Os pés descalços de Taghan se equilibravam com cuidado no tronco da palmeira curvada como uma ponte sobre o córrego escuro, quase invisível entre as margens cobertas de verde. Cachos de flores vermelhas pendiam dos galhos acima de sua cabeça, que entrelaçados filtravam a luz do sol poente em raios dourados que afastavam os pequenos lagartos e insetos escondidos sob a vegetação. O aroma de jasmim perfumava o ar abafado e quente, e ao terminar de atravessar o rapaz teve que parar para enxugar o suor da testa. O sorriso em seu rosto no entanto afastava qualquer dúvida de que havia valido a pena adentrar aquela parte escondida da ilha, onde seu povo nunca se aventurava.

Ali era o jardim secreto do Arquipélago de Angker, criado pelo Aeon da morte Sidapa como um presente para seu amado, o garoto-lua Libulan. Diziam que no centro do jardim haviam flores encantadas, que abençoavam com sorte e beleza qualquer um que tivesse um amor como o do par de deuses, e era por isso que Taghan havia cruzado vales e montanhas para chegar até ali. Os javalis furiosos e tempestades repentinas do caminho haviam levado embora o escudo de tartaruga-dragão e a bandana vermelha que impedia os longos cabelos negros de caírem sobre o rosto, mas cada vez que desafiava um novo perigo ele sentia estar provando a Sidapa o quanto era digno o que sentia, e nada que o deus da morte colocasse em seu caminho seria capaz de fazê-lo recuar.

O que não o impediu de dar um passo cauteloso para trás ao notar uma forma laranja com listras negras se mover por entre o pomar de bananeiras após o córrego. Apertando a haste da lança e a puxando para trás, Taghan afastou devagar a cortina de folhas e se preparou para enfrentar a fera, quando percebeu que seus olhos haviam se enganado no crepúsculo. Na sua frente, uma nuvem de borboletas alaranjadas esvoaçava baixo no jardim tropical, se juntando a outras amontoadas no chão. O rapaz abaixou sua arma e continuou em frente, mas seu suspiro de alívio foi cortado antes que desse mais de um passo, quando um cheiro acre invadiu suas narinas e as borboletas levantaram voo em sua direção, revelando a carcaça do tigre que haviam limpado até os ossos antes de sentirem a nova presa em seu território.

Agora os pés de Taghan corriam sobre a relva, pisando em ervas aromáticas que confundiam seus sentidos enquanto as borboletas rodopiavam em perseguição. Girando sua lança enquanto saltava e fugia, o guerreiro sentia que Sidapa o conduzia em uma dança mortal, esperando apenas um passo errado para consumi-lo através de seus servos alados. Quando rodopiou até uma clareira, Taghan teve a impressão de que o próprio deus da morte surgia diante dele, sua forma colossal e escura o encarando com olhos ofuscantes. Mas dessa vez não era apenas mais um truque do jardim. De fato ele estava ali, na forma de uma estátua caricata de pedra, com chifres retorcidos como os de um besouro e uma bocarra de dentes afiados que exalava um hálito fresco como chuva.

Ao ouvir o rugido daquela carranca, o rapaz ergueu sua lança em desafio e arremeteu contra ela, se abaixando para escapar dos enxames de borboletas-tigre que vinham do alto como se conduzidos pela estátua. Ele podia sentir o vapor d’água tocar sua pele morena e enxergar a luz do outro lado da garganta de Sidapa, por onde se lançou em um único salto. A pedra fria o envolveu por apenas um instante antes dele se ver flutuando no ar, acima do buraco ruidoso da cachoeira em que o córrego escuro do jardim havia se transformado. Estava livre das borboletas, porém nas margens do abismo a morte ainda o espreitava, com orquídeas carnívoras e plantas-jarro gigantes esperando que ele se juntasse a tantas outras criaturas que haviam encontrado seu fim entre as rochas cobertas de musgo.

Mas Taghan havia aprendido a mergulhar com um dos melhores pescadores que já havia passado pelo arquipélago, o barqueiro nômade de olhos verdes e tatuagens entrelaçadas que lhe havia roubado o coração, e que o guerreiro pretendia reencontrar após receber a bênção de Libulan. Com uma acrobacia habilidosa, ele desceu como uma flecha pelo centro do abismo, escapando das plantas carnívoras que se debruçavam ao seu redor e desaparecendo na neblina da cachoeira. O mergulho foi o último passo de sua dança com Sidapa, e ao emergir das águas geladas ele pensou ouvir um riso gentil e gracioso vindo da coluna de luz prateada que iluminava o lago de lótus-diamantes, começando a desabrochar sob a lua cheia que surgia no céu.