Biringan quinta-feira, nov 16 2017 

Percorrendo as margens e penhascos de uma grande baía nas Ilhas de Angker, Biringan se estende como um amontoado de casas feitas com bambu e folhas de palmeira rodeando altos edifícios de pedra. Jamais conquistada pelos aurineses ou outros colonizadores, o maior porto dos nativos de Angker trava no entanto suas próprias batalhas internas contra mortos-vivos sugadores de sangue e outras ameaças sobrenaturais.

Biringan faz parte da Aliança Nagaraja, tendo rotas diretas para os portos de Mahatala, do Império Ming e das Ilhas Akitsushima ao norte. Do oeste chegam navios vindos dos portos livres do Reino da Serpente e da mais distante Jazirat. Já para o leste fica a rota que passa pelas Ilhas Haligi e então chega até a grande extensão de água onde ficam as remotas Australis e Tekeli, um caminho utilizado apenas por poucas e corajosas embarcações.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

Mercado Molhado

No coração de Biringan, existe um mundo onde pessoas passeiam com guarda-chuvas de bambu entre as luzes difusas de runas arcanas e jade mágico refletidas nas poças deixadas por uma chuva constante. O Mercado Molhado propriamente dito diz respeito às feiras de comida fresca, onde é possível encontrar desde carroças mecânicas que vendem frutas ou comidas típicas dos nativos até corredores de carnes exóticas como tentáculos de polvo gigante e filés de dragonete marinho. Algumas das barracas exibem seus produtos vivos em grandes tanques fechados com escotilhas, que nem sempre são suficientemente seguros. As patrulhas do mercado tentam conter esses incidentes com a ajuda de elementais da água, que além de ajudar a defender o Mercado realizam a tarefa de limpar seus resíduos, circulando entre as barracas como ondulações saídas de um balde invisível.

Fogos-fátuos também são atraídos ao Mercado como moscas, pelos outros produtos que são comercializados nos arredores do local. Além da feira de carnes que lhe dá nome, o distrito do Mercado Molhado é também o maior mercado de gemas e especiarias mágicas dos Mares do Sul, onde reagentes recolhidos por toda Bedwang são vendidos a conjuradores e artífices vindos de longe. Naturalmente, esse comércio lucrativo atrai todo tipo de ambição, e com o fluxo mais frequente de estrangeiros pela rota de Biringan,  uma área mais luxuosa vem se formando no Mercado, controlada pelos príncipes mercadores e barões das especiarias. A formação desse ambiente acaba sendo bastante propícia para as criaturas sobrenaturais do submundo de Biringan, e rumores circulam sobre criaturas reptilianas de reputação vil que habitam o Mercado, em covis que vão de sombrias galerias subterrâneas a luxuosas casas de massagem.

Docas da Chuva Vermelha

As atividades no caótico porto de Biringan começam bem antes das próprias Docas, com o amontoado de barcos dos povos locais e nômades do mar oferecendo produtos de suas comunidades aos navios que passam em uma grande feira flutuante. Apesar de não existir uma variedade e raridade de produtos tão grande quanto no Mercado Molhado, um navio pode se reabastecer de suprimentos sem nem precisar atracar. Toldos de junco e palha protegem os produtos da fina chuva que frequentemente cai sobre as Docas, e que assume uma tonalidade carmim quando as cinzas do vulcão Gugurang cobrem o céu. Na imensa baía, inúmeros cais de madeira iluminados por tochas cobertas oferecem seus serviços para os que desejam desembarcar na cidade. Esses atracadouros se estendem por uma longa distância, e os capitães que desejam evitar as altas taxas cobradas nos cais que dão diretamente para a cidade podem atracar nas vilas de pescadores da Praia de Lagan ou na Aldeia Mangisdani, uma comunidade suspensa dos nativos Taong-Pulan construída no meio da baía, de onde se pode pegar um balangué para a cidade.

Porém, independente da distância ou do preço, capitães experientes sabem que nenhum lugar nas Docas da Chuva Vermelha é realmente seguro. Piratas e corsários cobiçosos pelas diversas riquezas de Biringan frequentemente entram em conflito com a Guarda de Agamat que protege a cidade, e com o tamanho  cada vez maior das Docas ela não tem conseguido dar conta de todas as ações de roubo e contrabando sozinha. Parte disso se deve ao fato de que essas tripulações hostis são apenas o menor dos problemas na baía. Os Aswang, poderosos vampiros que aparecem em formas variadas, aproveitam o caos e falta de segurança nas Docas para fazer delas seu campo de caça, atacando tanto pescadores como visitantes do porto. O clã de sereias conhecido como Magindara também habita a baía, e seus territórios são defendidos com uma violência impiedosa. Essa agressividade é justificada, uma vez que as sereias não apenas são caçadas pelos Aswang, que utilizam seus ossos em rituais, como também brigam por território com os Seres Abissais da Praia das Ossadas. Esse lugar, chamado assim pelos grandes animais marinhos que encalham em suas areias, é dominado pelo culto de Azathoth, que utiliza os encalhes maiores, alguns ainda vivos e agonizantes, como fétidos altares de carne e ossos.

Bosque Engkanto

Antes de uma erupção vulcânica abrir a enorme baía que hoje serve de acesso marítimo a Biringan, o único acesso até a cidade se dava através de um bosque ancestral que percorre os vales e desfiladeiros entre duas montanhas. Para os estrangeiros, o Bosque Engkanto é uma área selvagem no entorno da cidade, mas aqueles que conhecem os segredos locais sabem que ele faz parte de Biringan tanto quanto seu palácio e suas torres mais antigas. Ele é o coração mágico de Biringan, sua fonte de energia etérea e proteção. E também é o lar de seus primeiros habitantes, seres feéricos que séculos atrás fizeram uma aliança com os Taong-Pulan em sua guerra contra os leviatãs devoradores de luas.

Entre anciãs figueiras, mangueiras e outras árvores sagradas marcadas com os símbolos da magia de Angker, esses moradores se dividem em seus próprios distritos. Os Nunos, seres pequenos com forma de cogumelo, se mantém sempre ocupados em suas vilas-cupinzeiro, dividindo espaço com os Tanlang, uma espécie de misteriosos louva-a-deus humanoides. Seus vizinhos e rivais são os Dwendes, os goblins do arquipélago, que são amigos dos Kapres e Tikbalangs que vivem no alto das árvores. As Diwata, seres semelhantes a dríades, tentam mediar os conflitos e servem de representantes do Bosque junto aos Taong-Pulan por sua proximidade aos humanos. Esse trabalho não é nada fácil, e se tornou ainda mais complicado quando veio à tona a presença de comunidades inteiras de Aswang vivendo dentro do Bosque. Esses Aswang afirmam não terem laços com aqueles que caçam indiscriminadamente nas Docas, e além disso as Diwata acreditam que eles possuem um papel no equilíbrio entre a vida e a morte. Mas com a Guarda de Agamat nada satisfeita com a presença dos vampiros sendo tolerada no Bosque, patrulhas armadas já foram vistas rondando pelos matagais fechados onde eles se escondem da luz do dia.

Palácio de Agamat

Entre as duas faces do grande desfiladeiro de pedra acima do Bosque Engkanto, uma grande estrutura de pedra liga as duas extremidades através de passarelas em arcos, enfeitadas por pipas que balançam acima da espuma das cachoeiras abaixo. Também conhecido como Palácio das Monções, o Palácio de Agamat se ergue perto das nuvens, próximo aos espíritos do vento que formam uma de suas linhas de defesa. A poderosa energia elemental do Palácio é o que o mantém firme, não apenas segurando a imponente estrutura de pedra como criando um efeito em seu entorno que faz com que seus ocupantes desçam como uma pluma até o bosque caso caiam por acidente de seus terraços. Além dos elementais, o Palácio também é defendido pela Guarda de Agamat, combatentes dedicados protegidos por escudos e tatuagens mágicas, energizadas pelas pedras celestes trazidas pelos seus aliados espirituais.

Recentemente, uma poderosa tempestade fez com que o barco que transportava o Rei e a Rainha de Biringan desaparecesse ao oeste do Arquipélago, fazendo com que a princesa Tala e sua gêmea-serpente Bituin assumissem o comando do Palácio. Apesar de jovem, Tala é respeitada por ser bem versada nas artes da guerra, sendo uma das principais conselheiras da Guarda de Agamat e aspirando ao posto de General para iniciar uma campanha marítima contra os Piratas de Iblis e outras ameaças à liberdade do Arquipélago. O atual general no entanto está mais preocupado em sua cruzada contra os Aswang, e as tentativas de se enviar uma esquadra ao Reino da Serpente são sempre sabotadas por Anina, uma outra conselheira que é na verdade uma ogra-maga disfarçada a serviço de Iblis. Já Bituin, que tem a parte de baixo do corpo de uma cobra apesar de seus parentes humanos, é bastante diferente da irmã. A mulher-serpente é quem passou a administrar de fato a cidade, tendo um talento nato para negócios e diplomacia, ainda que sua aparência intimide alguns visitantes do palácio. Elegante, frívola e levemente preguiçosa, ela raramente deixa Agamat, mas possui um forte instinto protetor por sua querida irmã.

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Introdução – Biringan domingo, out 22 2017 

As crianças da mata sempre eram a pior parte da viagem, mas nada havia preparado o garoto para aquele dia.

Ding já estava acostumado com as longas travessias de barco através da Praia dos Ossos em Biringan até a área rural nos arredores da capital do arquipélago, onde campos de arroz e florestas de bambu dominavam a paisagem. Era ali que o Tio sempre o levava para ajudar a vender o produto da pesca do dia. O garoto achava aquele um trabalho simples porém ingrato, e o fedor do pescado nunca ia embora de suas roupas. Para piorar, naquele dia o mar estava estranho depois do furacão que havia atingido as ilhas, com manchas de um vermelho ferrugem que faziam aumentar o mau cheiro.

