Trovões na Selva Sufocante – Parte 2 quarta-feira, maio 6 2015 

Over on the mountain, thunder magic spoke
Let the people know my wisdom
Fill the land with smoke

(Creedence Celarwater Revival – Run Through the Jungle)

Regine disparou pela estreita faixa de vegetação que separava o acampamento da praia, afastando com as mãos as estranhas samambaias e cipós que atrapalhavam seu avanço. Um bando de pequenos lagartos emplumados seguia na direção contrária, dardejando sobre as raízes ou entre suas pernas e alçando um voo desengonçado quando encontravam espaço. Estavam fugindo alvoroçados dos tiros que haviam sido disparados na baía, e a antropóloga teve que saltar para o lado quando um réptil branco e rechonchudo do tamanho de um búfalo surgiu trombando nas árvores, e quase a atropelou com seu corpo galináceo enquanto grasnava alarmado com seu bico cheio de dentes.

No litoral pedregoso e coberto de palmeiras da ilha, a Erichto estava amarrada em um dos rochedos mais altos, flutuando a uma certa distância. Alguns botes de madeira tinham se juntado ao de Regine na espuma fervilhante, e ela não precisou procurar muito para encontrar um grupo de tripulantes que também havia deixado a aeronave para explorar o local. Damien Chandelier estava entre eles, segurando sua espingarda de ferro negro e discutindo com os demais. Quando Regine se aproximou para saber o motivo da confusão, conseguiu enxergar atrás dos homens um dinossauro estendido na areia, que parecia ter sido recém-abatido.

Era um deinonico, uma fera bípede com o porte de um cavalo médio e coberta por uma penugem rala e arrepiada. Um par de garras maciças em formato de foice se estendiam de seus pés, como se ainda tentassem rasgar seus algozes. Os olhos eram de um amarelo vicioso, cortados por pupilas fendidas, e a boca permanecia aberta em um rosnado silente. Mesmo depois de morto, ele parecia zombar da audácia daqueles forasteiros em acharem que suas armas seriam suficientes para vencer a natureza indomável da ilha. Natureza que permanecia manifestada na imagem da garota que estava de pé diante deles, em uma postura agressiva como a de um animal acuado.

Regine ainda conseguia reconhecer Beatrice pelo retrato que trazia consigo, mas agora entendia a preocupação do ancião da aldeia. Aquela menina não era como os Nakna’Ohti, que lutavam apenas para sobreviver de acordo com as leis da Terra da Rainha Lagarto. Em seus olhos havia um frenesi selvagem e sedento, e a adaga de osso que segurava com firmeza na mão esquerda gotejava sangue. Ela arfava e rosnava entre os dentes cerrados, os pés se movendo nervosamente de um lado para outro enquanto os tripulantes da Erichto a cercavam com as espingardas apontadas, sem parecer chegar a um acordo sobre como lidar com a situação.

-O que vocês pensam que estão fazendo? – gritou a antropóloga correndo apressada até o grupo, sentindo um nó em sua garganta. Alguns dos homens mais afastados estavam feridos, e seu temor sobre aqueles machucados não terem sido causados pelo animal foram confirmados quando Damien explicou a situação sem tirar os olhos de Beatrice: -Nós viemos até a baía caçar caranguejos-de-pedra e descobrimos esse lagarto emplumado nos espreitando. Então eu disse ‘Vejam amigos, não é um belo troféu para levarmos até Port Vert?’ e atiramos nele. Foi quando essa mulher-da-selva enlouquecida apareceu do nada e nos atacou! Quase arrancou o braço do Bernard com aquela faca!

Zut! É claro que ela atacou, Damien! Abaixem essas armas, estão assustando ela! – bradou Regine com indignação, afastando os canos dos rifles com as mãos. Não acreditava que eles estavam quase estragando tudo por terem saído para caçar em um terreno desconhecido. E agora teria que ser enérgica para evitar uma tragédia. Ela sabia que a tripulação da Erichto não tinha o costume de levá-la a sério, mas os olhares eram de surpresa ao verem aquela intelectual acadêmica tratá-los como uma professora do jardim de infância trataria um grupo de moleques malcriados. E seu corpo robusto deixava claro que ela não era o tipo de professora que seria seguro contrariar.

Beatrice olhou com uma expressão confusa para a briga, recuando devagar alguns passos. Então, sem que ninguém esperasse, ela aproveitou a distração que Regine havia causado e disparou apressadamente para a mata, como um animal que enfim se vê livre de uma armadilha. A antropóloga suspirou pesadamente e deixou os ombros caírem, puxando a aba da cartola sobre os olhos antes de explicar: – Aquela era a filha dos Chardonneau. E mesmo que não fosse, é uma grande tolice sair atirando em um território que não lhes pertence. – ela trocou um olhar de desagrado com Damien, mas antes que ele dissesse alguma coisa o xamã da aldeia finalmente os alcançou.

Hukmi voltou seus olhos cinzentos para a direção em que Beatrice havia sumido e balançou a cabeça com tristeza, indo até Regine. -Desde que Iluta se abrigou entre nós tentamos fazer com que seu espírito se acalmasse, mas o que queima dentro dela é como o alcatrão dos pântanos. É algo escuro que nunca se apaga. Ela aprendeu nossa língua e nos acompanha sempre que mudamos de lugar, mas passa a maior parte do tempo isolada dos outros. – o ancião então se agachou diante do deinonico morto no chão e franziu a testa – Mas os Garras de Lua não andam sozinhos. Se esse apareceu por aqui é porque deve haver alguma matilha próxima. – ele comentou receoso com a antropóloga.

Regine fez uma expressão de espanto e olhou para a selva. Nos pontos mais visíveis da vegetação sombria ela tinha a impressão de ver formas se movendo ao longe, caminhando sorrateiramente entre a folhagem primitiva. Tentando permanecer calma, ela se voltou para os tripulantes da Erichto ainda com um olhar de reprovação, mas deixando claro na urgência de sua voz que haviam assuntos mais importantes a serem resolvidos no momento. – Voltem para a aeronave e avisem ao capitão que temos uma presença hostil na baía, e que por isso não é seguro ficar passeando aqui embaixo. Eu vou buscar minhas coisas na aldeia e tentar encontrar a garota.

