BREVE RELATO VERÍDICO DOS MODOS E COSTUMES DOS POVOS DE ARARAUMA, com quem convivi durante minhas expedições pela selva.  Eles vivem no Novo Mundo a oeste do mar, na extensão de terra que percorre da foz dos Dezesseis Rios ao norte até os arredores da antiga Blackport ao sul, hoje tomada pelos aurineses.

Eu, James Cavendish Bloodbark, deixei Ravenest em 9 de Ostara de 1695 com a tarefa de fazer um reconhecimento das terras do Novo Mundo em favor e honra de Sua Majestade. Partimos em uma esquadra que pretendia se abastecer de frutas e especiarias nos territórios ainda não controlados por Aurin. Quando desembarcamos no Forte-Colônia  de Anchor’s Point, que era nosso destino, deixei a companhia de meus semelhantes e adentrei a mata para começar minha expedição. Nos três anos que se seguiram, entrei em contato com diversas tribos dessa terra febril, com quem fiz negócio e testemunhei estranhos hábitos.

Sobre os Ayapoan

Os Ayapoan são o povo mais numeroso do litoral de Ararauma. Eles são guerreiros fortes e astutos, que vivem em conflito entre si ou com tribos menores. Quando capturam um inimigo, o comem após um ritual de preparo que dura vários dias. Apesar de seus costumes canibais, os Ayapoans são amistosos com estrangeiros, desde que estejam dispostos a fazer negócio. Muitas tribos são aliadas da Coroa, e inclusive aceitam prisioneiros aurineses como pagamento por seus serviços. Além de mercenários eficientes, os Ayapoan nos fornecem madeiras e especiarias que cultivam em seus territórios. Na guerra, utilizam tacapes enfeitiçados e flechas de fogo. Seus pajés também lhes ensinaram a queimar arbustos de pimenta, usando a fumaça ardida como arma para afugentar e dispersar seus inimigos. Este e outros truques são atribuídos aos Curupiras, de quem muitos Ayapoan alegam serem descendentes. Por essa ligação, valorizam caninos pronunciados e gostam de pintar o corpo com cores vivas, especialmente vermelho. Também adotam como animais sagrados o queixada e o tigre dentes-de-sabre, e possuir uma presa desses animais é considerado grande honra. Curiosamente, os Ayapoan possuem um pavor absurdo de cães, evitando contato sempre que possível e se enchendo de superstições ao cruzarem com um simples rabujo nas terras colonizadas.

Sobre os Aroui

Os Aroui vivem mais distantes do litoral, e acredito que suas terras se estendam a oeste pelos Dezesseis Rios. Dentre todas as tribos, são as que mais parecem ter se aproximado de algum tipo de civilização. Suas aldeias são organizadas e a liderança política e espiritual cai sobre um único indivíduo, que pode ser um homem ou uma mulher. Apesar de fabricar lanças elaboradas e arcos de cinco pés, os Aroui são um povo pacífico, que se dedica a comungar com a natureza e ensinar aos mais jovens suas tradições. Durante o tempo em que estive com eles muito aprendi sobre as plantas e animais da selva. Além de grandes curandeiros, são também talentosos nos trabalhos com argila e tecido. Muito religiosos, veneram a Mãe d’Água e outros espíritos locais. Muitas das lendas de Ararauma fazem parte de sua cultura, manifestadas na forma de objetos e padrões mágicos. Como vivem nas margens dos rios e lagos, são também muito próximos dos botos e das sereias de rio. As moças Aroui gostam de imitar essas últimas, passando grande parte do tempo livre na beira da água, trançando os cabelos. Por algum tempo me questionei como um povo tão pacato e altruísta conseguiu prosperar entre canibais selvagens, até que descobri a resposta. As toxinas que extraem das rãs nos lagos turvos de seu território são mortais na dose certa, a ponto de até os Ayapoans temerem suas flechas envenenadas. Os Aroui costumam dizer que contra sapos não há argumentos.

 Sobre os Orube

Os Orube vivem mais ao sul, nas terras próximas de Porto Negro. São indígenas importunos e barulhentos, que riem mesmo quando estão em guerra. Muitos são amigos dos aurineses, com quem negociam redes de dormir, madeiras, aves tropicais e até mesmo mulheres. Usam em guerra a borduna, arma que combina um porrete com uma espada rudimentar. Apesar de terem muito contato com os colonos, possuem um péssimo comportamento e não gostam de seguir ordens. Lembro-me que trouxeram muito prejuízo para a Coroa durante o período em que Windlan dominava suas terras, por sempre arrumarem uma maneira de fugir do serviço ou pregar peças em seus patrões. Além de trapaceiros e preguiçosos, são também esquivos, desaparecendo com agilidade na mata quando bem entendem. Parte dessa habilidade é desenvolvida na infância, quando passam muito tempo trepando nos galhos na companhia de macacos e preguiças, que muitos mantém como animais de estimação. Algumas tribos mais isoladas que visitei constroem suas cabanas no topo de árvores elevadas, sem qualquer preocupação com o perigo de uma queda. Lá no alto, convivem com Monais, Mapinguaris e aves gigantes. Os Orube fumam e bebem em demasia, e usam apenas o mínimo de vestimenta necessário, geralmente feita com penas. Não é de se espantar que sejam a tribo que mais se miscigene com os libertinos aurineses.