O barulho do motor também não estava ajudando o trajeto a ficar menos desagradável. A maioria dos pescadores da região usavam barcos típicos de junco com velas triangulares, mas o Tio insistia em um motor a vapor que o garoto tinha ajudado a fabricar em uma oficina da cidade, um cilindro dilatado de bronze com engrenagens de ferro que usava bambus ocos como canos de escape. Ao menos aquela máquina trêmula tornava a viagem mais rápida, e ajudava a espantar os pássaros Lagan que sempre vinham em bando como moscas até o barco, tentando abocanhar um tentáculo de polvo ou uma barbatana de arraia de dentro da embarcação com seus bicos cheios de dentes. Mas era só desembarcarem nas fazendas e desligarem o motor que os pássaros voltavam a ficar ousados, e junto com eles vinham os caranguejos carniceiros e os sabujos imundos da costa, que Ding e o Tio tinham que espantar com tochas de palmeira ou tiros de mosquete. Mas eles não eram incômodo nenhum comparados às crianças da mata.

Elas começavam a aparecer sempre no final da tarde, espiando Ding por entre as raízes suspensas das figueiras flutuantes ou as folhas carcomidas de bananeira-rosa. Os animais não chegavam perto delas, mas com exceção deles e do garoto, ninguém mais parecia notá-los. Elas pareciam muito novas e vestiam apenas trapos e, no começo, Ding achou que eram apenas crianças curiosas daquela vizinhança humilde. Mas não demorou para ele notar que havia nelas algo de errado e assustador. A pele era cinza como uma nuvem de chuva, e os olhos brilhavam como velas ao entardecer, mais parecendo um par de vagalumes ou fogos-fátuos na beira da estrada. Apesar da ignorância das outras pessoas, elas raramente saíam dos esconderijos de onde observavam, mas Ding tinha a impressão de, às vezes, depois que escurecia, ver pequenas figuras correndo na beira da selva, longe das tochas e dos lampiões dos barcos. Foi em uma dessas ocasiões que ele viu pela primeira vez algo que parecia um adulto perto delas, uma mulher grande e inchada olhando para a janela de uma cabana na beira da água. Uma cabana cujo o dono havia morrido durante o sono, seu tio lhe dissera depois.

E naquele dia, entre as árvores caídas e baleias encalhadas pelo furacão, as crianças da mata estavam inquietas. O Tio havia deixado Ding sozinho cuidando do barco e saído para entregar uma posta de tubarão a uma nova cliente daquele lugar. Uma refugiada do furacão, tinha dito ao garoto. Ela havia se instalado em uma cabana mais longe das outras, mas mesmo assim o Tio já deveria ter voltado. Já havia se passado uma hora desde o pôr-do-sol quando, acuado pelos sons estranhos que vinham da maré fétida e das nuvens iluminadas pela lua amarelo-avermelhada, o menino pegou seu mosquete e um dos lampiões do barco e seguiu pelo caminho de tábuas suspensas sobre a água rasa. Seus pés descalços logo alcançaram o caminho que levava até a cabana e, sentindo um gosto ferroso na boca, ele viu que a estradinha de barro úmido ia direto para dentro da selva. Ele sentia os olhares de chama de vela sobre ele, mas entre o medo de entrar ali ou voltar sozinho para o barco, acabou correndo na direção da pequena habitação de bambu e palha, iluminada apenas pelo luar de uma clareira.

Ding nunca chegou até a cabana. Assim que entrou na clareira, um som como um bater de asas o assustou e, buscando sua origem com o olhar, ele viu um par de pernas sentado embaixo de uma figueira. Era apenas um par de pernas, a parte de baixo do corpo de uma mulher envolto em uma saia ensanguentada, com os pés a mostra já em estado de gangrena. Ele podia ver agora as silhuetas pequenas caminhando e engatinhando entre os troncos, e foi tomado pelo impulso de correr até o casebre em pânico. Mas antes de chegar até a porta, ele viu uma luz diferente dos olhares das crianças brilhando entre as árvores. Era a luz do lampião do Tio, e passou pela cabeça de Ding que se conseguissem voltar até o barco poderiam acionar o motor à vapor e fugir dali rapidamente. Quase caindo ao chão em seu súbito desvio, o garoto começou a correr na direção da luz, com as crianças da mata em seu encalço.

Entre as copas de mangueiras retorcidas e palmeiras farfalhentas ele encontrou o Tio, e o terror dessa vez o paralisou como a mordida de uma serpente. O Tio estava suspenso nos galhos escuros, enroscado em vísceras que não eram suas. Sobre ele, estava a metade de cima de uma mulher horrenda, pairando sob imensas asas e movendo suas entranhas como vermes. O rosto gangrenoso e sem vida do Tio foi a última coisa que Ding viu antes de ser puxado por inúmeras mãos pequenas e geladas para dentro de uma figueira, onde encontrou o olhar escuro e vazio da mulher inchada que aquelas crianças chamavam de Mãe.

Criaturas de Bedwang quarta-feira, out 11 2017 

Tambanoka

Outro filho do Sol e da Lua era um caranguejo gigantesco, chamado Tambanokano. Ele ainda vive e é tão poderoso que toda vez que abre e fecha seus olhos há um clarão de relâmpago. Na maior parte do tempo o caranguejo vive em um grande buraco no fundo do mar, e quando ele está lá nós temos maré alta; mas quando ele deixa o buraco, as águas rapidamente o adentram e ha maré baixa. Seu movimento também causa grandes ondas na superfície do mar.

(Mabel Cook Cole – Philippine Folk Tales)

As Ilhas de Angker são lar de uma variedade de monstros marinhos, que vão de simples polvos gigantes aos terríveis dragões marinhos conhecidos como Bakonawa. Abaixo apenas dos mais antigos entre esses últimos estão os crustáceos titânicos conhecidos como Tambanoka. Esses kaiju do mar não são simples bestas como os caranguejos gigantes que infestam outros mares, sendo dotados de inteligência e astúcia comparáveis às de um kraken. A presença de um Tambanoka pode ser notada de longe por uma nuvem de chuva que se move junto com ele quando deixa as profundezas do oceano, anunciando sua presença com fortes vendavais que açoitam as vilas e aldeias que esses monstros atormentam durante os períodos de chuva das monções.

Os Tambanoka são pastores de tempestades, dominando uma série de feitiços de controle do clima. Suas formas gigantescas estão muitas vezes cobertas por névoa ou por uma grossa cortina de chuva, deixando aparente apenas a silhueta e os ameaçadores relâmpagos que saem de seus olhos. Esses raios são a principal arma de um Tambanoka, que prefere usar suas grandes garras apenas para se exibir em feitos de força ou contra ameaças que os obriguem a se defender fisicamente. Não se sabe quantos Tambanoka existem nas Ilhas de Angker, uma vez que essas criaturas deixam suas tocas apenas algumas vezes por ano durante certas luas. Um deles habita as águas da Praia dos Lagan em Biringan, podendo ser um potencial aliado dos Seres Abissais que se instalaram na região. Outro sempre que está ativo ataca navios pirata na saída do arquipélago, já tendo acumulado uma grande fortuna com o tesouro dos navios que naufragou.

Rastejante Primordial

-What do you call that thing?

(King Kong – 1933)

O Reino da Serpente é conhecido assim pelas ruínas do Império Naga perdido, mas esse nome também se mostra adequado com as muitas espécies de répteis estranhos nativas da região. De cobras e lagartos voadores aos grandes dinossauros que habitam as regiões mais remotas das ilhas, existe toda uma fauna escamosa que perambula pelos vales úmidos e praias tropicais. Mas nenhum desses répteis consegue ser tão bizarro quanto o Rastejante Primordial, chamado assim apenas por uma convenção dos naturalistas Arautos do Vapor que encontrou a espécie durante uma expedição, possuindo vários outros nomes entre os habitantes do arquipélago.

O Rastejante tem a aparência de um lagarto monitor de escamas duras e cinzentas, como os lagartos-dragões que habitam as ilhas mais ao sul de Bedwang. Assim como eles, ele possui garras afiadas, uma língua longa e bifurcada e uma mordida tão infecciosa que sua saliva é tão mortal quanto veneno. Mas seu corpo é alongado e sinuoso como o de uma cobra, e é sustentado apenas por um único par de patas, sua característica mais estranha. Uma crista baixa e afiada como a de um iguana percorre as costas dos machos, assumindo diferentes tonalidades como a pele de um camaleão, que são usadas para indicar o humor da criatura. Os naturalistas que a registraram acreditam que ela seja uma espécie de elo perdido entre dinossauros e dragões, apontando o comportamento tirânico e o sopro tóxico desses monstros como evidências, mas isso ainda é razão de grande debate nas academias de ciência e magia.

Os Rastejantes Primordiais habitam o interior de penhascos e ravinas, onde se alimentam de qualquer animal menor do que eles, incluindo na dieta invertebrados gigantes e outras criaturas da megafauna do Reino da Serpente. A tribo de homens-macaco dos Orang-Pendek possui um grande temor dessas criaturas, que podem viver logo abaixo de seus territórios e por vezes rastejam até suas aldeias. Enfrentar um Rastejante é considerado por eles um feito digno de profunda admiração e amizade.

Anufat

Anufat era um grande e feio taotaomo’na. Ele tinha grandes presas e unhas. No lado de seu corpo havia um imenso ferimento aberto, para fora do qual crescia um galak dangkulu (um tipo de grande samambaia).

