Marais sábado, nov 22 2014 

Marais é um território aurinês, ocupado principalmente por colonos navegadores e descendentes de escravos iroqueses. A pirataria é bastante comum no litoral, fazendo com que mesmo capitães de Aurin necessitem de cuidado ao navegar pelas águas da região.

O Grande Bayou atravessa boa parte da área continental e é uma região pantanosa e extensa, um verdadeiro labirinto para aqueles que não conhecem seus segredos. Ele também abriga Port Vert, a capital da colônia local.

As Ilhas Campeche são um arquipélago tropical que serve a Aurin como local de cultivo e abastecimento de frutas e especiarias diversas, uma rota comercial frequentemente visada por corsários e bucaneiros.

A Terra da Rainha Lagarto é um mundo perdido de feras gigantes, uma vastidão montanhosa ocupada por uma selva hostil, onde apenas algumas tribos nativas conseguem sobreviver.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Grande Bayou

Grande Bayou

Formado pela lenta correnteza do Rio Lafitte e seus afluentes, o Grande Bayou corta o sul de Asabikesh como uma extensa faixa de terreno pantanoso, ocupado por inúmeras pequenas ilhas e florestas alagadas. Alguns pontos são largos o suficiente para permitir até mesmo a passagem de navios de grande porte, porém mais de uma embarcação já se perdeu ou encalhou sendo abandonada para apodrecer ou vagar sem rumo como um fantasma. As águas escuras e esverdeadas abrigam de camarões e mariscos usados na culinária local até feras como crocodilos, cágados gigantes e monstros vegetais. Na foz do Lafitte fica Port Vert, a maior cidade dos colonos aurineses na região. Pelo interior se podem encontrar pequenos vilarejos de pescadores, alguns deles bastante isolados e escondidos. Muitos deles são habitados pelos Levee, um povo mestiço famoso por suas festividades e superstições. Suas histórias acerca da região falam sobre comunidades de lobisomens conhecidos como Loup-Garou, cabanas de feiticeiros guardadas por servos zumbificados e sinistros locais de culto dedicados aos Horrores Antigos.

Ilhas Campeche

Ilhas Campeche

Um arquipélago de treze ilhas tropicais se distribui ao sul de Marais, com areias brancas, matas de coqueiros e águas de um intenso azul. Controladas por corsários de Aurin, elas tem seus portos e rotas de comércio administrados pela Esquadra Delfina, enquanto a Esquadra Seláquia também tem passe livre, mantendo boas relações com os nativos e auxiliando na defesa. Navios do Império Windlês são alvos de saques costumeiros nas águas ao norte, e seus produtos roubados ajudam a estimular o comércio marítimo na região. Porém, o arquipélago por sua vez é vítima frequente de ataques de piratas independentes vindos das Ilhas Marlim ao sul, que recentemente têm tentado estabelecer esconderijos nos pontos mais isolados das próprias Campeche. Esse campo de batalha marítimo mancha de sangue e destroços as praias paradisíacas, mas o perigo não intimida a ambição dos aventureiros que enchem os vilarejos espalhados nas ilhas maiores.

As comunidades de sereias e elfos do mar que vivem nas águas profundas costumam ter uma associação pacífica com os colonos aurineses, mas o mesmo não pode ser dito das tribos de homens-macaco pigmeus que vivem nas matas mais densas. Ninhos de monstros marinhos, tesouros enterrados e ruínas misteriosas são outros elementos que tornam as Campeche tão terríveis quanto fascinantes para seus visitantes. Ultimamente, a abundante promessa de riqueza e prazer tem atraído até mesmo seres como gênios e demônios para as ilhas, interessados nos desejos ardentes que se concentram no arquipélago.

