Uma História de Três Reinos

Como é dita pelos xamãs de Asabikesh, através das visões que retiram de suas viagens ao Aether.

Escute atentamente, pois esta é uma terra na qual sonhos se revelam para aqueles que podem enxergá-los. Esses sonhos trazem histórias, e essas histórias trazem magia. Essa é a força dos espíritos que vivem no outro mundo. Abaixo do grande deserto e nas margens dos oceanos essas histórias ficam presas nas areias do tempo, nos fios de prata do grande apanhador de sonhos tecido por nossos ancestrais. Os espíritos costumam encontrá-las como aranhas encontram insetos na teia, e um homem sábio pode negociá-las se estiver disposto a pagar o preço. Histórias possuem poder, mas não valem bosta de coiote se não forem compartilhadas. Por isso escute atentamente, pois a história que irei lhe contar fala sobre três reinos que se ergueram acima do mar há muitas luas atrás, quando o mundo ainda era jovem. Esses reinos eram ricos em sonhos, em histórias e em magia, e até hoje muitos de seus segredos se escondem abaixo das dunas e das ondas, esperando para serem descobertos… e contados.

A primeira história que trago comigo é a história de Mu, o Reino das Areias de Pérola. Ela me foi contada pelo Navegante do Aether, o chefe-gênio da água a quem chamam de Shah. Mu era um arquipélago de ilhas de areia branca, espalhado por todo o Oceano Oeste. Seus habitantes possuíam o dom de moldar a matéria que compõe o mundo, e com ele construíram cidades, pontes e santuários de vidro espelhado, que refletiam a luz da lua durante a noite. Eles eram artistas e oleiros da criação, transformando ar, água e terra naquilo que imaginavam com as mãos nuas. Tirando seu sustento do mar e das selvas de palmeiras escuras no coração das ilhas, o povo de Mu vivia de forma tranquila com sua magia, fazendo comércio com as caravanas de gênios da água e com os  seres de pele prateada das profundezas. Mas o desejo por novos materiais para esculpir os consumia com uma inquietação constante, uma sensação de que suas frias estruturas inertes não mais acompanhavam o aperfeiçoamento de sua arte.

As batalhas contra os Horrores Antigos que nessa época assolavam o mundo trouxeram até Mu a percepção de mundos invisíveis além do plano físico. Seus magos passaram a manipular a matéria bruta do éter, distorcendo a fina película que separa o mundo desperto do sonhar e dando origem a prodígios extraordinários. Mas as serpentes aladas e seres cravejados de joias ainda não eram o suficiente. Os habitantes de Mu queriam chegar até a essência de tudo, e observando o espaço escuro entre as estrelas eles concordaram que o ponto alto de sua Criação seria moldar a Não-Criação, o Nada. Passando a perseguir esse objetivo incansavelmente, eles buscaram os espaços vazios do éter e as grandes vastidões negras do céu. No fim, Mu encontrou a não-matéria que buscava, mas o resultado foi desastroso. Os artefatos moldados pela Não-Criação eram esferas de aniquilação que sugavam a própria luz e nuvens de miasma que transformavam em Não-Vida tudo o que tocavam. Fora de controle, eles passaram a consumir todo o reino em uma onda de destruição incessante. Quando os poucos magos sobreviventes conseguiram prender a Não-Criação em um coco de tucumã, e fizeram um acordo com a Serpente da Noite que nasceu da escuridão para guardá-lo das profundezas do mar, já não havia futuro para Mu, e apenas o Nada restava no passar implacável das eras.

Quem me concedeu a história de Atlântida, o Reino das Torres de Oricalco, foi o Velho Marinheiro que vive na estranha casa que paira na névoa. Ele me falou sobre um lugar de magia e poder, com grandes cidades feitas de bronze e mármore. Imensos rostos de pedra representando seus líderes e heróis observavam os Atlantes do alto de penhascos e muralhas, com a expressão enigmática de quem muito conhece mas pouco revela. Tritões, oceânides e sereias nadavam em seus portos, por vezes conduzindo carruagens de concha para os habitantes da superfície. O Império Além-Mar era o maior em extensão, indo dos Mares Meridionais até as águas congeladas do sul.  Inúmeros clãs controlavam cada um sua parte do território, e alguns deles deram origem a civilizações ainda existentes hoje, embora desprovidas da glória de tempos passados. Todos os territórios Atlantes viviam em plena paz e harmonia, pois aquela era a terra da Utopia, da perfeição inalcançável, e ainda assim ela desapareceu sob as ondas do oceano.