(Guampedia)

Os Guse’Kajulo, o povo nativo das Ilhas Haligi, utiliza o termo taotaomo’na para se referir a uma série de entidades que vão de espíritos ancestrais e totêmicos das aldeias até simples goblins do arquipélago tropical. Um desses seres é o Anufat, uma besta mágica que habita as pequenas selvas no interior das ilhas, o que felizmente torna a sua população reduzida. Visto de longe, o Anufat pode lembrar um totem ou golem da cor de areia escura, coberto por vegetação. Mas uma observação mais próxima revela que ele é na verdade um tipo de crustáceo parecido com um camarão louva-a-deus, capaz de se fechar em sua carapaça como uma estátua. As plantas simbiontes que crescem sobre o Anufat são parte de sua ligação com o Verde, que tem origem no local de nascimento e covil dessas criaturas, entre as raízes e galhos da maior figueira da floresta. Samambaias são as mais comuns, mas essas criaturas podem ter qualquer planta nativa do arquipélago crescendo sobre seus corpos, incluindo cipós floridos, pequenas palmeiras e até mesmo plantas mágicas.

Os que vivem mais próximos da praia podem às vezes crescer algas na maré baixa, mas isso é bastante raro uma vez que os Anufat detestam a água salgada e evitam o mar sempre que podem. Não se sabe de onde vem essa rejeição, mas apesar de sua forma crustácea essas bestas são predominantemente terrestres, e são incapazes de nadar apesar de poderem caminhar no fundo da água caso precisem. Um Anufat submerso não se afoga, mas contato prolongado com água salgada faz com que a maior parte de suas plantas sequem e morram, o que deixa a criatura em estado catatônico até que uma maré baixa prolongada os desperte. Quando está ativo, o Anufat enxerga o mundo através de dois grandes olhos verdes sem pupilas, e assim como um camarão louva-a-deus possui pinças poderosas, que podem derrubar a parede de uma cabana com um golpe. Anufats são criaturas agressivas e territoriais, que apesar de tirarem boa parte de seu sustento da fotossíntese não hesitam em caçar qualquer criatura que perambule pelos arredores de sua floresta. Os Guse’Kajulo sabem disso e tomam cuidado ao passar pela área de um Anufat, mas piratas e colonos desavisados costumam se tornar presas fáceis, especialmente quando despertam a ira da criatura ao derrubar as árvores de seu lar.

Galeria – Piratas das Ilhas do Sul domingo, set 10 2017 


As inúmeras ilhas de Bedwang atraem marinheiros de lugares diversos por suas rotas mercantes através dos Mares do Sul,  que abarrotam os navios de especiarias mágicas. O fluxo constante de embarcações durante os meses em que as chuvas de monções não castigam o arquipélago e a quantidade de potenciais esconderijos em suas ilhas mais selvagens tornaram Bedwang um lugar naturalmente prolífico para piratas. A armada de Iblis é uma presença comum, tendo uma rede de portos na região do Reino da Serpente. As Ilhas Haligi são território de contrabandistas vindos das Ilhas Akitsushima e do Império Ming, e nas Ilhas de Angker bandos de bucaneiros aurineses se juntaram a partir dos restos de motins e expedições arruinadas. Mas nem todos os piratas de Bedwang têm a sua origem em águas estrangeiras. Aqueles conhecidos pela alcunha geral de Piratas das Ilhas do Sul são uma força desorganizada mas crescente de tripulações formadas principalmente por nativos das ilhas, buscando defender seus próprios interesses das frotas estrangeiras.

Agindo de forma solitária ou formando pequenas esquadras independentes, cada tripulação das Ilhas do Sul é única. Suas embarcações costumam ser pequenas para navegar com facilidade entre as ilhas do arquipélago, mas possuem aparências bem variadas. Existem juncos com velas coloridas, jangadas simples de velas quadradas e também embarcações mais imponentes, com figuras monstruosas de lendas locais em suas figuras de proa. O Dasamuka, considerado por muitos marinheiros como um dos mais terríveis navios dos Mares do Sul, possui velas mágicas onde sombras se movem como em um teatro wayang, e que segundo testemunhas saem para atacar embarcações inimigas ao serem iluminadas pela luz de seus faróis.

As habilidades dos Piratas das Ilhas do Sul também são variadas, mas é comum encontrar espadachins descalços ou lutadores com grossos cordames ou anéis de ferro nos punhos, seguidores dos vários estilos de combate marcial que existem em Bedwang. Algumas das embarcações também são auxiliadas por feiticeiros e xamãs, que ajudam suas tripulações a vencer a natureza perigosa das ilhas. Os navios com maior suporte mágico conseguem até mesmo domar as poderosas tempestades de monções, dando para suas tripulações uma vantagem tática inestimável.

Entre muitas comunidades de Bedwang, os Piratas das Ilhas do Sul são uma forma de se proteger contra colonizadores, atacando navios estrangeiros, libertando escravos e dividindo o butim conquistado com as aldeias e vilas costeiras. Outras tripulações porém possuem objetivos menos nobres, realizando ataques sangrentos contra seus conterrâneos da mesma forma que contra os estrangeiros, podendo até mesmo chegar a trabalhar como mercenários aos colonos. Esses piratas mais violentos fazem seus covis em pequenas ilhas rochosas e isoladas, protegidas por vulcões, matas carnívoras, monstros marinhos e outras defesas, e alguns desses esconderijos assumem um status lendário de acordo com a infâmia de seus moradores.

Embora existam múltiplas alianças e rivalidades entre os Piratas das Ilhas do Sul, existe quem acredita que seja possível unificá-los em uma única frota. Os Punakawan, a maior esquadra pirata de Bedwang, foi formada por artistas de uma companhia itinerante, e possui um número considerável de pequenas embarcações acompanhando seus quatro grandes e enfeitados navios-junco. Seus membros mascarados são acrobatas, bufões e professores assim como assassinos, lutadores marciais e detentores de tradições secretas. Já a tripulação independente do Rangda esteve por trás da tomada de Kamardikan, e com a ajuda da Esquadra Seláquia realizou alguns ataques de sucesso contra a Ilha Kolo, um dos principais portos de Iblis.

As histórias sobre esses piratas enchem de esperança aqueles que sonham com liberdade das mãos dos que tentam se apoderar de Bedwang, e essas aspirações cresceram mais ainda com os rumores de que há um navio pirata no arquipélago comandado pelo príncipe sobrevivente de um dos reinos dos Mares do Sul que caíram diante das invasões estrangeiras, e que pode ser a peça final para um levante marítimo que unifique os diferentes povos que habitam Bedwang e restaure a glória perdida de suas ilhas.

Bedwang terça-feira, jun 27 2017 

Bedwang é uma região formada por diversos arquipélagos tropicais na parte sudeste dos Mares do Sul, habitada por diferentes povos nativos que em sua maioria fazem parte da Aliança Nagaraja. Várias das ilhas e rotas entre elas são disputadas a séculos por marinheiros e corsários de Aurin e Windlan e pelos Piratas de Iblis, enquanto que Jazirat Al-Nilak, o Império Ming e as Ilhas Akitsushima possuem acordos comerciais com as ilhas maiores, estabelecendo entrepostos e rotas. Durante a estação das monções, o clima impede navegantes de usarem boa parte das rotas marítimas que deixam Bedwang, o que faz com que durante os longos meses de espera eles acabem se integrando à cultura local, tornando as cidades portuárias bastante diversificadas.

As Ilhas de Angker são cobertas por selvas fechadas e escuras, que servem de refúgio a tribos guerreiras, piratas e uma infinidade de estranhas criaturas. Em seu centro fica Biringan, a maior cidade de Bedwang e o mais próximo de uma capital para a região.

O Reino da Serpente é formado por ilhas que um dia abrigaram um extinto Império Naga, destruído por um cataclismo que as tornaram um local sombrio e repleto de demônios.

As Ilhas Haligi são um arquipélago isolado nos limites de Bedwang, com algumas pequenas ilhas em sua superfície e um imenso reino submarino em suas profundezas.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Ilhas de Angker

Nas ilhas tropicais de Angker cada selva, montanha e enseada guarda algum segredo único, tornando esse lugar uma das maiores fontes de histórias de marinheiro duvidosas de todo o mundo conhecido. Castigada por tempestades e vulcões, Angker é habitada por vários grupos diferentes de nativos humanos, sendo os Taong-Pulan os mais numerosos. Esses ilhéus chamam atenção por suas tatuagens e roupas de um vermelho vivo, e habitam cidades e aldeias costeiras de onde saem seus imensos balangués, canoas rústicas com velas coloridas que carregam cabanas de palha inteiras. A maior dessas cidades é Biringan, uma metrópole antiga de atmosfera mágica que ocupa toda uma baía de uma das ilhas.

Mesmo sendo conhecedores do arquipélago, os Taong-Pulan temem e respeitam suas matas, por onde caminham criaturas sinistras como os Tikbalang de cabeça equina e corpo delgado. Mas nem mesmo as cidades mais movimentadas estão livres de monstros, e pelas docas úmidas vampiros voam nas noites quentes enquanto os crocodilos Buwaya guardam as almas tomadas por seus mestres em baús cobertos de limo. No interior das ilhas, florestas sagradas abrigam as Diwata, seres poderosos ligados a Veridia que são tratados como divindades por muitas aldeias, e que cultivam jardins mágicos onde pacíficos seres vegetais dividem espaço com plantas carnívoras gigantes. Os mares por sua vez são o lar de inúmeras raças aquáticas, e de monstros marinhos que vão de arraias voadoras a leviatãs lendários devoradores de luas. Piratas também frequentam essas águas, mas algo sombrio deixado por antigos colonos fez com que muitos fossem amaldiçoados pela força conhecida como Ouro do Diabo, tornando as rotas marítimas da região ainda mais perigosas aos navegadores que ousam se aventurar por elas.