Terra da Rainha Lagarto

Terra da Rainha Lagarto

Esquecida pelo tempo, a Terra da Rainha Lagarto é um santuário da Memória da Terra, uma ilha de matagais cobertos de neblina, vulcões ativos e imensas montanhas. Dinossauros e outras feras ancestrais caminham livremente pelo território da ilha, às vezes indo até a costa para se alimentarem de náufragos perdidos ou exploradores imprudentes. Aurin possui grande interesse nas riquezas naturais da ilha, em especial suas pedras preciosas e depósitos de óleo pétreo, mas sua maior dificuldade nessa empreitada está além dos ataques de animais selvagens. A própria Rainha Lagarto, uma fera sáurica desconhecida de proporções colossais que de alguma forma desenvolveu inteligência, protege suas terras com agressividade contra os invasores, comandando exércitos de humanoides reptilianos. Seus servos escamosos vivem em uma magnífica e antiga cidade de pedra, a última remanescente de uma série de ruínas que pode ser encontrada pela ilha. Nessa metrópole eles veneram sua soberana em seu trono de osso e diamante, se mantendo preparados para o eventual retorno dos horrores cósmicos que um dia devastaram seu reino. Nas profundezas da selva, vive também uma população de humanos nativos, deixados em paz pelos homens-lagarto que não consideram eles uma ameaça. Reclusos e endurecidos pela vida árdua no ambiente perigoso e infestado de monstros, os indígenas da ilha não estão exatamente abertos a confiar em estrangeiros, mas a necessidade de sobreviver costuma torná-los mais razoáveis em relação a ofertas de ajuda mútua.

Anúncios

Introdução – Marais domingo, nov 16 2014 

‘No calor abafado da escuridão eles arranham notas desafinadas, embalando uma noite de insônia e tormento’

A Rainha Bruxa de Marais. Era assim que a chamavam nas redondezas. O casebre de madeira parecia tão humilde quanto qualquer outro na região, mas não era preciso muita atenção para que Booziba sentisse que havia algo de especial naquele lugar. Uma trilha escavada no terreno úmido seguia em um rastro de serpente até o topo da colina, onde a cabana banhada pela lua cheia era guardada pelos crânios sorridentes de ancestrais. Crocodilos observavam silenciosos no abrigo das trevas, os olhares faiscantes de um fogo-fátuo convidando para uma morte certa. O doutor feiticeiro ignorava o perigo e seguia em frente, arrastando um pesado malote manchado de lama e sangue. Enxames de mosquitos se amontoavam sobre um pé que escapava da bagagem, pequenas gotas de rubi se fartando do néctar da carne. Mas não tocavam a pele negra de Booziba, pois seu corpo era pintado com ossos mágicos para repelir os espíritos famintos do pântano.

‘Dentro das paredes eles se arrastam invisíveis, até que a luz os chame para uma breve dança de paixão e declínio’

O doutor feiticeiro parou diante da porta bonita ladeada por vasos de planta, e bateu com a ponta de seu cajado. Ela se abriu sozinha dando passagem para um cômodo espaçoso iluminado por velas e perfumado pela fumaça de ervas. Uma mulher de pele escura como a noite estava sentada em uma cadeira de balanço, a cabeça coberta por um lenço colorido. Fumava um cigarro de palha enquanto cantarolava baixinho uma velha cantiga infantil.

Fazendo uma reverência, Booziba se agachou ao lado do malote e o abriu revelando em seu interior um senhor grisalho, preso por firmes amarras apesar do corpo macilento. Ainda estava respirando, mas entorpecido demais até para notar os cupins rastejando sobre seu corpo, as asas mais frágeis do que seus sonhos. Colocando cuidadosamente o homem inconsciente diante da anfitriã, o rapaz a encarou por trás dos dreadlocks em seu comprido penteado moicano e falou com em sua voz arrastada e tranquila:

-Trouxe a oferenda como suncê pediu, Tia Nancy. Esse daí num foi mole de pegá não, mas dá pra deixá suncê satisfeita inté a próxima lua.

‘Em cantos esquecidos do mundo elas caminham no ar, suspensas em fios prateados de astúcia e sonho’

A senhora colocou a mão em uma mesinha próxima e retirou um boneco de palha com as mesmas feições do homem amarrado diante de seus pés, o estendendo para Booziba enquanto falava em uma voz rouca e profunda:

-Sim, meu amado. Sabe o que tem que fazer. Mostra o dom que eu te ensinei e alimenta sua Tia.