Não demorou muito para a antropóloga estar se esgueirando pela mata, tentando fazer o mínimo de barulho possível enquanto buscava qualquer sinal de Beatrice. O ancião havia ficado na aldeia para avisar aos Nakna’Ohti sobre a presença dos Garras de Lua. Pelo que o xamã havia contado a Regine no caminho, não era comum que aquelas feras se aproximassem tanto de um acampamento sem serem notadas. Suas matilhas eram capazes de abater presas muito maiores, como os grandes lagartos-trovão das planícies alagadas, mas normalmente evitavam contato com as comunidades humanas. E essa não era a única coisa que incomodava Regine enquanto ela avançava pela selva.

Aquela floresta tropical era cheia de ruídos estranhos, causados pelos poços borbulhantes de óleo pétreo ou por pássaros com um canto há muito esquecido pelo resto do mundo. Mas ela tinha a impressão de que alguns dos sons que ouvia na distância se assemelhavam muito com os produzidos pelos instrumentos de sopro de culturas aborígenes com que havia tido contato. Cada vez que escutava as notas agudas e ritmadas, ela pensava na forma estranha como algumas daquelas silhuetas que tinha avistado na mata se moviam, e nas pegadas reptilianas com cinco dedos que jamais poderiam pertencer a um Garra da Lua.

Um grito feroz seguido por vários rosnados fez com que Regine sentisse um gosto metálico na garganta. Tinha chegado tarde demais, e agora teria que lutar contra aquelas feras predadoras para sair viva daquela selva com Beatrice. Estava mais preocupada consigo mesma, honestamente, já que a garota parecia não ter muitos problemas em se virar sozinha naquele lugar. Encontrá-la rápido e ajudá-la a lidar com as criaturas poderia ser  melhor curso de ação, não apenas para garantir sua sobrevivência como talvez ganhar a confiança da menina. Enquanto questionava seu próprio juízo, Regine puxou o facão de sua cintura e mergulhou na mata indo em direção ao barulho.

O caminho a levou até a beirada de um barranco, que margeava o lago fervilhante de uma cachoeira que descia desde as montanhas. Os sons do combate vinham da vegetação do outro lado, e com o declive pouco inclinado e as águas não muito profundas ela não teria problemas em chegar até lá. Porém, algo não parecia certo, e ela olhou ao redor em silêncio sentindo o suor escorrer de sua testa. Aquele trajeto era exposto demais, e a água atrasaria seu deslocamento a deixando vulnerável. Naquele lugar, Regine tinha a sensação de que cada um de seus passos era vigiado por um predador faminto, e para voltar até a aeronave inteira ela precisaria ser mais esperta do que eles.

Esse não era o maior desafio que sua mente já havia enfrentado, mas naquela situação precisaria pensar rápido. Se encostando em uma árvore em silêncio e procurando por algo que pudesse ajudá-la. Uma ideia lhe surgiu quando descobriu um tronco velho preso apenas por alguns cipós. Com um golpe rápido do facão de Regine, ele despencou e com um som abafado começou a rolar pelo barranco. Mal havia começado o trajeto, dois deinonicos como o que havia sido morto na baía saltaram das folhagens e perseguiram o tronco atraídos pelo movimento. Espiando da mata, Regine começou a descer de forma furtiva quando um terceiro Garra de Lua saltou sobre ela.

A antropóloga só conseguiu se virar antes da criatura cravar as garras curvas em sua barriga, abrindo dois rasgos vermelhos em seu colete. Agarrando o animal, Regine se desequilibrou e embolou pelo barranco junto com ele, escorregando pela terra até cair dentro do lago, onde finalmente conseguiu afastá-lo com um chute. Cerrando os dentes para suportar a dor, ela alcançou o cabo do facão na margem e em um movimento certeiro cortou a garganta do deinonico que lhe havia derrubado. O sangue do animal se misturou ao Regine na água, e ela mal teve tempo de verificar o ferimento antes de ouvir os guinchos dos outros dois que haviam descido junto com o tronco.

Ela tentou se afastar indo para o meio do lago, deixando as criaturas gritando agitadas na água rasa e batendo suas horríveis asas vestigiais enquanto tentavam avançar. Uma delas tentou alçar um voo desajeitado, mas foi acertada em cheio pelo facão de Regine, que rodopiou no ar após ter sido jogado por reflexo. O outro deinonico chapinhou pela água como uma cegonha desengonçada, estendendo o pescoço para tentar alcançá-la com uma mordida. Ofegante, a antropóloga agarrou firmemente a boca da fera emplumada e torceu o focinho e o maxilar em direções opostas, fazendo o animal morrer com um forte estalo e um ganido engasgado.

Regine se moveu o mais rápido que podia até a margem oposta, sentando recostada em uma pedra e arfando de dor e cansaço. Seus dedos tateavam o corte duplo em sua barriga, ficando úmidos de sangue. O colete de couro reforçado a tinha protegido de uma ferida mais profunda e mortal, mas o esforço e a água gelada faziam com que o machucado ardesse de forma pungente. Abrindo a grande bolsa marrom-esverdeada que trazia consigo, ela suspirou aliviada ao ver que o couro de basilisco que a revestia havia mantido seu conteúdo seco e intacto. Inclinando a cabeça para onde os sons da luta de Beatrice seguiam, ela rapidamente se agachou e começou a retirar aquilo de que precisava.

Algumas bandagens foram o suficiente para estancar o ferimento, mas o mais importante era desmontar o rifle, secá-lo completamente, remontá-lo e carregá-lo. Uma tarefa que se mostrava complexa pela quantidade de engrenagens e peças complicadas da arma de três canos, mas que com a experiência de campo de Regine foi concluída em poucos minutos. A todo momento os ouvidos da antropóloga continuavam atentos à localização de Beatrice, a deixando pronta para correr caso ela parecesse em apuros. Não duvidava que a menina pudesse dar cabo dos Garras de Lua como ela mesma havia feito, mas tinha a impressão de que havia algo mais perigoso do que eles se aproximando.

Atravessando a densa folhagem úmida, ela se viu diante de uma grande árvore coberta de cipós, e sobre um de seus galhos Beatrice lutava contra as feras que tentavam alcançá-la. Os deinonicos tentavam saltar e escalar de todos os pontos possíveis, mas cada vez que um se aproximava, recebia um veloz golpe de lança da garota. Aproveitando que as criaturas estavam distraídas com a guerreira órfã, Regine apoiou o rifle no ombro e mirou em uma que tentava escalar mais alto para saltar por cima da menina. O disparo acertou em cheio, fazendo o cadáver do animal se esborrachar no chão, e o resto da matilha fugiu atordoada com o som de trovão que reverberou pela selva.

