Bedwang terça-feira, jun 27 2017 

Bedwang é uma região formada por diversos arquipélagos tropicais na parte sudeste dos Mares do Sul, habitada por diferentes povos nativos que em sua maioria fazem parte da Aliança Nagaraja. Várias das ilhas e rotas entre elas são disputadas a séculos por marinheiros e corsários de Aurin e Windlan e pelos Piratas de Iblis, enquanto que Jazirat Al-Nilak, o Império Ming e as Ilhas Akitsushima possuem acordos comerciais com as ilhas maiores, estabelecendo entrepostos e rotas. Durante a estação das monções, o clima impede navegantes de usarem boa parte das rotas marítimas que deixam Bedwang, o que faz com que durante os longos meses de espera eles acabem se integrando à cultura local, tornando as cidades portuárias bastante diversificadas.

As Ilhas de Angker são cobertas por selvas fechadas e escuras, que servem de refúgio a tribos guerreiras, piratas e uma infinidade de estranhas criaturas. Em seu centro fica Biringan, a maior cidade de Bedwang e o mais próximo de uma capital para a região.

O Reino da Serpente é formado por ilhas que um dia abrigaram um extinto Império Naga, destruído por um cataclismo que as tornaram um local sombrio e repleto de demônios.

As Ilhas Haligi são um arquipélago isolado nos limites de Bedwang, com algumas pequenas ilhas em sua superfície e um imenso reino submarino em suas profundezas.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Ilhas de Angker

Nas ilhas tropicais de Angker cada selva, montanha e enseada guarda algum segredo único, tornando esse lugar uma das maiores fontes de histórias de marinheiro duvidosas de todo o mundo conhecido. Castigada por tempestades e vulcões, Angker é habitada por vários grupos diferentes de nativos humanos, sendo os Taong-Pulan os mais numerosos. Esses ilhéus chamam atenção por suas tatuagens e roupas de um vermelho vivo, e habitam cidades e aldeias costeiras de onde saem seus imensos balangués, canoas rústicas com velas coloridas que carregam cabanas de palha inteiras. A maior dessas cidades é Biringan, uma metrópole antiga de atmosfera mágica que ocupa toda uma baía de uma das ilhas.

Mesmo sendo conhecedores do arquipélago, os Taong-Pulan temem e respeitam suas matas, por onde caminham criaturas sinistras como os Tikbalang de cabeça equina e corpo delgado. Mas nem mesmo as cidades mais movimentadas estão livres de monstros, e pelas docas úmidas vampiros voam nas noites quentes enquanto os crocodilos Buwaya guardam as almas tomadas por seus mestres em baús cobertos de limo. No interior das ilhas, florestas sagradas abrigam as Diwata, seres poderosos ligados a Veridia que são tratados como divindades por muitas aldeias, e que cultivam jardins mágicos onde pacíficos seres vegetais dividem espaço com plantas carnívoras gigantes. Os mares por sua vez são o lar de inúmeras raças aquáticas, e de monstros marinhos que vão de arraias voadoras a leviatãs lendários devoradores de luas. Piratas também frequentam essas águas, mas algo sombrio deixado por antigos colonos fez com que muitos fossem amaldiçoados pela força conhecida como Ouro do Diabo, tornando as rotas marítimas da região ainda mais perigosas aos navegadores que ousam se aventurar por elas.

Reino da Serpente

Há centenas de anos, o Reino de Gulungan prosperou no conjunto de ilhas que hoje é conhecido como o Reino da Serpente, chamado assim pelas antigas linhagens de Nagas que, segundo as ruínas espalhadas pelo arquipélago, ajudaram a erguer e governar seus templos, zigurates e estradas sinuosas, defendendo seus aliados humanos de ameaças vindas do continente próximo como os Rakshasa e os Dragões Negros. No centro da maior das ilhas, batizada com o nome do extinto reino, a grande cidadela que era a capital e coração de Gulungan ainda surpreende exploradores com suas elaboradas construções de pedra, agora reclamadas pela selva úmida e pelas criaturas que nela se abrigam. Relatos sobre plantas carnívoras, símios colossais e até mesmo dinossauros são apenas uma pequena parte das histórias contadas por aqueles que já tiveram algum contato com Gulungan.

Murais encontrados nas ruínas indicam que Gulungan era uma nação milenar, talvez mais antiga mesmo que seus primeiros ocupantes humanos. Imagens mostram nagas e dragões enfrentando uma raça de gigantes e criaturas insetóides, mas ainda é escasso o conhecimento sobre o que é história e o que é alegoria. O que se sabe é que quando a Tribo de Iblis expandiu seu alcance até o arquipélago de Bedwang, o Reino de Gulungan sucumbiu após uma inteira estação de tempestades cataclísmicas, com os sobreviventes lutando pelo que havia restado e rapidamente sendo corrompidos pela fome, pela amargura e pela influência demoníaca de Iblis e seu patrono Baal. Alguns dos remanescentes do povo de Gulungan distorceram as práticas de seus ancestrais Naga e se transformaram em homens-serpente, indo do desejo de retomar a glória de seu antigo Reino para uma sede de poder que os leva a realizar rituais profanos nas profundezas da selva, unindo fragmentos de conhecimento perdido da sua nação com as energias abissais que macularam a ilha.

Mas além desses descendentes, outros povos também frequentam e habitam o arquipélago, vindos de Mahatala, Ming ou dos muitos povos nativos das ilhas próximas. Os Nômades Barqueiros estão entre os mais numerosos, e muitos se assentaram em pequenas vilas costeiras de bambu e madeira, trazendo consigo a arte do wayang kulit, um teatro de sombras que segundo alguns estudiosos guarda segredos arcanos. Existe também uma colônia de Piratas de Iblis na Ilha Kolo, e recentemente a Esquadra Seláquia ajudou a estabelecer o porto independente de Kamardikan na própria Gulungan.  Rumores sobre os antigos tesouros do Reino Naga, ainda perdidos na sombra de suas ruínas, continuam a atrair exploradores do mundo inteiro, trazendo navios e aeronaves carregadas de aventureiros até as praias tropicais e montanhas enevoadas do arquipélago. 

Ilhas Haligi

Localizadas no extremo leste de Bedwang, as Ilhas Haligi são a fronteira entre dois mundos. Acima do mar, ficam as ilhas propriamente ditas, um arquipélago de praias paradisíacas e florestas de palmeiras, com alguns vulcões ou lagos de crateras nas ilhas maiores. Muitas delas são desertas, servindo de lar apenas para animais selvagens, caranguejos gigantes e espíritos elementais. Algumas dessas ilhas desabitadas são usadas como refúgio por contrabandistas de Akitsushima, piratas de Ming ou de Iblis, mercadores de Aurin ou, mais recentemente, pelos Arautos do Vapor. Mas a maior presença humana na região são as aldeias dos Guse’Kajulo, um povo que vive de forma simples em rústicas cabanas de palmeira, mas é conhecido por seus hábeis e destemidos mergulhadores, capazes de pescar tanto no calor fervente das fendas de magma submersas como no frio de águas profundas.

Mas nem mesmo os Guse’Kajulo se aventuram nas colossais Fendas Fosforescentes que se estendem para além das encostas vulcânicas e dos recifes de coral violeta. Abaixo da superfície da água, existe uma das mais complexas regiões submarinas do mundo de Keleb, e a mais profunda de todas. Diferentes povos aquáticos ergueram seus reinos entre as Ilhas Haligi, e embora os nativos estejam ligados a algumas delas, como os gigantes vermelhos das chaminés de vapor e as sereias de pele morena dos atóis rochosos, outras passam suas vidas inteiras sem qualquer contato com a luz do sol, inalcançáveis exceto por magia poderosa ou pelos ainda incipientes veículos submarinos. Uma outra raça de sereias é mencionada nas histórias de suas irmãs, vivendo em cidades rudimentares esculpidas na face dos abismos submersos, de onde nadam para a escuridão. Desprovidas de qualquer pigmentação, elas são vistas como violentas pelas que vivem mais perto da superfície, e usam sua bioluminescência natural apenas para caçar ou para emitir avisos aos outros membros de seus clãs.

Mas elas não são as únicas criaturas inteligentes a habitar as partes mais profundas das Fendas. As matriarcas das sereias dos atóis sussurram sobre criaturas dracônicas de proporções absurdas, além de krakens, aboletes e outros seres ainda mais estranhos tentando estabelecer seus próprios domínios. Porém, esses são apenas rumores vagos diante da ameaça presente de uma das mais antigas cidades dos Seres Abissais, cujo nome é conhecido apenas pelos membros de sua raça. Os homens-peixe que habitam essa cidade ancestral travam uma guerra sangrenta contra as sereias das Fendas desde que estas se tornaram uma presença proeminente, e seus ataques em águas menos profundas, e até mesmo na superfície, têm se tornado mais frequentes a cada ano, o que leva as matriarcas a acreditar que eles temem que as expedições cada vez mais ousadas dentro de seu território revelem algum segredo terrível, escondido entre suas torres de luz etérea.

Introdução – Bedwang sábado, mar 25 2017 

Os pés descalços de Taghan se equilibravam com cuidado no tronco da palmeira curvada como uma ponte sobre o córrego escuro, quase invisível entre as margens cobertas de verde. Cachos de flores vermelhas pendiam dos galhos acima de sua cabeça, que entrelaçados filtravam a luz do sol poente em raios dourados que afastavam os pequenos lagartos e insetos escondidos sob a vegetação. O aroma de jasmim perfumava o ar abafado e quente, e ao terminar de atravessar o rapaz teve que parar para enxugar o suor da testa. O sorriso em seu rosto no entanto afastava qualquer dúvida de que havia valido a pena adentrar aquela parte escondida da ilha, onde seu povo nunca se aventurava.

Ali era o jardim secreto do Arquipélago de Angker, criado pelo Aeon da morte Sidapa como um presente para seu amado, o garoto-lua Libulan. Diziam que no centro do jardim haviam flores encantadas, que abençoavam com sorte e beleza qualquer um que tivesse um amor como o do par de deuses, e era por isso que Taghan havia cruzado vales e montanhas para chegar até ali. Os javalis furiosos e tempestades repentinas do caminho haviam levado embora o escudo de tartaruga-dragão e a bandana vermelha que impedia os longos cabelos negros de caírem sobre o rosto, mas cada vez que desafiava um novo perigo ele sentia estar provando a Sidapa o quanto era digno o que sentia, e nada que o deus da morte colocasse em seu caminho seria capaz de fazê-lo recuar.

O que não o impediu de dar um passo cauteloso para trás ao notar uma forma laranja com listras negras se mover por entre o pomar de bananeiras após o córrego. Apertando a haste da lança e a puxando para trás, Taghan afastou devagar a cortina de folhas e se preparou para enfrentar a fera, quando percebeu que seus olhos haviam se enganado no crepúsculo. Na sua frente, uma nuvem de borboletas alaranjadas esvoaçava baixo no jardim tropical, se juntando a outras amontoadas no chão. O rapaz abaixou sua arma e continuou em frente, mas seu suspiro de alívio foi cortado antes que desse mais de um passo, quando um cheiro acre invadiu suas narinas e as borboletas levantaram voo em sua direção, revelando a carcaça do tigre que haviam limpado até os ossos antes de sentirem a nova presa em seu território.

Agora os pés de Taghan corriam sobre a relva, pisando em ervas aromáticas que confundiam seus sentidos enquanto as borboletas rodopiavam em perseguição. Girando sua lança enquanto saltava e fugia, o guerreiro sentia que Sidapa o conduzia em uma dança mortal, esperando apenas um passo errado para consumi-lo através de seus servos alados. Quando rodopiou até uma clareira, Taghan teve a impressão de que o próprio deus da morte surgia diante dele, sua forma colossal e escura o encarando com olhos ofuscantes. Mas dessa vez não era apenas mais um truque do jardim. De fato ele estava ali, na forma de uma estátua caricata de pedra, com chifres retorcidos como os de um besouro e uma bocarra de dentes afiados que exalava um hálito fresco como chuva.

