Arquivo de Acesso Restrito

Registro de Artefatos da Coleção Particular de Malachias Phillip Whiteroad

Edifício Sede da Real Sociedade Esmeralda, Avenida Ward 571, Port Jane Guy

Ano 1698 de Sua Majestade

Objeto 0067

Poliedro decagonal de material desconhecido, encontrado na cavidade ocular de um cadáver reanimado, abatido por um policial em um depósito de cerveja nas Docas da Luz Derradeira, 254. Possui superfície negra e lustrosa, semelhante ao ônix. Guarda muita semelhança com gemas de composição parecida usadas em rituais de necromancia, mas possui uma lapidação perfeita e mantém sua vibração energética mesmo após ter se desligado do corpo hospedeiro. Datações alquímicas são confusas, mas apontam a origem do artefato em mil anos ou mais.

“Aquele porão era imundo e estava impregnado com o cheiro de decomposição. Baratas de todos os tamanhos imagináveis caminhavam sobre o reboco solto, se escancarando em um sorriso grotesco de madeira podre. Eu ouvi a coisa rastejando antes mesmo de enxergá-la na luz amarelada das lanternas a óleo. Era como estar sozinho em um túmulo trancado, cada passo arrastado me dando a certeza de estar diante de algo morto e proibido. Quando a empregada surgiu na escadaria, o uniforme negro era o único vestígio de identidade que havia restado. O resto estava desfigurado de uma forma tão indescritível que aquela estátua hedionda sobre o altar parecia se deleitar com meu horror, esboçando um olhar zombeteiro em sua face coberta de tentáculos”

Objeto 0068

Grimório do necromante Mordecai Lamb, composto por um caderno com anotações, desenhos e recortes de antigos tomos colados com cera. Não possui qualquer organização ou divisão de assunto, tornando evidente a instabilidade mental de seu antigo dono. O conteúdo é formado principalmente por fórmulas mágicas e escritos religiosos. Muito do material é desconexo ou desprovido de sentido, mas alguns diagramas e inscrições são dignos de curiosidade. Referências ao Culto de Cthulhu são constantes, sugerindo uma obsessão pouco saudável por esta pseudo-religião de selvagens e dementes.

“Todas as noites ele fala comigo nos sonhos. Sua voz é profunda e melodiosa, vinda de algum lugar muito distante, além das estrelas que conhecemos. No início quase se pode flutuar em seu som, se deixando levar como em uma tragada do ópio mais refinado. Ele fala coisas bonitas e terríveis, profecias gravadas no cerne do universo quando a escuridão adormeceu, deixando que existências mais frágeis surgissem como chamas de velas na imensidão do cosmo. Ele fala de quando os pesadelos irão despertar e caminhar na luz do dia, quando então não haverá mais dia e nem luz. Você consegue imaginar a sinfonia de um mundo engolido por seus delírios mais perversos?”

Objeto 0071

Símbolo de proteção desenhado sobre um pedaço de madeira arrancada de mobília no asilo da Vigília dos Sonhos, em Chakana. Era usado por um dos internos da instituição, pendurado em seu pescoço com cadarços retirados de roupas. Não pertence a nenhuma tradição arcana conhecida, mas leituras mostram uma forte aura de cor azul celeste, descartando uma mera superstição. Seu proprietário foi encontrado morto em um dos corredores do asilo, com o corpo lacerado por ferimentos profundos, que de maneira peculiar não continham qualquer fluido vital. O colar improvisado lhe havia sido tomado na manhã do mesmo dia, por uma enfermeira desconfortável com sua fixação pelo objeto.