Reino da Serpente

Há centenas de anos, o Reino de Gulungan prosperou no conjunto de ilhas que hoje é conhecido como o Reino da Serpente, chamado assim pelas antigas linhagens de Nagas que, segundo as ruínas espalhadas pelo arquipélago, ajudaram a erguer e governar seus templos, zigurates e estradas sinuosas, defendendo seus aliados humanos de ameaças vindas do continente próximo como os Rakshasa e os Dragões Negros. No centro da maior das ilhas, batizada com o nome do extinto reino, a grande cidadela que era a capital e coração de Gulungan ainda surpreende exploradores com suas elaboradas construções de pedra, agora reclamadas pela selva úmida e pelas criaturas que nela se abrigam. Relatos sobre plantas carnívoras, símios colossais e até mesmo dinossauros são apenas uma pequena parte das histórias contadas por aqueles que já tiveram algum contato com Gulungan.

Murais encontrados nas ruínas indicam que Gulungan era uma nação milenar, talvez mais antiga mesmo que seus primeiros ocupantes humanos. Imagens mostram nagas e dragões enfrentando uma raça de gigantes e criaturas insetóides, mas ainda é escasso o conhecimento sobre o que é história e o que é alegoria. O que se sabe é que quando a Tribo de Iblis expandiu seu alcance até o arquipélago de Bedwang, o Reino de Gulungan sucumbiu após uma inteira estação de tempestades cataclísmicas, com os sobreviventes lutando pelo que havia restado e rapidamente sendo corrompidos pela fome, pela amargura e pela influência demoníaca de Iblis e seu patrono Baal. Alguns dos remanescentes do povo de Gulungan distorceram as práticas de seus ancestrais Naga e se transformaram em homens-serpente, indo do desejo de retomar a glória de seu antigo Reino para uma sede de poder que os leva a realizar rituais profanos nas profundezas da selva, unindo fragmentos de conhecimento perdido da sua nação com as energias abissais que macularam a ilha.

Mas além desses descendentes, outros povos também frequentam e habitam o arquipélago, vindos de Mahatala, Ming ou dos muitos povos nativos das ilhas próximas. Os Nômades Barqueiros estão entre os mais numerosos, e muitos se assentaram em pequenas vilas costeiras de bambu e madeira, trazendo consigo a arte do wayang kulit, um teatro de sombras que segundo alguns estudiosos guarda segredos arcanos. Existe também uma colônia de Piratas de Iblis na Ilha Kolo, e recentemente a Esquadra Seláquia ajudou a estabelecer o porto independente de Kamardikan na própria Gulungan.  Rumores sobre os antigos tesouros do Reino Naga, ainda perdidos na sombra de suas ruínas, continuam a atrair exploradores do mundo inteiro, trazendo navios e aeronaves carregadas de aventureiros até as praias tropicais e montanhas enevoadas do arquipélago. 

Ilhas Haligi

Localizadas no extremo leste de Bedwang, as Ilhas Haligi são a fronteira entre dois mundos. Acima do mar, ficam as ilhas propriamente ditas, um arquipélago de praias paradisíacas e florestas de palmeiras, com alguns vulcões ou lagos de crateras nas ilhas maiores. Muitas delas são desertas, servindo de lar apenas para animais selvagens, caranguejos gigantes e espíritos elementais. Algumas dessas ilhas desabitadas são usadas como refúgio por contrabandistas de Akitsushima, piratas de Ming ou de Iblis, mercadores de Aurin ou, mais recentemente, pelos Arautos do Vapor. Mas a maior presença humana na região são as aldeias dos Guse’Kajulo, um povo que vive de forma simples em rústicas cabanas de palmeira, mas é conhecido por seus hábeis e destemidos mergulhadores, capazes de pescar tanto no calor fervente das fendas de magma submersas como no frio de águas profundas.

Mas nem mesmo os Guse’Kajulo se aventuram nas colossais Fendas Fosforescentes que se estendem para além das encostas vulcânicas e dos recifes de coral violeta. Abaixo da superfície da água, existe uma das mais complexas regiões submarinas do mundo de Keleb, e a mais profunda de todas. Diferentes povos aquáticos ergueram seus reinos entre as Ilhas Haligi, e embora os nativos estejam ligados a algumas delas, como os gigantes vermelhos das chaminés de vapor e as sereias de pele morena dos atóis rochosos, outras passam suas vidas inteiras sem qualquer contato com a luz do sol, inalcançáveis exceto por magia poderosa ou pelos ainda incipientes veículos submarinos. Uma outra raça de sereias é mencionada nas histórias de suas irmãs, vivendo em cidades rudimentares esculpidas na face dos abismos submersos, de onde nadam para a escuridão. Desprovidas de qualquer pigmentação, elas são vistas como violentas pelas que vivem mais perto da superfície, e usam sua bioluminescência natural apenas para caçar ou para emitir avisos aos outros membros de seus clãs.

Mas elas não são as únicas criaturas inteligentes a habitar as partes mais profundas das Fendas. As matriarcas das sereias dos atóis sussurram sobre criaturas dracônicas de proporções absurdas, além de krakens, aboletes e outros seres ainda mais estranhos tentando estabelecer seus próprios domínios. Porém, esses são apenas rumores vagos diante da ameaça presente de uma das mais antigas cidades dos Seres Abissais, cujo nome é conhecido apenas pelos membros de sua raça. Os homens-peixe que habitam essa cidade ancestral travam uma guerra sangrenta contra as sereias das Fendas desde que estas se tornaram uma presença proeminente, e seus ataques em águas menos profundas, e até mesmo na superfície, têm se tornado mais frequentes a cada ano, o que leva as matriarcas a acreditar que eles temem que as expedições cada vez mais ousadas dentro de seu território revelem algum segredo terrível, escondido entre suas torres de luz etérea.

Introdução – Bedwang sábado, mar 25 2017 

Os pés descalços de Taghan se equilibravam com cuidado no tronco da palmeira curvada como uma ponte sobre o córrego escuro, quase invisível entre as margens cobertas de verde. Cachos de flores vermelhas pendiam dos galhos acima de sua cabeça, que entrelaçados filtravam a luz do sol poente em raios dourados que afastavam os pequenos lagartos e insetos escondidos sob a vegetação. O aroma de jasmim perfumava o ar abafado e quente, e ao terminar de atravessar o rapaz teve que parar para enxugar o suor da testa. O sorriso em seu rosto no entanto afastava qualquer dúvida de que havia valido a pena adentrar aquela parte escondida da ilha, onde seu povo nunca se aventurava.

Ali era o jardim secreto do Arquipélago de Angker, criado pelo Aeon da morte Sidapa como um presente para seu amado, o garoto-lua Libulan. Diziam que no centro do jardim haviam flores encantadas, que abençoavam com sorte e beleza qualquer um que tivesse um amor como o do par de deuses, e era por isso que Taghan havia cruzado vales e montanhas para chegar até ali. Os javalis furiosos e tempestades repentinas do caminho haviam levado embora o escudo de tartaruga-dragão e a bandana vermelha que impedia os longos cabelos negros de caírem sobre o rosto, mas cada vez que desafiava um novo perigo ele sentia estar provando a Sidapa o quanto era digno o que sentia, e nada que o deus da morte colocasse em seu caminho seria capaz de fazê-lo recuar.

O que não o impediu de dar um passo cauteloso para trás ao notar uma forma laranja com listras negras se mover por entre o pomar de bananeiras após o córrego. Apertando a haste da lança e a puxando para trás, Taghan afastou devagar a cortina de folhas e se preparou para enfrentar a fera, quando percebeu que seus olhos haviam se enganado no crepúsculo. Na sua frente, uma nuvem de borboletas alaranjadas esvoaçava baixo no jardim tropical, se juntando a outras amontoadas no chão. O rapaz abaixou sua arma e continuou em frente, mas seu suspiro de alívio foi cortado antes que desse mais de um passo, quando um cheiro acre invadiu suas narinas e as borboletas levantaram voo em sua direção, revelando a carcaça do tigre que haviam limpado até os ossos antes de sentirem a nova presa em seu território.

Agora os pés de Taghan corriam sobre a relva, pisando em ervas aromáticas que confundiam seus sentidos enquanto as borboletas rodopiavam em perseguição. Girando sua lança enquanto saltava e fugia, o guerreiro sentia que Sidapa o conduzia em uma dança mortal, esperando apenas um passo errado para consumi-lo através de seus servos alados. Quando rodopiou até uma clareira, Taghan teve a impressão de que o próprio deus da morte surgia diante dele, sua forma colossal e escura o encarando com olhos ofuscantes. Mas dessa vez não era apenas mais um truque do jardim. De fato ele estava ali, na forma de uma estátua caricata de pedra, com chifres retorcidos como os de um besouro e uma bocarra de dentes afiados que exalava um hálito fresco como chuva.

Ao ouvir o rugido daquela carranca, o rapaz ergueu sua lança em desafio e arremeteu contra ela, se abaixando para escapar dos enxames de borboletas-tigre que vinham do alto como se conduzidos pela estátua. Ele podia sentir o vapor d’água tocar sua pele morena e enxergar a luz do outro lado da garganta de Sidapa, por onde se lançou em um único salto. A pedra fria o envolveu por apenas um instante antes dele se ver flutuando no ar, acima do buraco ruidoso da cachoeira em que o córrego escuro do jardim havia se transformado. Estava livre das borboletas, porém nas margens do abismo a morte ainda o espreitava, com orquídeas carnívoras e plantas-jarro gigantes esperando que ele se juntasse a tantas outras criaturas que haviam encontrado seu fim entre as rochas cobertas de musgo.

Mas Taghan havia aprendido a mergulhar com um dos melhores pescadores que já havia passado pelo arquipélago, o barqueiro nômade de olhos verdes e tatuagens entrelaçadas que lhe havia roubado o coração, e que o guerreiro pretendia reencontrar após receber a bênção de Libulan. Com uma acrobacia habilidosa, ele desceu como uma flecha pelo centro do abismo, escapando das plantas carnívoras que se debruçavam ao seu redor e desaparecendo na neblina da cachoeira. O mergulho foi o último passo de sua dança com Sidapa, e ao emergir das águas geladas ele pensou ouvir um riso gentil e gracioso vindo da coluna de luz prateada que iluminava o lago de lótus-diamantes, começando a desabrochar sob a lua cheia que surgia no céu.