Já Beatrice parecia ainda mais abalada pelo barulho, mal notando que havia se livrado dos Garras de Lua. Ofegante, a garota procurou em volta com os olhos arregalados até encontrar Regine. Com um grito de fúria, ela jogou sua lança contra a antropóloga, que rolou para o lado e observou espantada enquanto a menina colocava sua faca de obsidiana entre os dentes e corria da árvore até o chão como um gato selvagem. Lembrando das palavras do xamã, Regine percebeu que havia mais ali do que raiva e instinto de sobrevivência. O frenesi de Beatrice não tinha nascido da selva, mas de alguma outra coisa que despertava sempre que ela ouvia uma arma sendo disparada.

Antes que a garota avançasse, Regine se agachou até ficar no mesmo nível que a menina e colocou sua arma no chão. Beatrice saltou sobre ela mesmo assim, derrubando a antropóloga com a faca sobre seu pescoço. Sentindo o peso da lâmina sobre a garganta, Regine se manteve calma e com uma expressão neutra, pondo as mãos sobre os pulsos dela. Com a força de seus braços, poderia dominar a menina, mas queria convencê-la de que não era uma ameaça. Ela podia sentir o medo da garota nas pupilas dilatadas de seus olhos castanhos e na respiração apressada entre os dentes. Beatrice estava mais assustada do que a antropóloga que ameaçava, e confusa com a reação da mesma.

Assim como Regine não precisava falar a língua da guerreira para compreendê-la, também poderia se fazer entender. Em seu trabalho de campo, havia lidado com muitas culturas de idiomas diferentes, e sabia como ninguém usar de sua linguagem corporal para estabelecer um contato seguro. Lentamente, em uma troca de olhares e movimentos, ela fez com que Beatrice recuasse para trás, embora ainda parecesse desconfiada. Devagar, as duas se levantaram e Regine se reaproximou cautelosamente. A garota parecia estar se acalmando, mas quando estendeu a mão para ela, o som de uma arma sendo engatilhada fez com que ela erguesse a faca outra vez.

Arfando com surpresa, Beatrice olhou em volta e viu Damien e seus homens apontando seus rifles, a cercando para se assegurarem de que ela não teria uma rota de fuga dessa vez. Regine ficou confusa a princípio, indo na direção do homem com chifres a passos firmes enquanto protestava. – Será possível que vocês nunca ouvem minhas instruções? Eu disse que era para vocês… – ela estancou quando algumas armas foram apontadas para ela, e seu rosto se contraiu em uma máscara de indignação e espanto. – Qual o significado disso, monsieur Chandelier? Se for uma brincadeira, eu devo avisá-lo que sua falta de respeito por meu trabalho já está passando dos limites!

A expressão de Damien era uma máscara de repulsa, como se ouvir a voz da antropóloga já lhe fosse uma tarefa árdua. Ainda assim, ele fez um gesto para que seus subordinados se acalmassem, embora eles mantivessem a mira sobre as duas, Beatrice procurando uma saída como um leão acuado em uma jaula. Com a fria calma de um homem de negócios, ele explicou em sua voz sibilante – Seu trabalho era assegurar que encontrássemos a jovem dama longe da vista dos nativos, madame Beaumont. Entenda que a herança dos Chardonneau não pode ser dada a uma menina que sequer sabe assinar o próprio nome, e como ela já foi vista é tarde demais para deixá-la viver aqui na selva.

Regine sentiu seu estômago revirar e um gosto metálico surgir na sua boca. Tudo fazia sentido agora. O jeito arisco da menina, sua reação colérica a armas de fogo. O naufrágio dos Chardonneau não havia sido um acidente. Eles haviam sido vítimas de um motim, e a pequena Beatrice deveria ter assistido enquanto seus pais eram traídos e executados. Mas de alguma forma ela havia escapado, e o plano dos amotinadores sofreu seu revés quando, sem tripulação suficiente, eles acabaram não conseguindo passar pelas marés perigosas que rodeavam a Ilha da Rainha Lagarto, encontrando seu fim nas águas povoadas por feras marinhas.

O olhar de Regine queimava de ódio, mas mesmo assim suas palavras saíram com firmeza e sobriedade. – Eu só não te chamo de serpente traiçoeira porque isso seria uma ofensa aos ofídios! – Antes que Damien conseguisse ter alguma ideia do que significava ‘ofídio’, a antropóloga aproveitou sua distração e com um rápido movimento do pé trouxe o rifle de volta a suas mãos, se lançando contra Damien e o atingindo com uma forte coronhada no estômago. Pegos de surpresa, os outros homens tentaram fazer pontaria para atirar, mas dessa vez foi Beatrice que derrubou um deles com um chute na canela, aproveitando o embalo do movimento para levar outro ao chão com o cabo da lança.

Agarrando Beatrice pela cintura, Regine mergulhou pela selva e correu abaixada com a garota, os disparos voando sobre suas cabeças como uma chuva de pólvora e fogo. Os tiros estouravam os troncos das árvores ou acertavam as duas de raspão, lacerando carne e couro em um corte fumegante. Regine sabia que era questão de tempo até serem atingidas, mas só o que podia fazer era tentar correr mais rápido. Por longos segundos a dupla atravessou a mata fugindo da morte, até que os tiros simplesmente pararam. Olhando para trás, a antropóloga ouviu os homens que as perseguiam gritarem de terror, e abaixo dos gritos escutou mais uma vez o som das flautas de osso.

Os Garras de Lua agora atacavam o grupo de Damien, mas seus guinchos e rosnados não eram os únicos a ecoar pela mata. Havia outro conjunto de sons répteis e guturais, que Regine notou ter mais articulação do que aqueles que eram emitidos pelos dinossauros da ilha. Beatrice estava alarmada com aquelas vozes, e com espanto a antropóloga percebeu o que estava acontecendo. Os deinonicos não haviam se aproximado sozinhos daquela parte da ilha. Eles eram guiados pelas flautas de osso, da mesma forma que cães de caça seriam guiados por apitos. E seus adestradores não eram humanos como as pessoas que estavam caçando.

Antes que Regine e Beatrice conseguissem fugir dali, um grupo de humanoides reptilianos as encontrou, deslizando pela vegetação com suas peles verdes e escamosas. Aqueles eram os verdadeiros senhores da ilha, os súditos da Rainha Lagarto que havia erguido seu palácio naquela terra muito antes dela se separar do continente. Apesar de possuírem uma aparência primitiva, Regine conseguia perceber o quanto eram organizados e bem adaptados ao ambiente. O que era naquela situação uma péssima notícia, uma vez que as elaboradas armas de madeira e osso e as redes de vinhas trançadas que carregavam mostravam que não estavam dispostos a uma abordagem pacífica.

