Além do Oceano de Éter – Parte 1 sexta-feira, jun 8 2012 

I wandered home though the silent streets
And fell into a fitful sleep
Escape to realms beyond the night
Dream can’t you show me the light?

(Rush – 2112)

Um cabelo-de-anjo roça em meu rosto quando volto meu olhar em direção ao horizonte. Vejo mais uma coluna de radiação cósmica cortar o céu como um relâmpago, iluminando o céu rubro e lançando um tremor sob os meus pés.

Já estive nos palácios encantados de monarcas esquecidos, em ruínas ciclópicas de cidadelas perdidas e em templos profanos dedicados a entidades abissais. Mas nunca estive em um lugar tão peculiar quanto esse.

Para um experiente estudioso do arcano, é difícil se espantar com alguma coisa. Mas confesso que sinto uma ansiedade crescente enquanto caminho através deste deserto abandonado pelo tempo, onde um poder esquecido deixou  geoglifos gravados na terra como letras meio apagadas de um pergaminho perdido.

É uma pena não poder dizer o mesmo da pequena expedição que me acompanha, escolhida entre alguns dos estudantes de destaque do Instituto Marque de Sauge. É notável como ignoram o valor das descobertas que estamos fazendo, reclamando o tempo inteiro do cansaço e do calor. Apesar de suas conquistas acadêmicas, lhes falta o conhecimento de campo e o respeito pela arte. São crianças irresponsáveis, que gastam suas energias de forma banal e fútil. Me envergonho do balé pirotécnico de suas conjurações, tão distantes da essência sutil e prática da magia. Se entendessem a importância de se saber onde está pisando antes de agir como imbecis piromaníacos, poderiam ter evitado o infeliz incidente nas ruínas que exploramos pela manhã.

Tudo por conta de dois garotos arrogantes que tiveram a ideia imbecil de atacar uma massa amorfa protoplasmática, uma espécie de limo alquímico que se alimentava de magia e os engoliu sem demora. Eles estavam cientes desse tipo de perigo, mas a militarização da Academia e a presença crescente da burguesia em nossas cadeiras cria essa falsa ilusão de onipotência. Não é sempre que o despreparo se mostra fatal, mas isso servirá de exemplo aos demais que as coisas funcionam de forma diferente longe de casa. Agora temos coisas mais importantes para nos preocupar, pois estamos nos aproximando de uma pequena estação de pesquisa que ao que tudo indica pertence à Ordem da Meia-Noite.

Quem diria que chegariam antes de nós desta vez? Parece que o Círculo dos Adivinhos estava certo ao afirmar que eles são mais do que um incômodo. Todavia, devo acrescentar que o fato deles tem interesse neste deserto isolado do mundo é apenas mais uma peça a se encaixar no quebra-cabeça que tento resolver. E tenho a impressão de que lá dentro podem estar outras.

Esperamos até o final da tarde, quando um zepelim parte levando boa parte das tropas alojadas para algum lugar ao Leste. Invadimos o lugar assim que encontro seu ponto vulnerável, não dando chance de reação aos steamtroopers restantes. Enquanto as crianças se divertem um pouco, usando seus feitiços de ataque contra os soldados, vasculho as salas estreitas em busca de alguma pista do que a Ordem estava aprontando ali. Entre grossos livros de registro e aparelhos de medição magnética encontro menções a experimentos guardados nos andares inferiores, como sempre identificados apenas por números. Plantas de ruínas como a que exploramos ocupam as paredes do escritório da estação, onde encontro mais informações a respeito do que se esconde no laboratório mais afastado. Eles parecem estar de posse de algo extraordinário, mas felizmente ainda são incapazes de compreender o que representa a Estrada do Céu, onde pode estar as prova de minhas teses mais ousadas.

Chakana terça-feira, jun 5 2012 

Nas Montanhas do Mar de Bruma a cidade de Chakana parece flutuar junto aos balões e dirigíveis que a sobrevoam calmamente.  Construída e regida pelo Povo do Sol, ela se situa em meio a um imenso lago montanhoso de águas azuis. De todas as grandes cidades de Keleb, esta é a localizada em maior altitude, e portanto seu acesso se dá apenas através de aeronaves ou longas e sinuosas trilhas nas encostas.

