-Eles estão chegando! Protejam o convés! – mal foi pronunciada a ordem, os tripulantes do Rose Noir, navio a serviço da Esquadra Delfim de Aurin, se debruçaram sobre a amurada, seus mosquetes carregados e prontos para disparar ao menor sinal. Seus olhos estavam fixos na escura selva de palmeiras, onde uma algazarra infernal de gritos selvagens anunciava o ataque iminente. Teria sido tolice se aventurar naquele lugar onde nem a Marinha do Sultanato ousava adentrar? Quantas embarcações haviam perecido naquele arquipélago demoníaco, saqueadas por feras semi-humanas e tingindo a maré de sangue?  O Primeiro Imediato Gorlois engoliu em seco ao lembrar das histórias que havia ouvido no Porto de Aratta, sobre os povos canibais que habitavam aquelas ilhas desde antes da chegada da Tribo de Sharyar, e sobre os estranhos sacrifícios que dedicavam a entidades ancestrais. Colocando a arma sobre a fronte, ele fez uma prece à Dama da Fortuna, enquanto ouvia os urros agudos cada vez mais próximos.

Então eles vieram. Saltando com impressionante agilidade do topo das árvores mais altas, os homens-macaco não pararam nem quando a primeira fileira foi rechaçada pelos tiros do Rose Noir. Seus corpos cobertos por poeira vermelha levantavam uma nuvem rubra, que os fazia parecer evaporar em sangue a medida que avançavam e gritavam em um transe frenético. Logo eles começaram a revidar, atingindo alguns pobres infelizes com lanças e machadinhas de pedra. Metade da tripulação no convés já estava morta ou sem condições de lutar quando os macacos alcançaram a embarcação. Enquanto recarregava a pistola, Gorlois viu com assombro que as criaturas estavam começando a recobrir o navio como um enxame de formigas -Isso não acaba nunca?! – gritou, ouvindo o experiente marinheiro de nome Rainier responder – Dizem que eles não tem alma e nem coração, senhor. Se eles nos pegarem, certamente irão nos rasgar. – o imediato fez uma careta, e esse momento de descuido bastou para que um dos macacos que havia escalado o cordame saltasse sobre ele. Encarando os olhos obstinados da fera, Gorlois já esperava a morte certa quando um disparo quase o deixou surdo, fazendo com que em seguida o monstro caísse inerte, com um buraco de bala na testa.

Empurrando o homem-macaco de lado, Gorlois se levantou e viu os marinheiros sobreviventes em uma luta desesperada. Em meio aos cadáveres que recobriam o convés, uma unica figura estava parada. Um filete de fumaça escura ainda saía do cano de sua pistola de ferro negro. Dando um sorriso torto, a mulher de corpo magro e sinuoso poderia ser a própria Dama da Morte em meio àquela carnificina. A Capitã Madeleine já havia sido uma nobre dama de beleza comum, com sua pele branca como marfim e seus longos cabelos ruivos. Mas agora uma tatuagem recobria metade de seu corpo, uma pintura sombria na forma de ossos expostos, fazendo com que ela parecesse metade humana e metade cadáver, como a própria Hel temida pelos nórdicos. Nessa mesma metade do corpo, seus cabelos eram tingidos de negro e sua calça rasgada na altura da coxa. Apoiando a mão sobre o corpete gasto, ela começou a caminhar graciosamente na direção dos homens-macaco, que a observavam tomados por um misto de assombro e fascínio.

-Meus distintos cavalheiros, é com orgulho que irei apresentar um número que congelará seus corações! – a voz de Madeleine passou a ser um sibilo, enquanto seus olhos eram tomados por uma névoa leitosa – Que o espetáculo comece!