoleiros de Hazan surgissem de todos os lados. Sem canhões e com pouco mais de trinta homens, contávamos apenas com nossa audácia para enfrentar uma horda de mais de cem bandoleiros. 

Quando o iminente ataque estava prestes a se lançar sobre nós, o Major Atem retornou para pagar sua dívida de honra. Mesmo contando com apenas meia dúzia de companheiros, ele nos ajudou a elaborar uma estratégia, experiente como era em combates no deserto. Enterramos parcialmente barris de pólvora na areia, que meus homens explodiam a distância com disparos, atrasando o inimigo. Quando eles acabaram, o Major se lançou à linha de frente em uma investida montada, que parecia suicida com a quantidade de homens que rapidamente o cercaram. Porém, nem mesmo cem golpes de espada pareciam capazes de derrubar aquele homem que, segundo me foi contado, é capaz de aguentar até mesmo balas de canhão.

Com a distração causada pelo Major, aproveitamos para virar a maré, derrubando fileira após fileira de bandoleiros confusos com rajadas de mosquete. De minha posição, eu direcionava as tropas enquanto alvejava os bandidos mais perigosos, que tentavam se infiltrar para quebrar nossas defesas. Eles continuaram investindo sobre nossas muralhas até que uma delas veio abaixo, mas seus números já estavam reduzidos, e com a poeira ainda levantada colocamos os bandidos para correr com uma única carga de baioneta. O próprio Hazan foi morto por um dos companheiros de Atem, um guerreiro com pele de chacal que eliminou mais de uma dezena de inimigos, usando apenas um arco emprestado e uma grande foice. As areias cinzentas ao redor do forte ficaram vermelhas com o sangue dos cadáveres, e ordenei que pendurassem a cabeça de Hazan na entrada do forte, como um aviso aos outros grupos de bandoleiros da região. 

Enquanto meus homens cuidavam dos feridos e reparavam a muralha, eu comemorava a vitória junto ao Major e sua trupe. A bela Megan Iolair revelou mais um de seus muitos talentos, executando no violino uma melodia que ficará gravada para sempre em meus ouvidos. Suas canções falavam sobre as belezas de sua terra, a Floresta Evergreen, e sobre as muitas batalhas que havia lutado ao lado de seus companheiros, nas planícies de Tawosret onde uivam os chacais. Espero com avidez o dia em que poderei outra vez vislumbrar seus cabelos dourados, suas curvas graciosas e seu olhar misterioso, como o céu de um mundo desconhecido.

Grimório – Aeons quarta-feira, mar 7 2012 

Nos níveis mais profundos do Aether, residindo além dos portões da consciência, estão as entidades conhecidas como Aeons, também chamadas de Deuses por muitos dos habitantes de Keleb. Formados a partir da interpretação das essências abstratas do universo pela humanidade, eles compreendem conceitos como as forças da natureza, a fertilidade ou a morte. Com o passar do tempo, eles foram se adaptando ás mudanças e necessidades da sociedade, assumindo novos nomes, formas e funções. Seja em templos abertos, cultos tribais ou ordens secretas, eles estão sempre presentes nos bastidores do mundo, ajudando aqueles que os buscam a melhor compreender os segredos da existência. Porém, após os antigos e sinistros eventos ocorridos no Apogeu de Theocratia e no Crepúsculo dos Deuses, descobriu-se que eles podem manifestar também os aspectos mais sombrios do inconsciente coletivo, tornando-se ideias perigosas defendidas por séquitos de fanáticos.

Guardiões dos Portões

Agindo como intermediários entre a consciência humana e o Aether, estes Aeons relacionados ao conhecimento e à comunicação são figuras centrais em Ordens de Mistérios, respeitados tanto por sacerdotes como por magos e alquimistas. Mesmo seguidores de outros Deuses costumam aprender os ritos dedicados aos Guardiões dos Portões de suas culturas, visto que eles facilitam a entrada para níveis de consciência mais elevados, onde repousa a essência de outros Aeons. Em muitas cerimônias sagradas eles são os primeiros a ser invocados, para assegurar que o contato entre os mundos material e etéreo seja realizado de maneira segura. Em Aurin o Aeon que cumpre essa função é Mercúrio, em Tawosret Thoth, em Iroko Exu e em Ashramya Hanuman. Em Bergard, o Guardião do Portão curiosamente é também a principal figura do panteão local, Odin. Os membros das Ordens não costumam erguer templos, mas sim centros de conhecimento como bibliotecas e universidades, que sempre possuem as ciências arcanas como um dos principais campos de interesse. Estudiosos de antigos escritos místicos falam sobre a existência de um primeiro Guardião do Portão, um Aeon imemorial com a forma de um espelho vivo de prata líquida. Muitos magos acreditam que tal descrição não é literal e se refere ao Aether, embora alguns acreditem que a entidade é capaz de se manifestar no mundo material e está escondida em algum lugar do deserto de Al-Gober.

