Introdução – Khaldur sexta-feira, dez 30 2011 

Seguindo o ritmo da respiração da cidadela maldita, as paredes da sala da caldeira pulsavam com energia, seus pulmões de aço expelindo enxofre por um emaranhado de dutos e chaminés. Refinando pessoalmente sua obra-prima, Wazir analisava cuidadosamente cada placa de metal, reparando as imperfeições com um maçarico de metano. Ele se sentia revigorado pelo calor, como se ele mesmo fosse parte da gigantesca estrutura mecânica. Era dali, daquela paisagem de engrenagens e pistões, que nasceria um novo Império, onde toda a humanidade seria governada por seu intelecto superior, no momento em que suas legiões de máquinas demoníacas estivessem prontas para esmagar qualquer resistência contra sua ascensão.

Terminando enfim de verificar o topo da caldeira, o homem nanico parou para contemplar aquela maravilha da engenharia, enxugando o suor da testa e se permitindo um raro sorriso. As lentes de seu óculos de proteção refletiam a luz avermelhada que recobria todo o lugar. O novo combustível estava funcionando muito bem, mas era preciso mais para que seus planos na cidadela de Khaldur pudessem continuar. Foi então que, enquanto pensava em esquemas para contornar o problema, a porta da sala da caldeira se abriu com um baque surdo, quebrando sua concentração e o deixando profundamente irritado.

-Quem ousa adentrar o Coração de Khaldur? Anuncie-se agora ou irá servir de graxa para as engrenagens da Cidadela Infernal!

Enquanto pronunciava essas palavras, Wazir surgiu em meio á fumaça nas tubulações da parede. Ele estava montado em uma espécie de aranha mecânica, com uma face horrenda que sibilava vapor. As quelíceras do barulhento construto zuniam com serras hidráulicas abaixo de um único olho grande e esverdeado, com uma pupila fendida de réptil. Sobre a aranha, Wazir conseguia disfarçar sua pequena estatura e parecer ameaçador, os óculos e os dois tufos de cabelo espetado na careca lhe dando uma aparência diabólica. Mesmo assim, o visitante não pareceu se abalar nem um pouco, caminhando em sua direção e falando tranquilamente.

-Fascinante, Wazir. Suas frases ensaiadas ficam mais criativas a cada vez que venho para esse lugar desagradável. Mas infelizmente não foi desta vez que a ineficiência de seus autômatos sentinelas foi provada.

-Ora, se não é meu inepto irmão Fatin – resmungou o nanico, levantando os óculos – espero que haja um bom motivo para esta inoportuna visita.

O outro homem permaneceu calmo, apoiando as mãos na bengala com cabeça de chacal que trazia consigo. Completamente diferente de seu irmão, Fatin era um homem alto e esguio que se vestia de maneira elegante. Sua sombra parecia nunca estar no mesmo lugar, e na luz vermelha da caldeira assumia formas grotescas, como um demônio escondido em meio aos vapores mefíticos das chaminés. Prostrado sobre seu ombro, um camaleão exibia uma expressão apática, como se estivesse desinteressado demais para se mexer.

-Não me daria ao trabalho de vir até sua toca fétida se não fosse importante – continuou Fatin, repuxando o cavanhaque pontudo – o Capitão Caliban deixou a nossa hospitalidade esta tarde, partindo rumo ao norte. Recebi informações de que houve um ataque no porto de Ravenest. Suponho que sua vasta inteligência saiba o que isto significa.

-Mas é claro que eu sei – respondeu Wazir com um largo sorriso, enquanto guiava a aranha até o chão – com Caliban fora do caminho, nada mais poderá impedir Khaldur de se tornar o maior Império de Keleb! Nem os Caveiras Caolhas, nem a Tribo de Iblis, nem ninguém!

-Ouvi dizer que os Hassassin estão visando nossa cidade agora que Gehenna se foi – disse Fatin com um discreto sorriso, fazendo o irmão dar uma sonora gargalhada.