Ao ouvir o rugido daquela carranca, o rapaz ergueu sua lança em desafio e arremeteu contra ela, se abaixando para escapar dos enxames de borboletas-tigre que vinham do alto como se conduzidos pela estátua. Ele podia sentir o vapor d’água tocar sua pele morena e enxergar a luz do outro lado da garganta de Sidapa, por onde se lançou em um único salto. A pedra fria o envolveu por apenas um instante antes dele se ver flutuando no ar, acima do buraco ruidoso da cachoeira em que o córrego escuro do jardim havia se transformado. Estava livre das borboletas, porém nas margens do abismo a morte ainda o espreitava, com orquídeas carnívoras e plantas-jarro gigantes esperando que ele se juntasse a tantas outras criaturas que haviam encontrado seu fim entre as rochas cobertas de musgo.

Mas Taghan havia aprendido a mergulhar com um dos melhores pescadores que já havia passado pelo arquipélago, o barqueiro nômade de olhos verdes e tatuagens entrelaçadas que lhe havia roubado o coração, e que o guerreiro pretendia reencontrar após receber a bênção de Libulan. Com uma acrobacia habilidosa, ele desceu como uma flecha pelo centro do abismo, escapando das plantas carnívoras que se debruçavam ao seu redor e desaparecendo na neblina da cachoeira. O mergulho foi o último passo de sua dança com Sidapa, e ao emergir das águas geladas ele pensou ouvir um riso gentil e gracioso vindo da coluna de luz prateada que iluminava o lago de lótus-diamantes, começando a desabrochar sob a lua cheia que surgia no céu.

Ashrama sábado, out 1 2016 

Ajna Vidyaapeeth,

Silakhari,

21 de Midsummer, 1694

Minha estimada amiga,

Já faz algum tempo desde nosso último encontro, em sua esclarecedora apresentação sobre o uso medicinal de cinzas de fênix no tratamento de doenças terminais. Gostaria que esta fosse apenas uma correspondência cordial como a muito devo estar lhe devendo, mas o assunto pelo qual escrevo é também o motivo de não ter me comunicado antes. Estes são dias sombrios no Reino de Mahatala, e é somente através da boa vontade do Capitão Arash, um corajoso aeronauta que conheci durante minhas visitas à Costa Lazúli, que esta carta chegará até você na próxima vez em que a aeronave que ele usa para cruzar o mundo visitar a Encruzilhada do Céu em Aurin, de onde sei que chegará até sua sala no Instituto. Penso agora como é engraçado sermos de locais tão próximos, mas termos nos conhecido em uma terra tão distante das nossas. Imagino que isso seja uma amostra daquilo que os sábios mais velhos de minha Universidade vêem com tanta preocupação,  a chamada apropriação de conhecimento do Império Aurinês. Mas também sei das dificuldades pelas quais você passou e espero que esteja vivendo dias agradáveis no Instituto, e que não esteja mais deixando seu chá sempre esfriar.

De qualquer forma, meu tempo é curto e não permite que eu divague demais por outros assuntos. Uma estranha enfermidade causada pelo ópio vem assolando Mahatala, e enquanto se espalha parece corromper a própria terra com sua presença. Aqueles a quem ela reclama são tomados por delírios febris e perdem o contato com a realidade, sucumbindo a pesadelos que perturbam não apenas os chakras como também o corpo físico, escurecendo o sangue e cobrindo os olhos em uma névoa leitosa e acinzentada. Tudo leva a crer que se trata de uma doença com origem mágica, e minhas análises parecem indicar algum tipo de influência de espíritos nocivos, similar aos efeitos da toxina de uma naga sombria ou de uma ferida causada por um rakshasa.

Durante as vistorias que realizei pelo interior, descobri alguns focos isolados desse mal em vilarejos e comunidades tribais. Porém, é aqui na capital de Silakhari que ela se propaga mais rapidamente, especialmente entre os distritos mais pobres. Como mencionei antes, todo lugar que essa enfermidade toca parece ser afetado por uma certa corrupção. Animais deformados e infestados de vermes, aranhas do tamanho de elefantes rastejando nas profundezas de selvas, uma escuridão que rasteja como neblina entre ruas estreitas. É como se os delírios dos doentes se tornassem uma alucinação contagiosa, a ponto de contaminar a própria realidade.

Naturalmente, tentei chamar a atenção sobre o problema ao Rajá, mas sua atenção já está por demais dividida entre a disputa por terras com o Califado de Al-Dasht ao oeste e as colônias da Coroa Windlesa que vêm ocupando ilhas inteiras no arquipélago de Bedwang e estão tomando de maneira agressiva nosso comércio marítimo. A solução para a Febre Cinzenta, um dos muitos nomes que a doença recebeu popularmente, foi relegada a um de seus conselheiros, que como única medida ordenou a construção de casas de quarentena para os viciados enfermos. Estive em alguns desses lugares a mando da Universidade para continuar minha pesquisa sobre a Febre, e o que vi me deixou bastante apreensivo. Não passam de casarões fétidos e escuros onde os doentes são largados para morrer, e o próprio ar parece impregnado pela loucura, com figuras de demônios e estranhos padrões em espiral desenhados nas paredes com a própria imundície do lugar.

A doença foi então apenas temporariamente contida nos distritos em que se estabeleceu a quarentena, tendo seus limites protegidos por membros da Alta Guarda com seus autômatos rudrakshak. Mas como as águas de um pântano que não é drenado, a Febre Cinzenta continua a crescer em meio à decadência, se infiltrando silenciosamente pelas ruas e praças da cidade através do comércio ilegal do ópio que a alimenta. Sem a descoberta de uma cura, aos médicos da Universidade foi recomendado que deixassem que a Guarda cuidasse do assunto. Porém, e aqui me arrisco em dizer, temo que exista algo mais do que uma simples vista grossa ao problema. Isso te digo porque as medidas tomadas pelo Rajá começaram a despertar a desconfiança não apenas de mim como de outros membros da Universidade e da Polícia de Silakhari, o que levou ao início de uma discreta investigação que nos fez enxergar além da cortina de fumaça que cobre Mahatala, e que agora faz com que muitos de nós temam não apenas por suas vidas mas também pelo futuro de nossa nação.

Nós descobrimos um extenso submundo que vai além de atividades criminais, conspirando entre as almofadas de casas de prazeres e as colunas de antigas galerias subterrâneas. Os alvos principais de nossas suspeitas eram os principais beneficiários do comércio do ópio, como os Piratas de Iblis, e descobrimos que de fato eles vêm aumentando sua influência em torno dos distritos de quarentena. Mas eles não são a única presença rondando as multidões de viciados. A Gangue dos Thugs e os Discípulos da Serpente Negra também ampliaram seus territórios, e esses três possuem uma particularidade em comum. O ópio para eles não é apenas uma mercadoria, mas também uma ferramenta usada em seus cultos profanos. Isso fez com que chegássemos à conclusão precipitada de que eram eles os responsáveis pela Febre Cinzenta, mas me parecia muito improvável que três organizações tão distintas estivessem agindo em conjunto.

Foram meus contatos entre os grupos de ciganos do interior que me deram a indicação de que havia algo ainda mais sombrio por trás da degradação de Mahatala.  Eles contam que o Baal de Iblis, a Kali dos Thugs e a Tiamat dos Discípulos nem sempre foram as entidades monstruosas a quem eles veneram, oferecendo morte e decadência em troca de bênçãos sombrias. Elas são uma versão distorcida de sua imagem original, nascidas durante o declínio de civilizações esquecidas pelo tempo. A corrupção da Febre Cinzenta de alguma forma alimenta os poderes dessas divindades caídas, atraindo esses cultistas para Mahatala como moscas sobre uma ferida aberta.

Ao mesmo tempo, e acredito que este seja o fato mais terrível, ela enfraquece a presença e o poder dos outros deuses, ou induz seus seguidores a também moldá-las em formas profanas. Estou ciente de que a magia divina é algo que escapa a um estudo racional, e que muitas vezes aquilo que se assume sobre ela é baseado apenas em crendices populares. Mas não posso deixar de ficar apreensivo com relação às histórias dos ciganos depois de tudo que vi, e você sabe que não consigo fechar meus olhos diante de algo e simplesmente declarar uma coincidência. O fato do Rajá desde que subiu ao trono ter fechado inúmeros templos por todo o país e lançado os sacerdotes à marginalidade me preocupa agora, e não consigo mais acreditar no discurso de renovação intelectual tão amplamente divulgado na Universidade.

Diante desses acontecimentos, espero por dias sombrios, mas não desistirei de lutar pelas pessoas do lugar onde nasci. Te envio junto a esta carta cópias dos estudos sobre a Febre Cinzenta e sobre o que parecem ser novas variedades de ópio recolhidas com a Polícia de Silakhari, que ainda não sei se possuem relação direta com os efeitos sobrenaturais da doença. Minha gratidão será plena se puder compartilhar de seus conhecimentos para acrescentar algo ao que a Universidade já descobriu até o momento. Não por acaso, encontrei registros de incidentes em sua nação no Império Ming que podem estar relacionados aos acontecimentos aqui em Mahatala. Por isso, tome esta carta também como um aviso, pois desconfio que aqueles que estão por trás disso não pretendem restringir suas atividades a uma só nação, e que o Círculo do Ópio, como a Polícia o tem chamado, pode estar agindo em locais tão distantes quanto o próprio Império de Aurin, escondido atrás das suas delirantes cortinas de fumaça.

Que o karma esteja com você,

Sarin Kalenath

Expedição Rivenwood – Parte 2 terça-feira, dez 8 2015 

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CAPÍTULO IV.

SOBREVOANDO O DESERTO DE COBRE EM UMA AERONAVE.

“É simplesmente extraordinário. Eu nunca imaginei que pudesse existir um lugar assim.”

Vianne estava no parapeito da Goldenheart, uma elegante aeronave a vapor de hélice dupla, se segurando em uma das cordas para se inclinar para fora e enxergar melhor a paisagem à sua frente. No planalto, dentro de um cânion pontilhado por árvores verdejantes, a grande capital do Povo do Céu estendia suas torres de pedra vermelha e seus totens colossais até as nuvens. Inúmeras tendas cônicas ocupavam de forma organizada tanto o topo do planalto como o terreno ao redor, delimitadas por um muro que parecia ter crescido do próprio solo rochoso. Um sistema sofisticado de roldanas, velas de couro e hélices de pano percorria todo o lugar, subindo e descendo enormes plataformas de madeira apenas com a força do vento, domesticado pela magia do Povo do Céu. Parte dessas plataformas móveis percorria a face do planalto, permitindo um acesso fácil entre o pé e o topo, enquanto outras se erguiam como asas até as nuvens, dando ao local um aspecto ainda mais grandioso.

Era em uma dessas plataformas suspensas que a Goldenheart atracava, sendo amarrada pela tripulação com a ajuda de um grupo de nativos habilidosos que aguardava. Vianne não perdeu um segundo em aproveitar a parada para saltar e dar uma olhada melhor naquela cidade, deixando a capitã Jezebel cuidar das compras de suprimentos e outros afazeres. Uma senhora de cabelos grisalhos e brilhantes como uma teia de aranha veio em sua direção, envolta em um manto ornamentado que indicava uma posição de respeito como anciã. Ela parecia estar esperando para receber a Marechal, como algum tipo de diplomata local.

“Boa tarde, querida senhora. É uma honra estar no coração do Povo do Céu. A Guilda dos Aeróstatas já havia me contado sobre as maravilhas de Mahpiya, mas devo confessar que não esperava que fosse um lugar tão…”

“Civilizado?” disse a anciã com um risinho, como se já estivesse acostumada a ouvir aquilo. “Vocês de além-mar acham que vivemos em cavernas e tocas no chão como os animais, e sempre acho graça em como ficam surpresos ao ver nossa cidade. Mas seus olhos não estão enganados, Mahpiya é mais do que apenas uma grande aldeia. Se estiver interessada em negócios, irei te mostrar a nossa praça do mercado, que recebe mercadores de peles do sul do deserto até as montanhas nevadas do norte. Ou talvez esteja aqui para visitar nosso santuário de sabedoria, onde os xamãs e engenheiros de toda a nação trocam suas experiências e as transmitem aos mais jovens. Nossa ‘universidade indígena’, como vocês windleses costumam dizer com espanto.”

