Grimório – Espíritos sexta-feira, maio 22 2015 

Nem todas as almas daqueles que morrem em Keleb deixam completamente o mundo material para desaparecer no Aether. Quando ainda existe alguma ligação com o plano físico, esses Espíritos se utilizam dela para se manifestar ou até mesmo existir de forma permanente. Alguns possuem sua própria agenda e objetivos, que podem ser a âncora que os prendem ao mundo carnal. Outros são invocados por xamãs ou necromantes para prestar auxílio em uma tarefa específica ou para se tornarem subordinados de suas vontades. Diferentemente dos mortos-vivos sem mente gerados de forma espontânea ou artificial através da energia de Putridum, os Espíritos mantém memórias de suas antigas existências, e se agarram firmemente a elas mesmo quando suas consciências se corrompem no processo de existir como uma sombra no plano material. As lembranças são sua mais importante e por vezes única posse, e a única coisa que verdadeiramente os sustenta na pós-vida.

 Ancestrais

Os mais antigos e nobres entre os Espíritos são os Ancestrais, que costumam passar a maior parte do tempo em outras camadas do Aether, mas permanecem ligados ao plano material através de laços de hereditariedade e de herança cultural. Muitos são tratados por seus descendentes e discípulos de forma praticamente divina, executando funções parecidas com as dos Aeons. Guardiões de sua linhagem e da memória de seu povo, eles são convocados através de cerimônias especiais em seus túmulos consagrados, ou através de magias poderosas de evocadores de Espíritos. Ancestrais costumam assumir a forma de seres espectrais de energia luminosa, muito raramente assumindo uma forma corpórea. É possível encontrá-los entre os Loas do Continente Negro e nos Espíritos Totêmicos de diversas culturas xamanistas. Sua presença também é forte na magia divina dos Reinos Orientais, em especial nas Ilhas Akitsushima e no Império Ming. Algumas das antigas culturas de Aurin e Windlan também realizavam cultos aos Ancestrais, mas essas práticas estão hoje perdidas em suas civilizações modernas, sendo apenas um motivo de curiosidade para a comunidade científica.

Fantasmas

Pelo mundo inteiro existem histórias sobre lugares abandonados atormentados por assombrações. Sejam antigas mansões windlesas, fazendas de escravos aurinesas ou navios misteriosos flutuando à deriva pelo oceano. Quando um local é marcado por algum evento especialmente violento ou traumático, ou quando é exposto em demasia a certos tipos de influência mágica, existe uma grande possibilidade de que ele passe a ser o lar de Fantasmas, ecos de eventos passados que se manifestam através de aparições incorpóreas. Os Fantasmas mais comuns são formados pelas memórias de um único indivíduo, aprisionado no lugar que lhe serve de vínculo. Mas existem também aqueles que são formados por consciências coletivas, reunidas por um mesmo sentimento na hora da morte. Acorrentados em suas lembranças, os fantasmas se tornam alheios à passagem do tempo, realizando eternamente a mesma rotina até serem perturbados pela presença de uma nova consciência em seus domínios. A reação a essas intromissões não costuma ser amistosa, uma vez que devido à fragilidade de suas existências os Fantasmas são os Espíritos que mais facilmente sucumbem à loucura.

Retornados

Enquanto os Fantasmas são efeitos colaterais de acontecimentos que ferem a barreira do Aether, os Retornados são frutos da ação deliberada de forças sombrias como rituais e maldições, impulsionadas por memórias ligadas a sentimentos latentes como vingança, mágoa ou abandono. Atormentadas por seus desejos não realizados, as almas dos Retornados costumam ter uma aparência lúgubre, como uma sombra esquelética. Não é de todo incomum que um Retornado ainda possua seu próprio corpo, ainda que este se torne cadavérico e distorcido. Vinculados ao plano material pela vontade que não cumpriram em vida, os Retornados podem se transformar em criaturas terríveis, especialmente quando a loucura da não-vida confunde seus objetivos e os torna obstinados. Porém, alguns deles conseguem direcionar essa obsessão para algo mais positivo, transformando-se em espectros justiceiros ou mortos-vivos festivos, até que consigam alcançar o que precisam para poderem enfim descansar.