-Hassassin? Hassassin!? Aqueles cretinos não passam de treino de tiro para meus soldados mecânicos! Que venham rastejando como vermes! Até mesmo um amador como você é capaz de colocá-los no devido lugar!

-Sinto lhe dizer que tenho preocupações mais importantes no momento – respondeu o outro, arqueando uma sobrancelha – A Organização Mitternacht vem a cada dia ampliando sua sombra no horizonte. E  em breve eles irão tentar se apoderar daquilo que está debaixo das areias de Al-Gober.

Wazir conduziu a aranha até a caldeira, sem parecer dar muita atenção ás palavras do irmão.

-Não tenho interesse em sua magia ultrapassada! Os motores de Khaldur estão prontos! Quando estiverem totalmente carregados a cidadela irá deixar esse banco de areia imprestável e caminhará para o alvorecer sombrio de uma nova era!

A sombra do mais alto se remexeu inquieta nas paredes da sala, se inclinando ameaçadora sobre o núcleo fumegante.

-E enquanto isso não acontece, o que pretende fazer Wazir?

-Ora, o mesmo que faço todas as noites, Fatin – respondeu seu irmão estreitando os olhos – tentar dominar o mundo!

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Criaturas de Al-Gober terça-feira, dez 13 2011 

Mnemoth

Seu anseio é minha respiração. Deixem-me romper os casulos de sua feroz necessidade… libertar a energia reprimida para que brote direto no meu coração enxameado.

(Jamie Delano – Hellblazer #2)

Nascidos da fome e sofrimento dos Nômades Azuis, os demônios conhecidos como Mnemoth eram conhecidos apenas na tradição de Al-Gober, sendo representados em inúmeros rituais. Porém, com a recente libertação de Al-Azif, eles passaram a se materializar das profundezas do Aether, trazendo mais destruição para uma terra já desolada. A presença desses seres pode ser identificada por uma incomum infestação de moscas, mariposas e inúmeros outros tipos de pragas comuns, que se apoderam mesmo dos lugares onde estes demônios estejam aprisionados. Já quando vislumbrados diretamente, eles podem assumir a forma tanto de um grande enxame como de uma repugnante criatura que combina características de vários insetos. Apesar do aspecto feroz, o principal poder de Mnemoth é causar em suas vítimas uma fome incontrolável, que vai exaurindo suas forças até transformá-las em uma carcaça esquelética.  Muitos destes hospedeiros do demônio passam seus últimos momentos devorando toda comida disponível ao seu redor, chegando ao extremo de sofrer surtos canibais. O desejo frustrado é a essência e alimento de Mnemoth, e pode se estender a outros tipos de necessidade, embora estas variações ainda sejam raras.

Crocodilo Javali

Este carnívoro com 6 metros de comprimento tinha um focinho couraçado, usado como aríete, e três conjuntos de dentes para dilacerar presas. As cavidades oculares ampliavam a visão e facilitavam a caça, e os músculos conferiam maior força á mandíbula.

(Paul Sereno – National Geographic Novembro 2009: Os Crocodilos do Saara)

Al-Gober é o lar de diferentes espécies de crocodilos, de inofensivos répteis que habitam as matas costeiras a colossos mortais que se ocultam nos oásis da Aridez Sombria. Dentre esses animais está o Crocodilo Javali, um dos poucos predadores adaptados ás grandes extensões de deserto, cujas presas mais comuns são antílopes e elefantes. Chamado assim pelo par de presas inferiores que lembram um porco selvagem, esse maciço crocodiliano possui um corpo ao mesmo tempo ágil e robusto, com pernas longas e uma couraça óssea revestindo o dorso. Os homens-lagarto de Al-Gober utilizam estas bestas como montarias de guerra, capazes de transportar grupos inteiros de arqueiros de uma vez. Khaldur oferece grandes quantias por estes crocodilos treinados, que são utilizados nos combates sangrentos da Grande Arena.

Espreitador da Salmoura

Só a morte procria na água estagnada.

