Introdução – Chakana sexta-feira, maio 25 2012 

As escadarias de Chakana pareciam intermináveis sob o céu das montanhas, onde as nuvens se espalhavam em pequenas plumas brancas após a tempestade. Saltando sobre os degraus molhados, Pisco ofegava e desviava atrapalhada dos pastores de lhamas, vendedores de batatas e tocadores de flauta que zanzavam pelas ruas estreitas naquela manhã. Ninguém dava muita atenção à menina, igual a tantas outras com seu xale de lã e seu chapéu de abas largas, de onde escapavam duas tranças negras presas em um laço na ponta. Todos estavam ocupados em retomar suas tarefas, após a forte chuva da noite anterior. A agonia que sentia pertencia apenas à ela, enquanto a paisagem formada pelos prédios, pessoas e pequenas barracas de palha era um mosaico impassível que ela tentava transpor enquanto corria contra o tempo.

Finalmente, com um suspiro de alívio, ela avistou a bolsa vermelha do balão em um dos terraços mais altos, ainda não completamente cheia. Um pequeno grupo de pessoas formava um círculo ao redor do veículo, a maioria soldados e outras pessoas importantes que Pisco não conhecia. Os empurrando pela cintura de lado enquanto passava, ela correu até o grande cesto da aeronave, gritando e acenando quando viu que seu irmão estava lá.

-Pahuac! Pahuac! – ela chamou, fazendo com que o rapaz se virasse com um sorriso.

-Pisco! Você não deveria estar tomando conta do rebanho, menina?

A garotinha se aproximou aflita, revelando um olhar marejado de lágrimas quando pôs as mãos sobre a borda da cesta e ergueu o rosto para Pahuac.

-Você vai mesmo embora? – disse ela com a voz embargada de choro.

Pahuac suspirou e tentou desviar o olhar da irmã, enquanto sorria melancólico. Pisco nunca entenderia o que estava acontecendo. Ela ainda era muito nova para perceber que Chakana não estava mais segura, após a cobiça dos estrangeiros ter conseguido atravessar as barreiras que durante séculos haviam protegido o Povo do Sol. As relações diplomáticas de seu Imperador com Windlan já eram preocupantes, mas agora que uma ameaça ainda maior havia surgido não havia escolha a não ser se juntar aos que se declaravam aliados, para impedir que a assim chamada Ordem da Meia-Noite pusesse as mãos no solo sagrado da Estrada do Céu. Pahuac era um dos que havia percebido que esse conflito não poderia ficar apenas nas mãos dos estrangeiros, ou eles ficariam perdidos em meio ao fogo cruzado. Por isso, ele havia se alistado junto aos Aeróstatas, para combater os zepelins da Ordem que se agrupavam próximos à Estrada, e que ameaçavam seguir até o sul, onde pessoas inocentes como Pisco sequer imaginavam o que estava por vir.

-É só por um tempo, maninha. – disse o aviador, levantando a menina pela cintura e a colocando dentro do cesto – Assim que espantarmos os homens que estão causando problemas lá na Estrada do Céu eu volto. O Capitão Markham vai nos ajudar, nos levando no balão dele pra gente poder ir e voltar mais rápido!

Pisco observava o interior da aeronave com curiosidade, espantada com as válvulas que sibilavam com vapor acima de sua cabeça. Ela não entendia porque aqueles homens brancos haviam vindo de tão longe em seus barcos voadores, e porque precisavam de todos aqueles aparelhos estranhos e barulhentos. Será que a terra deles havia ficado tão apertada com aquelas máquinas grandes que eles agora precisavam levá-las para a terra de outras pessoas? E porque seu irmão tinha que ir junto com eles? Ele nunca deveria ter aprendido a mexer naquelas coisas, que machucavam pessoas e enchiam as fazendas de buracos lamacentos. Mas ela sabia que nunca iria convencê-lo a ficar, então desamarrou a manta enrolada que trazia em suas costas, revelando um grande poncho de lã.

-Toma. Eu que fiz. É de alpaca. Vai te manter aquecido lá no alto.