Enquanto a antropóloga ainda estudava os homens-lagarto, Beatrice saltou com um rugido de desafio sobre um dos que estavam mais próximos. A criatura reptiliana escancarou sua boca monstruosa e ergueu sua clava contra a garota, mas ainda em pleno ar a guerreira espetou seu inimigo com a lança, atravessando sua rígida armadura e fazendo borrifar sangue escuro. Pousando no chão com a graça de um jaguar selvagem, Beatrice retesou seu corpo e com uma força impressionante ergueu o homem-lagarto agonizante, dando um giro poderoso e acertando com o corpo outros dois que se preparavam para lançar uma rede sobre ela, deixando-os caídos sobre o chão lamacento.

Regine ergueu seu rifle e girou o cano triplo de cobre, ajustando as engrenagens e carregando mais um tiro. Mas um momento antes de disparar, ela olhou para Beatrice e viu a menina vacilar por um momento, fitando sua arma com uma expressão de susto. Um homem-lagarto se aproximou por trás dela, girando seu machado de osso para golpeá-la nas costas. O sangue de Regine gelou e apenas o impulso a moveu para a frente, girando o rifle em suas mãos e golpeando o reptiliano com toda força no queixo com a coronha da arma. Se recompondo, Beatrice derrubou os outros que se aproximavam com a lança, agarrou o braço da antropóloga e correu para uma árvore próxima.

Enquanto se esforçava para acompanhar a garota, Regine podia ouvir a selvagem cacofonia que ocupava a selva. Os Nakna’Ohti haviam mandado um grupo de guerreiros para afastar os homens-lagarto, e a luta se estendia no solo enquanto Damien e seus homens eram arrastados em redes para um destino incerto. Chegando ao topo da árvore, ela mais uma vez contemplou aquela paisagem abandonada pelas eras, mas o suor, as feridas e a adrenalina da luta lhe davam uma sensação completamente diferente. Ficando de pé ao lado de Beatrice, a antropóloga arrumou o rifle sobre os ombros como uma guerreira, sentindo que ainda havia muito o que descobrir naquela terra.

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Trovões na Selva Sufocante – Parte 1 quinta-feira, abr 9 2015 

Whoa thought it was a nightmare
Lord it was so true

They told me don’t go walking slow
The devil’s on the loose

(Creedence Celarwater Revival – Run Through the Jungle)

As hélices da aeronave à vapor rangiam com esforço, como se estivessem em uma luta fatigante contra o ar embaçado de calor. Ao redor o céu estava limpo, mas na distância nuvens de fuligem se amontoavam sobre as montanhas, pulsando com um clarão vermelho a cada estrondo causado pelos vulcões ocultos no negrume. Vigiando em uma das correntes que prendiam o balão ao convés, um diabrete aproximou da boca uma corneta improvisada feita com o bocal de uma velha caixa de música e tocou uma nota alta e estridente, anunciando que a Erichto estava chegando a seu destino.

Como se estivessem respondendo ao sinal, um bando de répteis alados surgiu do litoral da ilha, batendo suas largas asas de couro enquanto passavam ao lado do veículo voador. Pareciam enormes cegonhas desengonçadas e de penugem curta, o tipo de besta que só poderia habitar uma paisagem prístina e selvagem como aquela. Na amurada da aeronave, um homem observava o espetáculo com um misto de repulsa e curiosidade estampado em seus olhos dourados sem pupilas. Alisando sua barbicha, ele resmungava entre dentes afiados: -Parece que os súditos da Rainha Lagarto vieram nos dar as boas-vindas. Então essas feras grotescas são os tão célebres dinossauros da ilha.

-Pterossauros não são dinossauros, monsieur Damien. São espécies diferentes. – interrompeu a voz suave de uma mulher alta e atlética, que apoiou os cotovelos no corrimão do convés para observar as criaturas em seu voo vespertino. – Eles são praticamente tão distintos quanto um morcego é de um cão. Mas tenho certeza de que avistaremos alguns dinossauros propriamente ditos quando estivermos em terra. Há uma grande variedade deles lá embaixo. – ela explicou deixando Damien com uma careta aborrecida, arqueando as sobrancelhas enquanto dava as costas para a paisagem e acendia seu cachimbo com a chama azulada de um pequeno aparelho metálico.

-Você deve ser tão incrível em festas, madame Beaumont. – ele comentou, deixando a fumaça espiralar entre os chifres de sua testa. Regine Beaumont não lhe deu muita atenção, continuando a admirar a paisagem que estendia um carpete esmeralda de selva abaixo de seus pés. A Erichto começava a diminuir de velocidade e voar mais baixo, se aproximando de uma baía isolada onde era possível ver algumas fogueiras crepitando. – Com todo respeito, tenho lugares mais interessantes para ir do que festas, e o senhor sabe muito bem que isto aqui não é uma. – ela respondeu finalmente, arrumando o rifle de três canos na bandoleira e se preparando para desembarcar.

Entre as escuras rochas vulcânicas da baía se abrigava um acampamento indígena, com algumas dúzias de cabanas de estacas e sapê arrumadas ao redor das fogueiras. Regine prendeu a respiração ao correr os olhos pela rústica aldeia, admirando cada novo detalhe que conseguia encontrar. Havia naquele lugar uma aura de ancestralidade palpável, que dava a uma antropóloga como ela a certeza de estar diante de uma cultura quase intocada pelo mundo exterior. Um tesouro de sabedoria até então perdida, que havia perdurado e crescido durante séculos como uma semente rara em um solo hostil e esquecido pelas eras.

Esse era o motivo pelo qual havia aceitado fazer parte da expedição comercial de Damien Chandelier até a Terra da Rainha Lagarto, mas não era a única razão de estar ali. Um grupo de trabalhadores de uma futura plataforma de extração de óleo pétreo, que havia tido contato com aquele acampamento meses antes, tinha encontrado uma garota aurinesa vivendo entre os indígenas. A descrição da menina batia com a de Beatrice Chardonneau, filha única de comerciantes de cana-de-açúcar, cujo cargueiro havia naufragado cinco anos antes nas proximidades da ilha. A jovem porém parecia não se recordar de quem era, e nem sequer falava uma única palavra em seu idioma natal.