Eternos

Na escuridão fétida de seus túmulos decrépitos, os Eternos tramam contra o ciclo natural da vida enquanto sustentam o peso das eras. Diferente de outros Espíritos, que retornam do Aether após a morte por alguma ação externa, os Eternos persistem no mundo carnal pela fabricação de seus próprios vínculos, usando do amplo conhecimento sobre o pós-vida que possuem. Eles são os Lich das necrópoles gélidas do Norte, os Jiang Shi que corrompem monastérios inteiros no Império Ming e as Múmias Ancestrais das pirâmides de Tawosret. O aspecto que assumem como espíritos é o de uma figura enorme e imponente feita de névoa cinzenta, mas eles normalmente permanecem enclausurados em seus próprios cadáveres, que com o passar do tempo se tornam não mais do que pele e osso embrulhados em retalhos de antigas roupas extravagantes. Seus vínculos artificiais costumam ser um objeto de qualquer natureza, como um medalhão, livro ou arma, sempre guardado com extremo zelo. Uma vez tendo derrubado a barreira da morte, os Eternos anseiam por cada vez mais tempo para levar a cabo seus planos, criando exércitos de Retornados e mortos-vivos menores para protegê-los enquanto buscam feitiços que possam levá-los ainda mais longe, tentando alcançar um grau de poder e imortalidade que rivalize o dos Aeons.

Trovões na Selva Sufocante – Parte 2 quarta-feira, maio 6 2015 

Over on the mountain, thunder magic spoke
Let the people know my wisdom
Fill the land with smoke

(Creedence Celarwater Revival – Run Through the Jungle)

Regine disparou pela estreita faixa de vegetação que separava o acampamento da praia, afastando com as mãos as estranhas samambaias e cipós que atrapalhavam seu avanço. Um bando de pequenos lagartos emplumados seguia na direção contrária, dardejando sobre as raízes ou entre suas pernas e alçando um voo desengonçado quando encontravam espaço. Estavam fugindo alvoroçados dos tiros que haviam sido disparados na baía, e a antropóloga teve que saltar para o lado quando um réptil branco e rechonchudo do tamanho de um búfalo surgiu trombando nas árvores, e quase a atropelou com seu corpo galináceo enquanto grasnava alarmado com seu bico cheio de dentes.

No litoral pedregoso e coberto de palmeiras da ilha, a Erichto estava amarrada em um dos rochedos mais altos, flutuando a uma certa distância. Alguns botes de madeira tinham se juntado ao de Regine na espuma fervilhante, e ela não precisou procurar muito para encontrar um grupo de tripulantes que também havia deixado a aeronave para explorar o local. Damien Chandelier estava entre eles, segurando sua espingarda de ferro negro e discutindo com os demais. Quando Regine se aproximou para saber o motivo da confusão, conseguiu enxergar atrás dos homens um dinossauro estendido na areia, que parecia ter sido recém-abatido.

Era um deinonico, uma fera bípede com o porte de um cavalo médio e coberta por uma penugem rala e arrepiada. Um par de garras maciças em formato de foice se estendiam de seus pés, como se ainda tentassem rasgar seus algozes. Os olhos eram de um amarelo vicioso, cortados por pupilas fendidas, e a boca permanecia aberta em um rosnado silente. Mesmo depois de morto, ele parecia zombar da audácia daqueles forasteiros em acharem que suas armas seriam suficientes para vencer a natureza indomável da ilha. Natureza que permanecia manifestada na imagem da garota que estava de pé diante deles, em uma postura agressiva como a de um animal acuado.

