Revoada dos Falcões do Deserto – Parte 2 segunda-feira, jan 16 2012 

We are with you
Countless vicious souls
Fight! Fighting for freedom
United we stand (we stand!) 

(Arch Enemy – Nemesis)

Correntes incandescentes fulguravam nos braços enegrecidos do gigante de fogo, que se lançou para frente brandindo sua enorme espada de lâmina curva. O chão tremia acompanhando sua investida, mas mantive a calma e deslizei com agilidade sob a lâmina, esquivando de seu golpe e cravando minhas garras em suas pernas desnudas. Um jorro ígneo acompanhou o urro de dor do colosso, enquanto asas de poeira se fechavam a minha volta. Aleijado e cego pela fúria, o Campeão da Arena de Gehenn golpeava em vão a minha procura, apenas espalhando mais areia e permitindo que eu observasse seus movimentos à espera do momento certo. Apenas quando já era tarde demais ele percebeu seu erro, e a nuvem turva e cinzenta gerada por seus movimentos foi a última coisa que viu quando corri por suas costas e com um único golpe certeiro rasguei-lhe a garganta.

Após vencer o mais forte guerreiro do sultão, pedi como recompensa que minha proposta de servi-lo na segurança do palácio fosse aceita. Imobilizado de medo por minha perícia, o governante não teve outra escolha senão atender meu pedido.

Não demorou para que eu conseguisse o posto mais alto na guarda. Aquele palácio era um ninho de serpentes, mas o sultão tinha em mim um falcão experiente e confiável. Pelo menos até que o sussurro da morte viesse até mim mais uma vez.

Os dias foram se passando enquanto eu mantinha constante minha vigília sobre a cidade. Consegui restabelecer contato com a Ordem, e logo alguns irmãos Hassassin vieram me auxiliar na tarefa. Com eles espalhados pelas ruas, começamos a fechar o cerco contra os abutres, eliminando seus líderes pouco a pouco.

Mas foi então que a poeira na estrada começou a se revirar outra vez.

Com uma tempestade se iniciando no mundo lá fora, Gehenn não conseguiu permanecer alheia aos ventos da mudança. Mesmo encravada no meio da aridez abandonada, sua riqueza atraiu a atenção da grande águia prateada de Windlan, que enviou um falcão negro para se aninhar nas dunas de Al-Gober. Os abutres tentaram expulsá-lo como fizeram aos corvos de Iblis, mas o falcão negro trazia lanças de fogo sob suas asas, que feriram os abutres com pontas de chumbo. Os abutres então declararam guerra aos soldados do falcão negro, e isso foi apenas o começo.

Pouco tempo depois chegou a criança de Tawosret, trazendo as bênçãos que a muito haviam sido negadas a Al-Gober. Os relatos sobre os dons da pequena sacerdotisa logo se espalharam entre os nômades, e não demoraram para chegar ás ruas de Gehenn. Por pouco meus companheiros conseguiram capturá-la antes que os abutres o fizessem. Mas como era de se esperar, o avarento sultão desejava as graças da menina apenas para si, que durante sua estadia trouxe ao palácio mais harmonia do que ele jamais possuiu em toda a sua breve existência.

Então Dahaka retornou, e com ele veio o castigo que varreu Gehenn para as ruínas do passado.

Ele estava atrás da menina, a quem deveria matar seguindo as ordens de seu senhor. Por minha vez, eu tinha que protegê-la como uma hóspede do palácio, e longos foram os embates noturnos com meu antigo irmão de armas. Nos pátios de pedra carcomida e nas vielas esfarrapadas se podia ouvir o choque de nossas garras. Eu corria como uma sombra sobre os prédios, mas com a mesma velocidade que eu me movia sobre o solo, ele se movia abaixo dele. Nem mesmo os abutres ousavam se aproximar da contenda entre o falcão e o escorpião, que haviam se libertado dos muros da Arena para transformar toda Gehenna em seu campo de batalha.

Ainda que eu compreendesse o papel de um assassino, sentia que havia algo errado em sua missão, e a marca da meia-noite que ele trazia consigo aumentou minhas preocupações. Durante o tempo em que esteve longe, Dahaka descobriu segredos sobre sua própria terra, poderes que estavam adormecidos desde antes do Crepúsculo dos Deuses. E quando as vozes inumanas nas regiões distantes do deserto ficaram mais fortes, ele compreendeu que havia chegado a hora de trazer seu povo mais uma vez para a superfície, ainda que não tenha vivido para testemunhar sua glória.