O jovem doutor feiticeiro se sentou no chão com as pernas cruzadas, tirando uma agulha do bolso. De olhos fechados ele riscou o ar diante do boneco, até achar um lugar para fincar seu ferrão espiritual. Com a precisão de um cirurgião a ponta perfurou um ponto invisível, fazendo o cativo se contorcer em um súbito espasmo aterrorizado. O homem amarrado começou então a se debater furioso, um peixe fora de seu oceano de angústia e vício. Os olhos se cobriram de cinza enquanto ele gritava obscenidades com uma língua que não era a sua. Booziba permanecia calmo enquanto continuava sua operação, separando o espírito de seu paciente daquilo que o afligia. Em uma convulsão mais forte, um jato de fumaça negra escapou pela garganta do delirante, se agitando em formas monstruosas. Mas o demônio já estava preso em uma teia invisível, uma rede estendida sobre a encruzilhada dos mundos. Agarrado por quatro patas raiadas de aranha, ele foi arrastado até as presas de Tia Nancy. Todos os oito olhos vítreos da senhora tremeluziam de prazer enquanto a loa aranha se extasiava com sua refeição.

Confuso e desorientado, o homem no chão tentava focar sua visão nublada enquanto Booziba gentilmente o soltava de suas amarras, fumando um cigarro de palha enquanto cantarolava uma velha cantiga infantil.

Sombras da Enchente Turva – Parte 2 sábado, nov 8 2014 

Once again you see an in, discolored skin gives you away
So afraid you kindly gurgle, out a date for me

(Alice in Chains – Sludge Factory)

Não pude fazer nada além de assistir impotente e aterrorizado as águas escuras do dique se lançando sobre Harbor Mill, com a força devastadora de um leviatã desperto de seu sono. O vilarejo que era meu dever proteger, onde havia passado os últimos anos de minha vida criando laços e raízes, agora se desfazia em um assombroso mosaico de pedaços de construções levados pela enxurrada. Saí cambaleando apressado na direção da entrada da fábrica, largando os papéis que havia encontrado pelo caminho. Qualquer esperança que ainda tinha de salvar aquele lugar da condenação havia sido levada embora pela enchente impiedosa.

Mesmo no estado de urgência e confusão mental em que me encontrava, não pude deixar de notar uma mudança de comportamento por parte dos funcionários do moinho. Se antes eles apenas cumpriam suas tarefas alheios a tudo, agora se dispersavam como um enxame de formigas, disparando pelos corredores e escadas com rapidez. Apenas quando alcancei a saída foi que percebi que o alvoroço não era causado pela enchente que atingia suas casas lá embaixo, pois não era para onde eu estava que se dirigiam e sim para o norte da fábrica, na direção da represa. Era como se estivessem sendo convocados por um alarme, embora eu não ouvisse qualquer som lá dentro além dos passos da correria.

Um tremor percorreu meu corpo ao me lembrar do que havia lido nos documentos da fábrica. Estariam aqueles operários submissos recebendo um chamado de seu suposto mestre no fundo do dique? Não pude deixar de lamentar a existência miserável daqueles homens, entregues a uma servidão tão desmedida que os cegava até para as próprias famílias que poderiam estar se afogando na inundação. Eu era o único ali que parecia ter ciência do quanto a situação era grave, e quando os trabalhadores sumiram na direção da barragem arrebentada me senti horrivelmente só diante daquela tragédia, sem possuir quaisquer meios de enfrentá-la.

Nesse momento de desalento me sobreveio outra vez o senso de dever. Se não poderia ajudar as vítimas daquela calamidade, ao menos deveria usar de minha autoridade contra os operários, desertores de seu próprio sangue. Mesmo que estivessem sendo submetidos a um regime de escravidão, nada justificava aquela atitude indiferente. E se necessário fosse para fazê-los retornar ao juízo, enfrentaria o desumano dirigente que os havia deixado naquela situação deplorável, ainda que meu total desconhecimento a respeito de sua identidade enraizasse em minha mente uma desconfiança que continuava a se desenvolver nas mais temerosas suposições.

Foi com estranha surpresa que cheguei até a passarela que margeava a represa e encontrei o local inteiramente deserto, sem qualquer sinal dos operários que haviam seguido por aquele caminho. No fundo do dique, a água que não escoara pela abertura havia formado uma lagoa cuja superfície se agitava com a chuva incessante. Avistei então as escadas de ferro escurecido que conduziam até o lamaçal que rodeava o pequeno lago, e pensei ter visto alguns rastros se desfazendo no lodo ensopado. A baixa profundidade da água tornava impossível que o contingente da fábrica estivesse oculto ali, o que me fez considerar algum tipo de passagem submersa presente desde a construção do lugar.