Regine ainda conseguia reconhecer Beatrice pelo retrato que trazia consigo, mas agora entendia a preocupação do ancião da aldeia. Aquela menina não era como os Nakna’Ohti, que lutavam apenas para sobreviver de acordo com as leis da Terra da Rainha Lagarto. Em seus olhos havia um frenesi selvagem e sedento, e a adaga de osso que segurava com firmeza na mão esquerda gotejava sangue. Ela arfava e rosnava entre os dentes cerrados, os pés se movendo nervosamente de um lado para outro enquanto os tripulantes da Erichto a cercavam com as espingardas apontadas, sem parecer chegar a um acordo sobre como lidar com a situação.

-O que vocês pensam que estão fazendo? – gritou a antropóloga correndo apressada até o grupo, sentindo um nó em sua garganta. Alguns dos homens mais afastados estavam feridos, e seu temor sobre aqueles machucados não terem sido causados pelo animal foram confirmados quando Damien explicou a situação sem tirar os olhos de Beatrice: -Nós viemos até a baía caçar caranguejos-de-pedra e descobrimos esse lagarto emplumado nos espreitando. Então eu disse ‘Vejam amigos, não é um belo troféu para levarmos até Port Vert?’ e atiramos nele. Foi quando essa mulher-da-selva enlouquecida apareceu do nada e nos atacou! Quase arrancou o braço do Bernard com aquela faca!

Zut! É claro que ela atacou, Damien! Abaixem essas armas, estão assustando ela! – bradou Regine com indignação, afastando os canos dos rifles com as mãos. Não acreditava que eles estavam quase estragando tudo por terem saído para caçar em um terreno desconhecido. E agora teria que ser enérgica para evitar uma tragédia. Ela sabia que a tripulação da Erichto não tinha o costume de levá-la a sério, mas os olhares eram de surpresa ao verem aquela intelectual acadêmica tratá-los como uma professora do jardim de infância trataria um grupo de moleques malcriados. E seu corpo robusto deixava claro que ela não era o tipo de professora que seria seguro contrariar.

Beatrice olhou com uma expressão confusa para a briga, recuando devagar alguns passos. Então, sem que ninguém esperasse, ela aproveitou a distração que Regine havia causado e disparou apressadamente para a mata, como um animal que enfim se vê livre de uma armadilha. A antropóloga suspirou pesadamente e deixou os ombros caírem, puxando a aba da cartola sobre os olhos antes de explicar: – Aquela era a filha dos Chardonneau. E mesmo que não fosse, é uma grande tolice sair atirando em um território que não lhes pertence. – ela trocou um olhar de desagrado com Damien, mas antes que ele dissesse alguma coisa o xamã da aldeia finalmente os alcançou.

Hukmi voltou seus olhos cinzentos para a direção em que Beatrice havia sumido e balançou a cabeça com tristeza, indo até Regine. -Desde que Iluta se abrigou entre nós tentamos fazer com que seu espírito se acalmasse, mas o que queima dentro dela é como o alcatrão dos pântanos. É algo escuro que nunca se apaga. Ela aprendeu nossa língua e nos acompanha sempre que mudamos de lugar, mas passa a maior parte do tempo isolada dos outros. – o ancião então se agachou diante do deinonico morto no chão e franziu a testa – Mas os Garras de Lua não andam sozinhos. Se esse apareceu por aqui é porque deve haver alguma matilha próxima. – ele comentou receoso com a antropóloga.

Regine fez uma expressão de espanto e olhou para a selva. Nos pontos mais visíveis da vegetação sombria ela tinha a impressão de ver formas se movendo ao longe, caminhando sorrateiramente entre a folhagem primitiva. Tentando permanecer calma, ela se voltou para os tripulantes da Erichto ainda com um olhar de reprovação, mas deixando claro na urgência de sua voz que haviam assuntos mais importantes a serem resolvidos no momento. – Voltem para a aeronave e avisem ao capitão que temos uma presença hostil na baía, e que por isso não é seguro ficar passeando aqui embaixo. Eu vou buscar minhas coisas na aldeia e tentar encontrar a garota.