“É mesmo um lugar incrível, boa senhora” murmurou Vianne com um sorriso constrangido, sentindo pelos olhares direcionados a ela pelos nativos que sua presença como militar não era muito bem vista. “Infelizmente estou apenas de passagem para o oeste. Espero poder voltar em uma ocasião melhor.”

“O vento que sopra do oeste agora traz o fedor de pólvora e cinzas que caem como neve.” respondeu a velha encarando a Marechal com um olhar franco. “E com as disputas por terras e as pragas matando nossos irmãos no leste, sinto que não existam mais boas ocasiões para sua gente vir até aqui.”

“Como uma das oficiais encarregadas pelas colônias de Roonock, farei tudo o que estiver ao meu alcance para assegurar que Mahpiya permaneça imperturbada e os conflitos com seu povo sejam apaziguados” afirmou Vianne sentindo o estômago gelar. Sabia que não seria nem um pouco fácil chegar a um acordo com a Coroa sobre a situação dos nativos, e no momento tinha uma longa e imensurável jornada pela frente, mas quando retornasse iria lutar para que nem mais um único tiro fosse disparado na direção daquela gente que tanto havia ajudado os colonos a sobreviver no Novo Mundo.

“Não é essa minha única preocupação. Nossos sentinelas totêmicos podem nos proteger dos canhões e da magia de seus homens, ainda que eu não deseje ver Mahpiya cercada pelo sangue de meus filhos. Sinto que suas palavras são sinceras, então irei lhe dar um aviso. Não é apenas ouro, prata e metal do céu que seu povo irá encontrar abaixo do solo do deserto. Existem coisas nesse lugar que se alimentam da cobiça no coração dos homens, e elas se escondem nos mesmos veios escuros onde está aquilo que vocês tanto procuram”.

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CAPÍTULO V.

NO INCRÍVEL TATU MECÂNICO DA SENHORITA THUNDERFOX.

Não havia nada além de aridez para além dos territórios do Povo do Céu. O deserto se estendia para todas as direções, como se o mundo inteiro estivesse resumido naquela vastidão de pedra e poeira. A expedição havia sido um fracasso. Três dos quatro povoados de mineração windleses haviam sido perdidos. Crooktown estava ocupada por mortos-vivos que caminhavam sob o sol escaldante, deixando a carne secar e apodrecer até expor seus crânios sorridentes. Sandwell era uma cidade-fantasma tomada por uma praga desconhecida, que tinha levado não apenas a vida como também a cor do vilarejo, transformando tudo em uma desolação cinzenta. E Thunderscape teve sua população exterminada quando os autômatos que trabalhavam no lugar enlouqueceram após terem sido possuídos por alguma entidade sombria desenterrada nas minas. A senhorita Thunderfox, a única sobrevivente dessa última comunidade mineradora, acabou por concordar em levar Vianne para além do deserto após a Marechal ter dispensado suas tropas cansadas e feridas em Tortoise’s Crossing, o povoado restante, com ordens para se recuperarem e prestarem ajuda aos colonos no que fosse necessário.

“São eles denovo?” gritou Vianne sobre o motor ruidoso do tatu mecânico que conduzia as duas através da planície árida, trotando de forma vigorosa. Na distância, uma nuvem de poeira ia se aproximando aos poucos, por mais que o autômato encardido de poeira tentasse acelerar com sua pesada carcaça de metal.

“Esses cabeças de lata não desistem fácil!” respondeu a inventora afastando os cachos loiros do óculos de proteção. “De algum jeito eles não precisam mais parar pra esfriar os mecanismos. Mesmo quando tão parados eles ficam fumegando, como se tivesse alguma outra coisa queimando dentro deles além de carvão e água”.

Logo a silhueta dos cavaleiros autômatos surgiu no meio da poeira, ficando cada vez mais próximos. Os olhos de seus cavalos de ferro brilhavam como lanternas no crepúsculo que se aproximava e tingia o céu de vermelho. Vianne encaixou a última peça do rifle e demorou alguns instantes fazendo mira até acertar em cheio uma perna dianteira de uma das montarias mecânicas, fazendo com que ela desabasse levando junto seu condutor. A inventora por sua vez acendeu uma banana de dinamite enquanto conduzia as alavancas do tatu com os pés e a lançou para trás, levantando uma forte explosão de areia que retardou a perseguição por alguns instantes.

“Eles são muitos! Não dá pra acertar todos antes que cheguem até nós!” avisou a Marechal se abaixando no banco de couro para escapar dos tiros que ricocheteavam na carapaça do veículo.

“Volta pra lá! Eu tenho uma surpresinha pra eles!” Retrucou a senhorita Thunderfox com um sorriso de alguém que só podia ter perdido o juízo. Ela girou uma manivela abaixo do painel de controle e Vianne ouviu um compartimento se abrindo às suas costas. Sendo um voto de confiança sua única opção, ela se levantou e viu que uma arma robusta estava montada na traseira do autômato, com uma fileira de balas vindo do que parecia ser um compartimento de munição até o cano cilíndrico com várias aberturas.

“Achei que só a Mitternacht tivesse essas coisas!” disse a Marechal com espanto, procurando uma posição que não a deixasse muito exposta para atirar. “O que eu faço com isso? É difícil de mirar!”

“Só gira a manivela e atira no que der, tem muita bala aí dentro!” respondeu a inventora tentando manter o tatu mais ou menos estável no tiroteio. “Eu me inspirei nas metralhadoras giratórias da Mitternacht, mas eu mesma projetei essa daí! Primeiro eu usei uma liga de metal mais leve…”

“Desculpe, mas não dá para te ouvir agora!” Vianne berrou entre dentes cerrados, metralhando os autômatos, cavalos, rochas, cactos e tudo mais que estava à sua frente, com exceção do céu que deixava escapar os últimos raios de sol enquanto era iluminado pelo clarão efêmero das explosões.

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CAPÍTULO VI.

PARA A COSTA OESTE EM UMA CARROÇA COBERTA

Vianne já não conseguia lembrar a quantos dias estava viajando sozinha pela imensidão selvagem que se escondia além do Deserto de Cobre. A carroça que tinha montado com ajuda da senhorita Thunderfox havia se tornado seu novo lar, especialmente depois de todos os remendos e aprimoramentos feitos durante a travessia das infindáveis planícies, montanhas e rios. O motor à vapor improvisado que a inventora havia lhe deixado como um presente de despedida havia funcionado por apenas algumas semanas, especialmente depois que o inverno chegou e ficou a cada dia mais difícil arrumar lenha seca para a caldeira. O calor seco do Deserto de Cobre havia dado lugar a um frio sepulcral, que cobria tudo ao redor em um silêncio branco, quebrado apenas por nevascas fantasmagóricas, que ameaçavam soterrar a carroça com um manto gelado. Foi apenas a engenhosidade de Rivenwood que a manteve viva, e antes que seu corpo se entregasse ao torpor e a febre ela conseguiu construir uma vela usando os canos de cobre da estrutura do motor e um de seus lençóis, conectando tudo ao timão de controle da carroça.

Na nevasca seguinte, Vianne deixou que a ventania conduzisse a carroça através das campinas cobertas de neve e dos lagos congelados, mantendo uma caneca de chá quente ao lado para se manter acordada enquanto tentava enxergar na escuridão com a luz fraca das lanternas cobertas ofuscando seus óculos de couro. A luz de fogueiras a atraiu até uma pequena aldeia do Povo do Céu, onde conseguiu trocar uma pistola Kingsley e algumas munições por peles novas para se proteger do frio, além de informações sobre o melhor caminho a seguir. Por alguns dias ela permaneceu entre os nativos, descansando da febre e os ajudando a caçar com pólvora, ou compartilhando de sua comida enlatada quando as tempestades não os deixavam ir muito longe. Com a ajuda da medicina do xamã da aldeia, ela logo estava com o vigor renovado e pronta para partir, antes que ficasse presa nas planícies outra vez.

Quando finalmente alcançou as florestas ao pé da cordilheira de montanhas azuladas, ela se sentiu como se estivesse diante de um mundo novo. Nem mesmo o Povo do Céu se aventurava além das margens sombrias daquela vegetação, e os imensos e velhos pinheiros lhe lembravam dos bosques de fadas de sua terra natal, selvagens e cheios de magia antiga. Estava de volta à sua juventude agora, as pequenas fugas para os arvoredos da propriedade de sua família, que sempre terminavam com um vestido rasgado e um longo sermão sobre comportamentos inapropriados para uma dama. “Mas dessa vez ninguém vai me impedir de ir aonde eu quero” falou para si mesma satisfeita.

Consertar o motor para seguir em frente estava longe de ser a melhor das ideias. Mesmo que ainda fosse possível, seria arriscado demais seguir pelo terreno acidentado e desconhecido das montanhas. Mas as orientações do Povo do Céu já haviam lhe dado uma ideia do que fazer. Ela havia parado perto de um largo rio que vinha do norte e serpenteava entre a cordilheira. Com o fim do inverno, uma corredeira estava se formando, e provavelmente ficaria mais forte com os outros cursos d’água que se juntariam a ele descendo das montanhas. Vianne se desfez da caldeira do motor e manteve apenas o necessário na carroça, a deixando leve o suficiente para ser puxada até a margem e calafetada para flutuar nas águas como uma balsa.

A viagem pelo rio começou mais tranquila do que o esperado. A beleza da paisagem animava a Marechal a seguir em frente, entre as sombras das grandes árvores que se enfileiravam como sentinelas. Foi entre as raízes de um dos pinheiros que Vianne encontrou seu novo companheiro de viagem. O filhote órfão de lontra-dragão era um bocado temperamental, mas não parava de segui-la desde que ela havia oferecido uma das estranhas trutas de pelagem branca que tinha conseguido pescar no rio. Em um fim de tarde, a Marechal descobriu a criatura dormindo entre as roupas de seu varal que tinha acabado de derrubar, e resolveu treiná-lo como a um cão de guarda, tendo um sucesso razoável. Keoonik, como havia batizado a lontra, crescia rapidamente e passava longas horas nadando ao lado da carroça, ajudando a afastá-la das criaturas perigosas e furtivas que perdiam a timidez cada vez que a floresta ficava mais fechada, como as feras do rio que erguiam seus longos pescoços da vegetação aquática e os gigantes peludos com grandes pés que espreitavam entre os troncos na margem.

Numa manhã de densa neblina, Vianne despertou com um som estarrecedor, como se o mundo estivesse se abrindo ao meio. Keoonik entrou agitado na parte coberta da carroça, derrubando o gramofone que ainda tocava enquanto a Marechal havia adormecido. “O que foi agora? Outro monstro?” Saindo para ver o que tinha acontecido, ela mal teve tempo de tentar virar antes da carroça se chocar contra uma grande pedra. As corredeiras tinham ficado mais fortes durante a noite com a chuva que havia caído sobre as montanhas, e a carroça havia se soltado de suas amarras. Vianne caiu na água turva e se debateu com os cabelos soltos atrapalhando sua visão, se chocando contra o casco de um arquelônio que nadava pela correnteza. Se agarrando na grande tartaruga, ela conseguiu se estabilizar e tomar impulso para a margem, onde Keoonik corria de um lado para o outro assustado.