Regine seria a responsável por resgatar Beatrice e acompanhá-la de volta a Aurin, sem causar um desentendimento com os nativos. Não era uma missão com a qual se sentia muito confortável, uma vez que a garota parecia totalmente integrada com a tribo que a havia resgatado e acolhido. Mas a antropóloga sabia que para uma comunidade tão isolada como aquela, levar a menina poderia ser o melhor para ambos. Não apenas estaria dando para Beatrice a chance de conhecer sua origem e as oportunidades que havia deixado em Aurin, como também estaria ajudando a preservar os próprios nativos de um contato mais invasivo de estrangeiros curiosos.

Ela sabia bem o circo que aquilo poderia se tornar na sociedade aurinesa caso a questão não fosse logo resolvida. Os indígenas por sua vez a observavam desconfiados enquanto ela adentrava o acampamento, tomando cuidado para não fazer nenhum movimento que pudesse ser interpretado como uma ameaça. Fisicamente não possuíam nenhuma diferença dos nativos que habitavam o Grande Bayou no continente, com a pele em um tom avermelhado e os cabelos de cor escura, raspados nos homens em um penteado moicano. A simplicidade de suas tendas sugeria um modo de vida nômade, algo bastante adequado naquele terreno perigoso de vulcões e feras reptilianas.

Naquela comunidade não havia espaço para modestos negociantes de peles ou artesãos despreocupados. Cada um daqueles homens e mulheres tinha de ser um guerreiro robusto para conseguir chegar ao final de cada dia. Seus músculos salientes eram temperados pelo calor das explosões de magma fervente, e seus corpos enrijecidos eram cobertos de cicatrizes causadas pelas coisas terríveis que rastejavam nas profundezas da selva ou abaixo das ondas. Os escudos adornados com penas coloridas eram feitos das escamas de alguma fera gigantesca, e seus arcos fabricados com os ossos resistentes dos pterossauros que eram abatidos no alto dos penhascos.

Porém, aquela luta constante pela sobrevivência não os impedia de possuir suas histórias e crenças, que Regine conseguia enxergar nos totens e amuletos que protegiam as tendas e nos desenhos complexos que cobriam os escudos e ornamentos dos indígenas. A antropóloga rejeitava a visão de vários de seus colegas acadêmicos que tratava os povos do novo mundo como ‘bárbaros’ de cultura primitiva. Mesmo ali naquela ilha, à deriva em uma região estagnada das marés do tempo, aqueles indivíduos haviam se tornado mais do que simples homens das cavernas, ainda que estivessem à margem do império milenar da Rainha Lagarto.

Era possível perceber dentro daquela comunidade uma profunda e respeitosa devoção pelos espíritos primordiais da natureza, que se manifestavam nas escarpas cobertas de névoa, nas furiosas ondas que rebentavam na entrada da baía e na fumaça que subia das crateras flamejantes. Os indígenas os representavam como marcas irregulares de raios e espirais, pintados nas lonas das tendas e em suas próprias peles. Também pareciam possuir uma certa reverência pelos jaguares de dentes-de-sabre, animais que como eles viviam na sombra dos grandes dinossauros, e muitos dos guerreiros utilizavam as peles e presas dos felinos como fetiches de caça e proteção.

Ao chegar diante da maior das fogueiras no centro do acampamento, Regine se viu diante de um homem com longos cabelos brancos e o rosto profundamente marcado de rugas, mas ainda corpulento apesar da idade avançada. Os olhos escuros e fundos do ancião fitavam as chamas intensas, que pareciam dançar à sua frente. Ele não pareceu dar atenção à forasteira, mas mesmo assim a antropóloga deixou seu rifle e seu facão no chão antes de sentar-se próximo ao velho. Seus lábios murchos cantarolavam algo incompreensível, e a quantidade de colares de garras e outros apetrechos totêmicos que usava pelo corpo mostrava que tinha uma posição espiritual elevada na tribo.

O ancião terminou sua melodia e permaneceu olhando para o vazio por alguns segundos antes de voltar a cabeça para Regine, examinando a expressão dela por mais algum tempo até pegar um punhado de cinzas e areia do chão e soprá-las de maneira fortuita no rosto da mulher. A antropóloga apenas cerrou os olhos, mas antes de abri-los de novo ouviu a voz do velho xamã falando não em seu idioma nativo, que ela levaria semanas para aprender, mas na língua remota e trovejante usada pelos elementos primordiais quando decidiam se comunicar com o mundo.
-Os espíritos gostam de quem possui paciência para ouvi-los. Agora me conte o motivo de estar aqui.

Regine não conseguiu conter sua animação com aquela oportunidade de diálogo com a tribo, e desatou a fazer uma infinidade de perguntas sobre aquela comunidade. Descobriu que os povos indígenas da ilha se chamavam de Nakna’Ohti e que o nome do ancião era Hukmi. Que a espiritualidade daquele povo estava ligada ao calor e vigor da terra e dos seres de sangue quente, centralizadas na figura da Mãe Vulcão, um totem ancestral temido até mesmo pela Rainha Lagarto e seus súditos. Os xamãs da Mãe Vulcão como Hukmi eram capazes de prever erupções e tempestades, e se utilizavam dessa sabedoria para guiar as mudanças de acampamento.

Apenas quando uma pequena parte de sua curiosidade já estava satisfeita foi que a antropóloga percebeu o quanto estava empolgada, e com um sorriso sem graça perguntou apressadamente sobre Beatrice. Não havia visto nenhum sinal da garota desde que havia chegado, embora muitos dos indígenas estivessem observando escondidos de suas cabanas ou das margens da selva. O ancião confirmou que a filha dos Chardonneau estava com eles, que havia sido encontrada pela tribo anos antes naquela mesma baía e era uma menina com forte instinto de sobrevivência. Porém, havia um tom de preocupação na voz do xamã que deixou Regine com um pressentimento ruim sobre a situação.

Quando ela pediu que Hukmi lhe dissesse onde a jovem estava, o velho índio suspirou pesadamente e se levantou. -Sei onde ela deve estar agora. Mas irei te alertar de que Iluta, a quem você chama de Beatrice, pode não ser mais a pessoa que você procura. O espírito dela se tornou inquieto e assombrado por uma sede de sangue. – mal o xamã havia terminado de pronunciar essas palavras, um trovão estrondeou por trás das árvores na direção em que estavam indo, como um sinal fatídico do que estava por vir. Regine sentiu o coração dar um salto ao perceber que o céu estava limpo sobre a baía e que aquilo que havia acabado de escutar eram disparos da tripulação da Erichto.