A figura na capa de chuva que havia visto da janela também tinha desaparecido. Me aproximei um pouco mais da represa, analisando se seria prudente descer e investigar, quando fui tomado de assalto por uma súbita vertigem. Minha visão se tornou nublada, e por um instante tive a impressão de ver um corredor coberto de limo, por onde alguma coisa rastejava na escuridão. O devaneio não durou mais que alguns segundos, mas despertei apenas quando já me encontrava quase despencando para dentro do tanque. A sorte e o preparo físico de minha função me salvaram por um triz, e agarrei rapidamente na beirada do dique enquanto meus pés escorregavam para a morte certa.

Me arrastei de volta para a segurança com dificuldade, sentindo a tontura voltar cada vez que o esforço me fazia perder a concentração em ficar alerta. Era como se aquela imagem do corredor insistisse em invadir meus pensamentos, sem jamais se tornar nítida o bastante para me permitir enxergar o que ela tentava mostrar. Não que isso fosse algo desfavorável, pois a forma sinistra que deslizava através da visão sugeria algo que só poderia sair de um pesadelo. Me questionando se a causa daquilo não seria simplesmente o cansaço pela falta de sono da noite anterior após o crime bárbaro, me afastei daquele lugar perigoso com a sensação constante de que algo me observava das águas inquietas abaixo.

O nível da inundação sobre o vilarejo já havia baixado o suficiente para que eu pudesse deixar o moinho e começar uma busca por sobreviventes nas ruas. Com a água nos meus joelhos, trafeguei com cuidado entre as pilhas flutuantes de entulho que ocupavam a paisagem desoladora e arruinada. Não era fácil vislumbrar o lugar que era minha morada reduzido a um labirinto de destroços, mas logo a angústia foi dando lugar a uma crescente interrogação. A despeito da rápida e devastadora catástrofe, o número de cadáveres que havia encontrado boiando na chuva ou espremido entre os escombros era bem menor do que o esperado, mesmo nas minhas estimativas mais otimistas.

Foi quando me aproximava das docas que o encontrei, olhando na direção do mar em sua capa de lona grossa e amarelada. Me perturbava imensamente a maneira indiferente como reagia à devastação ao seu redor, e o cheiro oleoso de peixe que não conseguia discernir ter origem em suas vestes ou nos depósitos de pescado em ruínas. Ele era como um fantasma da extinta Harbor Mill, um ceifador nascido da enchente que contemplava sua obra hedionda de destruição. E ao me aproximar, ele me encarou com a face repulsiva e escamosa de um filho bastardo do oceano, sorrindo de forma demoníaca com seus dentes afiados de fera marinha.

Imediatamente recuei alguns passos, levando a mão ao cabo de meu machado. O sórdido mestiço permaneceu inabalável, apenas caminhando calmamente em minha direção. Ele então simplesmente parou diante de mim e me analisou com seu olhar inerte debaixo da chuva que aos poucos voltava a aumentar. Sua mão direita carregava um peixe ainda fresco, que escorria sangue por onde sua cabeça havia sido arrancada. Engoli em seco ao me dar conta que aquele certamente era o assassino brutal que havia deixado suas vítimas na praça e na fábrica. Sua postura insensível e o sorriso atroz em seu rosto eliminavam a possibilidade de sua presença ali ser apenas coincidência.

Eu precisava me manter preparado para qualquer movimento suspeito vindo daquela figura ameaçadora, embora soubesse que eram ínfimas minhas chances em um combate corporal. Minha pistola de pederneira estava oculta pelo sobretudo, ao alcance de minha mão, e o elemento surpresa era meu único plano de sobrevivência naquele momento. O homem-peixe porém continuou onde estava, e falou comigo em uma voz tranquila porém áspera, como se houvessem outras fileiras de presas descendo até sua garganta. ‘Eles estão no mar, homenzinho. Seguros em seus barcos. Todos eles já sabiam o que ia acontecer. Eles ouviram o chamado.’

Demorei um instante para compreender que ele estava falando sobre os habitantes das docas. Desviei meu olhar por um breve instante para o mar e pude distinguir na distância as formas escuras das embarcações flutuando sobre as ondas agitadas. Agora se tornava evidente que até mesmo os esquivos pescadores de Harbor Mill estavam envolvidos no esquema abominável que aos poucos se revelava enquanto as águas da inundação baixavam sobre o vilarejo. Tentando me manter calmo enquanto o sujeito medonho permanecia afastado, arrisquei questioná-lo enquanto me mantinha pronto para reagir: -O que significa tudo isso? Por que matou aqueles homens na fábrica?