Encharcada, suja de lama e com seu uniforme arruinado, Vianne não pôde deixar de rir da situação ao pensar no que sua família diria. “Vamos lá Keoonik, isso aqui não é brincadeira. Vamos ver onde essa carroça foi parar”. Procurando por toda a manhã entre as pedras do rio, a Marechal conseguiu recuperar a maleta com o rifle, algumas das peles do Povo do Céu e a sua bolsa de pertences pessoais. Com os restos de madeira da carroça ela acabou fazendo uma fogueira para poder se aquecer, secar as vestes e assar os mexilhões que havia conseguido pegar com a ajuda da lontra-dragão. Com o ânimo renovado, Vianne decidiu subir até o topo de um dos montes mais próximos, para poder ver o melhor caminho que poderia seguir dali.

A longa e exaustiva escalada levou o resto do dia, mas a beleza da vista que surgia com a névoa sumindo e a companhia de Keoonik eram suficientes para que ela continuasse. Uma trilha tosca acompanhava o declive rochoso, sinalizada por totens rústicos que pareciam bem diferentes daqueles feitos pelo Povo do Céu. As cabeças de pássaro daqueles totens, com longos bicos e grandes olhos enigmáticos, a intrigavam sobre que tipo de comunidade vivia naqueles vales distantes, mas o pensamento fugiu quando Vianne finalmente alcançou o topo do monte. Além das montanhas, florestas e lagos que se estendiam tingidos pelo laranja do entardecer, o grande oceano se estendia iluminado pelo sol que lentamente mergulhava no horizonte. Aquele era o fim da jornada, o outro lado do continente de Asabikesh que nenhum windlês havia visitado antes. Pegando sua faca da cintura, Vianne Rivenwood escreveu seu nome no tronco da maior árvore que crescia naquele monte, um lugar que futuramente se tornaria um ponto de referência a todas as caravanas vindas do leste em busca de uma vida melhor nos férteis vales do Oeste.

Expedição Rivenwood – Parte 1 sexta-feira, jun 12 2015 

BIBLIOTECA DE PEÇAS DE COBRE DE PORT SMOKE

Vianne Rivenwood em Asabikesh

ou,

RUMO AO SOL POENTE

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Pelo Autor de “Vianne Rivenwood e o Grande Íbis de Safira”

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CAPÍTULO I.

 EM UM NAVIO PARA O CONTINENTE.

“Como vamos manter o curso no meio dessa tempestade, Capitão?”

A chuva incessante escorria pelas janelas da cabine do Liberty, tornando difícil enxergar qualquer coisa além da proa castigada pelas águas escuras que a cobriam cada vez que uma das imensas ondas a atingia, fazendo o navio balançar com um rangido assustador. Era o quarto dia desde que a Marechal Vianne Rivenwood havia deixado a cidade  flutuante de Port Smoke para explorar as terras de Roonock no Novo Mundo, onde os colonos enviados por Windlan estavam descobrindo ouro, adamante e outras riquezas. O objetivo da expedição era chegar até o Deserto de Cobre, no Oeste do continente, e confirmar os relatos sobre as minas locais, mas Vianne tinha também seus próprios objetivos. Ela planejava ir ainda mais longe, e ser a primeira a descobrir o que existia além do Deserto, atravessando o continente até encontrar a distante costa oeste. Mas para isso, precisaria primeiro colocar os pés em terra firme, o que a súbita tormenta parecia disposta a impedir.

“Não se preocupe, dona Marechal. Esse clima pode parecer intimidador mas é comum por aqui. Lembra que ‘cê tá a bordo de um dos navios mais robustos dos Arautos do Vapor. Mesmo com as velas recolhidas, vamos manter uma boa velocidade com a força das caldeiras impulsionando as rodas de pá. As chaminés tão cuspindo fumaça como um dragão, vai ser preciso mais do que esse aguaceiro pra nos tirar do nosso rumo.”

Enquanto o Capitão Bullhorn continuava pilotando inabalável através da tormenta, Vianne analisou outra vez os mapas sobre a mesa na cabine, notando que o Liberty passava ao norte de um pequeno conjunto de ilhas rochosas próximas da Costa de Brimmouth, onde pretendiam desembarcar. Afastando o vidro de uma das janelas circulares, ela vasculhou o horizonte com sua luneta, tentando encontrá-las no meio da chuva que açoitava o navio.

“Dá pra ver umas luzes azuis naquelas ilhas. O que elas são?”

“Isso aí ninguém sabe ao certo” respondeu Bullhorn tirando o cachimbo da boca enquanto mantinha a outra firme no timão. “Mas já foram a ruína de muitos marinheiros. Aquelas ilhas são problema. Mesmo com o nosso casco reforçado com placas de aço a gente ia brincar muito com a sorte se a tempestade nos arrastasse até lá. Como se as rochas afiadas e traiçoeiras não fossem o bastante, o lugar ‘inda é infestado de demônios marinhos. Os índios dizem que são esses demônios que provocam esse tempo, quando cultuam seus velhos deuses. Eu prefiro não ter que ir ‘té lá descobrir.”

Vianne apertou os lábios e permaneceu observando o brilho fantasmagórico, sinalizando a silhueta das ilhas que se erguiam como garras contra o céu cinzento. Aquela era uma aventura que teria de ficar para outra ocasião. Subitamente, a embarcação gemeu em um rangido mais forte, e começou a se inclinar vigorosamente para cima enquanto o mar à frente ia se contorcendo em uma muralha de água.

“Aí vem uma das grandalhonas. É melhor se segurar bem, viu Marechal!” alertou o Capitão puxando a corda do alarme, fazendo o apito soar várias vezes antes de se lançar contra a onda, como se estivesse desafiando aqueles que tentavam impedir o Liberty de chegar ao Novo Mundo.

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CAPÍTULO II.

 PELOS CAMPOS COM UM GIGANTE A VAPOR.

Vianne já estava agora há dois dias viajando pela estrada de terra que deixava o vilarejo de Hallow Port e seguia até o povoado mais distante de Owlight Hill, e tudo o que enxergava ao seu redor eram os campos cultivados pelos colonos se estendendo até as florestas e charcos mais distantes. Tudo estava tingido pela luz azulada do crepúsculo, com exceção dos pequenos pontos incandescentes que indicavam as casas dos fazendeiros e algumas fogueiras de acampamento. Um espantalho solitário estendia os braços sobre uma plantação de mirtilos, sua face de abóbora tão inexpressiva quanto a do gigante de ferro que puxava a carruagem blindada, soltando vapor pelo escapamento em suas costas. Aquelas máquinas humanoides conseguiam cruzar longas distâncias pelo terreno acidentado sem dificuldade, apenas tendo que parar por algumas horas a cada dia para repor o combustível da caldeira e resfriar os motores. Todo trabalho era realizado com diligência por Ghix, um engenhoso goblin que era um pioneiro em construir e direcionar aquelas máquinas entre os dois assentamentos colonos.

“A maior parte das peças dá pra conseguir nos ferro-velhos da costa, tem um monte de coisa da antiga baleia de ferro que não se perdeu quando ela afundou e fizeram uma nova pra colônia. Claro que não é fácil conseguir gente pra trabalhar lá , as pessoas tem medo das assombrações e tudo mais, mas qual é o lugar por aqui que não é mau assombrado, não é?”

Mais tarde, enquanto ouvia os soldados conversarem em uma das pausas para a manutenção do gigante na beira da estrada, ela não podia deixar de concordar com as palavras de Ghix. Cada um dos homens parecia ter sua própria história sobre cavaleiros fantasmagóricos, seres do espaço e damas do pântano que compartilhavam aquelas terras com os colonos. Alguns militares de patente mais alta tinham adquirido propriedades nas colônias e pareciam desconfiar de seus próprios empregados, que faziam rituais considerados pagãos em Windlan a cada colheita. “Parem com essa tolice.” ela disse visivelmente incomodada quando se cansou de ignorar a conversa. “É sobretudo graças a essas pessoas que a colônia está prosperando. Se as bruxas que o Império enviou para cá não fossem tão boas em lidar com a terra, Roonock não estaria enviando tantas mercadorias para a Capital”. Ela sabia que suas palavras eram ousadas, e que o receio de Windlan com as antigas religiões era justamente o motivo de seus praticantes serem enviados para tão longe do Velho Continente. Mas além de não aprovar a maneira como aquelas mulheres eram vistas, era irresistível a sua curiosidade pelo mundo de espíritos e fadas que elas traziam consigo, deixando aquela paisagem campestre tão cheia de mistérios.

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CAPÍTULO III.

 ATRAVESSANDO AS MONTANHAS EM UM TREM.

“O que vai querer, senhorita?” disse a moça albina cruzando o vagão com um carrinho de frutas, doces e bebidas. Vianne desviou os olhos por um momento do mapa que estudava, mostrando os caminhos que poderia tomar das Montanhas Silverfox após chegar na parada final do trem, que avançava rápido e fazia Owlight Hill aos poucos desaparecer como um brilho esverdeado na distância. “Estou bem, obrigada” respondeu a marechal espiando a funcionária com rabo dos olhos enquanto ela ia embora. Desde que havia embarcado, um frio na espinha a estava deixando intranquila naquele expresso noturno, e o luxuoso vagão de primeira classe onde estava acomodada separada de sua tropa não ajudava. O barulho incessante das rodas sobre os trilhos e a sensação de movimento eram as únicas coisas que conseguiam mantê-la focada em seus preparativos de viagem, pois a decoração refinada ao seu redor fazia com que se sentisse presa em alguma velha memória de sua infância entre a aristocracia de Windlan.

Quando as horas no relógio de bolso sobre a mesa já começavam a se arrastar e o sono não vinha, ela tentou se distrair olhando para a escuridão além da janela. Estavam passando por um arvoredo na encosta agora, e ela conseguia ver a sombra das folhagens balançando sob o luar gélido do outono. Foi quando outro movimento lhe chamou a atenção e ela notou as figuras que perseguiam o trem, correndo de quatro com um brilho bestial em seus olhos lupinos. Haviam dezenas deles se aproximando, e as pancadas barulhentas no teto logo mostraram que não estavam apenas apostando corrida com o veículo. Rapidamente, Vianne abriu sua maleta e começou a montar as peças do rifle em seu interior. Mas antes que terminasse, a locomotiva assoviou com um uivo medonho enquanto o trem acelerou de súbito, fazendo com que os pedaços da arma se espalhassem pelo vagão. O revés não lhe causou mais que um suspiro de frustração, e se apoiando na mesa ela carregou a pistola de cano longo que trazia no coldre, seguindo na direção da caldeira.

Com o veículo acelerando cada vez mais, ela empurrou a porta do vagão e se deparou com um dos lobisomens rosnando para ela, se arrastando com dificuldade sobre o teto do trem com as garras. Com um tiro certeiro, a criatura foi derrubada e sumiu no mar de folhagens que cercava o trem. Avançando com cuidado até a porta da locomotiva, Vianne a abriu e enxergou o maquinista parado tranquilamente diante dos controles, puxando uma alavanca para desacelerar o expresso quando este entrou por um túnel, se livrando das últimas feras que ainda conseguiam se segurar.

“Espero que esteja apreciando a viagem, senhorita Rivenwood.” disse o maquinista se virando para ela, o lampião na cabine iluminando a alta cartola e os óculos de couro com lentes vermelhas. Quando percebeu os caninos afiados em seu sorriso zombeteiro, Vianne entendeu o porque daquele trem lhe trazer a sensação de uma sepultura de ferro sobre rodas.

“Vou precisar me lembrar de nunca mais pegar o expresso das onze.” respondeu a marechal aborrecida antes de bater a porta, se preparando para uma longa noite sem dormir.

Grimório – Espíritos sexta-feira, maio 22 2015 

Nem todas as almas daqueles que morrem em Keleb deixam completamente o mundo material para desaparecer no Aether. Quando ainda existe alguma ligação com o plano físico, esses Espíritos se utilizam dela para se manifestar ou até mesmo existir de forma permanente. Alguns possuem sua própria agenda e objetivos, que podem ser a âncora que os prendem ao mundo carnal. Outros são invocados por xamãs ou necromantes para prestar auxílio em uma tarefa específica ou para se tornarem subordinados de suas vontades. Diferentemente dos mortos-vivos sem mente gerados de forma espontânea ou artificial através da energia de Putridum, os Espíritos mantém memórias de suas antigas existências, e se agarram firmemente a elas mesmo quando suas consciências se corrompem no processo de existir como uma sombra no plano material. As lembranças são sua mais importante e por vezes única posse, e a única coisa que verdadeiramente os sustenta na pós-vida.