Port Vert quarta-feira, mar 25 2015 

Ao se navegar até a foz do Rio Lafitte, é possível ver de longe a graciosa Port Vert à margem das águas, na fronteira entre o oceano e o Grande Bayou. Seus edifícios elegantes de construção aurinesa e as caóticas favelas costeiras já foram muitas vezes castigados por tempestades e incêndios, mas nenhuma catástrofe é capaz de silenciar as canções de piratas, os bailes de máscaras e as fanfarras de rua que tornam essa cidade a mais musical e animada colônia de Aurin.

Port Vert é uma rota defendida ferozmente pelas esquadras Seláquia e Delfina contra incursões de Windlan. Ela faz contato principalmente com as Ilhas Marlim ao sul e com a própria Aurin Continental no leste distante. Navios vindos de nações aliadas de Aurin também a utilizam, vindos especialmente de Jazirat ou do Continente Negro.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

Bairro Aurinês

Com suas belas varandas e galerias de ferro moldado, o Bairro Aurinês reluz durante a noite com as luzes de seus estabelecimentos refletindo nas ruas úmidas de chuva. Após ter sido quase inteiramente destruído por um incêndio incontrolável de origem desconhecida, esse distrito que é o mais antigo de Port Vert foi reconstruído para resistir ‘até mesmo ao fogo do inferno’, como dizem os responsáveis pela reforma. Tanto zelo é justificado pelo Bairro Aurinês ser o centro da vida comercial, social e artística da cidade, com seus mercados ao ar livre, tavernas e salões de música. Artistas de toda a colônia tentam ganhar a vida nas praças, estabelecimentos ou nas próprias ruas, tocando canções que alternam entre o alegre e o melancólico. O espírito requintado do Bairro pode ainda ser visto nas delicadas perfumarias, cabarets e boutiques que surgem a cada rua, contrastando com a culinária de comida temperada e forte baseada em pratos de carnes e frutos do mar como a jambalaya. Para os visitantes de Port Vert no entanto, nada chama mais a atenção nesse distrito do que as Lojas Vodu com suas fachadas coloridas, oferecendo feitiços, poções e todo tipo de amuleto. Embora algumas delas sejam obra de charlatões, muitas são administradas por doutores feiticeiros com real poder, que não cobram barato pelos seus serviços. Nem todos os trabalhos são pagos em ouro no entanto, e é de conhecimento popular que muitos que tentaram quebrar seus acordos com os mestres do vodu acabaram como empregados zumbis em seus estabelecimentos.

Ancoradouro Encardido

Port Vert recebe diariamente mercadorias das Ilhas Marlim e outros lugares do Novo Mundo, as enviando para Aurin sempre que possível. Essa movimentação constante transformou o porto da cidade em um distrito vasto e caótico, que ocupa parte do litoral e um trecho do Rio Lafitte. A influência de engenheiros goblins e jinn das Ilhas Campeche trouxe ao Ancoradouro armazéns e estaleiros mecanizados, que cobrem o céu de fuligem e mancham a água com óleo e substâncias alquímicas. Apesar dos navios de corsários com suas velas chamativas serem uma presença comum, o tráfego mais constante é o dos barcos à vapor que vem e vão pelo Lafitte girando suas rodas de pá na água. Algumas dessas embarcações são luxuosos salões de festa flutuantes, ficando a maior parte do tempo afastadas da costa para evitar a poluição. Outras são veículos de transporte e carga dos Levee, restaurantes de comida típica do Bayou ou mesmo esconderijos de mafiosos aurineses, que se aproveitam da discrição e mobilidade para realizar todo tipo de contrabando. Rumores locais dizem que alguns dos barcos servem até mesmo de covil para vampiros e outros seres, que esperam pela escuridão da noite para deixar seus abrigos e sair à caça de marinheiros e passantes distraídos.

Praça Fifolet

A maior praça de Port Vert não chama grande atenção durante o dia, com suas vitrines de doces e bandeirolas tremulando preguiçosamente entre as árvores. É durante a noite que surge a paisagem fantasmagórica iluminada por centenas de lampiões, a hora em que as feiras de diversões iniciam suas atividades até o raiar do dia. Muitos dos negócios locais são administrados pelos Levee, mas a presença de acampamentos ciganos é comum. Suas tendas coloridas fazem companhia aos etéreos carrosséis e às pistas de montanha-russa montadas sobre estruturas duvidosas de madeira. Pequenos circos e grupos de teatro itinerantes são uma presença constante, exibindo espetáculos que vão do encantador ao monstruoso. O mais famoso deles, a Feira da Lua Sorridente, surge sempre durante a lua minguante e vai embora durante a crescente, dando origem à lenda de que muitos de seus membros são na verdade lobisomens. Seu líder, o mágico Deimos, é um homem melancólico e azarado, mas de grande conhecimento arcano. É dito também que existem diabos disfarçados espreitando pela Praça, em busca de almas aflitas ou descuidadas o bastante para realizar algum contrato ou aposta. Mas talvez nenhum rumor seja tão terrível quanto o que menciona que algumas das barracas comercializam secretamente artefatos ligados aos Horrores Antigos, conseguidos nas profundezas do Grande Bayou. No fim, todas as histórias e assombrações que cercam a Fifolet apenas conseguem atrair mais visitantes curiosos, em busca da magia secreta que a cada pôr-do-sol surge de formas imprevisíveis.

Mansão Chandelier

Originalmente construída pela rica família Spinosa, a primeira a colonizar Marais, essa enorme e imponente mansão de pedra e mármore foi assumida pelos Chandelier quando os últimos passaram a governar Port Vert. Os bosques escuros que a rodeiam e as pesadas portas de madeira adornadas com imagens em alto-relevo dão uma aura sinistra ao lugar, bastante adequada para os aposentos de uma família marcada pela influência de antigos diabos. Nos corredores, castiçais iluminam grandes pinturas com imagens sombrias, enquanto cortinas de seda fina insinuam as atividades lascivas dos residentes. Tendo como patrono Mefisto, o Príncipe das Mentiras, muitos dos Chandelier são tieflings, vivendo uma vida de intriga e luxo entre os refinados salões de máscaras e as bibliotecas de conhecimento arcano, servidos por diabretes e outros infernais menores. Maxime Chandelier, o patriarca e também governante da cidade, é um mercador de grande fortuna, que abraça as inovações tecnológicas do ferro e vapor ao mesmo tempo em que mantém hábitos arcaicos, como um lorde em sua propriedade. Generoso com seus amigos e maliciosamente cruel com seus inimigos, ele é conhecido pelo modo abusivo e autoritário com que trata seus empregados, especialmente os que já tiveram origem escrava. Mesmo não existindo mais escravidão em Port Vert, os Chandelier estendem esse pensamento para a cidade através de decretos e códigos que restringem os direitos dos cidadãos de ‘segunda classe’. Alguns dos tieflings mais jovens se cansam da atmosfera falsa e opressiva da família e deixam sua proteção para defender as próprias ideias e ambições. Outros abraçam seu legado e conquistam espaço nos jogos de poder que tomam lugar nas galerias subterrâneas da Mansão, negociando poder e influência com senhores infernais e usando suas próprias almas como garantia.