O homem-peixe simplesmente virou as costas para mim e seguiu seu caminho, enquanto falava desinteressado. ‘Isso não é assunto seu, policial. Agradeça por estar vivo e dê o fora desse lugar. Não há mais nada para você aqui’. Minha vontade foi de aproveitar a oportunidade para disparar contra ele pelas costas, mas mesmo que conseguisse executá-lo isso não me traria respostas ou encerraria o assunto. Ele era apenas o estopim de todos aqueles acontecimentos sinistros, e indubitavelmente sabia sobre o que estava oculto abaixo da superfície. Foi por essa razão que tomei a decisão descuidada de segui-lo em silêncio, algo de que tardiamente me arrependeria.

Não foi uma tarefa simples acompanhá-lo entre os destroços do cais, chapinhando entre a água que ainda escoava da represa e a rebentação do oceano. Durante o percurso, pensei ter ouvido um cântico agourento vindo dos barcos distantes, mas qualquer distração poderia fazer com que eu perdesse o sujeito de vista. Quando finalmente ele parou, eu já me encontrava completamente exausto e coberto de lama da cintura para baixo. O homem-peixe estava diante da abertura circular de um cano de escoamento de esgoto, rodeada por grandes pedaços de escombros. Dentro da tubulação, eu conseguia entrever alguns símbolos singulares, desenhados em uma curiosa tinta de pigmentação azul-elétrica.

Me esgueirando por trás de uma parede de tijolos em ruínas, me acerquei com cuidado e constatei que aquele encanamento só poderia pertencer à fábrica do vilarejo, dadas as suas proporções. Tudo começava a fazer sentido. As marcas azuis no duto tinham o propósito de sinalizar aquele ponto, provavelmente uma rota de fuga dos operários que havia perdido de vista mais cedo. Afastei a água da chuva que escorria pelo meu rosto para enxergá-las melhor quando subitamente a vertigem que havia sentido na represa retornou. Tentei ignorá-la a princípio, mas a maneira como o homem na capa de chuva parecia se preparar me dava a incômoda impressão de que alguma coisa terrível se aproximava.

Nem minha pior perspectiva da situação me deixaria preparado para o que veio a seguir. A coisa volumosa e hedionda surgiu se arrastando pelo interior do cano, exatamente como havia visto em minha visão no dique. Era algo imensuravelmente grotesco, um monstro de corpo oleaginoso da cor do lodo, que se contorcia através da passagem enquanto seus longos tentáculos se contorciam como enguias desvairadas. Mais hórrido do que seu aspecto, no entanto, era o brilho sórdido que emanava dos seus três olhos, me enxergando com uma inteligência vil que se insinuava em minha mente. Aquele era o verdadeiro proprietário do moinho, desejando que eu me tornasse mais um de seus empregados.

Em minha angústia eu entendia o inferno que se abateria em breve sobre o vilarejo, com aquela criatura repulsiva assumindo o controle de cada alma condenada ao seu alcance. Me tornaria mais um entre seus pálidos funcionários, perdendo minha própria identidade na rotina apática e sufocante da fábrica até chegar minha vez de ser deformado nas galerias submersas. Ao erguer a pistola na direção do homem-peixe, cheguei a cogitar disparar em minha própria têmpora para evitar esse insuportável destino, mas para meu absoluto horror essa decisão já me havia sido negada, com todos os meus movimentos agora conduzidos pelo imundo mestre que se aboletava nas profundezas de Harbor Mill.

Não há como descrever os momentos em que fiquei a mercê da presença psíquica daquela abominável entidade de pesadelo, com meus músculos convulsionando contra minha vontade e os dentes batendo em um espasmo frenético. Tudo o que me recordo é de ter atirado contra o homem na capa de chuva, que parecia já estar preparado para aquilo. Escapando de meu disparo, o mestiço avançou em minha direção enquanto o monstro na tubulação parecia de alguma forma impedido de sair pelos símbolos pintados lá dentro. As figuras brilhavam em uma luz intensa e espectral, e só então compreendi que não estavam ali para sinalizar o cano, e sim como um encantamento para impedir aquela coisa de escapar.