Não demorou muito para a antropóloga estar se esgueirando pela mata, tentando fazer o mínimo de barulho possível enquanto buscava qualquer sinal de Beatrice. O ancião havia ficado na aldeia para avisar aos Nakna’Ohti sobre a presença dos Garras de Lua. Pelo que o xamã havia contado a Regine no caminho, não era comum que aquelas feras se aproximassem tanto de um acampamento sem serem notadas. Suas matilhas eram capazes de abater presas muito maiores, como os grandes lagartos-trovão das planícies alagadas, mas normalmente evitavam contato com as comunidades humanas. E essa não era a única coisa que incomodava Regine enquanto ela avançava pela selva.

Aquela floresta tropical era cheia de ruídos estranhos, causados pelos poços borbulhantes de óleo pétreo ou por pássaros com um canto há muito esquecido pelo resto do mundo. Mas ela tinha a impressão de que alguns dos sons que ouvia na distância se assemelhavam muito com os produzidos pelos instrumentos de sopro de culturas aborígenes com que havia tido contato. Cada vez que escutava as notas agudas e ritmadas, ela pensava na forma estranha como algumas daquelas silhuetas que tinha avistado na mata se moviam, e nas pegadas reptilianas com cinco dedos que jamais poderiam pertencer a um Garra da Lua.

Um grito feroz seguido por vários rosnados fez com que Regine sentisse um gosto metálico na garganta. Tinha chegado tarde demais, e agora teria que lutar contra aquelas feras predadoras para sair viva daquela selva com Beatrice. Estava mais preocupada consigo mesma, honestamente, já que a garota parecia não ter muitos problemas em se virar sozinha naquele lugar. Encontrá-la rápido e ajudá-la a lidar com as criaturas poderia ser  melhor curso de ação, não apenas para garantir sua sobrevivência como talvez ganhar a confiança da menina. Enquanto questionava seu próprio juízo, Regine puxou o facão de sua cintura e mergulhou na mata indo em direção ao barulho.

O caminho a levou até a beirada de um barranco, que margeava o lago fervilhante de uma cachoeira que descia desde as montanhas. Os sons do combate vinham da vegetação do outro lado, e com o declive pouco inclinado e as águas não muito profundas ela não teria problemas em chegar até lá. Porém, algo não parecia certo, e ela olhou ao redor em silêncio sentindo o suor escorrer de sua testa. Aquele trajeto era exposto demais, e a água atrasaria seu deslocamento a deixando vulnerável. Naquele lugar, Regine tinha a sensação de que cada um de seus passos era vigiado por um predador faminto, e para voltar até a aeronave inteira ela precisaria ser mais esperta do que eles.

Esse não era o maior desafio que sua mente já havia enfrentado, mas naquela situação precisaria pensar rápido. Se encostando em uma árvore em silêncio e procurando por algo que pudesse ajudá-la. Uma ideia lhe surgiu quando descobriu um tronco velho preso apenas por alguns cipós. Com um golpe rápido do facão de Regine, ele despencou e com um som abafado começou a rolar pelo barranco. Mal havia começado o trajeto, dois deinonicos como o que havia sido morto na baía saltaram das folhagens e perseguiram o tronco atraídos pelo movimento. Espiando da mata, Regine começou a descer de forma furtiva quando um terceiro Garra de Lua saltou sobre ela.

A antropóloga só conseguiu se virar antes da criatura cravar as garras curvas em sua barriga, abrindo dois rasgos vermelhos em seu colete. Agarrando o animal, Regine se desequilibrou e embolou pelo barranco junto com ele, escorregando pela terra até cair dentro do lago, onde finalmente conseguiu afastá-lo com um chute. Cerrando os dentes para suportar a dor, ela alcançou o cabo do facão na margem e em um movimento certeiro cortou a garganta do deinonico que lhe havia derrubado. O sangue do animal se misturou ao Regine na água, e ela mal teve tempo de verificar o ferimento antes de ouvir os guinchos dos outros dois que haviam descido junto com o tronco.