Ashrama sábado, out 1 2016 

Ajna Vidyaapeeth,

Silakhari,

21 de Midsummer, 1694

Minha estimada amiga,

Já faz algum tempo desde nosso último encontro, em sua esclarecedora apresentação sobre o uso medicinal de cinzas de fênix no tratamento de doenças terminais. Gostaria que esta fosse apenas uma correspondência cordial como a muito devo estar lhe devendo, mas o assunto pelo qual escrevo é também o motivo de não ter me comunicado antes. Estes são dias sombrios no Reino de Mahatala, e é somente através da boa vontade do Capitão Arash, um corajoso aeronauta que conheci durante minhas visitas à Costa Lazúli, que esta carta chegará até você na próxima vez em que a aeronave que ele usa para cruzar o mundo visitar a Encruzilhada do Céu em Aurin, de onde sei que chegará até sua sala no Instituto. Penso agora como é engraçado sermos de locais tão próximos, mas termos nos conhecido em uma terra tão distante das nossas. Imagino que isso seja uma amostra daquilo que os sábios mais velhos de minha Universidade vêem com tanta preocupação,  a chamada apropriação de conhecimento do Império Aurinês. Mas também sei das dificuldades pelas quais você passou e espero que esteja vivendo dias agradáveis no Instituto, e que não esteja mais deixando seu chá sempre esfriar.

De qualquer forma, meu tempo é curto e não permite que eu divague demais por outros assuntos. Uma estranha enfermidade causada pelo ópio vem assolando Mahatala, e enquanto se espalha parece corromper a própria terra com sua presença. Aqueles a quem ela reclama são tomados por delírios febris e perdem o contato com a realidade, sucumbindo a pesadelos que perturbam não apenas os chakras como também o corpo físico, escurecendo o sangue e cobrindo os olhos em uma névoa leitosa e acinzentada. Tudo leva a crer que se trata de uma doença com origem mágica, e minhas análises parecem indicar algum tipo de influência de espíritos nocivos, similar aos efeitos da toxina de uma naga sombria ou de uma ferida causada por um rakshasa.

Durante as vistorias que realizei pelo interior, descobri alguns focos isolados desse mal em vilarejos e comunidades tribais. Porém, é aqui na capital de Silakhari que ela se propaga mais rapidamente, especialmente entre os distritos mais pobres. Como mencionei antes, todo lugar que essa enfermidade toca parece ser afetado por uma certa corrupção. Animais deformados e infestados de vermes, aranhas do tamanho de elefantes rastejando nas profundezas de selvas, uma escuridão que rasteja como neblina entre ruas estreitas. É como se os delírios dos doentes se tornassem uma alucinação contagiosa, a ponto de contaminar a própria realidade.

Naturalmente, tentei chamar a atenção sobre o problema ao Rajá, mas sua atenção já está por demais dividida entre a disputa por terras com o Califado de Al-Dasht ao oeste e as colônias da Coroa Windlesa que vêm ocupando ilhas inteiras no arquipélago de Bedwang e estão tomando de maneira agressiva nosso comércio marítimo. A solução para a Febre Cinzenta, um dos muitos nomes que a doença recebeu popularmente, foi relegada a um de seus conselheiros, que como única medida ordenou a construção de casas de quarentena para os viciados enfermos. Estive em alguns desses lugares a mando da Universidade para continuar minha pesquisa sobre a Febre, e o que vi me deixou bastante apreensivo. Não passam de casarões fétidos e escuros onde os doentes são largados para morrer, e o próprio ar parece impregnado pela loucura, com figuras de demônios e estranhos padrões em espiral desenhados nas paredes com a própria imundície do lugar.

A doença foi então apenas temporariamente contida nos distritos em que se estabeleceu a quarentena, tendo seus limites protegidos por membros da Alta Guarda com seus autômatos rudrakshak. Mas como as águas de um pântano que não é drenado, a Febre Cinzenta continua a crescer em meio à decadência, se infiltrando silenciosamente pelas ruas e praças da cidade através do comércio ilegal do ópio que a alimenta. Sem a descoberta de uma cura, aos médicos da Universidade foi recomendado que deixassem que a Guarda cuidasse do assunto. Porém, e aqui me arrisco em dizer, temo que exista algo mais do que uma simples vista grossa ao problema. Isso te digo porque as medidas tomadas pelo Rajá começaram a despertar a desconfiança não apenas de mim como de outros membros da Universidade e da Polícia de Silakhari, o que levou ao início de uma discreta investigação que nos fez enxergar além da cortina de fumaça que cobre Mahatala, e que agora faz com que muitos de nós temam não apenas por suas vidas mas também pelo futuro de nossa nação.

Nós descobrimos um extenso submundo que vai além de atividades criminais, conspirando entre as almofadas de casas de prazeres e as colunas de antigas galerias subterrâneas. Os alvos principais de nossas suspeitas eram os principais beneficiários do comércio do ópio, como os Piratas de Iblis, e descobrimos que de fato eles vêm aumentando sua influência em torno dos distritos de quarentena. Mas eles não são a única presença rondando as multidões de viciados. A Gangue dos Thugs e os Discípulos da Serpente Negra também ampliaram seus territórios, e esses três possuem uma particularidade em comum. O ópio para eles não é apenas uma mercadoria, mas também uma ferramenta usada em seus cultos profanos. Isso fez com que chegássemos à conclusão precipitada de que eram eles os responsáveis pela Febre Cinzenta, mas me parecia muito improvável que três organizações tão distintas estivessem agindo em conjunto.

Foram meus contatos entre os grupos de ciganos do interior que me deram a indicação de que havia algo ainda mais sombrio por trás da degradação de Mahatala.  Eles contam que o Baal de Iblis, a Kali dos Thugs e a Tiamat dos Discípulos nem sempre foram as entidades monstruosas a quem eles veneram, oferecendo morte e decadência em troca de bênçãos sombrias. Elas são uma versão distorcida de sua imagem original, nascidas durante o declínio de civilizações esquecidas pelo tempo. A corrupção da Febre Cinzenta de alguma forma alimenta os poderes dessas divindades caídas, atraindo esses cultistas para Mahatala como moscas sobre uma ferida aberta.

Ao mesmo tempo, e acredito que este seja o fato mais terrível, ela enfraquece a presença e o poder dos outros deuses, ou induz seus seguidores a também moldá-las em formas profanas. Estou ciente de que a magia divina é algo que escapa a um estudo racional, e que muitas vezes aquilo que se assume sobre ela é baseado apenas em crendices populares. Mas não posso deixar de ficar apreensivo com relação às histórias dos ciganos depois de tudo que vi, e você sabe que não consigo fechar meus olhos diante de algo e simplesmente declarar uma coincidência. O fato do Rajá desde que subiu ao trono ter fechado inúmeros templos por todo o país e lançado os sacerdotes à marginalidade me preocupa agora, e não consigo mais acreditar no discurso de renovação intelectual tão amplamente divulgado na Universidade.

Diante desses acontecimentos, espero por dias sombrios, mas não desistirei de lutar pelas pessoas do lugar onde nasci. Te envio junto a esta carta cópias dos estudos sobre a Febre Cinzenta e sobre o que parecem ser novas variedades de ópio recolhidas com a Polícia de Silakhari, que ainda não sei se possuem relação direta com os efeitos sobrenaturais da doença. Minha gratidão será plena se puder compartilhar de seus conhecimentos para acrescentar algo ao que a Universidade já descobriu até o momento. Não por acaso, encontrei registros de incidentes em sua nação no Império Ming que podem estar relacionados aos acontecimentos aqui em Mahatala. Por isso, tome esta carta também como um aviso, pois desconfio que aqueles que estão por trás disso não pretendem restringir suas atividades a uma só nação, e que o Círculo do Ópio, como a Polícia o tem chamado, pode estar agindo em locais tão distantes quanto o próprio Império de Aurin, escondido atrás das suas delirantes cortinas de fumaça.

Que o karma esteja com você,

Sarin Kalenath

Expedição Rivenwood – Parte 2 terça-feira, dez 8 2015 

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CAPÍTULO IV.

SOBREVOANDO O DESERTO DE COBRE EM UMA AERONAVE.

“É simplesmente extraordinário. Eu nunca imaginei que pudesse existir um lugar assim.”

Vianne estava no parapeito da Goldenheart, uma elegante aeronave a vapor de hélice dupla, se segurando em uma das cordas para se inclinar para fora e enxergar melhor a paisagem à sua frente. No planalto, dentro de um cânion pontilhado por árvores verdejantes, a grande capital do Povo do Céu estendia suas torres de pedra vermelha e seus totens colossais até as nuvens. Inúmeras tendas cônicas ocupavam de forma organizada tanto o topo do planalto como o terreno ao redor, delimitadas por um muro que parecia ter crescido do próprio solo rochoso. Um sistema sofisticado de roldanas, velas de couro e hélices de pano percorria todo o lugar, subindo e descendo enormes plataformas de madeira apenas com a força do vento, domesticado pela magia do Povo do Céu. Parte dessas plataformas móveis percorria a face do planalto, permitindo um acesso fácil entre o pé e o topo, enquanto outras se erguiam como asas até as nuvens, dando ao local um aspecto ainda mais grandioso.

Era em uma dessas plataformas suspensas que a Goldenheart atracava, sendo amarrada pela tripulação com a ajuda de um grupo de nativos habilidosos que aguardava. Vianne não perdeu um segundo em aproveitar a parada para saltar e dar uma olhada melhor naquela cidade, deixando a capitã Jezebel cuidar das compras de suprimentos e outros afazeres. Uma senhora de cabelos grisalhos e brilhantes como uma teia de aranha veio em sua direção, envolta em um manto ornamentado que indicava uma posição de respeito como anciã. Ela parecia estar esperando para receber a Marechal, como algum tipo de diplomata local.