 Ancestrais

Os mais antigos e nobres entre os Espíritos são os Ancestrais, que costumam passar a maior parte do tempo em outras camadas do Aether, mas permanecem ligados ao plano material através de laços de hereditariedade e de herança cultural. Muitos são tratados por seus descendentes e discípulos de forma praticamente divina, executando funções parecidas com as dos Aeons. Guardiões de sua linhagem e da memória de seu povo, eles são convocados através de cerimônias especiais em seus túmulos consagrados, ou através de magias poderosas de evocadores de Espíritos. Ancestrais costumam assumir a forma de seres espectrais de energia luminosa, muito raramente assumindo uma forma corpórea. É possível encontrá-los entre os Loas do Continente Negro e nos Espíritos Totêmicos de diversas culturas xamanistas. Sua presença também é forte na magia divina dos Reinos Orientais, em especial nas Ilhas Akitsushima e no Império Ming. Algumas das antigas culturas de Aurin e Windlan também realizavam cultos aos Ancestrais, mas essas práticas estão hoje perdidas em suas civilizações modernas, sendo apenas um motivo de curiosidade para a comunidade científica.

Fantasmas

Pelo mundo inteiro existem histórias sobre lugares abandonados atormentados por assombrações. Sejam antigas mansões windlesas, fazendas de escravos aurinesas ou navios misteriosos flutuando à deriva pelo oceano. Quando um local é marcado por algum evento especialmente violento ou traumático, ou quando é exposto em demasia a certos tipos de influência mágica, existe uma grande possibilidade de que ele passe a ser o lar de Fantasmas, ecos de eventos passados que se manifestam através de aparições incorpóreas. Os Fantasmas mais comuns são formados pelas memórias de um único indivíduo, aprisionado no lugar que lhe serve de vínculo. Mas existem também aqueles que são formados por consciências coletivas, reunidas por um mesmo sentimento na hora da morte. Acorrentados em suas lembranças, os fantasmas se tornam alheios à passagem do tempo, realizando eternamente a mesma rotina até serem perturbados pela presença de uma nova consciência em seus domínios. A reação a essas intromissões não costuma ser amistosa, uma vez que devido à fragilidade de suas existências os Fantasmas são os Espíritos que mais facilmente sucumbem à loucura.

Retornados

Enquanto os Fantasmas são efeitos colaterais de acontecimentos que ferem a barreira do Aether, os Retornados são frutos da ação deliberada de forças sombrias como rituais e maldições, impulsionadas por memórias ligadas a sentimentos latentes como vingança, mágoa ou abandono. Atormentadas por seus desejos não realizados, as almas dos Retornados costumam ter uma aparência lúgubre, como uma sombra esquelética. Não é de todo incomum que um Retornado ainda possua seu próprio corpo, ainda que este se torne cadavérico e distorcido. Vinculados ao plano material pela vontade que não cumpriram em vida, os Retornados podem se transformar em criaturas terríveis, especialmente quando a loucura da não-vida confunde seus objetivos e os torna obstinados. Porém, alguns deles conseguem direcionar essa obsessão para algo mais positivo, transformando-se em espectros justiceiros ou mortos-vivos festivos, até que consigam alcançar o que precisam para poderem enfim descansar.

Eternos

Na escuridão fétida de seus túmulos decrépitos, os Eternos tramam contra o ciclo natural da vida enquanto sustentam o peso das eras. Diferente de outros Espíritos, que retornam do Aether após a morte por alguma ação externa, os Eternos persistem no mundo carnal pela fabricação de seus próprios vínculos, usando do amplo conhecimento sobre o pós-vida que possuem. Eles são os Lich das necrópoles gélidas do Norte, os Jiang Shi que corrompem monastérios inteiros no Império Ming e as Múmias Ancestrais das pirâmides de Tawosret. O aspecto que assumem como espíritos é o de uma figura enorme e imponente feita de névoa cinzenta, mas eles normalmente permanecem enclausurados em seus próprios cadáveres, que com o passar do tempo se tornam não mais do que pele e osso embrulhados em retalhos de antigas roupas extravagantes. Seus vínculos artificiais costumam ser um objeto de qualquer natureza, como um medalhão, livro ou arma, sempre guardado com extremo zelo. Uma vez tendo derrubado a barreira da morte, os Eternos anseiam por cada vez mais tempo para levar a cabo seus planos, criando exércitos de Retornados e mortos-vivos menores para protegê-los enquanto buscam feitiços que possam levá-los ainda mais longe, tentando alcançar um grau de poder e imortalidade que rivalize o dos Aeons.

Trovões na Selva Sufocante – Parte 2 quarta-feira, maio 6 2015 

Over on the mountain, thunder magic spoke
Let the people know my wisdom
Fill the land with smoke

(Creedence Celarwater Revival – Run Through the Jungle)

Regine disparou pela estreita faixa de vegetação que separava o acampamento da praia, afastando com as mãos as estranhas samambaias e cipós que atrapalhavam seu avanço. Um bando de pequenos lagartos emplumados seguia na direção contrária, dardejando sobre as raízes ou entre suas pernas e alçando um voo desengonçado quando encontravam espaço. Estavam fugindo alvoroçados dos tiros que haviam sido disparados na baía, e a antropóloga teve que saltar para o lado quando um réptil branco e rechonchudo do tamanho de um búfalo surgiu trombando nas árvores, e quase a atropelou com seu corpo galináceo enquanto grasnava alarmado com seu bico cheio de dentes.

No litoral pedregoso e coberto de palmeiras da ilha, a Erichto estava amarrada em um dos rochedos mais altos, flutuando a uma certa distância. Alguns botes de madeira tinham se juntado ao de Regine na espuma fervilhante, e ela não precisou procurar muito para encontrar um grupo de tripulantes que também havia deixado a aeronave para explorar o local. Damien Chandelier estava entre eles, segurando sua espingarda de ferro negro e discutindo com os demais. Quando Regine se aproximou para saber o motivo da confusão, conseguiu enxergar atrás dos homens um dinossauro estendido na areia, que parecia ter sido recém-abatido.

Era um deinonico, uma fera bípede com o porte de um cavalo médio e coberta por uma penugem rala e arrepiada. Um par de garras maciças em formato de foice se estendiam de seus pés, como se ainda tentassem rasgar seus algozes. Os olhos eram de um amarelo vicioso, cortados por pupilas fendidas, e a boca permanecia aberta em um rosnado silente. Mesmo depois de morto, ele parecia zombar da audácia daqueles forasteiros em acharem que suas armas seriam suficientes para vencer a natureza indomável da ilha. Natureza que permanecia manifestada na imagem da garota que estava de pé diante deles, em uma postura agressiva como a de um animal acuado.

Regine ainda conseguia reconhecer Beatrice pelo retrato que trazia consigo, mas agora entendia a preocupação do ancião da aldeia. Aquela menina não era como os Nakna’Ohti, que lutavam apenas para sobreviver de acordo com as leis da Terra da Rainha Lagarto. Em seus olhos havia um frenesi selvagem e sedento, e a adaga de osso que segurava com firmeza na mão esquerda gotejava sangue. Ela arfava e rosnava entre os dentes cerrados, os pés se movendo nervosamente de um lado para outro enquanto os tripulantes da Erichto a cercavam com as espingardas apontadas, sem parecer chegar a um acordo sobre como lidar com a situação.

-O que vocês pensam que estão fazendo? – gritou a antropóloga correndo apressada até o grupo, sentindo um nó em sua garganta. Alguns dos homens mais afastados estavam feridos, e seu temor sobre aqueles machucados não terem sido causados pelo animal foram confirmados quando Damien explicou a situação sem tirar os olhos de Beatrice: -Nós viemos até a baía caçar caranguejos-de-pedra e descobrimos esse lagarto emplumado nos espreitando. Então eu disse ‘Vejam amigos, não é um belo troféu para levarmos até Port Vert?’ e atiramos nele. Foi quando essa mulher-da-selva enlouquecida apareceu do nada e nos atacou! Quase arrancou o braço do Bernard com aquela faca!

Zut! É claro que ela atacou, Damien! Abaixem essas armas, estão assustando ela! – bradou Regine com indignação, afastando os canos dos rifles com as mãos. Não acreditava que eles estavam quase estragando tudo por terem saído para caçar em um terreno desconhecido. E agora teria que ser enérgica para evitar uma tragédia. Ela sabia que a tripulação da Erichto não tinha o costume de levá-la a sério, mas os olhares eram de surpresa ao verem aquela intelectual acadêmica tratá-los como uma professora do jardim de infância trataria um grupo de moleques malcriados. E seu corpo robusto deixava claro que ela não era o tipo de professora que seria seguro contrariar.

Beatrice olhou com uma expressão confusa para a briga, recuando devagar alguns passos. Então, sem que ninguém esperasse, ela aproveitou a distração que Regine havia causado e disparou apressadamente para a mata, como um animal que enfim se vê livre de uma armadilha. A antropóloga suspirou pesadamente e deixou os ombros caírem, puxando a aba da cartola sobre os olhos antes de explicar: – Aquela era a filha dos Chardonneau. E mesmo que não fosse, é uma grande tolice sair atirando em um território que não lhes pertence. – ela trocou um olhar de desagrado com Damien, mas antes que ele dissesse alguma coisa o xamã da aldeia finalmente os alcançou.

Hukmi voltou seus olhos cinzentos para a direção em que Beatrice havia sumido e balançou a cabeça com tristeza, indo até Regine. -Desde que Iluta se abrigou entre nós tentamos fazer com que seu espírito se acalmasse, mas o que queima dentro dela é como o alcatrão dos pântanos. É algo escuro que nunca se apaga. Ela aprendeu nossa língua e nos acompanha sempre que mudamos de lugar, mas passa a maior parte do tempo isolada dos outros. – o ancião então se agachou diante do deinonico morto no chão e franziu a testa – Mas os Garras de Lua não andam sozinhos. Se esse apareceu por aqui é porque deve haver alguma matilha próxima. – ele comentou receoso com a antropóloga.

Regine fez uma expressão de espanto e olhou para a selva. Nos pontos mais visíveis da vegetação sombria ela tinha a impressão de ver formas se movendo ao longe, caminhando sorrateiramente entre a folhagem primitiva. Tentando permanecer calma, ela se voltou para os tripulantes da Erichto ainda com um olhar de reprovação, mas deixando claro na urgência de sua voz que haviam assuntos mais importantes a serem resolvidos no momento. – Voltem para a aeronave e avisem ao capitão que temos uma presença hostil na baía, e que por isso não é seguro ficar passeando aqui embaixo. Eu vou buscar minhas coisas na aldeia e tentar encontrar a garota.

Não demorou muito para a antropóloga estar se esgueirando pela mata, tentando fazer o mínimo de barulho possível enquanto buscava qualquer sinal de Beatrice. O ancião havia ficado na aldeia para avisar aos Nakna’Ohti sobre a presença dos Garras de Lua. Pelo que o xamã havia contado a Regine no caminho, não era comum que aquelas feras se aproximassem tanto de um acampamento sem serem notadas. Suas matilhas eram capazes de abater presas muito maiores, como os grandes lagartos-trovão das planícies alagadas, mas normalmente evitavam contato com as comunidades humanas. E essa não era a única coisa que incomodava Regine enquanto ela avançava pela selva.