Ela tentou se afastar indo para o meio do lago, deixando as criaturas gritando agitadas na água rasa e batendo suas horríveis asas vestigiais enquanto tentavam avançar. Uma delas tentou alçar um voo desajeitado, mas foi acertada em cheio pelo facão de Regine, que rodopiou no ar após ter sido jogado por reflexo. O outro deinonico chapinhou pela água como uma cegonha desengonçada, estendendo o pescoço para tentar alcançá-la com uma mordida. Ofegante, a antropóloga agarrou firmemente a boca da fera emplumada e torceu o focinho e o maxilar em direções opostas, fazendo o animal morrer com um forte estalo e um ganido engasgado.

Regine se moveu o mais rápido que podia até a margem oposta, sentando recostada em uma pedra e arfando de dor e cansaço. Seus dedos tateavam o corte duplo em sua barriga, ficando úmidos de sangue. O colete de couro reforçado a tinha protegido de uma ferida mais profunda e mortal, mas o esforço e a água gelada faziam com que o machucado ardesse de forma pungente. Abrindo a grande bolsa marrom-esverdeada que trazia consigo, ela suspirou aliviada ao ver que o couro de basilisco que a revestia havia mantido seu conteúdo seco e intacto. Inclinando a cabeça para onde os sons da luta de Beatrice seguiam, ela rapidamente se agachou e começou a retirar aquilo de que precisava.

Algumas bandagens foram o suficiente para estancar o ferimento, mas o mais importante era desmontar o rifle, secá-lo completamente, remontá-lo e carregá-lo. Uma tarefa que se mostrava complexa pela quantidade de engrenagens e peças complicadas da arma de três canos, mas que com a experiência de campo de Regine foi concluída em poucos minutos. A todo momento os ouvidos da antropóloga continuavam atentos à localização de Beatrice, a deixando pronta para correr caso ela parecesse em apuros. Não duvidava que a menina pudesse dar cabo dos Garras de Lua como ela mesma havia feito, mas tinha a impressão de que havia algo mais perigoso do que eles se aproximando.

Atravessando a densa folhagem úmida, ela se viu diante de uma grande árvore coberta de cipós, e sobre um de seus galhos Beatrice lutava contra as feras que tentavam alcançá-la. Os deinonicos tentavam saltar e escalar de todos os pontos possíveis, mas cada vez que um se aproximava, recebia um veloz golpe de lança da garota. Aproveitando que as criaturas estavam distraídas com a guerreira órfã, Regine apoiou o rifle no ombro e mirou em uma que tentava escalar mais alto para saltar por cima da menina. O disparo acertou em cheio, fazendo o cadáver do animal se esborrachar no chão, e o resto da matilha fugiu atordoada com o som de trovão que reverberou pela selva.

Já Beatrice parecia ainda mais abalada pelo barulho, mal notando que havia se livrado dos Garras de Lua. Ofegante, a garota procurou em volta com os olhos arregalados até encontrar Regine. Com um grito de fúria, ela jogou sua lança contra a antropóloga, que rolou para o lado e observou espantada enquanto a menina colocava sua faca de obsidiana entre os dentes e corria da árvore até o chão como um gato selvagem. Lembrando das palavras do xamã, Regine percebeu que havia mais ali do que raiva e instinto de sobrevivência. O frenesi de Beatrice não tinha nascido da selva, mas de alguma outra coisa que despertava sempre que ela ouvia uma arma sendo disparada.

