Profeta da Chama de Olíbano – Parte 2 sábado, abr 30 2011 

Like the Phoenix I fly
Leaving the lies behind
Future’s golden for me
There is no one who can stop me now 

(Stratovarius – Phoenix)

O garoto então conseguiu se lembrar de tudo o que havia acontecido. Junto a uma pequena comitiva dos Engenheiros de Mavi, ele adentrara a floresta rumo à costa, onde pretendia pegar um barco para Aurin. Foi quando um grupo de falarques havia subitamente atacado, disparando flechas das árvores. Pego de surpresa, o grupo se dispersara, e na confusão ele havia batido a cabeça em um galho e caído inconsciente. Mash’al não conseguia imaginar o porque de uma espécie pacífica como os falarques tê-lo capturado, mas parecia que a única maneira de ir embora dali seria falando com o tal Profeta.

-Já estou indo, pequeno servo. Espero que meu anfitrião tenha uma boa explicação para isso tudo – disse Mash’al secamente, pegando seus pertences amontoados debaixo da rede e resmungando por ter que aceitar ordens, embora admitisse para si mesmo que estava um pouco apreensivo com a situação.

Ele agora começava a se lembrar de uma visita na noite anterior, que de início parecia ter sido apenas um sonho. No aposento havia uma bela mulher de cabelos vermelhos, com sua pele da cor de marfim coberta apenas por faixas de tecido. Seus olhos dourados eram como os da Rainha Ifrit, faiscando com um fogo oculto, mas expressavam paixão ao invés de fúria. Se aquela mulher fosse a dita Profeta, então valeria a pena seguir os falarques para vê-la outra vez.

Olhando para fora da janela, o rapaz sentiu uma tontura ao descobrir que estava muito acima do chão. Outros homens-pássaro se espalhavam pelos galhos, com os olhos voltados para ele. O jovem arqueiro estava mais próximo, esperando, mas não havia nenhuma escada ou corda. Entendendo a situação com mais um suspiro de frustração, Mash’al começou uma longa e constrangedora jornada escalando pelo tronco, enquanto os falarques saltavam e faziam algazarra ao seu redor. Mais de uma vez o príncipe escorregou e teve que ser segurado pelos mais próximos, que apesar de parecerem se divertir não deixavam que o garoto se ferisse.

Quando finalmente chegou ao chão, Mash’al se viu diante de uma trilha marcada por archotes. Conversando com o arqueiro, cujo nome descobriu ser R’yak, ele aproveitou para perguntar sobre a Profeta. O falarque confirmou a descrição da mulher, mas sua expressão parecia enigmática ao perceber o interesse. O caminho então terminou em uma clareira cercada por grandes fogueiras, exalando a fumaça branca do olíbano, a resina sagrada encontrada apenas naquela floresta. Mais adiante, um círculo de falarques guerreiros erguia suas lanças em torno de uma espécie de trono, feito com galhos e vinhas entrelaçados.

Apenas ao se aproximar na fumaça espessa Mash’al conseguiu ver a Profeta, tomando um grande susto. Pois quem estava sentado não era a graciosa mulher de cabelos vermelhos, mas um forte homem de cabelo trançado e pele morena, como os da Tribo de Aswad. Ele tinha a mesma chama em seu olhar que a Profeta, e suas vestes eram as mesmas, embora adaptadas ao seu corpo masculino.

-Onde está… – Mash’al começou a dizer um pouco vacilante.

-Eu sou o Profeta – disse o homem com uma voz alta e grave – Sou um dos espíritos soberanos entre as fênix. Nascemos de nossas próprias cinzas, não precisamos nos separar entre o masculino e feminino. Eu te visitei na noite passada, mas em meu outro aspecto.

O garoto precisou de um tempo consideravelmente longo para assimilar o que acabara de ser dito. Olhando confuso em volta, ele viu R’yak parecer segurar o riso. Ainda atordoado com a surpresa e visivelmente frustrado, Mash’al tentou se recompor e voltou a atenção ao Profeta, que o encarava inexpressivo.

-Porquê me trouxe até aqui? – perguntou finalmente.

-Soube que o fardo das terras de Al-Dasht caiu sobre um novo herdeiro, mas que ele estava de passagem por meus domínios para tentar seguir com seus próprios planos.