Aquela floresta tropical era cheia de ruídos estranhos, causados pelos poços borbulhantes de óleo pétreo ou por pássaros com um canto há muito esquecido pelo resto do mundo. Mas ela tinha a impressão de que alguns dos sons que ouvia na distância se assemelhavam muito com os produzidos pelos instrumentos de sopro de culturas aborígenes com que havia tido contato. Cada vez que escutava as notas agudas e ritmadas, ela pensava na forma estranha como algumas daquelas silhuetas que tinha avistado na mata se moviam, e nas pegadas reptilianas com cinco dedos que jamais poderiam pertencer a um Garra da Lua.

Um grito feroz seguido por vários rosnados fez com que Regine sentisse um gosto metálico na garganta. Tinha chegado tarde demais, e agora teria que lutar contra aquelas feras predadoras para sair viva daquela selva com Beatrice. Estava mais preocupada consigo mesma, honestamente, já que a garota parecia não ter muitos problemas em se virar sozinha naquele lugar. Encontrá-la rápido e ajudá-la a lidar com as criaturas poderia ser  melhor curso de ação, não apenas para garantir sua sobrevivência como talvez ganhar a confiança da menina. Enquanto questionava seu próprio juízo, Regine puxou o facão de sua cintura e mergulhou na mata indo em direção ao barulho.

O caminho a levou até a beirada de um barranco, que margeava o lago fervilhante de uma cachoeira que descia desde as montanhas. Os sons do combate vinham da vegetação do outro lado, e com o declive pouco inclinado e as águas não muito profundas ela não teria problemas em chegar até lá. Porém, algo não parecia certo, e ela olhou ao redor em silêncio sentindo o suor escorrer de sua testa. Aquele trajeto era exposto demais, e a água atrasaria seu deslocamento a deixando vulnerável. Naquele lugar, Regine tinha a sensação de que cada um de seus passos era vigiado por um predador faminto, e para voltar até a aeronave inteira ela precisaria ser mais esperta do que eles.

Esse não era o maior desafio que sua mente já havia enfrentado, mas naquela situação precisaria pensar rápido. Se encostando em uma árvore em silêncio e procurando por algo que pudesse ajudá-la. Uma ideia lhe surgiu quando descobriu um tronco velho preso apenas por alguns cipós. Com um golpe rápido do facão de Regine, ele despencou e com um som abafado começou a rolar pelo barranco. Mal havia começado o trajeto, dois deinonicos como o que havia sido morto na baía saltaram das folhagens e perseguiram o tronco atraídos pelo movimento. Espiando da mata, Regine começou a descer de forma furtiva quando um terceiro Garra de Lua saltou sobre ela.

A antropóloga só conseguiu se virar antes da criatura cravar as garras curvas em sua barriga, abrindo dois rasgos vermelhos em seu colete. Agarrando o animal, Regine se desequilibrou e embolou pelo barranco junto com ele, escorregando pela terra até cair dentro do lago, onde finalmente conseguiu afastá-lo com um chute. Cerrando os dentes para suportar a dor, ela alcançou o cabo do facão na margem e em um movimento certeiro cortou a garganta do deinonico que lhe havia derrubado. O sangue do animal se misturou ao Regine na água, e ela mal teve tempo de verificar o ferimento antes de ouvir os guinchos dos outros dois que haviam descido junto com o tronco.

Ela tentou se afastar indo para o meio do lago, deixando as criaturas gritando agitadas na água rasa e batendo suas horríveis asas vestigiais enquanto tentavam avançar. Uma delas tentou alçar um voo desajeitado, mas foi acertada em cheio pelo facão de Regine, que rodopiou no ar após ter sido jogado por reflexo. O outro deinonico chapinhou pela água como uma cegonha desengonçada, estendendo o pescoço para tentar alcançá-la com uma mordida. Ofegante, a antropóloga agarrou firmemente a boca da fera emplumada e torceu o focinho e o maxilar em direções opostas, fazendo o animal morrer com um forte estalo e um ganido engasgado.

Regine se moveu o mais rápido que podia até a margem oposta, sentando recostada em uma pedra e arfando de dor e cansaço. Seus dedos tateavam o corte duplo em sua barriga, ficando úmidos de sangue. O colete de couro reforçado a tinha protegido de uma ferida mais profunda e mortal, mas o esforço e a água gelada faziam com que o machucado ardesse de forma pungente. Abrindo a grande bolsa marrom-esverdeada que trazia consigo, ela suspirou aliviada ao ver que o couro de basilisco que a revestia havia mantido seu conteúdo seco e intacto. Inclinando a cabeça para onde os sons da luta de Beatrice seguiam, ela rapidamente se agachou e começou a retirar aquilo de que precisava.

Algumas bandagens foram o suficiente para estancar o ferimento, mas o mais importante era desmontar o rifle, secá-lo completamente, remontá-lo e carregá-lo. Uma tarefa que se mostrava complexa pela quantidade de engrenagens e peças complicadas da arma de três canos, mas que com a experiência de campo de Regine foi concluída em poucos minutos. A todo momento os ouvidos da antropóloga continuavam atentos à localização de Beatrice, a deixando pronta para correr caso ela parecesse em apuros. Não duvidava que a menina pudesse dar cabo dos Garras de Lua como ela mesma havia feito, mas tinha a impressão de que havia algo mais perigoso do que eles se aproximando.

Atravessando a densa folhagem úmida, ela se viu diante de uma grande árvore coberta de cipós, e sobre um de seus galhos Beatrice lutava contra as feras que tentavam alcançá-la. Os deinonicos tentavam saltar e escalar de todos os pontos possíveis, mas cada vez que um se aproximava, recebia um veloz golpe de lança da garota. Aproveitando que as criaturas estavam distraídas com a guerreira órfã, Regine apoiou o rifle no ombro e mirou em uma que tentava escalar mais alto para saltar por cima da menina. O disparo acertou em cheio, fazendo o cadáver do animal se esborrachar no chão, e o resto da matilha fugiu atordoada com o som de trovão que reverberou pela selva.

Já Beatrice parecia ainda mais abalada pelo barulho, mal notando que havia se livrado dos Garras de Lua. Ofegante, a garota procurou em volta com os olhos arregalados até encontrar Regine. Com um grito de fúria, ela jogou sua lança contra a antropóloga, que rolou para o lado e observou espantada enquanto a menina colocava sua faca de obsidiana entre os dentes e corria da árvore até o chão como um gato selvagem. Lembrando das palavras do xamã, Regine percebeu que havia mais ali do que raiva e instinto de sobrevivência. O frenesi de Beatrice não tinha nascido da selva, mas de alguma outra coisa que despertava sempre que ela ouvia uma arma sendo disparada.

Antes que a garota avançasse, Regine se agachou até ficar no mesmo nível que a menina e colocou sua arma no chão. Beatrice saltou sobre ela mesmo assim, derrubando a antropóloga com a faca sobre seu pescoço. Sentindo o peso da lâmina sobre a garganta, Regine se manteve calma e com uma expressão neutra, pondo as mãos sobre os pulsos dela. Com a força de seus braços, poderia dominar a menina, mas queria convencê-la de que não era uma ameaça. Ela podia sentir o medo da garota nas pupilas dilatadas de seus olhos castanhos e na respiração apressada entre os dentes. Beatrice estava mais assustada do que a antropóloga que ameaçava, e confusa com a reação da mesma.

Assim como Regine não precisava falar a língua da guerreira para compreendê-la, também poderia se fazer entender. Em seu trabalho de campo, havia lidado com muitas culturas de idiomas diferentes, e sabia como ninguém usar de sua linguagem corporal para estabelecer um contato seguro. Lentamente, em uma troca de olhares e movimentos, ela fez com que Beatrice recuasse para trás, embora ainda parecesse desconfiada. Devagar, as duas se levantaram e Regine se reaproximou cautelosamente. A garota parecia estar se acalmando, mas quando estendeu a mão para ela, o som de uma arma sendo engatilhada fez com que ela erguesse a faca outra vez.

Arfando com surpresa, Beatrice olhou em volta e viu Damien e seus homens apontando seus rifles, a cercando para se assegurarem de que ela não teria uma rota de fuga dessa vez. Regine ficou confusa a princípio, indo na direção do homem com chifres a passos firmes enquanto protestava. – Será possível que vocês nunca ouvem minhas instruções? Eu disse que era para vocês… – ela estancou quando algumas armas foram apontadas para ela, e seu rosto se contraiu em uma máscara de indignação e espanto. – Qual o significado disso, monsieur Chandelier? Se for uma brincadeira, eu devo avisá-lo que sua falta de respeito por meu trabalho já está passando dos limites!

A expressão de Damien era uma máscara de repulsa, como se ouvir a voz da antropóloga já lhe fosse uma tarefa árdua. Ainda assim, ele fez um gesto para que seus subordinados se acalmassem, embora eles mantivessem a mira sobre as duas, Beatrice procurando uma saída como um leão acuado em uma jaula. Com a fria calma de um homem de negócios, ele explicou em sua voz sibilante – Seu trabalho era assegurar que encontrássemos a jovem dama longe da vista dos nativos, madame Beaumont. Entenda que a herança dos Chardonneau não pode ser dada a uma menina que sequer sabe assinar o próprio nome, e como ela já foi vista é tarde demais para deixá-la viver aqui na selva.

Regine sentiu seu estômago revirar e um gosto metálico surgir na sua boca. Tudo fazia sentido agora. O jeito arisco da menina, sua reação colérica a armas de fogo. O naufrágio dos Chardonneau não havia sido um acidente. Eles haviam sido vítimas de um motim, e a pequena Beatrice deveria ter assistido enquanto seus pais eram traídos e executados. Mas de alguma forma ela havia escapado, e o plano dos amotinadores sofreu seu revés quando, sem tripulação suficiente, eles acabaram não conseguindo passar pelas marés perigosas que rodeavam a Ilha da Rainha Lagarto, encontrando seu fim nas águas povoadas por feras marinhas.

O olhar de Regine queimava de ódio, mas mesmo assim suas palavras saíram com firmeza e sobriedade. – Eu só não te chamo de serpente traiçoeira porque isso seria uma ofensa aos ofídios! – Antes que Damien conseguisse ter alguma ideia do que significava ‘ofídio’, a antropóloga aproveitou sua distração e com um rápido movimento do pé trouxe o rifle de volta a suas mãos, se lançando contra Damien e o atingindo com uma forte coronhada no estômago. Pegos de surpresa, os outros homens tentaram fazer pontaria para atirar, mas dessa vez foi Beatrice que derrubou um deles com um chute na canela, aproveitando o embalo do movimento para levar outro ao chão com o cabo da lança.

Agarrando Beatrice pela cintura, Regine mergulhou pela selva e correu abaixada com a garota, os disparos voando sobre suas cabeças como uma chuva de pólvora e fogo. Os tiros estouravam os troncos das árvores ou acertavam as duas de raspão, lacerando carne e couro em um corte fumegante. Regine sabia que era questão de tempo até serem atingidas, mas só o que podia fazer era tentar correr mais rápido. Por longos segundos a dupla atravessou a mata fugindo da morte, até que os tiros simplesmente pararam. Olhando para trás, a antropóloga ouviu os homens que as perseguiam gritarem de terror, e abaixo dos gritos escutou mais uma vez o som das flautas de osso.

Os Garras de Lua agora atacavam o grupo de Damien, mas seus guinchos e rosnados não eram os únicos a ecoar pela mata. Havia outro conjunto de sons répteis e guturais, que Regine notou ter mais articulação do que aqueles que eram emitidos pelos dinossauros da ilha. Beatrice estava alarmada com aquelas vozes, e com espanto a antropóloga percebeu o que estava acontecendo. Os deinonicos não haviam se aproximado sozinhos daquela parte da ilha. Eles eram guiados pelas flautas de osso, da mesma forma que cães de caça seriam guiados por apitos. E seus adestradores não eram humanos como as pessoas que estavam caçando.