O aprendiz de aviador pegou a peça de roupa lilás com delicadeza e a enrolou ao redor do corpo, abraçando a irmã em seguida e beijando-lhe a face. Nesse momento, uma algazarra de gritos e o toque de uma corneta anunciaram que o balão estava pronto para subir. Enquanto os soldados verificavam os últimos detalhes, o rapaz rapidamente colocou a irmã em segurança do lado de fora, bem na hora em que ele começava sua lenta decolagem.

-Pahuac! – gritou a menina, segurando o chapéu contra a forte ventania que saía do balão motorizado – E se você ficar triste e com saudade de casa?

-Não se preocupe irmãzinha! – respondeu o rapaz, já se afastando enquanto as amarras do balão se soltavam de Chakana – Você nunca pode estar triste em um poncho!

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Criaturas de Huakan terça-feira, maio 22 2012 

Devorador de Éter

A coisa se parecia com um inseto, de corpo segmentado e cristalino. Pernas compridas e delgadas golpeavam o ar em espasmos, e uma cauda de ferrão se enrodilhava sobre o ventre encouraçado. Na cabeça crustácea, dois longos apêndices purpúreos tentavam fracamente se movimentar, tostados pela pinça.

(Sob a Miragem Cerúlea)

Parasitas que se alimentam de energia arcana, os Devoradores de Éter são uma descoberta recente dos exploradores na Estrada do Céu. Eles tiram seu sustento da radiação trazida pelas chuvas de partículas cósmicas que caem sobre o deserto, mas qualquer objeto ou criatura mágica que se aproxime de um deles é atacado com avidez, tendo sua essência etérea drenada pelas longas “antenas” púrpuras da criatura. De origem ainda desconhecida, eles possuem um corpo insetóide que lembra algo entre uma lacraia e um bicho-pau, de cor azul brilhante e aspecto cristalino. Os estudiosos que já tiveram contato com estas criaturas teorizam que elas tenham chegado a Keleb no interior de meteoros, o que explicaria seu habitat nos arredores de estranhas crateras de cristal. Eles também habitam o interior de ruínas milenares, o que pode obter um paralelo entre as construções e a queda dos corpos celestes que abrigavam estas criaturas.

Avantesma dos Penhascos

Ela não terminou, pois uma coisa horrível aconteceu: uma criatura com metade do tamanho de um homem e com asas de couro e garras recurvas estava rastejando pela lateral da cestinha (…). A coisa tinha a cabeça chata, olhos esbugalhados e uma enorme boca de sapo, de onde saíam lufadas de um fedor insuportável.

(Phillip Pullman – A Bússola de Ouro)

Estas criaturas carniceiras habitam os penhascos entre a Estrada do Céu e as Montanhas do Mar de Bruma. Apesar dos hábitos detestáveis, são mais inteligentes do que parecem. Eles possuem um idioma rudimentar, embora não tentem se comunicar com outros seres sencientes além da própria espécie. Vivendo em grandes grupos nos paredões de rocha, eles se alimentam principalmente de cadáveres, mas também atacam criaturas vivas quando estão em maior número, preferindo alvos indefesos. Essa dieta não possui nenhum estorvo em devorar carne humana, e apenas os peregrinos da Estrada do Céu parecem conhecer o segredo para manter os Avantesmas afastados ao utilizar as trilhas nas montanhas. Mesmo os veículos voadores dos Aeróstatas não estão livres dos ataques de bandos maiores, que podem derrubar um balão se não forem repelidos a tempo.

A sabedoria do Povo do Sol conta que os Avantesmas dos Penhascos são criaturas mais antigas que a humanidade, vindas das estrelas algum tempo depois dos Aeons e Horrores. Os nativos de Huakan falam que eles conhecem segredos sobre o universo como poucos, entendendo seus complexos mecanismos através de assombrosas profecias. Ainda assim, eles preferem não tomar qualquer lado mesmo nas questões mais importantes, sobrevivendo como oportunistas que tomam para si qualquer coisa que tenha o azar de cair em suas garras.