-Bem, isso ao menos não é surpresa alguma. Acredito que meu distinto anfitrião também irá me chamar de covarde e dizer que estou fugindo das minhas responsabilidades, estou certo?

-Jovem Mash’al – O espírito da fênix abriu um largo sorriso – Ainda vejo uma fagulha do sangue de Aswad em você. Realmente, é minha função como ancestral desta terra censurar e aconselhar, mas você está antecipando as palavras de alguém que está há muito mais tempo nesse mundo. Eu precisava te colocar frente a mim para saber se você é capaz.

-Capaz de governar a nação? – Mash’al disse com desânimo.

-Não. Capaz de governar sua própria vida e de trilhar seu próprio caminho sabendo do fardo imposto a você. Capaz de lidar com o que o destino lhe trouxe e mesmo assim continuar sendo quem você escolheu ser.

Mash’al levantou o olhar lentamente, encarando pasmo o Profeta

-A estrada mais difícil de trilhar é aquela que escolhemos, Mash’al. -ele continuou. – Mas é somente nela que podemos buscar de maneira plena aquilo que desejamos. Porém, enquanto você não souber o que realmente deseja, não será você quem estará escolhendo o caminho, por mais que acredite nisso. Você será apenas um passageiro do destino.

-E como saberei o que realmente desejo? – Mash’al disse com uma certa ansiedade, as palavras saindo de sua boca quase involuntariamente.

-Buscando aquilo que nos torna quem realmente somos… liberdade. – respondeu o Profeta, fazendo R’yak assentir com a cabeça. – Você não pode fugir do que o destino lhe traz, mas deve ser livre na hora de fazer suas escolhas. Para trilhar sua própria estrada, você deve ser forte e ter a convicção necessária para não se deixar prender entre as duas armadilhas… o dever de fazer algo e a culpa por não tê-lo feito.

-Mas se eu não cumprir meu dever e nem me arrepender, o que irei fazer? – respondeu o garoto.

-Voar. – respondeu o Profeta enquanto sua forma começava a mudar,  se desfazendo em um trançado de chamas e se misturando à fumaça das fogueiras, para então surgir como uma enorme e brilhante fênix, a mais bela que Mash’al já havia visto em sua vida. -Voar livre, sem se estar preso ao que não lhe pertence. Apenas assim você poderá descobrir o que é verdadeiro em sua jornada.

A voz do pássaro combinava a melodia suave da mulher que o visitara durante a noite com a firmeza do homem que estava sentado no trono. Mash’al perdeu o fôlego, encantado por aquela visão, enquanto os falarques gritavam em êxtase.

-Agora vá, jovem herdeiro de Aswad. – disse a fênix, pairando com suas asas ardentes. – É preciso conhecer a razão de sua existência para ser capaz de liderar esta terra. Vá e descubra aquilo que ainda não sabe sobre o caminho que escolheu, e volte quando sua vontade for digna de guiar esse lugar assim como guia sua própria vida.

Deixando essas palavras, o Profeta das Fênix alçou voo, atravessando os céus como um sinal luminoso.

Profeta da Chama de Olíbano – Parte 1 segunda-feira, abr 25 2011 

Like the Phoenix i rise
From the ashes of life
I don’t need fortune or fame
Just some peace of mind

(Stratovarius – Phoenix)

Ofuscado por um raio de sol, Mash’al acordou com um sobressalto. Ao longe, o canto de algum pássaro tropical se ouvia, e o aroma de ervas perfumadas pairava no ar. Ele estava em um aposento circular de madeira, sem fazer ideia de como havia ido parar ali. Sentando-se na  rede onde estava deitado, ele examinou o local, percebendo que a sala não tinha portas, apenas janelas com o parapeito em forma de poleiro. -“Talvez seja apenas um sonho estranho”- pensou.  Uma brisa leve soprava nas árvores no lado de fora, movendo no chão um mosaico de luzes formado pelo teto de galhos entrelaçados. Nas paredes, vários objetos curiosos estavam pendurados: cestos de palha cilíndricos, lanças de caça decoradas, contas de sementes e outra meia dúzia de redes, todas vazias.