Dahaka foi o arauto de Al-Azif, a legião de cem milhões de demônios, guiados por pequenas asas e por uma fome interminável. Ele foi o algoz da cidade condenada, que como uma carcaça abandonada na aridez, foi consumida por uma nuvem de insetos capaz de recobrir o sol. Todos os nascidos em Gehenna foram consumidos pelo deserto, que em sua fúria revelou os segredos mais abomináveis de suas entranhas.

Aquilo que aconteceu deixo agora para trás, oculto pela nuvem de poeira que os demônios levantam enquanto se espalham pela superfície, agitados depois de incontáveis eras aprisionados sob a areia. Dahaka não cumpriu sua missão como um instrumento da morte, pois a sacerdotisa resistiu ás privações dos Horrores Antigos e foi encontrada pelos andarilhos das estrelas, sendo salva pelo falcão de ferro de Tawosret, que com a ajuda de seus companheiros e do falcão negro derrotou os abutres, os fantasmas do deserto e por fim o escorpião de Gehenna, que morreu no lugar em que sua estrada começou.

Mas no último confronto com Dahaka ele me disse que após libertar Al-Azif, seu povo teria uma chance de não mais ter de obedecer aos Horrores Antigos, que por temerem a luz do dia não poderiam elevar sua voz para além das profundezas escuras da terra. Ele parecia gostar da idéia de sua gente descobrir aquele mundo da superfície por si própria, como ele mesmo havia feito.

Enquanto eu continuo a atravessar o deserto, ouvindo o farfalhar de um milhão de demônios as minhas costas, guiados por pequenas asas. E meu único conforto é pensar que aquela estranha criatura, a quem posso chamar de amigo, possa ter se sacrificado como um instrumento da liberdade.

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Revoada dos Falcões do Deserto – Parte 1 quarta-feira, jan 11 2012 

We walk this earth
With fire in our hands
Eye for an eye
We are Nemesis

(Arch Enemy – Nemesis)

Meu nome é Ihmed, e enquanto junto a meus companheiros atravesso as areias escaldantes do Deserto das Dunas Negras, ouço o farfalhar de um milhão de demônios ao meu redor, guiados por pequenas asas. Fazem apenas dois dias que deixei a cidade condenada, onde agora há apenas fantasmas e destroços de ambições e esperanças. Não olho para trás, e mesmo se olhasse veria apenas uma imensa nuvem de poeira, que segue nosso rastro como um presságio sombrio e recobre o horizonte. Logo chegarei aos portões da cidadela de ferro, onde o julgamento daqueles que se dizem donos dessa terra irá continuar.

Trago a morte comigo em minha lâmina e em meus sonhos despertos, e ela para mim é uma irmã. Assim tem sido desde que aceitei o caminho que me foi designado, sendo treinado na fortaleza dos Hassassin em Jezirat, minha terra natal, da qual me restam apenas vagas recordações. Naquelas terras aprendi a ser um instrumento da morte. Apenas na terra desolada de Al-Gober, onde fui um escravo, aprendi a ser um instrumento da liberdade.

Nela eu cheguei como um emissário do Califado de Al-Dasht, e meu destino era o Sultanato de Gehenn, uma colônia afortunada, nascida de um entreposto de caravanas que cruzavam Al-Gober. Meu dever era o de ser como uma leal ave de rapina, oferecendo meus olhos e minhas garras para minha nação. A grande preocupação do grande califa e de meus irmãos Hassassin era de que a Tribo de Iblis estendesse suas mãos impuras sobre aquela caixa de jóias, deixada vulnerável nas areias distantes.

Mas durante meu longo voo até Gehenn, nenhum sinal avistei dos corvos imundos de Iblis, e logo descobri a razão. Uma revoada de abutres já dominava aquele lugar, tendo espantado os corvos ao mesmo tempo que rodeava o Sultanato com olhos cobiçosos. Assaltantes de caravanas, contrabandistas e matadores grosseiros, que durante décadas controlaram os nômades da região pelo medo, agora se espalhavam pelas ruas da cidade como moscas em um cadáver, transformando Gehenn em um lugar onde a vida e a morte tinham seu valor pesado em ouro.

Aquela era a cidade condenada que agora deixo para trás, abandonada não apenas por mim, mas também pelas areias do tempo.

Enquanto bandidos da pior espécie mantinham o controle do mercado e das ruas, o sultão nada fazia. Tendo seu título comprado e não merecido, ele passou seus últimos dias trancado em seu palácio com seu harém e sua guarda pessoal, que nada mais eram do que aqueles que haviam covardemente vendido sua lealdade em troca da proteção das muralhas.