(Magic the Gathering – Pântano Salgado)

Os mangues avermelhados da Baía das Ondas de Fogo constituem um lugar inóspito para a maioria das formas de vida. Porém, é um engano acreditar que apenas águas-vivas se ocultam sob as águas cor de ferrugem. Humanoides grotescos, os espreitadores da salmoura possuem pele rugosa e alaranjada, cabeça cônica e uma membrana sob os braços, que lembra uma arraia quando a criatura está de costas. Os olhos de peixe são cobertos por uma membrana amarela, e os dentes irrigados por uma saliva esverdeada. Os Espreitadores da Salmoura possuem uma cultura primitiva, não usando qualquer tipo de arma ou ferramenta e se abrigando em cavernas subaquáticas. Apesar de temerem grandes embarcações, eles podem se tornar perigosos quando saem para as praias á noite em busca de alimento.

Galeria – Caveiras Caolhas sábado, dez 10 2011 

Sail away where no ball and chain
Can keep us from the roarin’ waves,
Together undivided but forever we’ll be free.

(Flogging Molly – Seven Deadly Sins)

Arruaceiros, matadores e bandidos da pior espécie. Assim são os Caveiras Caolhas, uma das quatro esquadras de corsários de Windlan. Formada principalmente por ex-presidiários e mercenários piratas, ela recebe todos aqueles que não possuem a disciplina para ingressar nos Dragões de Rubi ou a genialidade para se juntar aos Arautos do Vapor. Para um Caveira Caolha, nada vale mais a pena do que um baú cheio de ouro ou um carregamento de rum. Ambiciosos e violentos, estes cães do mar são os menos confiáveis a navegar sob a Coroa de Windlan, mas também são de longe os mais numerosos.

Todos os Caveiras Caolhas usam alguma peça de roupa com listras pretas e brancas, símbolo de suas antigas vidas à margem da lei. Junto a isso, costumam usar trajes típicos de piratas, com direito a tapa-olhos e bandanas, quase sempre negras. Muitos usam correntes ou algemas quebradas, como memórias do cárcere. Pernas de pau e mãos de gancho também são comuns, resultantes de velhos crimes ou das batalhas em alto-mar. Muitos de seus membros se juntaram ás tripulações para escapar da forca ou de campos de trabalho pesado, o que faz com que seja grande o número de orcs entre eles. Isso é evidente até mesmo no símbolo da esquadra, que exibe um crânio orc com um tapa-olho sobre ossos cruzados. Para assegurar que os contratos com Windlan sejam devidamente cumpridos, todos os Caveiras Caolhas obedecem a um Código Pirata, mantido com mão de ferro por Caliban, Capitão do Alma Negra e líder da esquadra. Temido mesmo entre as demais esquadras, o velho orc traz em sua barba os crânios dos antigos líderes tribais de sua raça, e é famoso pelo seu senso de honra e pela crueldade com aqueles que não o seguem.

Atualmente, os Caveiras Caolhas frequentam os Portos de Seawyrm e Greyport, disputando também Khaldur com os Piratas de Iblis. Estes últimos são inimigos de longa data da esquadra, travando confrontos sangrentos nos mares do continente de Artaban, que vem se estendendo a medida que ambos avançam em direção às águas mais ao sul. Os Caveiras possuem também uma rivalidade forte com os Navegantes da Bruma, causada pelo favoritismo da Rainha com a esquadra cigana, que recebe um maior número de contratos comerciais. Enquanto isso, a maioria das missões dos Caveiras envolvem ataques quase suicidas a embarcações e portos inimigos, fazendo com que a esquadra pirata sirva de linha de frente para a Marinha de Windlan. Engrossando a força de ataque marítima da Coroa e fazendo o trabalho sujo, os Caveiras Caolhas não levam uma vida das melhores, mas todos os seus integrantes concordam que é melhor dividir o lucro de suas pilhagens do que apodrecer nas celas úmidas de uma prisão.