Ainda sonolento, o garoto voltou a deitar, deixando que pensamentos dispersos ocupassem sua mente. Seu irmão mais velho havia sido assassinado na fronteira há apenas algumas semanas. Desde então, Mash’al passara a ser o herdeiro legítimo do Califa de Al-Dasht. Ele nunca havia desejado a vida palaciana, se dedicando ao trabalhos na Guilda dos Engenheiros de Mavi para poder um dia deixar sua nação isolada. Mas o destino sempre parecia já ter feito as escolhas por ele. A Rainha Ifrit, com seu terrível olhar incandescente, anunciara que era a hora dele assumir sua linhagem de sangue, ao invés de se ocupar com desejos egoístas.

Em um suspiro de frustração, ele se lembrou de que o problema ainda não terminava ali, ao vislumbrar o anel de noivado em sua mão. Amirah, a filha do Sultão de Jezirat, estava destinada a se unir a ele em um casamento diplomático das duas tribos que governavam Al-Dasht: Aswad do Deserto e Jezirat das Ilhas Distantes. A frieza e seriedade da princesa  de longos cabelos negros irritavam Mash’al profundamente, e a única coisa que os dois compartilhavam entre si era a  repulsa pela ideia de em breve se tornarem marido e esposa. Afinal, a antipatia passional do herdeiro de Aswad era correspondida pela princesa com um desprezo tão sarcástico que ele sentia suas vísceras se revirarem de ódio, e foi com um grande alívio que ele havia encontrado a esperança de ao menos por um tempo fugir daquele inferno de obrigações, conseguindo com a ajuda dos Engenheiros de Mavi uma recomendação para estudar no Instituto Marque de Sauge, na nação estrangeira de Aurin.

Enquanto ainda estava distraído em seus pensamentos, um súbito baque fez com que o garoto se revirasse na rede, caindo de cara no chão. Quando voltou o rosto na direção do som, ele viu um ser com cabeça de pássaro pousado em uma das janelas. Era um falarque, um habitante das florestas a oeste da capital governada pelo Califa. Aquele era um jovem caçador inexperiente, a julgar pelas poucas tatuagens em sua pele cor de areia. As penas alaranjadas tinham um aspecto bagunçado, e uma bandagem de linho estava amarrada em seu bico. Seus pés de gavião agarravam com firmeza o poleiro, enquanto as mãos agarravam com firmeza um arco feito da carcaça de uma grande libélula. Apesar da postura ameaçadora, seu olhar para Mash’al era o de uma ave curiosa, virando a cabeça um pouco de lado para estudar melhor as chamativas vestes vermelhas do rapaz caído.

-Pegue suas coisas rápido. Você dormiu muito. O Profeta vai falar com você – grasnou o falarque, saltando para o lado de fora.

Mavi quarta-feira, abr 20 2011 

Uma longa e sinuosa trilha atravessa o Planalto da Lua, cruzando desfiladeiros e escadarias de rocha branca até chegar ao pé de um alto penhasco, de onde se erguem cúpulas e minaretes azulados como uma miragem em meio à aridez.

Esta é Mavi – Capital do Califado, lar da Tribo de Aswad e destino das caravanas que vagam pelas areias de Sharesukteh.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

O Souk (Mercado)

É preciso cuidado para não se perder no labirinto que é o Souk de Mavi, com centenas de lojas dispostas no interior de gigantescos  arcos ou em ruas estreitas. Uma multidão de pessoas trajadas com turbantes, véus e chapéis cônicos vermelhos transita sem parar, indo cuidar de seus negócios, se entreter nas danças de espada ao ar livre  ou tomar um kahve nas casas de chá, cujo interior desaparece na fumaça dos narguilés. Grande parte das lojas locais negocia itens como tapeçarias, montarias ou artefatos de vidro e latão. Também é possível encontrar itens mais raros, como os preciosos incensos sagrados feitos com olíbano, a resina das árvores em que as fênix fazem seus ninhos. Sendo Aswad uma tribo guerreira, as tendas de armas expõem suas cimitarras temperadas e mosquetes de longo alcance com todo o orgulho que sua tradição carrega.

O Distrito dos Engenheiros

O sistema de distribuição de água de Mavi é formado por uma rede de imensos canos de latão. Eles se cruzam por toda a cidade, mergulhando sob as ruas, surgindo junto às paredes ou se reunindo em caixas d’água fumegantes. É esse encanamento que alimenta as oficinas à vapor dos Engenheiros de Mavi. O Distrito ocupado pelas usinas e laboratórios dos Engenheiros é uma verdadeira selva de tubulações e guindastes. Os canos gigantescos são habitados por máquinas parecidas com insetos mecânicos, construídas pelos Engenheiros para a manutenção dos mesmos. É comum encontrar clockworks nesse distrito, trabalhando nas fábricas dos Engenheiros enquanto buscam pistas sobre seu passado.

