Introdução – Aratta sexta-feira, jul 22 2011 

Os cabelos de ébano descendo em caracóis pelas costas nuas. O perfume inebriante de uma flor selvagem, deslizando pelo ar como uma serpente. Os olhos de uma fera exótica, rara, brilhando no quarto esfumaçado como jóias no fundo do oceano.

Somente para ele.

As histórias sobre as fantásticas riquezas de Aratta eram reais. Era isso que Duncan Sharpwind, Comissário da Expedição Winterwolf de Windlan, pensava enquanto admirava aquela mulher, ansiosa para satisfazer seus desejos. As palavras empolgadas de um mercador nativo o haviam guiado até a luxuosa casa noturna, com suas colunas de mármore de frente para o mar, em uma das ruas mais abastadas do Bazar. Aquela cidade fabulosa não parecia poder existir de verdade. Em nenhum outro lugar do mundo um estrangeiro seria tratado com tanta hospitalidade e gentileza. Desde que ele chegara, havia recebido uma cordialidade calorosa, tão diferente da frieza mecânica a que estava acostumado em Ravenest. E ainda havia mais além disso. Aratta entregava seus tesouros mais preciosos como quem atira comida aos porcos. Bastava ser um estrangeiro para receber honras dignas de um monarca, e não havia um dia sequer em que ele não fosse convidado a partilhar de uma mesa farta, ou da animação de um salão imerso em música. E agora lá estava ela, a mais linda escrava de Madame Jawharah, reservada apenas aos clientes mais afortunados.

Os braços esguios aprisionando o desejo em correntes sutis. O quadril recoberto de jóias, se movendo em um oscilar diabólico. Os lábios ocultos por um véu de seda, sussurrando feitiços sem palavras.

Somente para ele.

Não eram poucos os motivos que tornavam Mahasti tão especial. Ela era um elfa de porte nobre, nascida nas florestas de Bergard e capturada ainda jovem pelos Piratas de Wulfgar, passando então para as mãos da Esquadra Delfim de Aurin e finalmente servindo ao Sultão de Jezirat. Seu nome verdadeiro havia sido esquecido e não importava a mais ninguém. A beleza nórdica de seu povo havia se mesclado aos costumes da Tribo de Sharyar em uma exótica e sedutora combinação. Sua pele havia sido escurecida pelo sol, mas ela preservava os traços angulados e os olhos feéricos, dourados como topázios. Ela havia sido treinada nas artes de sedução dos haréns de Aratta, e Madame Jawharah enfatizara que era também uma mulher culta, fluente em várias línguas. Seu corpo vestido em um pequeno traje de odalisca revelava estranhas tatuagens. Algumas eram inscrições na língua nativa de Al-Dasht, outras se pareciam com estigmas de magia. Mas para Duncan só o que importava agora era sentir cada centímetro da pele macia da elfa, se livrando das peças de roupa que os recobriam enquanto ela o enlaçava com as pernas, retirando o véu e sorvendo sua boca em um beijo ardente.

O suor traçando linhas efêmeras nas curvas do corpo ofegante. A silhueta extasiada de uma deusa, se contorcendo na luz do fogo filtrada pelas cortinas. O sangue escurecido pelo veneno, escorrendo da adaga fincada em seu coração.

Somente para ele.

Mahasti deixou que o corpo inerte do oficial caísse sobre a cama, removendo delicadamente a lâmina curva. Duncan morreu sem perceber o golpe do estreito gume que atravessou seu peito, inebriado pelo prazer e anestesiado pela toxina paralisante. Morreu sem perceber que Mahasti trazia no corpo a marca do pacto feito no Fosso das Serpentes, um dos rituais de passagem mais perigosos da Ordem dos Hassassin. Morreu sem perceber que em Aratta a hospitalidade não é sinal de amizade, e sim do haaruf, o código ancestral da Tribo de Sharyar usado para dissimular as reais intenções através da educação e bom tratamento. Morreu sem saber que nenhum elfo aceitava a escravidão, e que a dama a quem dera seu último suspiro havia se libertado de seus grilhões ainda em Aurin, após ter sido salva pela Esquadra Delfim.