Introdução – Port Vert terça-feira, fev 10 2015 

Chamas saltavam tentando alcançar as estrelas quando ela surgiu entre as varandas e os arcos de pedra. Era noite de festival, e todos os demônios de Port Vert estavam dançando na multidão. Entre malabares de fogo e sombrinhas de renda ela serpenteava, queimando em desejo. Clarinetes e violoncelos tentavam acalmar seu coração, mas ele estava tão seco quanto sua garganta. Quando finalmente avistou a garota com cabelos carmesim, a lua minguante sorriu iluminando o caminho sobre os telhados de estanho. A brisa trazia até ela seu perfume, uma poção do amor com cheiro de terra. Deslizando e rodopiando por entre arlequins mascarados e capitães embriagados, ela a alcançou sobre uma ponte, acima de um desfile de sereias e barcos enfeitados. O leque de penas brancas da moça cobriu seu rosto em um gracejo, deixando apenas a máscara de longo bico espiar como um pássaro gracioso. Com os olhos faiscando por trás da própria máscara, ela se aproximou em um cortejo elegante, os cabelos brancos brilhando como escamas ao luar. Quando seus dedos morenos enfim se entrelaçaram com os da dama, um movimento rápido a trouxe para perto de si, e as duas saltaram para a noite que se refletia nas águas espelhadas.

 

Na outra noite que também festejava além da fronteira, serpentes arco-íris sopravam lufadas de brumas coloridas enquanto bandas de esqueletos tocavam uma marcha animada. Nas margens da água turva vinham se sentar os sapos enfeitiçados com suas asas de morcego, juntando suas lamentações à música do outro mundo. Tomando sua convidada pela mão, ela a conduziu até as ruelas que se contorciam e ondulavam, entre bailes de zumbis e cabarés fantasmas. A noite inteira ela e a garota de cabelos vermelhos dançaram e celebraram a vida nas encruzilhadas dos mortos, cavalgando em carrosséis de ossos e passeando nos barcos estígios com seus motores movidos a almas, rindo dos peixes-demônio que tentavam atraí-las balançando suas lanternas como fogo-fátuo. Quando a sorridente caveira de crocodilo na proa do navio finalmente assoviou seu vapor esmeralda, o jardim se estendia diante delas, com lírios vodu exibindo seu púrpura no portão. A garota de cabelos carmesim já não tinha medo de atravessá-lo, pois seu coração não mais se sentia triste e solitário. Com um beijo apaixonado ela se despediu e prometeu voltar para visitá-la, sempre que a música dos festivais mais uma vez se unisse em uma única e alegre sinfonia.

 

Quando a manhã chegou sobre os gramados escuros no jardim, ela passeou entre as casas de seus protegidos, se certificando de que todos haviam voltado em segurança e estavam dormindo. A garota de cabelos carmesim ainda estava sentada sobre seu leito, e sorriu com cumplicidade em um último aceno antes de ir se deitar, sob o olhar cuidadoso de seu anjo de pedra. Nunca mais voltaria para as águas onde havia se afogado, nem para a ponte onde havia se chocado enquanto dançava sobre um dos barcos a vapor do desfile. Repentinamente, uma lenta marcha de trombones quebrou o silêncio, e olhando para trás ela viu uma das krewes do festival trazendo sua rainha numa caixa forrada em veludo. Dobrões e contas douradas ainda adornavam seu corpo, como enfeites no sarcófago de uma imperatriz. Poderia governar com toda pompa no além agora, mas primeiro sua alma precisaria ser salva da taverna ainda em brasa, onde tentava terminar sua última garrafa da noite anterior. Era isso que ela iria fazer na próxima noite de festa, quando a música animada da procissão que agora seguia de volta para as ruas mais uma vez fizesse com que tanto os vivos quanto os mortos de Port Vert deixassem suas moradas para celebrar e relembrar, na cidade em que as máscaras tornavam todos iguais.

Criaturas de Marais quarta-feira, dez 31 2014 

Lapin

Ele atirou Lapin direto nos espinheiros. Mas Lapin não teve um arranhão, não ele. Ele se contorceu fundo dentro dos espinheiros onde Bouki não poderia pegá-lo, e gargalhou.

(Lapin and the Little Tar Man)

Os espíritos trapaceiros conhecidos pelos Levee como Lapin possuem diversos outros nomes em Marais. Chamadas pelos colonos de Coelhos Brer e pelos indígenas de Nanabozho, essas fadas são parentes de outros seres de Faerie que protagonizam histórias cômicas, nas quais sempre enganam alguém como forma de puni-los por sua ganância ou apenas pela diversão proporcionada. Os Lapin possuem a forma de coelhos humanoides, de corpo alto e esguio. Alguns se vestem em velhos trajes de colonos, mas a maioria se contenta apenas com suas próprias pelagens de coloração acinzentada. Eles sempre preferem usar a esperteza no lugar da força física, contando com uma variedade de poderes mágicos para realizar seus esquemas, que vão de mudar a própria aparência até sugestionar outras mentes com um simples sussurro. Sendo literalmente embusteiros por essência, os Lapin são tratados com cautela por aqueles que conhecem sua natureza. Mais de uma comunidade que invocou a ajuda de uma dessas criaturas acabou sendo por sua vez trapaceada ao ter seu pedido atendido. Os Coelhos Brer são especialistas em jogos de palavras e não respeitam qualquer tipo de autoridade, tendo especial prazer em enganar aqueles que se mostram arrogantes ou tentam levar a melhor sobre eles. Durante o início da colonização de Marais, um grupo de caçadores de escravos que tentou capturar um Lapin especialmente poderoso acabou transformada em uma matilha de gnolls selvagens, e os descendentes da mesma até hoje buscam vingança por terem caído no ardil de um Compadre Coelho.