“…eles não vão me pegar dentes e olhos eles não vão me pegar tenho o símbolo antigo eles não vão me pegar através das paredes eles não vão me pegar escondidos nos cantos eles não vão me pegar bocas famintas eles não vão me pegar nas sombras do tempo eles não vão me pegar nos ângulos do espaço eles não vão me pegar corpos invertidos eles não vão me pegar por favor eles não vão me pegar…”

Objeto 0084

Máscara de pele humana utilizada pelo Círculo do Bode Negro, um culto indígena das selvas ao norte de Tekeli. É produzida a partir de cadáveres desenterrados em cemitérios de vilarejos locais. A gordura ainda fresca concede propriedades fosforecentes ao adereço. Não se sabe se possui uma aplicação prática ou se é mero fetiche ritualístico. Todos os membros do Círculo capturados por expedições enviadas à selva, como o xamã que trajava este item, apresentam um grau elevado de desequilíbrio psicológico, se recusando a dizer algo além de ameaças obscenas quando interrogados.

“Erga seus braços negros, senhora da entropia, e venha dançar junto de sua prole a canção fúnebre das estrelas! Nós lhe rogamos os mistérios da carne, lhe oferecendo essas donzelas maculadas para serem violadas nos galhos de sua floresta escura! Inspire-nos com sua infinita blasfêmia e conceda sua dádiva para que seus rebentos profanem o mundo em seus corpos deformados! Y’AI’NG’NGAH YOG-SOTHOTH! Mãe de Mil Filhos, Útero dos Horrores, Deusa das Abomanições! IA SHUB-NIGGURATH!”

Objeto 0103

Artefato crinoide de esteatita esverdeada encontrado nas proximidades de um planalto na Fronteira do Mundo. Seu formato de estrela de cinco pontas é comum em diversos achados arqueológicos na região. As inscrições pontilhadas em sua superfície pertencem ao idioma utilizado pela antiga civilização que habitava a área hoje coberta pela geleira. Os sobreviventes da expedição que recolheu o objeto afirmam terem encontrado evidências de que o planalto era um local de importância para os Seres Antigos. Eles também relatam ter feito contato com um crinoide  uma descoberta extraordinária com relação a uma espécie que se acreditava estar extinta há milhares de anos.

“Estávamos a sessenta e dois passos abaixo da superfície do planalto, que media cento e cinquenta metros a partir do solo. A temperatura do lado de fora era de cinquenta e sete graus negativos, mas não houve tempo para medi-la dentro da caverna. A criatura que avistamos tinha um metro e oitenta centímetros, com um diâmetro de um metro e sessenta e oito. Em menos de cinco segundos nos alcançou, e em vinte segundos havia estrangulado Fritz, nosso fotógrafo, com um tentáculo cartilaginoso e azul de quarenta centímetros. Nosso corajoso capitão Victor a atacou nos três segundos seguintes, e oito segundos depois eu estava preservando minha vida, fugindo pela encosta. Uma carga de três litros de óleo de baleia foi detonada sete segundos depois, soterrando Sir Milo, o capitão e a criatura no interior oco da rocha. Eu teria recomendado uma explosão controlada, mas as circunstâncias dificultavam um procedimento organizado.”

Objeto 107

Estatueta representando um dos Seres Antigos, forjada em metal estelar e possuindo um encaixe na parte inferior, aparentemente para a haste de alguma variedade de cajado. Possui uma leitura de energia pulsante, mas contida, provavelmente necessitando de algum código para ativação. Foi adquirida na loja de antiguidades do senhor Kardal, um distinto dastiano que se instalou a alguns meses em Dolltown . Segundo o mercador, a peça foi adquirida de barqueiros nômades do extremo oriente, o que pode apontar para a presença dos crinoides em outros lugares além de Tekeli.

“Scim, posso te garantir que é legítima, scenhor Whiteroad. Já foi um artefato de grande poder, mas agora só possui valor histórico. E não pensce que é coinscidência encontrá-la aqui, vinda de tão longe. Estou scempre atento a boas oportunidades de negóscio. Scei o que voscês estão procurando debaixo do gelo, e que esce tipo de mercadoria iria lhes interessar. Sce me pagarem bem, trarei outras relíquias interessantes de minha próxima viagem a Leng. Nunca ouviu falar de lá? Não me surpreende, scenhor Whiteroad. É muito distante de onde voscê vem. Bem, aqui está seu rescibo. É scempre um prazer negosciar com sua espéscie.”

Anúncios