Antes que a garota avançasse, Regine se agachou até ficar no mesmo nível que a menina e colocou sua arma no chão. Beatrice saltou sobre ela mesmo assim, derrubando a antropóloga com a faca sobre seu pescoço. Sentindo o peso da lâmina sobre a garganta, Regine se manteve calma e com uma expressão neutra, pondo as mãos sobre os pulsos dela. Com a força de seus braços, poderia dominar a menina, mas queria convencê-la de que não era uma ameaça. Ela podia sentir o medo da garota nas pupilas dilatadas de seus olhos castanhos e na respiração apressada entre os dentes. Beatrice estava mais assustada do que a antropóloga que ameaçava, e confusa com a reação da mesma.

Assim como Regine não precisava falar a língua da guerreira para compreendê-la, também poderia se fazer entender. Em seu trabalho de campo, havia lidado com muitas culturas de idiomas diferentes, e sabia como ninguém usar de sua linguagem corporal para estabelecer um contato seguro. Lentamente, em uma troca de olhares e movimentos, ela fez com que Beatrice recuasse para trás, embora ainda parecesse desconfiada. Devagar, as duas se levantaram e Regine se reaproximou cautelosamente. A garota parecia estar se acalmando, mas quando estendeu a mão para ela, o som de uma arma sendo engatilhada fez com que ela erguesse a faca outra vez.

Arfando com surpresa, Beatrice olhou em volta e viu Damien e seus homens apontando seus rifles, a cercando para se assegurarem de que ela não teria uma rota de fuga dessa vez. Regine ficou confusa a princípio, indo na direção do homem com chifres a passos firmes enquanto protestava. – Será possível que vocês nunca ouvem minhas instruções? Eu disse que era para vocês… – ela estancou quando algumas armas foram apontadas para ela, e seu rosto se contraiu em uma máscara de indignação e espanto. – Qual o significado disso, monsieur Chandelier? Se for uma brincadeira, eu devo avisá-lo que sua falta de respeito por meu trabalho já está passando dos limites!

A expressão de Damien era uma máscara de repulsa, como se ouvir a voz da antropóloga já lhe fosse uma tarefa árdua. Ainda assim, ele fez um gesto para que seus subordinados se acalmassem, embora eles mantivessem a mira sobre as duas, Beatrice procurando uma saída como um leão acuado em uma jaula. Com a fria calma de um homem de negócios, ele explicou em sua voz sibilante – Seu trabalho era assegurar que encontrássemos a jovem dama longe da vista dos nativos, madame Beaumont. Entenda que a herança dos Chardonneau não pode ser dada a uma menina que sequer sabe assinar o próprio nome, e como ela já foi vista é tarde demais para deixá-la viver aqui na selva.

Regine sentiu seu estômago revirar e um gosto metálico surgir na sua boca. Tudo fazia sentido agora. O jeito arisco da menina, sua reação colérica a armas de fogo. O naufrágio dos Chardonneau não havia sido um acidente. Eles haviam sido vítimas de um motim, e a pequena Beatrice deveria ter assistido enquanto seus pais eram traídos e executados. Mas de alguma forma ela havia escapado, e o plano dos amotinadores sofreu seu revés quando, sem tripulação suficiente, eles acabaram não conseguindo passar pelas marés perigosas que rodeavam a Ilha da Rainha Lagarto, encontrando seu fim nas águas povoadas por feras marinhas.

O olhar de Regine queimava de ódio, mas mesmo assim suas palavras saíram com firmeza e sobriedade. – Eu só não te chamo de serpente traiçoeira porque isso seria uma ofensa aos ofídios! – Antes que Damien conseguisse ter alguma ideia do que significava ‘ofídio’, a antropóloga aproveitou sua distração e com um rápido movimento do pé trouxe o rifle de volta a suas mãos, se lançando contra Damien e o atingindo com uma forte coronhada no estômago. Pegos de surpresa, os outros homens tentaram fazer pontaria para atirar, mas dessa vez foi Beatrice que derrubou um deles com um chute na canela, aproveitando o embalo do movimento para levar outro ao chão com o cabo da lança.

