Presa de Coral

Recolhemos da água um grande galho carregado de amoras semelhantes às do espinheiro-alvar e também a carcaça de insólito animal terrestre. Tinha quase um metro de comprimento, mas não chegava a meio metro de altura, com quatro patas minúsculas e os pés armados de longas garras rubras como coral. O corpo era coberto de um pêlo liso e sedoso, impecavelmente branco, a cauda era fina e pontiaguda como a dos ratos, com cerca de quarenta centímetros de comprimento. A cabeça apresentava características felinas, com exceção das orelhas, que pendiam dobradas como as de um cão. Os dentes eram rubros e brilhantes como as garras.

(Edgar Allan Poe – O Relato de Arthur Gordon Pym)

Estes curiosos mamíferos se sentem muito a vontade nas águas quentes de Tsalal. Habitando pequenas ilhas rochosas, eles possuem dentes e garras  revestidos por uma substância vermelha de cor intensa. Apesar do  aspecto ameaçador dessas armas naturais, os Presas de Coral geralmente possuem um temperamento dócil, nadando calmamente ao redor de embarcações e se alimentando apenas de invertebrados marinhos de corpo mole, como águas-vivas e estrelas do mar. Parte da tranquilidade se deve ao fato de não possuírem predadores. Nem mesmo os nativos de Tsalal os perturbam, já que o estranho pavor do povo das ilhas por tudo aquilo que possui a cor branca faz com que essas criaturas sejam evitadas a todo custo. Quando o cadáver de um Presa de Coral é levado pelas ondas até uma ilha habitada, seus moradores cercam o corpo com lanças e fazem repetidos rituais de proteção. Apenas quando os feiticeiros das ilhas centrais chegam é que a carcaça é removida, as garras e dentes retirados e entregues ao xamã para a confecção de fetiches mágicos.

Urso da Geleira

Por volta do meio-dia, o vigia da gávea avistou um pequeno banco de gelo, a bombordo e ao largo da proa, sobre o qual encontrava-se algum monstruoso animal. (…) Ao chegarmos próximo ao banco, verificamos ser o domínio restrito de gigantesca criatura pertencente à raça dos ursos árticos, mas bem maior em porte e estatura que o maior desses animais.

(Edgar Allan Poe – O Relato de Arthur Gordon Pym)

De corpo maciço e temperamento obstinado, estas criaturas já abateram muitos exploradores da Fronteira do Mundo. Eles são cobertos por uma pelagem espessa, encarapinhada ao toque e de cor impecavelmente branca. Os olhos vermelhos permitem que enxerguem em profundas cavernas abaixo do gelo, onde caçam pinguins albinos, sua presa predileta. Maiores que os de um urso comum, eles também transparecem a ferocidade do animal, que uma vez incitada não cessa até que ele ou tudo a sua volta esteja morto. No Museu da Real Sociedade Esmeralda em Port Jane Guy existem fósseis e gravuras em alto-relevo que mostram que os ursos já estavam presentes no período em que a Fronteira ainda era ocupada pelos construtores das grandes cidades ocultas nas geleiras, e que eram usados para entretenimento em arenas de combate, lutando contra humanoides simiescos de feições espantosamente humanas.

Pássaro da Alvorada

Numerosas aves, de porte gigantesco e brilhante alva plumagem, sobrevoavam o barco desde cedo, entoando o eterno Tekeli-li ao surgirem de algum ponto além do véu.

(Edgar Allan Poe – O Relato de Arthur Gordon Pym)

Consideradas sagradas pelas tribos krokan que vivem próximas à Costa dos Albatrozes, essas magníficas aves são vistas apenas em raras manhãs com neve.  Seu canto pode ser interpetado tanto como um mau agouro como um sinal de esperança para aqueles que desbravam a Fronteira do Mundo, onde esses animais fazem seus ninhos. As penas cristalinas que os recobrem são feitas de gelo vivo, refletindo a luz solar em um amplo halo psrimático. Misteriosos e inteligentes, os Pássaros da Alvorada são capazes de manipular as correntes de ar que percorrem o extremo sul de Keleb, gerando efeitos climáticos que vão de ventos polares até devastadoras tempestades de granizo. Ditos como guardiões do coração da Fronteira, eles foram invocados a milhares de anos por um poderoso xamã krokan, para  impedir que os horrores escondidos nas ruínas abaixo das geleiras fossem libertos de seu profundo sono.