“Boa tarde, querida senhora. É uma honra estar no coração do Povo do Céu. A Guilda dos Aeróstatas já havia me contado sobre as maravilhas de Mahpiya, mas devo confessar que não esperava que fosse um lugar tão…”

“Civilizado?” disse a anciã com um risinho, como se já estivesse acostumada a ouvir aquilo. “Vocês de além-mar acham que vivemos em cavernas e tocas no chão como os animais, e sempre acho graça em como ficam surpresos ao ver nossa cidade. Mas seus olhos não estão enganados, Mahpiya é mais do que apenas uma grande aldeia. Se estiver interessada em negócios, irei te mostrar a nossa praça do mercado, que recebe mercadores de peles do sul do deserto até as montanhas nevadas do norte. Ou talvez esteja aqui para visitar nosso santuário de sabedoria, onde os xamãs e engenheiros de toda a nação trocam suas experiências e as transmitem aos mais jovens. Nossa ‘universidade indígena’, como vocês windleses costumam dizer com espanto.”

“É mesmo um lugar incrível, boa senhora” murmurou Vianne com um sorriso constrangido, sentindo pelos olhares direcionados a ela pelos nativos que sua presença como militar não era muito bem vista. “Infelizmente estou apenas de passagem para o oeste. Espero poder voltar em uma ocasião melhor.”

“O vento que sopra do oeste agora traz o fedor de pólvora e cinzas que caem como neve.” respondeu a velha encarando a Marechal com um olhar franco. “E com as disputas por terras e as pragas matando nossos irmãos no leste, sinto que não existam mais boas ocasiões para sua gente vir até aqui.”

“Como uma das oficiais encarregadas pelas colônias de Roonock, farei tudo o que estiver ao meu alcance para assegurar que Mahpiya permaneça imperturbada e os conflitos com seu povo sejam apaziguados” afirmou Vianne sentindo o estômago gelar. Sabia que não seria nem um pouco fácil chegar a um acordo com a Coroa sobre a situação dos nativos, e no momento tinha uma longa e imensurável jornada pela frente, mas quando retornasse iria lutar para que nem mais um único tiro fosse disparado na direção daquela gente que tanto havia ajudado os colonos a sobreviver no Novo Mundo.

“Não é essa minha única preocupação. Nossos sentinelas totêmicos podem nos proteger dos canhões e da magia de seus homens, ainda que eu não deseje ver Mahpiya cercada pelo sangue de meus filhos. Sinto que suas palavras são sinceras, então irei lhe dar um aviso. Não é apenas ouro, prata e metal do céu que seu povo irá encontrar abaixo do solo do deserto. Existem coisas nesse lugar que se alimentam da cobiça no coração dos homens, e elas se escondem nos mesmos veios escuros onde está aquilo que vocês tanto procuram”.

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CAPÍTULO V.

NO INCRÍVEL TATU MECÂNICO DA SENHORITA THUNDERFOX.

Não havia nada além de aridez para além dos territórios do Povo do Céu. O deserto se estendia para todas as direções, como se o mundo inteiro estivesse resumido naquela vastidão de pedra e poeira. A expedição havia sido um fracasso. Três dos quatro povoados de mineração windleses haviam sido perdidos. Crooktown estava ocupada por mortos-vivos que caminhavam sob o sol escaldante, deixando a carne secar e apodrecer até expor seus crânios sorridentes. Sandwell era uma cidade-fantasma tomada por uma praga desconhecida, que tinha levado não apenas a vida como também a cor do vilarejo, transformando tudo em uma desolação cinzenta. E Thunderscape teve sua população exterminada quando os autômatos que trabalhavam no lugar enlouqueceram após terem sido possuídos por alguma entidade sombria desenterrada nas minas. A senhorita Thunderfox, a única sobrevivente dessa última comunidade mineradora, acabou por concordar em levar Vianne para além do deserto após a Marechal ter dispensado suas tropas cansadas e feridas em Tortoise’s Crossing, o povoado restante, com ordens para se recuperarem e prestarem ajuda aos colonos no que fosse necessário.

“São eles denovo?” gritou Vianne sobre o motor ruidoso do tatu mecânico que conduzia as duas através da planície árida, trotando de forma vigorosa. Na distância, uma nuvem de poeira ia se aproximando aos poucos, por mais que o autômato encardido de poeira tentasse acelerar com sua pesada carcaça de metal.

“Esses cabeças de lata não desistem fácil!” respondeu a inventora afastando os cachos loiros do óculos de proteção. “De algum jeito eles não precisam mais parar pra esfriar os mecanismos. Mesmo quando tão parados eles ficam fumegando, como se tivesse alguma outra coisa queimando dentro deles além de carvão e água”.

Logo a silhueta dos cavaleiros autômatos surgiu no meio da poeira, ficando cada vez mais próximos. Os olhos de seus cavalos de ferro brilhavam como lanternas no crepúsculo que se aproximava e tingia o céu de vermelho. Vianne encaixou a última peça do rifle e demorou alguns instantes fazendo mira até acertar em cheio uma perna dianteira de uma das montarias mecânicas, fazendo com que ela desabasse levando junto seu condutor. A inventora por sua vez acendeu uma banana de dinamite enquanto conduzia as alavancas do tatu com os pés e a lançou para trás, levantando uma forte explosão de areia que retardou a perseguição por alguns instantes.

“Eles são muitos! Não dá pra acertar todos antes que cheguem até nós!” avisou a Marechal se abaixando no banco de couro para escapar dos tiros que ricocheteavam na carapaça do veículo.

“Volta pra lá! Eu tenho uma surpresinha pra eles!” Retrucou a senhorita Thunderfox com um sorriso de alguém que só podia ter perdido o juízo. Ela girou uma manivela abaixo do painel de controle e Vianne ouviu um compartimento se abrindo às suas costas. Sendo um voto de confiança sua única opção, ela se levantou e viu que uma arma robusta estava montada na traseira do autômato, com uma fileira de balas vindo do que parecia ser um compartimento de munição até o cano cilíndrico com várias aberturas.

“Achei que só a Mitternacht tivesse essas coisas!” disse a Marechal com espanto, procurando uma posição que não a deixasse muito exposta para atirar. “O que eu faço com isso? É difícil de mirar!”

“Só gira a manivela e atira no que der, tem muita bala aí dentro!” respondeu a inventora tentando manter o tatu mais ou menos estável no tiroteio. “Eu me inspirei nas metralhadoras giratórias da Mitternacht, mas eu mesma projetei essa daí! Primeiro eu usei uma liga de metal mais leve…”

“Desculpe, mas não dá para te ouvir agora!” Vianne berrou entre dentes cerrados, metralhando os autômatos, cavalos, rochas, cactos e tudo mais que estava à sua frente, com exceção do céu que deixava escapar os últimos raios de sol enquanto era iluminado pelo clarão efêmero das explosões.

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CAPÍTULO VI.

PARA A COSTA OESTE EM UMA CARROÇA COBERTA

Vianne já não conseguia lembrar a quantos dias estava viajando sozinha pela imensidão selvagem que se escondia além do Deserto de Cobre. A carroça que tinha montado com ajuda da senhorita Thunderfox havia se tornado seu novo lar, especialmente depois de todos os remendos e aprimoramentos feitos durante a travessia das infindáveis planícies, montanhas e rios. O motor à vapor improvisado que a inventora havia lhe deixado como um presente de despedida havia funcionado por apenas algumas semanas, especialmente depois que o inverno chegou e ficou a cada dia mais difícil arrumar lenha seca para a caldeira. O calor seco do Deserto de Cobre havia dado lugar a um frio sepulcral, que cobria tudo ao redor em um silêncio branco, quebrado apenas por nevascas fantasmagóricas, que ameaçavam soterrar a carroça com um manto gelado. Foi apenas a engenhosidade de Rivenwood que a manteve viva, e antes que seu corpo se entregasse ao torpor e a febre ela conseguiu construir uma vela usando os canos de cobre da estrutura do motor e um de seus lençóis, conectando tudo ao timão de controle da carroça.

Na nevasca seguinte, Vianne deixou que a ventania conduzisse a carroça através das campinas cobertas de neve e dos lagos congelados, mantendo uma caneca de chá quente ao lado para se manter acordada enquanto tentava enxergar na escuridão com a luz fraca das lanternas cobertas ofuscando seus óculos de couro. A luz de fogueiras a atraiu até uma pequena aldeia do Povo do Céu, onde conseguiu trocar uma pistola Kingsley e algumas munições por peles novas para se proteger do frio, além de informações sobre o melhor caminho a seguir. Por alguns dias ela permaneceu entre os nativos, descansando da febre e os ajudando a caçar com pólvora, ou compartilhando de sua comida enlatada quando as tempestades não os deixavam ir muito longe. Com a ajuda da medicina do xamã da aldeia, ela logo estava com o vigor renovado e pronta para partir, antes que ficasse presa nas planícies outra vez.

Quando finalmente alcançou as florestas ao pé da cordilheira de montanhas azuladas, ela se sentiu como se estivesse diante de um mundo novo. Nem mesmo o Povo do Céu se aventurava além das margens sombrias daquela vegetação, e os imensos e velhos pinheiros lhe lembravam dos bosques de fadas de sua terra natal, selvagens e cheios de magia antiga. Estava de volta à sua juventude agora, as pequenas fugas para os arvoredos da propriedade de sua família, que sempre terminavam com um vestido rasgado e um longo sermão sobre comportamentos inapropriados para uma dama. “Mas dessa vez ninguém vai me impedir de ir aonde eu quero” falou para si mesma satisfeita.