Mesmo aprisionado, aquele horror aberrante continuava a me manipular como uma marionete, utilizando-me para enfrentar seu carcereiro enquanto observava com uma calma aterrorizante. Sem nada poder fazer além de assistir de dentro do corpo que me havia sido usurpado, ergui o machado pronto para defender aquele monstro repugnante como um obediente cão de guarda. Antes que eu pudesse desferir o golpe, o homem-peixe agarrou meu antebraço com uma força descomunal, levando sua outra mão membranosa até minha garganta. Seus olhos que nunca piscavam eram tão frios e inumanos quanto os do monstro na tubulação, e eu sabia que ele não teria hesitação em rasgar meu pescoço.

Jamais saberei se foi o preciso controle que a criatura exercia sobre mim ou o instinto de sobrevivência que agiu naquele momento, mas com um movimento mais ágil do que teria tempo de pensar, apanhei minha faca da cintura e a usei para perfurar a mão que me sufocava. Com um grito de dor e surpresa do assassino consegui me libertar do aperto, mas o alívio durou apenas por um instante antes que uma brutal mordida dilacerasse meu braço esquerdo. Com a dor excruciante da ferida aberta, eu não percebi de imediato que havia recuperado o controle sobre meu corpo, e que o horror da represa aproveitava a distração de meu algoz para deslizar de volta ao seu imundo covil na escuridão úmida dos esgotos.

Foi a fuga oportuna daquele terror inominável que, ironicamente, me salvou de ser esquartejado pelo assassino enfurecido. Com uma careta de desaprovação, o homem-peixe quebrou meu outro braço em um movimento brusco, me empurrando com violência na direção do mar antes de sair em perseguição à criatura pelo duto. Incapaz de impedir minha queda, escorreguei pela superfície íngreme e enlameada até mergulhar nas águas escuras e turvadas pela chuva, deixando um rastro de sangue através do horrível ferimento causado pela mordida enquanto afundava. Minhas pernas se debatiam mas não conseguiam vencer a rebentação das ondas, e nesse infrutífero esforço eu senti meu fôlego se esvaindo.

Tudo que me lembro a seguir são fragmentos confusos de luzes no fundo do oceano, brilhando com o mesmo azul intenso e fantasmagórico dos símbolos inarráveis gravados dentro das tubulações de Harbor Mill. Mais tarde eu despertei com o balanço vigoroso do mar, e me vi no interior de uma cabine em um navio à vapor. Cardis estava sentada perto de mim, observando pela pequena janela o forte temporal que se abatia lá fora. Tentei me erguer dos lençóis na vã esperança de que havia acabado de despertar de um pesadelo insano e horripilante, mas o choque agoniante que isso me causou foi sobrepujado apenas pela dor lancinante de meus braços enfaixados, um deles com a atadura ensopada de sangue.

Cardis e eu fomos os únicos sobreviventes encontrados pela tripulação do navio, além dos barcos de pescadores no meio da tempestade que não enviaram qualquer resposta aos sinais da embarcação. Ela jamais me disse como conseguiu escapar da inundação praticamente ilesa, e como me encontrou desacordado já quase sendo devorado pelos caranguejos no fundo do oceano. É possível que as histórias que outrora ouvi sobre ela ter em seu sangue a marca de uma bruxa do mar fossem afinal verdadeiras, mas tendo ela salvado a minha vida, não teria a ingratidão de insistir em um assunto que ela visivelmente não era aberta a falar. Todos temos horrores particulares que preferimos manter nas trevas da ignorância.

No presente momento, enquanto o Império se prepara para enviar soldados e especialistas até Harbor Mill, aproveitando a expansão da nova estrada de ferro, eu tento me readaptar à vida agitada no centro da colônia. As frivolidades cotidianas me distraem dos eventos traumáticos que presenciei, mas não consigo deixar de ouvir atentamente os rumores sobre um culto esotérico desautorizado por Sua Majestade crescendo entre as pequenas aldeias de pescadores do Novo Mundo. Sempre que avisto o agora infausto oceano, me pergunto se não estamos todos ilhados entre uma guerra de leviatãs, apenas aguardando que as águas turbulentas se ergam para sermos tragados por um abismo lúgubre e infindável.