BIBLIOTECA DE PEÇAS DE COBRE DE PORT SMOKE

Vianne Rivenwood em Asabikesh

ou,

RUMO AO SOL POENTE

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Pelo Autor de “Vianne Rivenwood e o Grande Íbis de Safira”

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CAPÍTULO I.

 EM UM NAVIO PARA O CONTINENTE.

“Como vamos manter o curso no meio dessa tempestade, Capitão?”

A chuva incessante escorria pelas janelas da cabine do Liberty, tornando difícil enxergar qualquer coisa além da proa castigada pelas águas escuras que a cobriam cada vez que uma das imensas ondas a atingia, fazendo o navio balançar com um rangido assustador. Era o quarto dia desde que a Marechal Vianne Rivenwood havia deixado a cidade  flutuante de Port Smoke para explorar as terras de Roonock no Novo Mundo, onde os colonos enviados por Windlan estavam descobrindo ouro, adamante e outras riquezas. O objetivo da expedição era chegar até o Deserto de Cobre, no Oeste do continente, e confirmar os relatos sobre as minas locais, mas Vianne tinha também seus próprios objetivos. Ela planejava ir ainda mais longe, e ser a primeira a descobrir o que existia além do Deserto, atravessando o continente até encontrar a distante costa oeste. Mas para isso, precisaria primeiro colocar os pés em terra firme, o que a súbita tormenta parecia disposta a impedir.

“Não se preocupe, dona Marechal. Esse clima pode parecer intimidador mas é comum por aqui. Lembra que ‘cê tá a bordo de um dos navios mais robustos dos Arautos do Vapor. Mesmo com as velas recolhidas, vamos manter uma boa velocidade com a força das caldeiras impulsionando as rodas de pá. As chaminés tão cuspindo fumaça como um dragão, vai ser preciso mais do que esse aguaceiro pra nos tirar do nosso rumo.”

Enquanto o Capitão Bullhorn continuava pilotando inabalável através da tormenta, Vianne analisou outra vez os mapas sobre a mesa na cabine, notando que o Liberty passava ao norte de um pequeno conjunto de ilhas rochosas próximas da Costa de Brimmouth, onde pretendiam desembarcar. Afastando o vidro de uma das janelas circulares, ela vasculhou o horizonte com sua luneta, tentando encontrá-las no meio da chuva que açoitava o navio.

“Dá pra ver umas luzes azuis naquelas ilhas. O que elas são?”

“Isso aí ninguém sabe ao certo” respondeu Bullhorn tirando o cachimbo da boca enquanto mantinha a outra firme no timão. “Mas já foram a ruína de muitos marinheiros. Aquelas ilhas são problema. Mesmo com o nosso casco reforçado com placas de aço a gente ia brincar muito com a sorte se a tempestade nos arrastasse até lá. Como se as rochas afiadas e traiçoeiras não fossem o bastante, o lugar ‘inda é infestado de demônios marinhos. Os índios dizem que são esses demônios que provocam esse tempo, quando cultuam seus velhos deuses. Eu prefiro não ter que ir ‘té lá descobrir.”

Vianne apertou os lábios e permaneceu observando o brilho fantasmagórico, sinalizando a silhueta das ilhas que se erguiam como garras contra o céu cinzento. Aquela era uma aventura que teria de ficar para outra ocasião. Subitamente, a embarcação gemeu em um rangido mais forte, e começou a se inclinar vigorosamente para cima enquanto o mar à frente ia se contorcendo em uma muralha de água.

“Aí vem uma das grandalhonas. É melhor se segurar bem, viu Marechal!” alertou o Capitão puxando a corda do alarme, fazendo o apito soar várias vezes antes de se lançar contra a onda, como se estivesse desafiando aqueles que tentavam impedir o Liberty de chegar ao Novo Mundo.

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CAPÍTULO II.

 PELOS CAMPOS COM UM GIGANTE A VAPOR.

Vianne já estava agora há dois dias viajando pela estrada de terra que deixava o vilarejo de Hallow Port e seguia até o povoado mais distante de Owlight Hill, e tudo o que enxergava ao seu redor eram os campos cultivados pelos colonos se estendendo até as florestas e charcos mais distantes. Tudo estava tingido pela luz azulada do crepúsculo, com exceção dos pequenos pontos incandescentes que indicavam as casas dos fazendeiros e algumas fogueiras de acampamento. Um espantalho solitário estendia os braços sobre uma plantação de mirtilos, sua face de abóbora tão inexpressiva quanto a do gigante de ferro que puxava a carruagem blindada, soltando vapor pelo escapamento em suas costas. Aquelas máquinas humanoides conseguiam cruzar longas distâncias pelo terreno acidentado sem dificuldade, apenas tendo que parar por algumas horas a cada dia para repor o combustível da caldeira e resfriar os motores. Todo trabalho era realizado com diligência por Ghix, um engenhoso goblin que era um pioneiro em construir e direcionar aquelas máquinas entre os dois assentamentos colonos.