Pururauca

Hermanos despierten,
Ahora es la batalla.
Su enigma demuestren
En esta hora aciaga.

(Ch’aska – Pururauca)

Estátuas de pedra que ganham vida são comuns em muitas das culturas de Keleb. Porém, poucas possuem uma centelha de vida tão poderosa quanto a dos Pururaucas, colossos de pedra que por muitos anos defenderam o Povo do Sol dos ataques de tribos da Selva dos Sussurros. Animados pela mesma essência que dá força aos Aeons, estes gigantes podem ser controlados apenas pelos Sacerdotes do Povo do Sol. Os quatro maiores já vistos passam o tempo inteiro submersos no grande lago sobre o qual está a cidade de Chakana, prontos para despertar e emergir em tempos de necessidade. Historiadores relacionam essa poderosa forma de magia com antigos golens encontrados nas ruínas de Theocratia. As formas dos Pururaucas variam entre imponentes soldados e robustos pumas, mas seus olhos sempre brilham com uma fagulha sagrada. Existem lendas que relacionam os esses guardiões à figura de um imenso condor de pedra, capaz de voar através de um complexo encanto que se perdeu no tempo.

Galeria – Aeróstatas quarta-feira, maio 16 2012 

Curiosos, aventureiros e um pouco malucos, os Aeróstatas de Windlan cumprem um papel essencial para sua nação ao realizar missões de transporte e reconhecimento em locais inacessíveis por navio. Seus balões e dirigíveis visitam paisagens exóticas nas Colônias distantes, fazendo com que seus condutores tenham sempre alguma boa história para contar. Muitos se tornam exploradores famosos, tratados como celebridades entre seus conterrâneos. Inspirados por uma coragem superada apenas pela vontade de conhecer novos horizontes, eles logo dispensam as mordomias das grandes cidades e voltam às cabines de suas aeronaves, realizando viagens por conta própria quando não estão a serviço da Coroa.

O uniforme de um Aeróstata é composto por peças de couro e lã sobre um macacão colado ao corpo, essencial para manter a temperatura nas altitudes a que estão habituados. Diversas correias e argolas permitem a eles escalar e se pendurar em seus veículos voadores, para  realizar a manutenção ou mesmo obter ângulos de observação melhores. Passando boa parte do tempo solitários nos ares, os aviadores de Windlan desenvolvem com frequência hábitos excêntricos. Alguns tentam manter a rotina de uma dama ou cavalheiro windlês, mesmo estando confinados em uma pequena cabine a milhares de quilômetros de altura. Outros misturam costumes, práticas e crenças que aprenderam em diferentes países, conversando sozinhos em uma mistura de idiomas. Independente de quais sejam suas manias particulares, os Aeróstatas se entendem muito bem entre si, e um convite para um chá é praticamente uma obrigação quando dois colegas se cruzam, seja em terra ou nas nuvens.

Ao contrário de outros colonos e desbravadores, os Aeróstatas costumam possuir uma boa imagem entre os povos de outras nações. Muitos deles são de fato estrangeiros a serviço de Windlan, originários de Ming, Iroko, Macehualli e outros países. Isso, junto a seus hábitos incomuns, faz com que sejam alvo de desconfiança por parte de algumas autoridades da Coroa. Por se destacarem em vários ramos da ciência, eles com frequência estão envolvidos em operações de sigilo, o que aumenta ainda mais a vigilância sobre suas atividades. Embora nenhum caso de traição seja conhecido, existem boatos de que um grupo de aviadores vem criando uma rede de informações entre si, relacionada principalmente aos experimentos mágicos do Instituto Wolfsbane. A Central de Inteligência dos Dragões de Mercúrio vem analisando esses rumores, tanto para evitar um possível conflito como para se certificar de que não há nada que eles mesmos não saibam. Longe dos tempos de guerra, onde cruzavam os céus como mercenários dos ares transportando canhões e soldados, os Aeróstatas agora estão envolvidos no complexo jogo de poder de Windlan, defendendo seus próprios interesses para continuar a voar livremente pelo mundo.