As Tríplices

As Tríplices são conjuntos de Aeons femininas, relacionadas respectivamente à fertilidade, maternidade e sabedoria. Elas são o centro de diversas culturas matriarcais, como aquelas encontradas entre os Cavaleiros Bárbaros de Kynazia e entre os antigos povos de Windlan. Associadas á Lua, elas possuem três aspectos: a Donzela, que personifica as ideias de beleza, liberdade e vitalidade; a Matriarca, que manifesta o poder materno, a proteção e o amor incondicional; e a Anciã, também chamada de Parteira ou Curandeira, que representa a sabedoria e magia dominada unicamente pelas mulheres, sendo também relacionada à velhice e a morte natural. Por sua natureza tripla, estes Aeons possuem a maior variedade de nomes e formas, que vão desde a simples imagem da Lua e suas fases a panteões nos quais cada Aspecto assume uma imagem complexa e particular. Sharesukteh é uma das principais nações a possuir um grande templo dedicado à sua Tríplice. Em Aurin, o trio de Aeons conhecido como Diana, Minerva e Hécate possui mais influência nas áreas rurais, onde têm grande participação nos festivais de colheita e mudança de estação.

Miríades

Relacionadas ao Sol, as Miríades são entidades correspondentes às forças mais elevadas e antigas do universo. Estas entidades formadas pela luz espiritual de infinitas consciências são consideradas as existências mais poderosas do Aether, capazes de cegar um mortal com um mero vislumbre. Porém, sua transcendência faz com que estejam afastadas do mundo mortal, e mesmo seus oráculos e clérigos costumam levar uma vida reclusa de meditação. Durante a guerra contra os Horrores Antigos, as Miríades foram os principais aliados da humanidade, impedindo que os pesadelos despertos caminhassem durante o dia. Mas elas também foram os principais Deuses utilizados no Apogeu de Theocratia para escravizar milhões de mentes, através da obsessão por poder dos Reis Sacerdotes. Isso fez com que eles se tornassem os Aeons mais difíceis de manifestar após o Crepúsculo dos Deuses, e muitas vezes aquilo que se acredita ser a sua influência não passa de uma frágil ilusão. Em Tawosret, os templos de Rah-Herukteh se tornaram ruínas abandonadas nas montanhas, nada restando de sua presença além das histórias registradas nas paredes. Já o Templo de Shiva em Ashramya é cercado de mistérios, e pode guardar a chave para a liberação das Miríades, embora as ideias distorcidas de seus sacerdotes pareçam sugerir a terrível sombra de uma nova Theocratia.

Os Anjos são os guardiões e mensageiros das Miríades. A compreensão dos alados a respeito destas entidades é mais profunda do que a visão compartilhada pela maioria dos mortais, e a cada era eles parecem menos dispostos a dividir este conhecimento. Há quem acredite que eles estejam diretamente ligados à matéria que forma as Miríades, compartilhando da mesma essência desde a criação do cosmo. Muitos dos locais sagrados dedicados a esses Aeons, muitas vezes localizados em locais altos e de difícil acesso, são vigiados por Anjos, que agem sozinhos ou com a ajuda de ordens monásticas.

Nêmesis

Também chamadas Serpentes, as Nêmesis são Aeons nascidas das emoções mais selvagens e sombrias da humanidade. Até o Apogeu de Theocratia elas representavam o conhecimento interior, as paixões em seu estado mais bruto e os segredos dos mortos. Porém, reprimidas e condenadas durante eras, elas passaram a incorporar também o rancor das almas encarceradas nas prisões morais impostas pelos Reis Sacerdotes, ao mesmo tempo que se alimentavam das ideias perversas cultivadas nas estranhas orgias secretas da Grande Cidade. Como uma chama, as Nêmesis são passionais e destrutivas, mas são essenciais para a manutenção do equilíbrio do universo e para a compreensão plena da alma humana. Seu conhecimento é vasto e único, mas as verdades cruéis possuídas por estes Aeons ferem profundamente corações despreparados. Infelizmente, durante o Crepúsculo dos Deuses as Nêmesis foram lançadas ás escuras profundezas do Aether, aprisionadas na região conhecida como Abismo. Desde então, suas raras tentativas de despertar irrompem em explosões de fúria tão poderosas que precisam ser contidas para evitar estragos irreversíveis em Keleb. Por isso, aqueles cujo poder está ligado a uma Nêmesis raramente expõem esse fato, se revelando somente quando um grande ritual já está em andamento. A principal Nêmesis a possuir séquitos conhecidos é Tiamat, também chamada de Mãe dos Dragões. Vênus, Lilith e Apep são outros nomes pelos quais essas entidades são conhecidas, nem sempre com as mesmas características predominantes. Como outros Aeons ligados ao Abismo, as Nêmesis deram origem a hordas de Demônios, que frequentemente acompanham suas manifestações terrenas.