Sobre os Apepuera

Os Apepuera estão espalhados por todo o litoral, erguendo suas aldeias de palha de palmeira em praias inacessíveis e mangues fechados. São um povo desconfiado e arisco que evita contato com os colonos e outras tribos, quiçá por serem muito vulneráveis a doenças. Apenas com muita dificuldade foi que encontrei algumas de suas modestas habitações. Apesar de viverem escondidos, são amistosos com náufragos e exploradores que não tragam nenhuma moléstia visível. Passam a maior parte do tempo no mar e nos estuários retirando caranguejos e ostras, seus principais alimentos. Os Apepuera são exímios nadadores, e alguns parecem desaparecer nas águas ao perceberem uma presença indesejada. Seus arpões e flechas são feitos com ossos de mamíferos marinhos e dentes de tubarão. Eles retiram esses materiais apenas de animais que encalham nas águas rasas, demonstrando certo respeito pelas criaturas do oceano. Parte disso vem de sua afinidade com sereias, botos de água salgada e algumas tribos da Corte Escamada, que lhes ajudam a expulsar ocasionais cardumes de Ipupiaras ou Diabos do Mar. Os Apepuera se ornam com conchas, sementes e adereços de palha. Suas tatuagens feitas com espinha de peixe exibem padrões de cascos de tartaruga, animal com quem parecem ter estreita ligação. Um fato curioso de seus costumes é que suas mulheres nunca falam, se comunicando apenas por gestos. Isso parece ter algo a ver com suas práticas mágicas, que estão ligadas a um aspecto salobro da Mãe d’Água.

Sobre os Boiuna

Ninguém sabe ao certo quantas aldeias dos Boiuna existem nos recantos escuros da mata. Esses selvagens agourentos são um povo de canibais e feiticeiros, que assombra os outros nativos com suas práticas profanas. Pelas mãos deles perdi Pinon, meu servo Ayapoan, e passei seis meses fugindo pela selva com uma das tribos em meu rastro. Apesar desse incidente, continuei a tentar observá-los com mais cautela, e descobri mais do que banquetes antropófagos e pajelanças sombrias. Os Boiuna são extremamente hostis e atacam qualquer um que adentre suas terras, seja nativo, windlês ou aurinês. Capturam seus prisioneiros sempre durante a noite, usando redes de cipós ou bloqueando trilhas com touceiras de espinhos. Também usam zarabatanas e flechas de urtiga. Seus pajés auxiliam na caçada, usando suas bruxarias para confundir e atrasar os fugitivos. Os Boiuna são devotos de Anhangá, uma entidade da morte, e atribuem a ele os poderes mágicos de seus guias espirituais, a quem chamam Maauia. Como tal, são adeptos de uma necromancia primitiva, que parece ser a fonte de muitas das histórias de assombração contadas por indígenas e colonos antigos. Jaguarás, Cumacangas, Fogos-Fátuos, estão todos relacionados de alguma forma com as artes negras desse povo. Os próprios sentinelas de suas fronteiras se parecem com espíritos de mau presságio, usando máscaras de barro assimétricas e mantos de palha que cobrem o corpo inteiro. Morcegos e grandes serpentes sempre os acompanham, assim como corujas e pássaros de canto triste. Alguns dos poucos a escaparem dos territórios Boiuna me contaram histórias surpreendentes sobre como as aldeias negociam entre si usando olhos, dentes e dedos de seus cativos, e sobre como alguns deles são mantidos vivos enquanto devorados, até se tornarem crânios falantes que são guardados em jarros com mandioca fermentada.

Sobre a Corte Escamada

Os elfos do mar da Corte Escamada vivem em arquipélagos rochosos e cidades submersas próximas ao norte de Ararauma, na região conhecida como Reino Turquesa. São um povo antigo e recluso, dividido por guerras internas entre suas Três Grandes Ilhas. A maioria vive em aldeias pequenas, comandadas por um cacique, sendo que as funções religiosas são sempre exercidas por mulheres. Apesar de possuírem muitas superstições e costumes primitivos, expressam de maneira única a herança da magia élfica em seus artefatos e rituais. Recentemente, um incidente que testemunhei envolvendo uma sacerdotisa e uma bruxa do mar mostrou que estão dispostos a buscar mais poder, e que possuem interesse visível nas antigas ruínas dos nheengaíba no litoral. É preciso um cuidado particular ao lidar com esse povo traiçoeiro, mesmo que alguns pareçam dispostos a estabelecer relações diplomáticas com os colonos. A figura central do panteão da Corte Escamada, Rudah, é uma entidade cheia de caprichos relacionada ao clima e ao amor, o que obviamente atrai a atenção dos depravados aurineses. Os elfos do mar que vivem entre os colonos inimigos trocam seus simples trajes de algas, escamas, conchas e coral por roupas de tecido, preferindo as mais soltas de cor branca ou verde. É fácil descobrir se um navio avistado possui um deles a bordo, já que são frequentemente seguidos por cardumes de golfinhos, tubarões ou arraias. Dizem que os mais nobres entre eles possuem até mesmo dragões marinhos e krakens como aliados, o que me obriga a dizer mais uma vez que são gente perigosa e indigna de confiança.

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