Consertar o motor para seguir em frente estava longe de ser a melhor das ideias. Mesmo que ainda fosse possível, seria arriscado demais seguir pelo terreno acidentado e desconhecido das montanhas. Mas as orientações do Povo do Céu já haviam lhe dado uma ideia do que fazer. Ela havia parado perto de um largo rio que vinha do norte e serpenteava entre a cordilheira. Com o fim do inverno, uma corredeira estava se formando, e provavelmente ficaria mais forte com os outros cursos d’água que se juntariam a ele descendo das montanhas. Vianne se desfez da caldeira do motor e manteve apenas o necessário na carroça, a deixando leve o suficiente para ser puxada até a margem e calafetada para flutuar nas águas como uma balsa.

A viagem pelo rio começou mais tranquila do que o esperado. A beleza da paisagem animava a Marechal a seguir em frente, entre as sombras das grandes árvores que se enfileiravam como sentinelas. Foi entre as raízes de um dos pinheiros que Vianne encontrou seu novo companheiro de viagem. O filhote órfão de lontra-dragão era um bocado temperamental, mas não parava de segui-la desde que ela havia oferecido uma das estranhas trutas de pelagem branca que tinha conseguido pescar no rio. Em um fim de tarde, a Marechal descobriu a criatura dormindo entre as roupas de seu varal que tinha acabado de derrubar, e resolveu treiná-lo como a um cão de guarda, tendo um sucesso razoável. Keoonik, como havia batizado a lontra, crescia rapidamente e passava longas horas nadando ao lado da carroça, ajudando a afastá-la das criaturas perigosas e furtivas que perdiam a timidez cada vez que a floresta ficava mais fechada, como as feras do rio que erguiam seus longos pescoços da vegetação aquática e os gigantes peludos com grandes pés que espreitavam entre os troncos na margem.

Numa manhã de densa neblina, Vianne despertou com um som estarrecedor, como se o mundo estivesse se abrindo ao meio. Keoonik entrou agitado na parte coberta da carroça, derrubando o gramofone que ainda tocava enquanto a Marechal havia adormecido. “O que foi agora? Outro monstro?” Saindo para ver o que tinha acontecido, ela mal teve tempo de tentar virar antes da carroça se chocar contra uma grande pedra. As corredeiras tinham ficado mais fortes durante a noite com a chuva que havia caído sobre as montanhas, e a carroça havia se soltado de suas amarras. Vianne caiu na água turva e se debateu com os cabelos soltos atrapalhando sua visão, se chocando contra o casco de um arquelônio que nadava pela correnteza. Se agarrando na grande tartaruga, ela conseguiu se estabilizar e tomar impulso para a margem, onde Keoonik corria de um lado para o outro assustado.

Encharcada, suja de lama e com seu uniforme arruinado, Vianne não pôde deixar de rir da situação ao pensar no que sua família diria. “Vamos lá Keoonik, isso aqui não é brincadeira. Vamos ver onde essa carroça foi parar”. Procurando por toda a manhã entre as pedras do rio, a Marechal conseguiu recuperar a maleta com o rifle, algumas das peles do Povo do Céu e a sua bolsa de pertences pessoais. Com os restos de madeira da carroça ela acabou fazendo uma fogueira para poder se aquecer, secar as vestes e assar os mexilhões que havia conseguido pegar com a ajuda da lontra-dragão. Com o ânimo renovado, Vianne decidiu subir até o topo de um dos montes mais próximos, para poder ver o melhor caminho que poderia seguir dali.

A longa e exaustiva escalada levou o resto do dia, mas a beleza da vista que surgia com a névoa sumindo e a companhia de Keoonik eram suficientes para que ela continuasse. Uma trilha tosca acompanhava o declive rochoso, sinalizada por totens rústicos que pareciam bem diferentes daqueles feitos pelo Povo do Céu. As cabeças de pássaro daqueles totens, com longos bicos e grandes olhos enigmáticos, a intrigavam sobre que tipo de comunidade vivia naqueles vales distantes, mas o pensamento fugiu quando Vianne finalmente alcançou o topo do monte. Além das montanhas, florestas e lagos que se estendiam tingidos pelo laranja do entardecer, o grande oceano se estendia iluminado pelo sol que lentamente mergulhava no horizonte. Aquele era o fim da jornada, o outro lado do continente de Asabikesh que nenhum windlês havia visitado antes. Pegando sua faca da cintura, Vianne Rivenwood escreveu seu nome no tronco da maior árvore que crescia naquele monte, um lugar que futuramente se tornaria um ponto de referência a todas as caravanas vindas do leste em busca de uma vida melhor nos férteis vales do Oeste.

Expedição Rivenwood – Parte 1 sexta-feira, jun 12 2015 

BIBLIOTECA DE PEÇAS DE COBRE DE PORT SMOKE

Vianne Rivenwood em Asabikesh

ou,

RUMO AO SOL POENTE

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Pelo Autor de “Vianne Rivenwood e o Grande Íbis de Safira”

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CAPÍTULO I.

 EM UM NAVIO PARA O CONTINENTE.

“Como vamos manter o curso no meio dessa tempestade, Capitão?”

A chuva incessante escorria pelas janelas da cabine do Liberty, tornando difícil enxergar qualquer coisa além da proa castigada pelas águas escuras que a cobriam cada vez que uma das imensas ondas a atingia, fazendo o navio balançar com um rangido assustador. Era o quarto dia desde que a Marechal Vianne Rivenwood havia deixado a cidade  flutuante de Port Smoke para explorar as terras de Roonock no Novo Mundo, onde os colonos enviados por Windlan estavam descobrindo ouro, adamante e outras riquezas. O objetivo da expedição era chegar até o Deserto de Cobre, no Oeste do continente, e confirmar os relatos sobre as minas locais, mas Vianne tinha também seus próprios objetivos. Ela planejava ir ainda mais longe, e ser a primeira a descobrir o que existia além do Deserto, atravessando o continente até encontrar a distante costa oeste. Mas para isso, precisaria primeiro colocar os pés em terra firme, o que a súbita tormenta parecia disposta a impedir.

“Não se preocupe, dona Marechal. Esse clima pode parecer intimidador mas é comum por aqui. Lembra que ‘cê tá a bordo de um dos navios mais robustos dos Arautos do Vapor. Mesmo com as velas recolhidas, vamos manter uma boa velocidade com a força das caldeiras impulsionando as rodas de pá. As chaminés tão cuspindo fumaça como um dragão, vai ser preciso mais do que esse aguaceiro pra nos tirar do nosso rumo.”

Enquanto o Capitão Bullhorn continuava pilotando inabalável através da tormenta, Vianne analisou outra vez os mapas sobre a mesa na cabine, notando que o Liberty passava ao norte de um pequeno conjunto de ilhas rochosas próximas da Costa de Brimmouth, onde pretendiam desembarcar. Afastando o vidro de uma das janelas circulares, ela vasculhou o horizonte com sua luneta, tentando encontrá-las no meio da chuva que açoitava o navio.

“Dá pra ver umas luzes azuis naquelas ilhas. O que elas são?”

“Isso aí ninguém sabe ao certo” respondeu Bullhorn tirando o cachimbo da boca enquanto mantinha a outra firme no timão. “Mas já foram a ruína de muitos marinheiros. Aquelas ilhas são problema. Mesmo com o nosso casco reforçado com placas de aço a gente ia brincar muito com a sorte se a tempestade nos arrastasse até lá. Como se as rochas afiadas e traiçoeiras não fossem o bastante, o lugar ‘inda é infestado de demônios marinhos. Os índios dizem que são esses demônios que provocam esse tempo, quando cultuam seus velhos deuses. Eu prefiro não ter que ir ‘té lá descobrir.”

Vianne apertou os lábios e permaneceu observando o brilho fantasmagórico, sinalizando a silhueta das ilhas que se erguiam como garras contra o céu cinzento. Aquela era uma aventura que teria de ficar para outra ocasião. Subitamente, a embarcação gemeu em um rangido mais forte, e começou a se inclinar vigorosamente para cima enquanto o mar à frente ia se contorcendo em uma muralha de água.

“Aí vem uma das grandalhonas. É melhor se segurar bem, viu Marechal!” alertou o Capitão puxando a corda do alarme, fazendo o apito soar várias vezes antes de se lançar contra a onda, como se estivesse desafiando aqueles que tentavam impedir o Liberty de chegar ao Novo Mundo.

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CAPÍTULO II.

 PELOS CAMPOS COM UM GIGANTE A VAPOR.

Vianne já estava agora há dois dias viajando pela estrada de terra que deixava o vilarejo de Hallow Port e seguia até o povoado mais distante de Owlight Hill, e tudo o que enxergava ao seu redor eram os campos cultivados pelos colonos se estendendo até as florestas e charcos mais distantes. Tudo estava tingido pela luz azulada do crepúsculo, com exceção dos pequenos pontos incandescentes que indicavam as casas dos fazendeiros e algumas fogueiras de acampamento. Um espantalho solitário estendia os braços sobre uma plantação de mirtilos, sua face de abóbora tão inexpressiva quanto a do gigante de ferro que puxava a carruagem blindada, soltando vapor pelo escapamento em suas costas. Aquelas máquinas humanoides conseguiam cruzar longas distâncias pelo terreno acidentado sem dificuldade, apenas tendo que parar por algumas horas a cada dia para repor o combustível da caldeira e resfriar os motores. Todo trabalho era realizado com diligência por Ghix, um engenhoso goblin que era um pioneiro em construir e direcionar aquelas máquinas entre os dois assentamentos colonos.

“A maior parte das peças dá pra conseguir nos ferro-velhos da costa, tem um monte de coisa da antiga baleia de ferro que não se perdeu quando ela afundou e fizeram uma nova pra colônia. Claro que não é fácil conseguir gente pra trabalhar lá , as pessoas tem medo das assombrações e tudo mais, mas qual é o lugar por aqui que não é mau assombrado, não é?”