Agarrando Beatrice pela cintura, Regine mergulhou pela selva e correu abaixada com a garota, os disparos voando sobre suas cabeças como uma chuva de pólvora e fogo. Os tiros estouravam os troncos das árvores ou acertavam as duas de raspão, lacerando carne e couro em um corte fumegante. Regine sabia que era questão de tempo até serem atingidas, mas só o que podia fazer era tentar correr mais rápido. Por longos segundos a dupla atravessou a mata fugindo da morte, até que os tiros simplesmente pararam. Olhando para trás, a antropóloga ouviu os homens que as perseguiam gritarem de terror, e abaixo dos gritos escutou mais uma vez o som das flautas de osso.

Os Garras de Lua agora atacavam o grupo de Damien, mas seus guinchos e rosnados não eram os únicos a ecoar pela mata. Havia outro conjunto de sons répteis e guturais, que Regine notou ter mais articulação do que aqueles que eram emitidos pelos dinossauros da ilha. Beatrice estava alarmada com aquelas vozes, e com espanto a antropóloga percebeu o que estava acontecendo. Os deinonicos não haviam se aproximado sozinhos daquela parte da ilha. Eles eram guiados pelas flautas de osso, da mesma forma que cães de caça seriam guiados por apitos. E seus adestradores não eram humanos como as pessoas que estavam caçando.

Antes que Regine e Beatrice conseguissem fugir dali, um grupo de humanoides reptilianos as encontrou, deslizando pela vegetação com suas peles verdes e escamosas. Aqueles eram os verdadeiros senhores da ilha, os súditos da Rainha Lagarto que havia erguido seu palácio naquela terra muito antes dela se separar do continente. Apesar de possuírem uma aparência primitiva, Regine conseguia perceber o quanto eram organizados e bem adaptados ao ambiente. O que era naquela situação uma péssima notícia, uma vez que as elaboradas armas de madeira e osso e as redes de vinhas trançadas que carregavam mostravam que não estavam dispostos a uma abordagem pacífica.

Enquanto a antropóloga ainda estudava os homens-lagarto, Beatrice saltou com um rugido de desafio sobre um dos que estavam mais próximos. A criatura reptiliana escancarou sua boca monstruosa e ergueu sua clava contra a garota, mas ainda em pleno ar a guerreira espetou seu inimigo com a lança, atravessando sua rígida armadura e fazendo borrifar sangue escuro. Pousando no chão com a graça de um jaguar selvagem, Beatrice retesou seu corpo e com uma força impressionante ergueu o homem-lagarto agonizante, dando um giro poderoso e acertando com o corpo outros dois que se preparavam para lançar uma rede sobre ela, deixando-os caídos sobre o chão lamacento.

Regine ergueu seu rifle e girou o cano triplo de cobre, ajustando as engrenagens e carregando mais um tiro. Mas um momento antes de disparar, ela olhou para Beatrice e viu a menina vacilar por um momento, fitando sua arma com uma expressão de susto. Um homem-lagarto se aproximou por trás dela, girando seu machado de osso para golpeá-la nas costas. O sangue de Regine gelou e apenas o impulso a moveu para a frente, girando o rifle em suas mãos e golpeando o reptiliano com toda força no queixo com a coronha da arma. Se recompondo, Beatrice derrubou os outros que se aproximavam com a lança, agarrou o braço da antropóloga e correu para uma árvore próxima.

Enquanto se esforçava para acompanhar a garota, Regine podia ouvir a selvagem cacofonia que ocupava a selva. Os Nakna’Ohti haviam mandado um grupo de guerreiros para afastar os homens-lagarto, e a luta se estendia no solo enquanto Damien e seus homens eram arrastados em redes para um destino incerto. Chegando ao topo da árvore, ela mais uma vez contemplou aquela paisagem abandonada pelas eras, mas o suor, as feridas e a adrenalina da luta lhe davam uma sensação completamente diferente. Ficando de pé ao lado de Beatrice, a antropóloga arrumou o rifle sobre os ombros como uma guerreira, sentindo que ainda havia muito o que descobrir naquela terra.