Antes que Regine e Beatrice conseguissem fugir dali, um grupo de humanoides reptilianos as encontrou, deslizando pela vegetação com suas peles verdes e escamosas. Aqueles eram os verdadeiros senhores da ilha, os súditos da Rainha Lagarto que havia erguido seu palácio naquela terra muito antes dela se separar do continente. Apesar de possuírem uma aparência primitiva, Regine conseguia perceber o quanto eram organizados e bem adaptados ao ambiente. O que era naquela situação uma péssima notícia, uma vez que as elaboradas armas de madeira e osso e as redes de vinhas trançadas que carregavam mostravam que não estavam dispostos a uma abordagem pacífica.

Enquanto a antropóloga ainda estudava os homens-lagarto, Beatrice saltou com um rugido de desafio sobre um dos que estavam mais próximos. A criatura reptiliana escancarou sua boca monstruosa e ergueu sua clava contra a garota, mas ainda em pleno ar a guerreira espetou seu inimigo com a lança, atravessando sua rígida armadura e fazendo borrifar sangue escuro. Pousando no chão com a graça de um jaguar selvagem, Beatrice retesou seu corpo e com uma força impressionante ergueu o homem-lagarto agonizante, dando um giro poderoso e acertando com o corpo outros dois que se preparavam para lançar uma rede sobre ela, deixando-os caídos sobre o chão lamacento.

Regine ergueu seu rifle e girou o cano triplo de cobre, ajustando as engrenagens e carregando mais um tiro. Mas um momento antes de disparar, ela olhou para Beatrice e viu a menina vacilar por um momento, fitando sua arma com uma expressão de susto. Um homem-lagarto se aproximou por trás dela, girando seu machado de osso para golpeá-la nas costas. O sangue de Regine gelou e apenas o impulso a moveu para a frente, girando o rifle em suas mãos e golpeando o reptiliano com toda força no queixo com a coronha da arma. Se recompondo, Beatrice derrubou os outros que se aproximavam com a lança, agarrou o braço da antropóloga e correu para uma árvore próxima.

Enquanto se esforçava para acompanhar a garota, Regine podia ouvir a selvagem cacofonia que ocupava a selva. Os Nakna’Ohti haviam mandado um grupo de guerreiros para afastar os homens-lagarto, e a luta se estendia no solo enquanto Damien e seus homens eram arrastados em redes para um destino incerto. Chegando ao topo da árvore, ela mais uma vez contemplou aquela paisagem abandonada pelas eras, mas o suor, as feridas e a adrenalina da luta lhe davam uma sensação completamente diferente. Ficando de pé ao lado de Beatrice, a antropóloga arrumou o rifle sobre os ombros como uma guerreira, sentindo que ainda havia muito o que descobrir naquela terra.

Trovões na Selva Sufocante – Parte 1 quinta-feira, abr 9 2015 

Whoa thought it was a nightmare
Lord it was so true

They told me don’t go walking slow
The devil’s on the loose

(Creedence Celarwater Revival – Run Through the Jungle)

As hélices da aeronave à vapor rangiam com esforço, como se estivessem em uma luta fatigante contra o ar embaçado de calor. Ao redor o céu estava limpo, mas na distância nuvens de fuligem se amontoavam sobre as montanhas, pulsando com um clarão vermelho a cada estrondo causado pelos vulcões ocultos no negrume. Vigiando em uma das correntes que prendiam o balão ao convés, um diabrete aproximou da boca uma corneta improvisada feita com o bocal de uma velha caixa de música e tocou uma nota alta e estridente, anunciando que a Erichto estava chegando a seu destino.

Como se estivessem respondendo ao sinal, um bando de répteis alados surgiu do litoral da ilha, batendo suas largas asas de couro enquanto passavam ao lado do veículo voador. Pareciam enormes cegonhas desengonçadas e de penugem curta, o tipo de besta que só poderia habitar uma paisagem prístina e selvagem como aquela. Na amurada da aeronave, um homem observava o espetáculo com um misto de repulsa e curiosidade estampado em seus olhos dourados sem pupilas. Alisando sua barbicha, ele resmungava entre dentes afiados: -Parece que os súditos da Rainha Lagarto vieram nos dar as boas-vindas. Então essas feras grotescas são os tão célebres dinossauros da ilha.

-Pterossauros não são dinossauros, monsieur Damien. São espécies diferentes. – interrompeu a voz suave de uma mulher alta e atlética, que apoiou os cotovelos no corrimão do convés para observar as criaturas em seu voo vespertino. – Eles são praticamente tão distintos quanto um morcego é de um cão. Mas tenho certeza de que avistaremos alguns dinossauros propriamente ditos quando estivermos em terra. Há uma grande variedade deles lá embaixo. – ela explicou deixando Damien com uma careta aborrecida, arqueando as sobrancelhas enquanto dava as costas para a paisagem e acendia seu cachimbo com a chama azulada de um pequeno aparelho metálico.

-Você deve ser tão incrível em festas, madame Beaumont. – ele comentou, deixando a fumaça espiralar entre os chifres de sua testa. Regine Beaumont não lhe deu muita atenção, continuando a admirar a paisagem que estendia um carpete esmeralda de selva abaixo de seus pés. A Erichto começava a diminuir de velocidade e voar mais baixo, se aproximando de uma baía isolada onde era possível ver algumas fogueiras crepitando. – Com todo respeito, tenho lugares mais interessantes para ir do que festas, e o senhor sabe muito bem que isto aqui não é uma. – ela respondeu finalmente, arrumando o rifle de três canos na bandoleira e se preparando para desembarcar.

Entre as escuras rochas vulcânicas da baía se abrigava um acampamento indígena, com algumas dúzias de cabanas de estacas e sapê arrumadas ao redor das fogueiras. Regine prendeu a respiração ao correr os olhos pela rústica aldeia, admirando cada novo detalhe que conseguia encontrar. Havia naquele lugar uma aura de ancestralidade palpável, que dava a uma antropóloga como ela a certeza de estar diante de uma cultura quase intocada pelo mundo exterior. Um tesouro de sabedoria até então perdida, que havia perdurado e crescido durante séculos como uma semente rara em um solo hostil e esquecido pelas eras.

Esse era o motivo pelo qual havia aceitado fazer parte da expedição comercial de Damien Chandelier até a Terra da Rainha Lagarto, mas não era a única razão de estar ali. Um grupo de trabalhadores de uma futura plataforma de extração de óleo pétreo, que havia tido contato com aquele acampamento meses antes, tinha encontrado uma garota aurinesa vivendo entre os indígenas. A descrição da menina batia com a de Beatrice Chardonneau, filha única de comerciantes de cana-de-açúcar, cujo cargueiro havia naufragado cinco anos antes nas proximidades da ilha. A jovem porém parecia não se recordar de quem era, e nem sequer falava uma única palavra em seu idioma natal.

Regine seria a responsável por resgatar Beatrice e acompanhá-la de volta a Aurin, sem causar um desentendimento com os nativos. Não era uma missão com a qual se sentia muito confortável, uma vez que a garota parecia totalmente integrada com a tribo que a havia resgatado e acolhido. Mas a antropóloga sabia que para uma comunidade tão isolada como aquela, levar a menina poderia ser o melhor para ambos. Não apenas estaria dando para Beatrice a chance de conhecer sua origem e as oportunidades que havia deixado em Aurin, como também estaria ajudando a preservar os próprios nativos de um contato mais invasivo de estrangeiros curiosos.

Ela sabia bem o circo que aquilo poderia se tornar na sociedade aurinesa caso a questão não fosse logo resolvida. Os indígenas por sua vez a observavam desconfiados enquanto ela adentrava o acampamento, tomando cuidado para não fazer nenhum movimento que pudesse ser interpretado como uma ameaça. Fisicamente não possuíam nenhuma diferença dos nativos que habitavam o Grande Bayou no continente, com a pele em um tom avermelhado e os cabelos de cor escura, raspados nos homens em um penteado moicano. A simplicidade de suas tendas sugeria um modo de vida nômade, algo bastante adequado naquele terreno perigoso de vulcões e feras reptilianas.

Naquela comunidade não havia espaço para modestos negociantes de peles ou artesãos despreocupados. Cada um daqueles homens e mulheres tinha de ser um guerreiro robusto para conseguir chegar ao final de cada dia. Seus músculos salientes eram temperados pelo calor das explosões de magma fervente, e seus corpos enrijecidos eram cobertos de cicatrizes causadas pelas coisas terríveis que rastejavam nas profundezas da selva ou abaixo das ondas. Os escudos adornados com penas coloridas eram feitos das escamas de alguma fera gigantesca, e seus arcos fabricados com os ossos resistentes dos pterossauros que eram abatidos no alto dos penhascos.

Porém, aquela luta constante pela sobrevivência não os impedia de possuir suas histórias e crenças, que Regine conseguia enxergar nos totens e amuletos que protegiam as tendas e nos desenhos complexos que cobriam os escudos e ornamentos dos indígenas. A antropóloga rejeitava a visão de vários de seus colegas acadêmicos que tratava os povos do novo mundo como ‘bárbaros’ de cultura primitiva. Mesmo ali naquela ilha, à deriva em uma região estagnada das marés do tempo, aqueles indivíduos haviam se tornado mais do que simples homens das cavernas, ainda que estivessem à margem do império milenar da Rainha Lagarto.

Era possível perceber dentro daquela comunidade uma profunda e respeitosa devoção pelos espíritos primordiais da natureza, que se manifestavam nas escarpas cobertas de névoa, nas furiosas ondas que rebentavam na entrada da baía e na fumaça que subia das crateras flamejantes. Os indígenas os representavam como marcas irregulares de raios e espirais, pintados nas lonas das tendas e em suas próprias peles. Também pareciam possuir uma certa reverência pelos jaguares de dentes-de-sabre, animais que como eles viviam na sombra dos grandes dinossauros, e muitos dos guerreiros utilizavam as peles e presas dos felinos como fetiches de caça e proteção.

Ao chegar diante da maior das fogueiras no centro do acampamento, Regine se viu diante de um homem com longos cabelos brancos e o rosto profundamente marcado de rugas, mas ainda corpulento apesar da idade avançada. Os olhos escuros e fundos do ancião fitavam as chamas intensas, que pareciam dançar à sua frente. Ele não pareceu dar atenção à forasteira, mas mesmo assim a antropóloga deixou seu rifle e seu facão no chão antes de sentar-se próximo ao velho. Seus lábios murchos cantarolavam algo incompreensível, e a quantidade de colares de garras e outros apetrechos totêmicos que usava pelo corpo mostrava que tinha uma posição espiritual elevada na tribo.

O ancião terminou sua melodia e permaneceu olhando para o vazio por alguns segundos antes de voltar a cabeça para Regine, examinando a expressão dela por mais algum tempo até pegar um punhado de cinzas e areia do chão e soprá-las de maneira fortuita no rosto da mulher. A antropóloga apenas cerrou os olhos, mas antes de abri-los de novo ouviu a voz do velho xamã falando não em seu idioma nativo, que ela levaria semanas para aprender, mas na língua remota e trovejante usada pelos elementos primordiais quando decidiam se comunicar com o mundo.
-Os espíritos gostam de quem possui paciência para ouvi-los. Agora me conte o motivo de estar aqui.

Regine não conseguiu conter sua animação com aquela oportunidade de diálogo com a tribo, e desatou a fazer uma infinidade de perguntas sobre aquela comunidade. Descobriu que os povos indígenas da ilha se chamavam de Nakna’Ohti e que o nome do ancião era Hukmi. Que a espiritualidade daquele povo estava ligada ao calor e vigor da terra e dos seres de sangue quente, centralizadas na figura da Mãe Vulcão, um totem ancestral temido até mesmo pela Rainha Lagarto e seus súditos. Os xamãs da Mãe Vulcão como Hukmi eram capazes de prever erupções e tempestades, e se utilizavam dessa sabedoria para guiar as mudanças de acampamento.