Mais tarde, enquanto ouvia os soldados conversarem em uma das pausas para a manutenção do gigante na beira da estrada, ela não podia deixar de concordar com as palavras de Ghix. Cada um dos homens parecia ter sua própria história sobre cavaleiros fantasmagóricos, seres do espaço e damas do pântano que compartilhavam aquelas terras com os colonos. Alguns militares de patente mais alta tinham adquirido propriedades nas colônias e pareciam desconfiar de seus próprios empregados, que faziam rituais considerados pagãos em Windlan a cada colheita. “Parem com essa tolice.” ela disse visivelmente incomodada quando se cansou de ignorar a conversa. “É sobretudo graças a essas pessoas que a colônia está prosperando. Se as bruxas que o Império enviou para cá não fossem tão boas em lidar com a terra, Roonock não estaria enviando tantas mercadorias para a Capital”. Ela sabia que suas palavras eram ousadas, e que o receio de Windlan com as antigas religiões era justamente o motivo de seus praticantes serem enviados para tão longe do Velho Continente. Mas além de não aprovar a maneira como aquelas mulheres eram vistas, era irresistível a sua curiosidade pelo mundo de espíritos e fadas que elas traziam consigo, deixando aquela paisagem campestre tão cheia de mistérios.

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CAPÍTULO III.

 ATRAVESSANDO AS MONTANHAS EM UM TREM.

“O que vai querer, senhorita?” disse a moça albina cruzando o vagão com um carrinho de frutas, doces e bebidas. Vianne desviou os olhos por um momento do mapa que estudava, mostrando os caminhos que poderia tomar das Montanhas Silverfox após chegar na parada final do trem, que avançava rápido e fazia Owlight Hill aos poucos desaparecer como um brilho esverdeado na distância. “Estou bem, obrigada” respondeu a marechal espiando a funcionária com rabo dos olhos enquanto ela ia embora. Desde que havia embarcado, um frio na espinha a estava deixando intranquila naquele expresso noturno, e o luxuoso vagão de primeira classe onde estava acomodada separada de sua tropa não ajudava. O barulho incessante das rodas sobre os trilhos e a sensação de movimento eram as únicas coisas que conseguiam mantê-la focada em seus preparativos de viagem, pois a decoração refinada ao seu redor fazia com que se sentisse presa em alguma velha memória de sua infância entre a aristocracia de Windlan.

Quando as horas no relógio de bolso sobre a mesa já começavam a se arrastar e o sono não vinha, ela tentou se distrair olhando para a escuridão além da janela. Estavam passando por um arvoredo na encosta agora, e ela conseguia ver a sombra das folhagens balançando sob o luar gélido do outono. Foi quando outro movimento lhe chamou a atenção e ela notou as figuras que perseguiam o trem, correndo de quatro com um brilho bestial em seus olhos lupinos. Haviam dezenas deles se aproximando, e as pancadas barulhentas no teto logo mostraram que não estavam apenas apostando corrida com o veículo. Rapidamente, Vianne abriu sua maleta e começou a montar as peças do rifle em seu interior. Mas antes que terminasse, a locomotiva assoviou com um uivo medonho enquanto o trem acelerou de súbito, fazendo com que os pedaços da arma se espalhassem pelo vagão. O revés não lhe causou mais que um suspiro de frustração, e se apoiando na mesa ela carregou a pistola de cano longo que trazia no coldre, seguindo na direção da caldeira.

Com o veículo acelerando cada vez mais, ela empurrou a porta do vagão e se deparou com um dos lobisomens rosnando para ela, se arrastando com dificuldade sobre o teto do trem com as garras. Com um tiro certeiro, a criatura foi derrubada e sumiu no mar de folhagens que cercava o trem. Avançando com cuidado até a porta da locomotiva, Vianne a abriu e enxergou o maquinista parado tranquilamente diante dos controles, puxando uma alavanca para desacelerar o expresso quando este entrou por um túnel, se livrando das últimas feras que ainda conseguiam se segurar.

“Espero que esteja apreciando a viagem, senhorita Rivenwood.” disse o maquinista se virando para ela, o lampião na cabine iluminando a alta cartola e os óculos de couro com lentes vermelhas. Quando percebeu os caninos afiados em seu sorriso zombeteiro, Vianne entendeu o porque daquele trem lhe trazer a sensação de uma sepultura de ferro sobre rodas.

“Vou precisar me lembrar de nunca mais pegar o expresso das onze.” respondeu a marechal aborrecida antes de bater a porta, se preparando para uma longa noite sem dormir.

Grimório – Espíritos sexta-feira, maio 22 2015 

Nem todas as almas daqueles que morrem em Keleb deixam completamente o mundo material para desaparecer no Aether. Quando ainda existe alguma ligação com o plano físico, esses Espíritos se utilizam dela para se manifestar ou até mesmo existir de forma permanente. Alguns possuem sua própria agenda e objetivos, que podem ser a âncora que os prendem ao mundo carnal. Outros são invocados por xamãs ou necromantes para prestar auxílio em uma tarefa específica ou para se tornarem subordinados de suas vontades. Diferentemente dos mortos-vivos sem mente gerados de forma espontânea ou artificial através da energia de Putridum, os Espíritos mantém memórias de suas antigas existências, e se agarram firmemente a elas mesmo quando suas consciências se corrompem no processo de existir como uma sombra no plano material. As lembranças são sua mais importante e por vezes única posse, e a única coisa que verdadeiramente os sustenta na pós-vida.

 Ancestrais

Os mais antigos e nobres entre os Espíritos são os Ancestrais, que costumam passar a maior parte do tempo em outras camadas do Aether, mas permanecem ligados ao plano material através de laços de hereditariedade e de herança cultural. Muitos são tratados por seus descendentes e discípulos de forma praticamente divina, executando funções parecidas com as dos Aeons. Guardiões de sua linhagem e da memória de seu povo, eles são convocados através de cerimônias especiais em seus túmulos consagrados, ou através de magias poderosas de evocadores de Espíritos. Ancestrais costumam assumir a forma de seres espectrais de energia luminosa, muito raramente assumindo uma forma corpórea. É possível encontrá-los entre os Loas do Continente Negro e nos Espíritos Totêmicos de diversas culturas xamanistas. Sua presença também é forte na magia divina dos Reinos Orientais, em especial nas Ilhas Akitsushima e no Império Ming. Algumas das antigas culturas de Aurin e Windlan também realizavam cultos aos Ancestrais, mas essas práticas estão hoje perdidas em suas civilizações modernas, sendo apenas um motivo de curiosidade para a comunidade científica.

Fantasmas

Pelo mundo inteiro existem histórias sobre lugares abandonados atormentados por assombrações. Sejam antigas mansões windlesas, fazendas de escravos aurinesas ou navios misteriosos flutuando à deriva pelo oceano. Quando um local é marcado por algum evento especialmente violento ou traumático, ou quando é exposto em demasia a certos tipos de influência mágica, existe uma grande possibilidade de que ele passe a ser o lar de Fantasmas, ecos de eventos passados que se manifestam através de aparições incorpóreas. Os Fantasmas mais comuns são formados pelas memórias de um único indivíduo, aprisionado no lugar que lhe serve de vínculo. Mas existem também aqueles que são formados por consciências coletivas, reunidas por um mesmo sentimento na hora da morte. Acorrentados em suas lembranças, os fantasmas se tornam alheios à passagem do tempo, realizando eternamente a mesma rotina até serem perturbados pela presença de uma nova consciência em seus domínios. A reação a essas intromissões não costuma ser amistosa, uma vez que devido à fragilidade de suas existências os Fantasmas são os Espíritos que mais facilmente sucumbem à loucura.

Retornados

Enquanto os Fantasmas são efeitos colaterais de acontecimentos que ferem a barreira do Aether, os Retornados são frutos da ação deliberada de forças sombrias como rituais e maldições, impulsionadas por memórias ligadas a sentimentos latentes como vingança, mágoa ou abandono. Atormentadas por seus desejos não realizados, as almas dos Retornados costumam ter uma aparência lúgubre, como uma sombra esquelética. Não é de todo incomum que um Retornado ainda possua seu próprio corpo, ainda que este se torne cadavérico e distorcido. Vinculados ao plano material pela vontade que não cumpriram em vida, os Retornados podem se transformar em criaturas terríveis, especialmente quando a loucura da não-vida confunde seus objetivos e os torna obstinados. Porém, alguns deles conseguem direcionar essa obsessão para algo mais positivo, transformando-se em espectros justiceiros ou mortos-vivos festivos, até que consigam alcançar o que precisam para poderem enfim descansar.

Eternos

Na escuridão fétida de seus túmulos decrépitos, os Eternos tramam contra o ciclo natural da vida enquanto sustentam o peso das eras. Diferente de outros Espíritos, que retornam do Aether após a morte por alguma ação externa, os Eternos persistem no mundo carnal pela fabricação de seus próprios vínculos, usando do amplo conhecimento sobre o pós-vida que possuem. Eles são os Lich das necrópoles gélidas do Norte, os Jiang Shi que corrompem monastérios inteiros no Império Ming e as Múmias Ancestrais das pirâmides de Tawosret. O aspecto que assumem como espíritos é o de uma figura enorme e imponente feita de névoa cinzenta, mas eles normalmente permanecem enclausurados em seus próprios cadáveres, que com o passar do tempo se tornam não mais do que pele e osso embrulhados em retalhos de antigas roupas extravagantes. Seus vínculos artificiais costumam ser um objeto de qualquer natureza, como um medalhão, livro ou arma, sempre guardado com extremo zelo. Uma vez tendo derrubado a barreira da morte, os Eternos anseiam por cada vez mais tempo para levar a cabo seus planos, criando exércitos de Retornados e mortos-vivos menores para protegê-los enquanto buscam feitiços que possam levá-los ainda mais longe, tentando alcançar um grau de poder e imortalidade que rivalize o dos Aeons.

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