Percebendo que minhas penas manchadas de sangue atrairiam a atenção dos abutres, tentei ser visto como apenas um andarilho em Gehenn, me misturando a pastores e mendigos. Meu disfarce não durou muito, e pouco depois de descobrir que os portões do palácio estavam trancados para mim, fui reconhecido como forasteiro e capturado bem diante dos olhos do sultão, que nada fez por um enviado de sua terra. Correntes me foram postas, e fui levado como escravo para as sombrias tendas do mercado.

Ao me revistarem e encontrarem minhas garras, os olhares desconfiados dos abutres faiscaram em minha direção, mas os convenci de que se fosse minha intenção cravá-las em seus corpos imundos, o teria feito no momento da minha captura. Foi pela Fortuna dos Assassinos que os bárbaros do deserto não reconheceram minhas marcas, o que denunciaria minha missão e faria com que ela escorresse pela areia junto a meu sangue.

Demonstrei aos mercadores da cidade minhas habilidades com a cimitarra, tentando atrair a atenção do sultão para a proteção que poderia lhe oferecer, o que me garantiria entrada no palácio. Ao invés disso, fui comprado por um pequeno homem de saúde frágil, que usava uma máscara com óculos de couro e um filtro de metal para respirar na poeira. Ele pretendia me usar como gladiador, para fazer dinheiro na arena que havia naquele lugar.

O pequeno homem, que vivia não só das apostas mas também de seus serviços como ferreiro, possuía um outro escravo, um sujeito silencioso que andava com o corpo inteiro coberto por um manto púrpura e carregava uma arma estranha, a qual eu nunca havia visto antes. Era uma espécie de bastão de madeira, com as pontas terminadas em argolas de metal afiadas. Ele se movia de maneira nervosa, e as vezes parecia haver um leve zumbido vindo de seu corpo. Não demorou para que eu descobrisse o porquê.

Aquele gladiador, de nome Dahaka, pertencia a um povo inseto que durante séculos viveu sob a Aridez Sombria. Ele havia aprendido minha língua com o ferreiro, embora falasse em um dos sotaques mais estranhos que já ouvi. Vendo que muitas vezes ele se mostrava confuso com os costumes da superfície, eu o ajudei a compreender coisas comuns que o intrigavam ou atrapalhavam. Após algum tempo nos tornamos também bons companheiros de batalha, e longas eram as nossas conversas entre as lutas na arena.

Enquanto eu o ajudava a entender o mundo dos humanos, ele também me contava sobre sua espécie e sobre o lugar onde vivia. Ele dizia que o tamanho de Gehenn mal podia ser comparado ao do lugar onde nasceu. Porém, suas noções de medida e arquitetura eram muito diferentes das minhas, e ele descrevia sua terra natal como uma rede de túneis, estendidos de forma parecida com uma colmeia pelo subterrâneo. Não duvido que ela possa ser maior do que muitas cidades humanas.

O mesmo digo sobre quantos de sua raça lá vivem, pois a maneira como ele parecia realizar contagens era ainda mais incompreensível. Às vezes, quando observo as dunas no horizonte, imagino um enxame infinito de homens-inseto, se movendo abaixo da areia em uma espécie de consciência coletiva que Dahaka tentou explicar, embora não houvesse palavras em nosso idioma para descrevê-la.

Minha jornada como gladiador durou por alguns anos tortuosos. Como um espectro formado pela poeira sufocante do lugar, a cobiça daquele povo miserável colhia as almas dos perdedores com uma mão enquanto com a outra entregava o ouro aos apostadores.

Eu não pretendia continuar por muito tempo naquela vida, pois tinha um destino a cumprir, e o mesmo pensava Dahaka. Naquele tempo, eu não sabia que o fardo que guiara meu estranho porém leal companheiro até a superfície era mais terrível do que eu poderia conceber.

Então veio o dia em que um homem do leste chegou á cidade condenada. Ele havia sido um assassino, mas agora vagava pelo mundo, pois havia se decepcionado com a humanidade. Um dia, quando retornei para as tendas ao anoitecer, o vi conversando com Dahaka. Ele parecia muito interessado em algo que meu camarada falava sobre as antigas tradições de seu povo-inseto.

No dia seguinte, meu companheiro de batalha foi comprado pelo homem do leste para servi-lo como guarda-costas. Dessa forma nossas estradas se separaram, e senti que havia chegado a hora de deixar a arena e terminar meu dever.

Khaldur sexta-feira, jan 6 2012 

Khaldur, a Cidadela Infernal, surge em meio á fumaça dos vulcões da Baía das Ondas de Fogo como uma gigantesca máquina de ferro negro, coroada por uma profusão de chaminés e hélices e iluminada pelo céu em chamas. Construída por filhos bastardos da nobreza de Windlan, ela é uma cidade-fortaleza jovem e rica, que administra o litoral de Al-Gober com eficiência. Longe da aridez do deserto, Khaldur fervilha com tecnologia insólita e combina alguns dos aspectos mais sórdidos de diferentes lugares do mundo.