Além de ser a capital da nação de Huakan e do Povo do Sol, Chakana é um dos mais importantes Portos Aéreos utilizados por Windlan, fornecendo suprimentos para os Aeróstatas que passam pela região.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

Mercado das Lhamas

Nas ruas frias e enevoadas de Chakana, as barracas do Mercado das Lhamas contrastam com suas cores vivas e chamativas. Embalados pelo som das flautas de madeira, mercadores de toda a região oferecem tapeçarias de lã, frutas e artesanato em argila. Forasteiros são identificados facilmente em meio à multidão, a não ser que se adaptem aos trajes nativos, com seus ponchos e gorros coloridos ou chapéis de palha. Rebanhos de lhamas, alpacas e ovelhas descansam tranquilamente nas avenidas de pedra, vigiados atentamente por seus pastores. Nas barracas de comida, é possível encontrar de batatas e grãos a pratos mais exóticos, como ceviche, que nada mais é do que peixe cru marinado em suco de limão. Discretos em meio à vívida aquarela, o ouro e a prata de Huakan refulgem nas tigelas de mineiros cobertos de fuligem, transformados através de suas mãos talentosas em finas peças de joalheria.

Porto Skyfire

O refúgio dos Aeróstatas foi construído em uma das encostas que cercam Chakana, com sua entrada voltada para o grande lago azul que rodeia a cidade. Com o formato de um pequeno castelo, ele serve de base e ancoradouro para as aeronaves de Windlan que sobrevoam a região. Seu interior é ocupado principalmente por postes de amarração e depósitos, fazendo do lugar uma confusão de vigas de madeira, caixas e veículos em manutenção. Na parte superior existe uma área de convívio onde os aviadores trocam informações, jogam cartas e planejam suas próximas viagens. Até mesmo um pequeno café windlês e uma barraca de comida oriental podem ser encontrados no recinto, que também é ponto de encontro para aqueles que queiram contratar o serviço dos Aeróstatas para realizar alguma viagem ou entrega.

A Vigília dos Sonhos

Na encosta oposta ao Porto Skyfire está a Vigília dos Sonhos, um conjunto de prédios de arquitetura windlesa ligados ao Instituto Wolfsbane. O exterior tranquilo, com suas flores vermelhas e estátuas que muito lembram uma casa de campo em Windlan, serve de fachada para os corredores fantasmagóricos de seu interior. Dentre os edifícios, o mais antigo é o Observatório, criado para estudar os estranhos fenômenos meteorológicos que ocorrem no céu de Chakana. A evolução das pesquisas foi despertando o interesse em outros mistérios de Huakan, dando origem a um Centro de Estudos Arcanos que abriga desde vestígios arqueológicos até pessoas alteradas pela exposição às tempestades etéreas. Estes últimos ficam confinados no Asilo, um edifício sinistro, cercado por rumores de assombrações, onde as paredes são recobertas de quadros representando os pesadelos insanos dos internos. Muitos dos experimentos realizados atualmente na Vigília são mantidos em segredo pelo Instituto Wolfsbane, aumentando ainda mais a preocupação daqueles que podem apenas imaginar quais os propósitos dos magos cientistas de Windlan.

O Templo Dourado

No centro de Chakana está o símbolo do apogeu do Povo do Sol: o glorioso Templo Dourado. Todo revestido pelo metal precioso que lhe dá nome, o edifício assoma imponente no topo de uma base em forma de zigurate, com cada degrau protegido por uma grande muralha. O local é regido pelo Filho do Sol, um sacerdote-governante de grandes poderes, ligados ao Aeon conhecido como Inti. Além de dominar com maestria os dons de sua linhagem sagrada, o monarca conta com a proteção de uma valente guarda real, armada com lanças encantadas e grandes escudos em forma de losango. Para os assuntos relativos à nação, o Filho do Sol conta com a ajuda do Conselho dos Condores, um grupo de sábios que representa as famílias e vilarejos de Huakan. Lar de grandes riquezas e uma tradição mística milenar, o Templo Dourado desperta os mais profundos sentimentos de admiração e cobiça nos estrangeiros que recebem a honra de visitá-lo, ainda que a mínima transgressão em seu espaço sagrado possa significar uma severa punição.