“A maior parte das peças dá pra conseguir nos ferro-velhos da costa, tem um monte de coisa da antiga baleia de ferro que não se perdeu quando ela afundou e fizeram uma nova pra colônia. Claro que não é fácil conseguir gente pra trabalhar lá , as pessoas tem medo das assombrações e tudo mais, mas qual é o lugar por aqui que não é mau assombrado, não é?”

Mais tarde, enquanto ouvia os soldados conversarem em uma das pausas para a manutenção do gigante na beira da estrada, ela não podia deixar de concordar com as palavras de Ghix. Cada um dos homens parecia ter sua própria história sobre cavaleiros fantasmagóricos, seres do espaço e damas do pântano que compartilhavam aquelas terras com os colonos. Alguns militares de patente mais alta tinham adquirido propriedades nas colônias e pareciam desconfiar de seus próprios empregados, que faziam rituais considerados pagãos em Windlan a cada colheita. “Parem com essa tolice.” ela disse visivelmente incomodada quando se cansou de ignorar a conversa. “É sobretudo graças a essas pessoas que a colônia está prosperando. Se as bruxas que o Império enviou para cá não fossem tão boas em lidar com a terra, Roonock não estaria enviando tantas mercadorias para a Capital”. Ela sabia que suas palavras eram ousadas, e que o receio de Windlan com as antigas religiões era justamente o motivo de seus praticantes serem enviados para tão longe do Velho Continente. Mas além de não aprovar a maneira como aquelas mulheres eram vistas, era irresistível a sua curiosidade pelo mundo de espíritos e fadas que elas traziam consigo, deixando aquela paisagem campestre tão cheia de mistérios.

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CAPÍTULO III.

 ATRAVESSANDO AS MONTANHAS EM UM TREM.

“O que vai querer, senhorita?” disse a moça albina cruzando o vagão com um carrinho de frutas, doces e bebidas. Vianne desviou os olhos por um momento do mapa que estudava, mostrando os caminhos que poderia tomar das Montanhas Silverfox após chegar na parada final do trem, que avançava rápido e fazia Owlight Hill aos poucos desaparecer como um brilho esverdeado na distância. “Estou bem, obrigada” respondeu a marechal espiando a funcionária com rabo dos olhos enquanto ela ia embora. Desde que havia embarcado, um frio na espinha a estava deixando intranquila naquele expresso noturno, e o luxuoso vagão de primeira classe onde estava acomodada separada de sua tropa não ajudava. O barulho incessante das rodas sobre os trilhos e a sensação de movimento eram as únicas coisas que conseguiam mantê-la focada em seus preparativos de viagem, pois a decoração refinada ao seu redor fazia com que se sentisse presa em alguma velha memória de sua infância entre a aristocracia de Windlan.

Quando as horas no relógio de bolso sobre a mesa já começavam a se arrastar e o sono não vinha, ela tentou se distrair olhando para a escuridão além da janela. Estavam passando por um arvoredo na encosta agora, e ela conseguia ver a sombra das folhagens balançando sob o luar gélido do outono. Foi quando outro movimento lhe chamou a atenção e ela notou as figuras que perseguiam o trem, correndo de quatro com um brilho bestial em seus olhos lupinos. Haviam dezenas deles se aproximando, e as pancadas barulhentas no teto logo mostraram que não estavam apenas apostando corrida com o veículo. Rapidamente, Vianne abriu sua maleta e começou a montar as peças do rifle em seu interior. Mas antes que terminasse, a locomotiva assoviou com um uivo medonho enquanto o trem acelerou de súbito, fazendo com que os pedaços da arma se espalhassem pelo vagão. O revés não lhe causou mais que um suspiro de frustração, e se apoiando na mesa ela carregou a pistola de cano longo que trazia no coldre, seguindo na direção da caldeira.

Com o veículo acelerando cada vez mais, ela empurrou a porta do vagão e se deparou com um dos lobisomens rosnando para ela, se arrastando com dificuldade sobre o teto do trem com as garras. Com um tiro certeiro, a criatura foi derrubada e sumiu no mar de folhagens que cercava o trem. Avançando com cuidado até a porta da locomotiva, Vianne a abriu e enxergou o maquinista parado tranquilamente diante dos controles, puxando uma alavanca para desacelerar o expresso quando este entrou por um túnel, se livrando das últimas feras que ainda conseguiam se segurar.

“Espero que esteja apreciando a viagem, senhorita Rivenwood.” disse o maquinista se virando para ela, o lampião na cabine iluminando a alta cartola e os óculos de couro com lentes vermelhas. Quando percebeu os caninos afiados em seu sorriso zombeteiro, Vianne entendeu o porque daquele trem lhe trazer a sensação de uma sepultura de ferro sobre rodas.

“Vou precisar me lembrar de nunca mais pegar o expresso das onze.” respondeu a marechal aborrecida antes de bater a porta, se preparando para uma longa noite sem dormir.

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