O Templo de Mitra

Os patronos principais de Mavi são um trio de Aeons irmãs: Mitra, a sábia juíza; Uzza, a guerreira protetora; e Manat, a anciã que segura uma ampulheta. A cultura de Al-Dasht não ergue estátuas à imagem dos Aeons. Por isso, o grandioso Templo de Mitra possui apenas paredes de ébano revestidas com arabescos e inscrições douradas, representando textos sagrados. Nos extensos salões, perfumados por mirra e incenso de fênix, se reúnem os paladinos de Mitra. Para aqueles acostumados aos graciosos soldados celestiais, a visão desses soturnos vingadores, que seguem o caminho conhecido como Jyhad, pode ser surpreendente.

O Palácio de Aswad

No centro de Mavi o Palácio da Tribo de Aswad assoma imponente, sua imensa cúpula azul cercada por minaretes. A própria Rainha Ifrit, responsável pelo pacto com o líder de Aswad séculos atrás, protege o lugar. Ra’idah, a Rainha Ifrit, é uma bela e majestosa mulher de olhar feroz e longos cabelos vermelhos. Ela se senta junto ao trono do Califa Misbah, senhor de toda Al-Dasht, um homem austero, que perdeu seu filho mais velho na fronteira e agora tem que adequar ao trono seu outro herdeiro Mash’al, que não parece muito feliz com seu destino.

Introdução – Mavi quinta-feira, abr 14 2011 

Ubyr balançava distraidamente sua taça de absinto, quando um grito de dor no corredor próximo desviou sua atenção. O cavaleiro Mutaharrik havia caído ao chão, provavelmente ao tentar reagir, e agora era espancado pelos dois soldados que o mantinham preso. Se afastando daquela cena deprimente, o alto homem moreno caminhou entre as prateleiras de livros até encontrar a cientista debruçada sobre uma mesa, os óculos refletindo a chama das velas que iluminavam o local. Ela sim era algo que valia a pena admirar, com seu corpo bem formado se insinuando no uniforme justo que usava. Se aproximando devagar pelas costas da mulher, Ubyr ficou alguns segundos apenas sentindo o perfume delicado em sua nuca, onde fios de cabelos rebeldes escapavam do coque amarrado no alto da cabeça.

-Encontrou o que procurava, senhorita Sabine? – falou então de repente, fazendo com que a cientista se virasse de súbito com a mão no coração, falando assustada -Oh! Herr Ubyr! Há quanto tempo está aqui? – Ele respondeu apenas com um suave sorriso, não se afastando nem um pouco dos poucos centímetros a que estava do rosto dela – Encontrei sim! – respondeu Sabine, saindo daquela posição embaraçosa e começando a recolher os livros – Está tudo aqui! Os manuscritos dos Engenheiros de Mavi, os planos para os homens de latão… – ela levantou o rosto para encará-lo – o Führer ficará muito satisfeito com a sua colaboração! Agora, se me der licença, eu e os rapazes temos outros assuntos da Ordem a tratar na cidade…

-Ir embora? Justo agora que estamos nos conhecendo melhor? – a expressão de Ubyr era de sarcasmo, mas seus olhos verdes faiscavam, dando àquele homem de porte elegante, vestido como um nobre do deserto e com os cabelos cacheados presos em um rabo de cavalo, uma aparência realmente ameaçadora. “olhos verdes como absinto” pensou Sabine antes de falar – Temos um trato, Herr Ubyr! – disse ela enquanto o homem tranquilamente abria a janela, fazendo a brisa noturna apagar as velas espalhadas pela biblioteca – Te entregamos o guerreiro de Mitra, e você nos entrega os manuscritos!

-Sim… – sibilou Ubyr na escuridão, apenas o brilho selvagem em seus olhos podendo ser visto enquanto se aproximava – Eles são todos seus! O que não significa que poderá deixar esse lugar com eles… – outros gritos vieram do corredor distante, desta vez não apenas do paladino, mas também dos soldados que o vigiavam. Sabine também gritou, mas seu grito era apenas de terror, pois o que veio em seguida foi um súbito êxtase, algo quente e inebriante como um gole de absinto, que a fez se contorcer de prazer ao sentir os caninos penetrarem na garganta.