Apenas quando uma pequena parte de sua curiosidade já estava satisfeita foi que a antropóloga percebeu o quanto estava empolgada, e com um sorriso sem graça perguntou apressadamente sobre Beatrice. Não havia visto nenhum sinal da garota desde que havia chegado, embora muitos dos indígenas estivessem observando escondidos de suas cabanas ou das margens da selva. O ancião confirmou que a filha dos Chardonneau estava com eles, que havia sido encontrada pela tribo anos antes naquela mesma baía e era uma menina com forte instinto de sobrevivência. Porém, havia um tom de preocupação na voz do xamã que deixou Regine com um pressentimento ruim sobre a situação.

Quando ela pediu que Hukmi lhe dissesse onde a jovem estava, o velho índio suspirou pesadamente e se levantou. -Sei onde ela deve estar agora. Mas irei te alertar de que Iluta, a quem você chama de Beatrice, pode não ser mais a pessoa que você procura. O espírito dela se tornou inquieto e assombrado por uma sede de sangue. – mal o xamã havia terminado de pronunciar essas palavras, um trovão estrondeou por trás das árvores na direção em que estavam indo, como um sinal fatídico do que estava por vir. Regine sentiu o coração dar um salto ao perceber que o céu estava limpo sobre a baía e que aquilo que havia acabado de escutar eram disparos da tripulação da Erichto.

Port Vert quarta-feira, mar 25 2015 

Ao se navegar até a foz do Rio Lafitte, é possível ver de longe a graciosa Port Vert à margem das águas, na fronteira entre o oceano e o Grande Bayou. Seus edifícios elegantes de construção aurinesa e as caóticas favelas costeiras já foram muitas vezes castigados por tempestades e incêndios, mas nenhuma catástrofe é capaz de silenciar as canções de piratas, os bailes de máscaras e as fanfarras de rua que tornam essa cidade a mais musical e animada colônia de Aurin.

Port Vert é uma rota defendida ferozmente pelas esquadras Seláquia e Delfina contra incursões de Windlan. Ela faz contato principalmente com as Ilhas Marlim ao sul e com a própria Aurin Continental no leste distante. Navios vindos de nações aliadas de Aurin também a utilizam, vindos especialmente de Jazirat ou do Continente Negro.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

Bairro Aurinês

Com suas belas varandas e galerias de ferro moldado, o Bairro Aurinês reluz durante a noite com as luzes de seus estabelecimentos refletindo nas ruas úmidas de chuva. Após ter sido quase inteiramente destruído por um incêndio incontrolável de origem desconhecida, esse distrito que é o mais antigo de Port Vert foi reconstruído para resistir ‘até mesmo ao fogo do inferno’, como dizem os responsáveis pela reforma. Tanto zelo é justificado pelo Bairro Aurinês ser o centro da vida comercial, social e artística da cidade, com seus mercados ao ar livre, tavernas e salões de música. Artistas de toda a colônia tentam ganhar a vida nas praças, estabelecimentos ou nas próprias ruas, tocando canções que alternam entre o alegre e o melancólico. O espírito requintado do Bairro pode ainda ser visto nas delicadas perfumarias, cabarets e boutiques que surgem a cada rua, contrastando com a culinária de comida temperada e forte baseada em pratos de carnes e frutos do mar como a jambalaya. Para os visitantes de Port Vert no entanto, nada chama mais a atenção nesse distrito do que as Lojas Vodu com suas fachadas coloridas, oferecendo feitiços, poções e todo tipo de amuleto. Embora algumas delas sejam obra de charlatões, muitas são administradas por doutores feiticeiros com real poder, que não cobram barato pelos seus serviços. Nem todos os trabalhos são pagos em ouro no entanto, e é de conhecimento popular que muitos que tentaram quebrar seus acordos com os mestres do vodu acabaram como empregados zumbis em seus estabelecimentos.

Ancoradouro Encardido

Port Vert recebe diariamente mercadorias das Ilhas Marlim e outros lugares do Novo Mundo, as enviando para Aurin sempre que possível. Essa movimentação constante transformou o porto da cidade em um distrito vasto e caótico, que ocupa parte do litoral e um trecho do Rio Lafitte. A influência de engenheiros goblins e jinn das Ilhas Campeche trouxe ao Ancoradouro armazéns e estaleiros mecanizados, que cobrem o céu de fuligem e mancham a água com óleo e substâncias alquímicas. Apesar dos navios de corsários com suas velas chamativas serem uma presença comum, o tráfego mais constante é o dos barcos à vapor que vem e vão pelo Lafitte girando suas rodas de pá na água. Algumas dessas embarcações são luxuosos salões de festa flutuantes, ficando a maior parte do tempo afastadas da costa para evitar a poluição. Outras são veículos de transporte e carga dos Levee, restaurantes de comida típica do Bayou ou mesmo esconderijos de mafiosos aurineses, que se aproveitam da discrição e mobilidade para realizar todo tipo de contrabando. Rumores locais dizem que alguns dos barcos servem até mesmo de covil para vampiros e outros seres, que esperam pela escuridão da noite para deixar seus abrigos e sair à caça de marinheiros e passantes distraídos.

Praça Fifolet

A maior praça de Port Vert não chama grande atenção durante o dia, com suas vitrines de doces e bandeirolas tremulando preguiçosamente entre as árvores. É durante a noite que surge a paisagem fantasmagórica iluminada por centenas de lampiões, a hora em que as feiras de diversões iniciam suas atividades até o raiar do dia. Muitos dos negócios locais são administrados pelos Levee, mas a presença de acampamentos ciganos é comum. Suas tendas coloridas fazem companhia aos etéreos carrosséis e às pistas de montanha-russa montadas sobre estruturas duvidosas de madeira. Pequenos circos e grupos de teatro itinerantes são uma presença constante, exibindo espetáculos que vão do encantador ao monstruoso. O mais famoso deles, a Feira da Lua Sorridente, surge sempre durante a lua minguante e vai embora durante a crescente, dando origem à lenda de que muitos de seus membros são na verdade lobisomens. Seu líder, o mágico Deimos, é um homem melancólico e azarado, mas de grande conhecimento arcano. É dito também que existem diabos disfarçados espreitando pela Praça, em busca de almas aflitas ou descuidadas o bastante para realizar algum contrato ou aposta. Mas talvez nenhum rumor seja tão terrível quanto o que menciona que algumas das barracas comercializam secretamente artefatos ligados aos Horrores Antigos, conseguidos nas profundezas do Grande Bayou. No fim, todas as histórias e assombrações que cercam a Fifolet apenas conseguem atrair mais visitantes curiosos, em busca da magia secreta que a cada pôr-do-sol surge de formas imprevisíveis.

Mansão Chandelier

Originalmente construída pela rica família Spinosa, a primeira a colonizar Marais, essa enorme e imponente mansão de pedra e mármore foi assumida pelos Chandelier quando os últimos passaram a governar Port Vert. Os bosques escuros que a rodeiam e as pesadas portas de madeira adornadas com imagens em alto-relevo dão uma aura sinistra ao lugar, bastante adequada para os aposentos de uma família marcada pela influência de antigos diabos. Nos corredores, castiçais iluminam grandes pinturas com imagens sombrias, enquanto cortinas de seda fina insinuam as atividades lascivas dos residentes. Tendo como patrono Mefisto, o Príncipe das Mentiras, muitos dos Chandelier são tieflings, vivendo uma vida de intriga e luxo entre os refinados salões de máscaras e as bibliotecas de conhecimento arcano, servidos por diabretes e outros infernais menores. Maxime Chandelier, o patriarca e também governante da cidade, é um mercador de grande fortuna, que abraça as inovações tecnológicas do ferro e vapor ao mesmo tempo em que mantém hábitos arcaicos, como um lorde em sua propriedade. Generoso com seus amigos e maliciosamente cruel com seus inimigos, ele é conhecido pelo modo abusivo e autoritário com que trata seus empregados, especialmente os que já tiveram origem escrava. Mesmo não existindo mais escravidão em Port Vert, os Chandelier estendem esse pensamento para a cidade através de decretos e códigos que restringem os direitos dos cidadãos de ‘segunda classe’. Alguns dos tieflings mais jovens se cansam da atmosfera falsa e opressiva da família e deixam sua proteção para defender as próprias ideias e ambições. Outros abraçam seu legado e conquistam espaço nos jogos de poder que tomam lugar nas galerias subterrâneas da Mansão, negociando poder e influência com senhores infernais e usando suas próprias almas como garantia.

Introdução – Port Vert terça-feira, fev 10 2015 

Chamas saltavam tentando alcançar as estrelas quando ela surgiu entre as varandas e os arcos de pedra. Era noite de festival, e todos os demônios de Port Vert estavam dançando na multidão. Entre malabares de fogo e sombrinhas de renda ela serpenteava, queimando em desejo. Clarinetes e violoncelos tentavam acalmar seu coração, mas ele estava tão seco quanto sua garganta. Quando finalmente avistou a garota com cabelos carmesim, a lua minguante sorriu iluminando o caminho sobre os telhados de estanho. A brisa trazia até ela seu perfume, uma poção do amor com cheiro de terra. Deslizando e rodopiando por entre arlequins mascarados e capitães embriagados, ela a alcançou sobre uma ponte, acima de um desfile de sereias e barcos enfeitados. O leque de penas brancas da moça cobriu seu rosto em um gracejo, deixando apenas a máscara de longo bico espiar como um pássaro gracioso. Com os olhos faiscando por trás da própria máscara, ela se aproximou em um cortejo elegante, os cabelos brancos brilhando como escamas ao luar. Quando seus dedos morenos enfim se entrelaçaram com os da dama, um movimento rápido a trouxe para perto de si, e as duas saltaram para a noite que se refletia nas águas espelhadas.

 

Na outra noite que também festejava além da fronteira, serpentes arco-íris sopravam lufadas de brumas coloridas enquanto bandas de esqueletos tocavam uma marcha animada. Nas margens da água turva vinham se sentar os sapos enfeitiçados com suas asas de morcego, juntando suas lamentações à música do outro mundo. Tomando sua convidada pela mão, ela a conduziu até as ruelas que se contorciam e ondulavam, entre bailes de zumbis e cabarés fantasmas. A noite inteira ela e a garota de cabelos vermelhos dançaram e celebraram a vida nas encruzilhadas dos mortos, cavalgando em carrosséis de ossos e passeando nos barcos estígios com seus motores movidos a almas, rindo dos peixes-demônio que tentavam atraí-las balançando suas lanternas como fogo-fátuo. Quando a sorridente caveira de crocodilo na proa do navio finalmente assoviou seu vapor esmeralda, o jardim se estendia diante delas, com lírios vodu exibindo seu púrpura no portão. A garota de cabelos carmesim já não tinha medo de atravessá-lo, pois seu coração não mais se sentia triste e solitário. Com um beijo apaixonado ela se despediu e prometeu voltar para visitá-la, sempre que a música dos festivais mais uma vez se unisse em uma única e alegre sinfonia.

 

Quando a manhã chegou sobre os gramados escuros no jardim, ela passeou entre as casas de seus protegidos, se certificando de que todos haviam voltado em segurança e estavam dormindo. A garota de cabelos carmesim ainda estava sentada sobre seu leito, e sorriu com cumplicidade em um último aceno antes de ir se deitar, sob o olhar cuidadoso de seu anjo de pedra. Nunca mais voltaria para as águas onde havia se afogado, nem para a ponte onde havia se chocado enquanto dançava sobre um dos barcos a vapor do desfile. Repentinamente, uma lenta marcha de trombones quebrou o silêncio, e olhando para trás ela viu uma das krewes do festival trazendo sua rainha numa caixa forrada em veludo. Dobrões e contas douradas ainda adornavam seu corpo, como enfeites no sarcófago de uma imperatriz. Poderia governar com toda pompa no além agora, mas primeiro sua alma precisaria ser salva da taverna ainda em brasa, onde tentava terminar sua última garrafa da noite anterior. Era isso que ela iria fazer na próxima noite de festa, quando a música animada da procissão que agora seguia de volta para as ruas mais uma vez fizesse com que tanto os vivos quanto os mortos de Port Vert deixassem suas moradas para celebrar e relembrar, na cidade em que as máscaras tornavam todos iguais.

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