Atualmente, Khaldur é a única cidade litorânea na parte oeste de Artabana. Mas, devido aos acordos comerciais estabelecidos por seus administradores, apenas Windlan e os Piratas de Iblis utilizam suas rotas.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

O Mercado dos Escorpiões

No sombrio souk de Khaldur perambulam sinistras figuras ocultas por turbantes e véus, que parecem surgir da própria poeira entre os labirintos de barracas, oferecendo tudo aquilo que se possa imaginar. Os Nômades Azuis vêm e vão durante o ano inteiro em suas caravanas de dromedários, trazendo bordados, peles e especiarias em cestos de palha. Casas de aposta e bordéis se espalham pelas ruas escaldantes, onde as prateleiras rebuscadas das lojas exibem armas pitorescas e animais exóticos. No mercado sem restrições da Cidadela Infernal, o comércio mais procurado é justamente o mais proibido. Drogas, venenos e escravos são vendidos abertamente, fazendo do lugar um paraíso do mercado negro. As únicas transações controladas são as de procedência mágica, onde muitas vezes os clientes têm de responder ao próprio Lorde Fatin para fechar negócio.

A Grande Arena

O ressoar dos tambores preenche a Grande Arena de Khaldur, o maior palco de jogos sangrentos em toda Keleb. Senhores ambiciosos trazem escravos das regiões mais distantes do mundo para competir nos torneios de luta e nas violentas corridas de camelo. O próprio Lorde Fatin financia os jogos, atraindo desde príncipes mercadores do oriente até magnatas de Windlan. Situada no perímetro externo da cidade, a Arena foi construída aos pés de uma das montanhas que cercam Khaldur. De aspecto grandioso e arcaico, o estádio de pedra é decorado com camarotes que lembram pequenos oásis particulares. Mercenários nômades, homens abutre, soldados lagarto e gigantes do fogo são apenas alguns dos lutadores “residentes”. A única lei da Arena é trazer o máximo de entretenimento aos seus convidados, e Fatin mantém esse compromisso trazendo novas modalidades e desafios a cada ano, como feras capturadas no deserto e mortos-vivos nascidos de rituais sombrios. Enquanto os preparativos para os próximos jogos continuam, um clima de tensão pode ser percebido nos bastidores, com a desconfiança de que uma esperta lutadora de Iroko estaria planejando uma rebelião de escravos.

O Porto da Ferrugem

O Porto de Khaldur consiste em um amontoado confuso de passarelas de metal enferrujado, ancoradouros feitos com troncos de palmeira e paliçadas de junco, iluminado por fileiras de archotes. Ponto de comércio para Windlan e Iblis, ele é mantido em ordem por  “lançadores de óleo”, criados para incinerar qualquer navio que ouse desafiar a autoridade da cidade. Além disso, os Caveiras Caolhas e os Piratas de Iblis  são mantidos em áreas diferentes, evitando confusões desnecessárias. A área dos Corsários de Windlan se parece com um grande e exótico pub ao ar livre, com marinheiros encharcados de rum espalhados pelas áreas de desembarque e pelos conveses de suas fragatas de velas negras enquanto aguardam novas ordens. Já a zona de Iblis é mais organizada e hostil, com armazéns improvisados exibindo escravos em jaulas, guardados por capatazes bem armados. Lorde Fatin permitiu até mesmo a construção de um pequeno Santuário de Baal em um ponto isolado da costa, que ultimamente vem sendo alvo de rumores sobre rituais sombrios ocorrendo na calada da noite.

O Palácio de Wazir

Também conhecida como Palácio da Máquina Infernal e Palácio das Mil Chaves, esta grande estrutura retangular vermelha de pedra e metal no centro de Khaldur é administrada pelo Grão-Mestre Wazir, irmão de Lorde Fatin e junto a ele senhor de toda a cidade. Cercado por grotescas fábricas de ferro negro, o palácio é protegido por imensos sentinelas de metal movidos a engrenagens. Os próprios salões e minaretes da construção são repletos de mecanismos, fazendo com que o Palácio de Wazir se pareça com um grande organismo em constante manutenção. Em seus andares inferiores existe uma poderosa fundição, que está conectada a uma rede de tubulações subterrâneas e corredores de máquinas que percorre toda Khaldur. Essas galerias são patrulhadas fortemente por grupos especiais de soldados, e abrigam toda sorte de guardião artificial criada por Wazir.