Ubyr sempre era gentil com as damas que trazia até seu refúgio na grande Biblioteca de Mavi.

Criaturas de Sharesukteh terça-feira, abr 12 2011 

Rosa do Deserto

Sweet desert rose
Each of her veils, a secret promise
This desert flower
No sweet perfume ever tortured me more than this

(Sting – Desert Rose)

 
 

Nos Oásis das Fadas cresce uma flor mágica, cultivada pelos Sidhe. Suas pétalas com aspecto sedoso são de um rosa avermelhado, sustentadas por vinhas púrpuras e porosas, onde crescem folhas verde-escuras. O odor dessas flores entorpece os sentidos, deixando as vítimas mais suscetíveis aos ardis do povo feérico. Tal perfume também jamais é esquecido por aqueles que o sentem, intensificando a obsessão causada pelo feitiço de um Oásis das Fadas. O que poucos sabem é que a planta também é usada pelos Sidhe para punir aqueles que os ofendem ou ameaçam. A rosa do deserto possui mobilidade, rastejando atrás daqueles que tentam fugir da cólera das fadas e os prendendo ao solo, onde podem dar ao capturado uma morte lenta e dolorosa exalando sua seiva tóxica através dos poros no caule.

Nesnas

O nesnás é “a metade de um ser humano; tem meia cabeça, meio corpo, um braço e uma perna; salta com suma agilidade” (…)

(Jorge Luis Borges – O Livro dos Seres Imaginários)

Entre os pesadelos vivos que caminham entre as nuvens de pó cinzento de Vahadine está o nesnás. Estas criaturas se parecem com um humanóide ressequido e cadavérico, mas seus corpos bizarros parecem possuir apenas uma metade cortada verticalmente, a carne, ossos e órgãos expostos ao longo da “ferida”. A verdade é que a outra metade não é corpórea, mas sim constituída de ar e poeira, visível apenas quando o monstro a transforma em um redemoinho para atacar. Nesses momentos, o nesnás parece ter sua outra metade oculta pelo ciclone de poeira, quando na verdade ela é o próprio ciclone. Tal capacidade gerou rumores de que os nesnás possam ser resultado do cruzamento de um humano com um espírito do vento, talvez deformados pelo mesmo poder que devastou Vahadine. Essa teoria causa bastante medo e inquietação entre a Tribo de Balkis, principalmente depois que alguns membros da tribo expostos a Vahadine começaram a manifestar algo que está sendo chamado de “a maldição do pó”.

Cronomante da Areia

Ouvi um lamento e vi uma tempestade de areia se movendo em meio às pedras antigas, muito embora o céu fosse claro e estivessem quietas as vastidões do deserto.

(H.P.Lovecraft – A Cidade sem Nome)

Entre os habitantes das paisagens de Aether em Vahadine, estão as misteriosas entidades conhecidas como cronomantes da areia. Essas figuras veladas parecem ter uma ligação com Manat, a Aeon que em Al-Dasht representa a passagem implacável do tempo. Estando além da contagem dos éons, eles existem ao mesmo tempo em todas as eras. Isso os torna secos e impassíveis, seres para quem todos os acontecimentos são como miragens efêmeras. Grande parte de seus poderes vem das grandes ampulhetas de bronze e cristal que carregam. Estes artefatos permitem que eles manipulem o fluxo do tempo ao seu redor e convoquem espíritos da areia para protegê-los.

Galeria – Engenheiros de Mavi sexta-feira, abr 8 2011 

Sempre atarefados, às vezes carregando pesadas e estranhas ferramentas ou conduzindo máquinas de latão a vapor, os Engenheiros de Mavi são facilmente reconhecidos nas ruas, fábricas e arsenais da capital que lhes dá nome. Esses sujeitos com uniformes vermelhos e óculos de couro são inventores, mecânicos e armeiros que representam a instituição mais famosa de Al-Dasht, cujo símbolo é um escaravelho de asas abertas com engrenagens no lugar do abdômen.