A decadência de Atlântida começou durante o Crepúsculo dos Deuses, após a queda da Grande Cidade. Foi quando Clito, esposa de seu chefe, se revelou um avatar de Lilith, a Senhora das Lâmias, e se assegurou de assassinar toda a sua linhagem. Dúvida e desespero se apoderaram do coração do povo, e sua magia enfraqueceu nesse momento crítico. Com o desaparecimento de Poseidon, seu guardião, Atlântida viu muitas de suas cidades serem engolidas por tempestades e ondas gigantes, como um último grito de fúria do Senhor dos Mares. Outros de seus domínios foram saqueados por dissidentes de Theocratia ou destruídos por hordas de demônios do recém-aberto Abismo. Grande parte de seus avançados artefatos mágicos desapareceu na confusão, indo parar nos lugares mais improváveis. Os clãs que restaram se fecharam para o mundo exterior e aos poucos minguaram, se misturando a outros povos e mantendo apenas uma pequena parte de suas tradições. Aquele era afinal um reino distante da realidade, e seu esmerado equilíbrio era por demais frágil para resistir aos reveses do tempo.

A história de Lemúria, o Reino dos Recifes de Cristal, me foi trazida por Kamohoalii, chefe dos espíritos-tubarão das Ilhas Kupuna. Era uma nação de grandes degraus de pedra, derramando cachoeiras de luz azul que iluminavam a noite como chuvas de estrelas. Esse reino se estendia por todas as águas do leste, do mar safira dos gênios até as distantes ilhas orientais. Os grandes magos de Lemúria retiravam suas forças das fendas de fogo no fundo do oceano, utilizando a própria energia da terra para erguer montanhas e mover ilhas. Foi esse entendimento dos poderes primais do mundo que deu a Lemúria grandes sábios, capazes de fazer o vigor do solo curar feridas ou fazer do chão brotarem gêiseres de vapor e lava. Porém, essa mesma magia despertou algo que estava adormecido nas profundezas, um Horror de Mil Braços que emergiu de seu abismo escuro, impelido pelas bruscas mudanças em seu domínio causadas pela magia de Lemúria.

Maravilhado pelas possibilidades de sua arte, o povo de Lemúria não percebeu a ameaça que se aproximava. Porém, a Abominação das Profundezas não atacou de imediato. Ela era uma criatura perversa e traiçoeira, e estava interessada pela mágica poderosa que havia perturbado seu sono. Por esse motivo ela os corrompeu por dentro, assumindo o papel de entidades do oceano que vinham cobrar seu tributo pela fartura de peixes e pelas chuvas que garantiam as colheitas nos verdes terraços alagados. Como um belo patrono da fertilidade ou um monstro marinho causador de tempestades ele passou a ser temido e respeitado, e logo seus servos inseminaram sua abominável semente nos lemurianos, dando origem a uma raça depravada de homens-aquáticos. Aqueles que notaram o ardil foram logo devorados por seus conterrâneos transformados, enquanto outros jamais perceberam a influência que se aboletou entre eles até que suas cidades afundaram e eles se viram capazes de respirar abaixo das águas. Não se sabe se a submersão de Lemúria no oceano foi proposital ou foi causada pelo desespero final dos magos resistentes em manter o Horror de Mil Braços longe da superfície. O que se sabe é que muitas das antigas cidades e ilhas permanecem até hoje nas profundezas, habitadas por monstruosos cardumes de híbridos.

Estas são as histórias dos Três Reinos. Se você tem os ouvidos atentos de uma raposa e a sabedoria de uma coruja, entendeu a magia que se esconde em cada uma delas. E não estou me referindo apenas às ruínas de vidro, aos tesouros da Atlântida ou aos horrores da Lemúria perdida que ainda podem ser encontrados nas areias acima e abaixo do mar. Os espíritos ensinam através de histórias, assim é como nós xamãs aprendemos. Não importa qual caminho siga, há um pouco de magia em todos eles. Carregue essas histórias consigo e com aqueles que julgar dignos de aprendê-las, e lembre-se delas sempre que ouvir o chamado do oceano quebrando nas margens da realidade.