Uma Narrativa dos Acontecimentos nas Ilhas de Jezirat, 1698, com considerações a respeito do naufrágio da fragata Shrapnel e do destino de seus tripulantes.

Em 1698, eu, Elijah Victarion Winterwolf, fui escalado como capitão da fragata Shrapnel, a serviço dos Arautos do Vapor e de Sua Majestade. Minha missão era guiar uma expedição até as Ilhas de Jezirat, realizando uma visita ao Sultão Behrouz na cidade de Aratta. Oficialmente, os motivos da visita eram de natureza comercial, com o propósito de estabelecer novas rotas e acordos com Al-Dasht. Não obstante, também partíamos em busca de um local onde pudesse ser estabelecido um porto regido pela Coroa, em uma das muitas ilhas desabitadas nas águas do Sultanato. Tal objetivo se tornava mais urgente depois que nossos superiores receberam a informação de que navios de Aurin exploravam as águas de Jezirat com o mesmo propósito. Por esse motivo a expedição acabou por ser organizada apressadamente, sem as devidas precauções que teria tomado se pudesse prever o que nos aguardava naquele pavoroso arquipélago.

12 de Setembro

Deixamos o Porto de Ravenest a seis dias. Trago em minha companhia minha filha Angelica e o Imediato Grey, meu sobrinho, além do Contramestre Rusty Cooley, o Comissário Duncan Sharpwind e uma tripulação de cinquenta homens. É um alívio deixar as vielas infestadas de ratazanas na cidade grande e poder respirar o ar puro do oceano mais uma vez. Espero que ele também faça bem a Angelica, que só está nessa viagem por ter recentemente me colocado em uma situação delicada com a Marinha, após ter detonado explosivos em uma fossa de esgoto, próxima a janela do prédio no qual eu estava em importante reunião. Esse incidente quase arruinou a expedição, mas felizmente pude contar com o financiamento de um velho amigo, dono de uma importante fábrica de bebidas da qual sou um dos mais fiéis clientes.

16 de Outubro

Ancoramos em uma pequena ilha ao norte de Jezirat. Quase toda sua extensão é ocupada por um bosque, que nos será de bastante utilidade para realizar os reparos necessários no navio. Entre as rochas da praia, encontramos caranguejos que chegavam a 1,5m de diâmetro. Nosso cozinheiro, John Lobster, logo descobriu que possuíam um sabor bastante aprazível, e passamos uma tarde inteira a caçá-los, usando tiros de pistola para tirá-los da água. Um de nossos homens, um jovem e amistoso corsário chamado Bobby, se mostrou bastante empenhado nessa atividade, e acredito que logo teremos comida o suficiente para reabastecer o navio pelo resto da viagem.

28 de Outubro

Não há no ocidente cidade que se equipare em beleza e sabedoria a Aratta. Hoje pude me encontrar com um dos nossos poucos conterrâneos nessa terra, o historiador cego Gilbert Bluestone, que me contou histórias incríveis sobre a Tribo de Sharyar e os povos que habitavam Jezirat mesmo antes de sua chegada. Porém, ele também me alertou dos perigos mortais que a cidade pode trazer para aqueles que se deixam deslumbrar por sua beleza e hospitalidade. O povo do Sultanato parece seguir um código sutil de conduta, escondendo suas reais intenções atrás de uma generosidade e educação inesperadas entre aqueles que recebem forasteiros. Todavia, tive a sorte de estabelecer um vínculo verdadeiro com alguns dos nativos, especialmente depois de salvar a filha de um pescador que havia se perdido na costa durante uma tempestade. Tal prestígio facilitou minhas audiências com o Sultão Behrouz, nas quais temos negociado nossas mercadorias por preciosos minérios e jóias, incluindo lustrosas pérolas azuis, que ficariam magníficas no pescoço de algumas damas abastadas de Windlan.

03 de Novembro

Um acontecimento terrível deixou toda a tripulação transtornada esta manhã. Nosso Comissário, Sr. Sharpwind,  foi encontrado morto dentro de um bordel no Bazar. Ao contrário de mim, Duncan jamais deu quaisquer ouvidos aos avisos do Dr. Bluestone, e agora está claro que o perigo contra o qual ele nos alertou é real. Não sabemos quem o executou, se foram Hassassin, espiões de Aurin ou algum outro inimigo de nossa nação, mas é evidente que o motivo da morte não foi nenhum outro senão eliminar a presença de Windlan em Aratta. Meus aliados na cidade desconfiam dos escravos elfos que chegam de Bergard, que aparentemente estão recebendo ajuda de Aurin em troca de serviços para o Imperador. Preciso retornar para Ravenest imediatamente, e passar essas informações á Coroa. Partiremos ao amanhecer.

11 de Novembro

Eu falhei. Esta expedição foi um desastre. Estou náufrago em uma ilha no noroeste de Jezirat, depois de ficar á deriva por dois dias, sem saber que destino levou minha filha Angelica e minha tripulação. Poucos dias após deixarmos Aratta, fomos interceptados pelos sanguinários Piratas de Iblis, cães miseráveis que se escondem nas ilhas mais ao sul. Eles nos atacaram em meio a uma tempestade, e mais de um marinheiro relatou ter ouvido cânticos profanos minutos antes de abrirmos fogo. Não sei que tipo de feitiçaria utilizaram, mas o fato é que navegavam tranquilamente pela tormenta enquanto éramos açoitados pelas ondas. Mesmo em desvantagem, lutamos bravamente, até que nossa fragata foi tragada para o fundo do oceano. Penso ter visto uma ilha enquanto lutava no convés, embora horas antes não houvesse qualquer sinal de terra nas proximidades. Mas se ela estava mesmo lá, então talvez alguém tenha conseguido se salvar. Não posso descansar enquanto não encontrá-la.

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