Famosa em todo o mundo, a guilda dos Engenheiros é antiga e teve início já na época da guerra contra a Tribo de Iblis, quando os Ifrits e os Dragões de Latão ensinaram a Tribo de Aswad a manipular os metais de maneira mais eficiente, ganhando assim uma vantagem militar. Não satisfeitos apenas com seus autômatos de latão, eles continuaram a buscar maneiras de aprimorar seu poderio bélico contra a tribo inimiga, encontrando aliados na alquimia de Jezirat e na pólvora de Ming. Finalmente, após a expulsão da tribo de Iblis, os Engenheiros se formalizaram como uma instituição científica e passaram a direcionar suas pesquisas para fins mais pacíficos. A Tribo de Aswad deve muito a eles pela edificação de Mavi, principalmente pelo conhecimento usado nas edificações e na canalização de água na cidade, algo que apenas uma tecnologia avançada poderia conseguir de maneira eficiente em uma terra inóspita como Sharesukteh.

Atualmente, o grupo trabalha em inúmeros projetos, entre eles a extração de minérios do Planalto da Lua e a lendária Ferrovia do Aether nas Dunas. Representantes dos Engenheiros costumam observar os estrangeiros em Mavi, e quando percebem alguém promissor no campo das ciências que utilizam, se aproximam oferecendo uma troca de conhecimento ou até mesmo um lugar honorário na guilda de inventores. Acredita-se que experimentos que mais tarde inspiraram a criação da raça artificial conhecida como clockwork tenham sido realizados pelos Engenheiros. Clockworks que buscam entender melhor sua origem às vezes atravessam o deserto em busca das oficinas dos Engenheiros, despertando a curiosidade dos mesmos e obviamente recebendo propostas em troca de serviços como “material de estudo”.

Mapa de Sharesukteh quinta-feira, abr 7 2011 

Sharesukteh tem como área predominante as Dunas do Céu sem Fim.

Sua capital, Mavi, está situada no Planalto da Lua, a oeste.

Na margem sudoeste do Planalto fica Vahadine: antes uma cidade fabulosa, agora um lago de poeira onde tempestades de areia escondem inquietantes ruínas.

A oeste de Sharesukteh fica o Sultanato de Jezirat. O deserto também faz fronteira com Ashrana ao sul e com o Império Ming a leste e norte.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Planalto da Lua

Esta imensa formação natural, palco da principal lenda da história de Al-Dasht, abriga atualmente a Tribo de Aswad junto com o centro de seu Califado, Mavi. O movimento de caravanas de mercadores e viajantes é constante devido a presença da capital. Os Engenheiros de Mavi operam algumas minas na região, utilizando barulhentas máquinas de latão a vapor. O planalto é formado por um material vulcânico branco e maleável, que cria uma paisagem surreal incrementada pelas formações menores ao seu redor, que têm a forma de minaretes, cones e “chaminés de fada”.  Essas formações, assim como os antigos vilarejos escavados na rocha, possuem ligação com Aether e servem de abrigo a  espíritos do fogo, sendo alguns encontrados apenas no Planalto, como os Ifrits e Azers. Mas é nas perfumadas florestas de olíbano a oeste, as margens do mar que conduz até as Ilhas de Jezirat, que as sagradas fênix constroem seus ninhos, protegidas pelo povo-pássaro conhecido como Falarque.

Dunas do Céu sem Fim

A visão se perde na paisagem extensa e onírica destas dunas de areias brancas, onde vivem os poucos remanescentes da Tribo de Balkis, trazidos de volta a uma existência nômade depois de sua cidadela desaparecer. Estranhas propriedades presentes nas Dunas deram origem a diversas histórias e relatos de pessoas que parecem ter atravessado as fronteiras do tempo e do espaço. Tanto os Engenheiros de Mavi como o Instituto Marque de Sauge possuem enorme interesse em tais propriedades, e ambas as instituições  trabalham juntas em plataformas de ferro construídas sobre a areia. Tais plataformas extraem amostras das profundezas das Dunas,  enquanto os Engenheiros começam a elaborar um projeto insólito: uma ferrovia capaz de  levar seus passageiros ao Aether… e ao que estiver além.

Todas essas  instalações são protegidas com radares e campos magnéticos  contra um dos  maiores perigos da região: os gigantescos vermes da areia  que,  ironicamente, acabaram por se provar um elemento crucial na pesquisa  após  a descoberta de que eles possuem em seus corpos um estranho material  reativo ao Aether. Outra ameaça aos pesquisadores é a própria Tribo de  Balkis, que  tenta sabotar as pesquisas alegando que o segredo das Dunas é  algo perigoso,  que não deve cair em mãos ambiciosas. Escondidos em rochedos e oásis, os nômades se protegem como podem das tropas de segurança de Aswad e Aurin. Além de seus aliados Djinn, eles também contam com o acordo de uma Corte Sidhe que controla alguns oásis da região,  lugares perigosos onde os mais incautos podem acabar aprisionados, se  tornando escravos das fadas após provarem de sua ardilosa hospitalidade.