E morreu sem perceber que Jezirat jamais deixaria ao alcance das mãos cobiçosas de Windlan o tesouro tão precioso que era a sua liberdade.

Criaturas de Jezirat quinta-feira, jul 14 2011 

Simurg

Sabem que o nome de seu rei significa “trinta pássaros”; sabem que seu palácio fica no Kaf, a montanha ou cordilheira circular que rodeia o mundo.

(Jorge Luis Borges – O Livro dos Seres Imaginários)

Todas as florestas ancestrais que possuem uma parte do poder da Árvore do Mundo contam com espíritos sábios e nobres para protegê-las. Assim também é com as selvas tropicas da Ilha Espiral do Céu, rodeadas por palmeiras e perfumadas de jasmim. O Simurg tem a forma de um enorme e portentoso pássaro, de penas escuras como a noite e olhos que brilham como estrelas. Suas asas poderosas possuem faixas de penas em tons laranjas, esmeraldas e azuis. Sua cauda é formada por três longas plumas de pavão, maiores do que seu próprio corpo. Simurgs são capazes de viver naturalmente mil e setecentos anos. Ao fim dessa longa vida, eles vão de encontro ao Rei Simurg, o Rei dos Trinta Pássaros, desaparecendo como sombras diante do sol. As sementes de uma árvore onde um Simurg faz seu ninho são capazes de curar doenças e maldições, assim como o bater de suas asas é capaz de curar ferimentos.

Radayosh

Sobre o touro Hadhayosh, a quem eles chamam Sarsaok, é dito, que na criação original os homens passaram de região em região sobre ele, e que na renovação do universo os homens prepararam Hush (a bebida que produz imortalidade) a partir dele.

(Texto Zoroastrista)

No centro da Ilha Espiral do Céu, na montanha que segue em inúmeras voltas até a Torre da Arca, vive uma raça antiga de touros sagrados. Estudiosos das artes místicas afirmam que os Radayosh são descendentes de Kujata, o lendário Touro dos Aeons que carrega nas costas a rocha que sustenta o mundo. De pelagem inteiramente branca, eles se assemelham a um iaque. Seus chifres são longos e espiralados, e assim como os cascos possuem uma coloração dourada e fosca. Um homem que suba nas costas de um Radayosh é capaz de chegar em segurança até a Torre da Arca, mas para isso ele deverá passar por uma jornada espiritual nas sete últimas voltas ou cairá nas trevas. O leite de uma fêmea Radayosh possui propriedades curativas, e o antigo alquimista Zuleiman o listou como um dos ingredientes para o Elixir da Vida.

Jasconius

No navio, perceberam o estremecimento da ilha e gritaram para reembarcarmos depressa, ou iríamos todos morrer. O que parecia ser uma ilha era o dorso de uma baleia.

(Mil e Uma Noites – Primeira Viagem de Simbad, o Marujo)

Muitas criaturas extraordinárias vivem nos mares que circundam as Ilhas de Jezirat, algumas tão absurdas que parecem apenas invenções da mente de marinheiros afetados pela longa exposição ao sol. Em uma terra tocada pela magia dos gênios da água, é tênue a linha do impossível com relação aos seres que podem habitar o oceano. As Jasconius quebram ainda mais os limites da razão, vagando não apenas pelas profundezas do mar como também pela imensidão do céu noturno. Essas gigantescas “baleias-ilha” podem passar semanas flutuando em águas calmas, em um estado semi-letárgico, usando aromas especiais de sua boca como isca para atrair cardumes inteiros de peixes que são devorados sem esforço. Durante esse tempo, algas, corais, areia trazida pelo vento, animais aquáticos e até mesmo plantas se acumulam em suas costas expostas, fazendo com que ela possa ser facilmente confundida como uma ilha por navegantes incautos. Mais de um marinheiro azarado já sucumbiu ao acender uma fogueira nas costas de uma Jasconius e despertar a criatura, sendo tragado para o fundo do mar com a força do mergulho. Apesar do perigo, elas são seres pacíficos e pacatos quando são deixadas em paz. E são nas noites de céu claro que seu poder mais fantástico é revelado, quando elas lentamente emergem do oceano e voam lentamente pelo céu, mergulhando nas nuvens e circundando a Torre da Arca em uma sincronizada e misteriosa dança.