Vahadine

Muitas são as hipóteses que tentam explicar o Desvanecimento da Cidadela de Vahadine, mas seja qual for, o extenso mar de poeira aos pés do Planalto da Lua permanece como uma cicatriz inegável desse sombrio acontecimento. Tempestades incessantes obscurecem a região com nuvens cinzentas de pó, impedindo que se veja o que há na região além de suas margens. Existem relatos de pessoas que afirmam ter visitado Vahadine em seus sonhos, vislumbrando uma cidade soterrada de imensos pilares, onde estão guardados segredos antigos e proibidos. Se essa aura sombria que paira no local não é suficiente para manter viajantes afastados, os horrores que habitam as ondas de areia movediça cumprem esse papel. Atualmente, apenas algumas equipes de expedição atrás da verdade (ou de alguma relíquia valiosa) se aventuram no lugar, frequentemente utilizando veículos de um posto avançado dos Engenheiros de Mavi, próximo ao mar de poeira.

Introdução – Sharesukteh terça-feira, abr 5 2011 

O bote de metal deslizava veloz sobre as ondas de areia daquilo que havia um dia sido a Cidadela de Vahadine, o vento impulsionando com força as velas vermelhas com o símbolo dos Engenheiros de Mavi.  Hatshu sorria satisfeita enquanto manobrava entre os estranhos pilares de vidro que se erguiam  em todas as direções, vindos das profundezas do mar de poeira. “Cidade dos Pilares”, era assim que o velho louco da Biblioteca de Rosetta chamava Vahadine em seus sonhos. Aquela com certeza seria uma das maiores descobertas da década, porventura do século. Mas os segredos que se ocultavam ali não estavam desprotegidos, e a garota morena praguejou quando o bote subitamente estancou, como se houvesse ficado preso em algo.

Rapidamente a proa começou a se erguer, deixando claro que a embarcação não havia simplesmente batido em algo inerte. Escorregando até o mastro no qual ficou apoiada, ela viu Tezla, seu guarda-costas clockwork, ser agarrado por um tentáculo amarelado e puxado em direção à popa, onde uma boca circular rodeada por dentes afiados o aguardava. Felizmente, o autômato se provou uma refeição indigesta, cravando sua espada de lâmina irregular na boca da criatura e gritando para a garota – Este aqui é maior que os outros que encontramos lá atrás! Se não fizermos algo rápido vai engolir o bote inteiro! – Hatshu sabia exatamente o que fazer, vasculhando sua mochila com os olhos de âmbar e começando a montar uma espécie de canhão portátil com diversas peças mecânicas de latão.

-Espera aí! Agora não! Deixa eu sair daqui primeiro! – Tezla gritou em tom de alerta enquanto tentava se desvencilhar do monstro. Mas Hatshu respondeu apenas com um sorriso sádico, e ele teve certeza de ver aquela meio-ifrit de aparência tão dócil, com os cabelos prateados presos de maneira infantil, de repente assumir um ar diabólico quando ela gritou – LÁ VAI! – atirando diretamente na boca do monstro e levantando uma nuvem de poeira junto com a explosão. Tezla rodopiou por cima do bote de metal, caindo à frente dele e lá ficando com o rosto na areia, soltando um jato de vapor que deveria ter o mesmo efeito de um suspiro de frustração. Se levantando de onde havia caído sentada quando o bote retornou à posição original, Hatshu atirou uma corrente para ele antes que o clockwork afundasse na areia solta. – Fica tranquilo, Tez! Tua perna ficou presa lá no bicho, mas pelo menos o problema tá resolvido. Vou lá pegar pra consertar…- mal acabando de dizer isso, ela ouviu o som da criatura mergulhando, fugindo com a perna de Tezla entalada na garganta. – Ih… acho que devia ter usado mais pólvora…

-Se eu for capaz de sentir ódio, Hatshu, pode acreditar que o estou agora… – respondeu Tezla enquanto se arrastava.