Macaco-Gambá

Eles são onívoros, mas podem pegar um porco e fazê-lo em pedaços. Pioneiros os chamavam de macacos-gambá porque diziam que esses animais míticos pareciam com orangotangos e fediam a ovos podres e metano […]

(Shelby Webb – The legend of skunk ape: A pungent figure in Florida folklore)

Os pântanos sombrios do Grande Bayou são conhecidos por abrigar toda sorte de criatura monstruosa: dos temidos Loup-Garou aos massivos Guardiões do Verde. Dentre esses habitantes, os Macacos-Gambá estão entre os mais furtivos e misteriosos. De corpo grande e desengonçado, esses humanoides simiescos são cobertos por uma pelagem espessa, de cor negra, cinzenta ou castanho-avermelhada, sempre com algumas listras de cor mais clara nas costas. Seus braços são mais compridos que as pernas, e todos os membros terminam em patas largas com dedos achatados ligados por membranas, que permitem que a criatura escale árvores com desenvoltura e nade em águas profundas. O rosto é como uma máscara medonha, com dentes estreitos e afiados e olhos que brilham na escuridão. Macacos-gambá se comunicam usando sons agudos e ásperos que lembram vagamente um pássaro noturno. Os Levee do Bayou possuem diversas histórias sobre a origem desses monstros, a maioria envolvendo maldições de bruxas. Nunca aparecendo em grande número, eles costumam ser avistados vagando pela margem de alagadiços rasos, onde caçam seus alimentos favoritos: guaxinins e ovos de crocodilo. Embora tenham tendência a fugir de estranhos, os Macacos-Gambá são curiosos a respeito de assentamentos humanos, e algumas vezes se aproximam para investigar vilarejos Levee ou acampamentos de viajantes. Para evitar que as criaturas ataquem e devorem seus animais de criação, os habitantes do Bayou deixam pequenas oferendas de feijões-verdes, uma comida bastante apreciada por elas, nos limites de suas propriedades.

Horror do Bayou

Havia lendas de um lago oculto nunca vislumbrado por olhos mortais, no qual habitava uma imensa, disforme coisa branca poliposa com olhos luminosos; e os posseiros cochichavam sobre demônios com asas de morcego voando de um lado a outro, fora das cavernas, adentrando o solo, para venerá-la à meia-noite.

(H.P.Lovecraft – O Chamado de Cthulhu)

O Grande Bayou de Marais é um lugar que chama a atenção de estudiosos das ciências arcanas pela grande variedade de magia antiga que concentra, o que leva a várias especulações sobre seu passado. Porém, algumas das coisas que se escondem na extensa região pantanosa ficariam melhores se mantidas afastadas do conhecimento humano. A influência dos Horrores Antigos na área é algo que um pesquisador experiente pode facilmente identificar pela presença de cultos secretos dedicados a essas entidades e algumas das histórias contadas pelos nativos. Mesmo assim, pouco se sabe sobre as criaturas conhecidas como Horrores do Bayou, descritas pelos poucos que as viram como uma massa monstruosa de carne branca e gelatinosa, com tentáculos que se sacodem como serpentes e olhos que brilham como fogo-fátuo. Muitas das testemunhas desses encontros são cultistas insanos capturados, o que deixa maiores informações sobre a coisa pouco confiáveis. Mas isso apenas aumenta a curiosidade das expedições científicas, e a teoria mais corrente é de que os monstros sejam um estágio embrionário de algum outro Horror que há muito tempo deixou o planeta ou ainda se encontra adormecido nas entranhas mais profundas do pântano. A explicação para essa hipótese é que os Horrores do Bayou parecem ser cuidados com um zelo especial pelos cultistas e por outras criaturas abomináveis que habitam a região, como os alados Noitestripas. A dedicação religiosa que esses Horrores recebem inclui não apenas a proteção dos lagos em que vivem como também presentes, em geral vítimas sequestradas pelos cultos para sacrifício.

Galeria – Esquadra Seláquia quarta-feira, dez 3 2014 

 

Em qualquer cidade portuária é possível encontrar alguém que tenha algo a mencionar sobre os ‘demônios do mar’ que navegam sob a bandeira de Aurin. De aparência considerada assustadora para os padrões civilizados, a Esquadra Seláquia é fruto do contato de corsários de sangue quente do Império Aurinês com diversas culturas de colônias tropicais. Assimilando em suas tripulações os aspectos mais visualmente chamativos dos povos com quem se relacionam, os Seláquios são vistos como delinquentes selvagens pelas outras esquadras, mas na verdade esses navegantes possuem um espírito livre e aventureiro, e sentem uma forte aversão em se ajustar à sociedade tradicional. Seus corpos são cobertos por tatuagens, escarificações e todo tipo de modificação corporal, e suas roupas adornadas por adereços tribais. Os Seláquios possuem uma preferência notável por armas de aspecto rústico, com entalhes de madeira e partes de osso. Suas características lâminas serrilhadas podem ser fabricadas de forma artificial, mas as mais tradicionais são revestidas com dentes de tubarão, o que deu origem ao nome da Esquadra.

Seus encontros com civilizações indígenas do Novo Mundo, do Continente Negro e de arquipélagos distantes, durante viagens com propósito original de comércio ou pirataria, acabaram por mostrá-los outras maneiras de enxergar a vida, dando a eles meios de romper com as amarras de que estavam fugindo ao ingressar no mar. Embora os líderes nativos desses locais nem sempre vejam os Seláquios com bons olhos, pela maneira algumas vezes superficial como absorvem seus traços culturais, eles os toleram pelo respeito que demonstram por seus costumes. Os capitães da Esquadra costumam de forma geral ter uma relação mais próxima com as populações das colônias aurinesas devido a essa abertura pessoal, permitindo que realizem cerimônias religiosas em seus portos e dando maior facilidade para nativos se integrarem em suas próprias tripulações. Embora a presença de não-aurineses em navios de corsários não seja incomum, a Esquadra Seláquia possui as tripulações mais diversificadas, e com maiores chances de um negro, indígena ou mestiço assumir uma posição de comando, podendo até mesmo vir a se tornar capitão de seu próprio navio.

O Império Aurinês sabe do valor da Esquadra para estabelecer acordos com as populações nativas ou obter informações sobre os territórios em que elas vivem. Por sua vez Chantal N’Diaye, a líder da esquadra, sabe que esse interesse raramente traz benefícios para seus aliados nativos, mas reconhece que sua frota é pequena e espalhada demais para se colocar contra o Imperador. Além disso, muitos dos capitães ainda possuem fortes raízes com Aurin e desejam provar seu valor à nação com o modo de vida que escolheram. Mesmo assim, ainda que o Império faça o possível para manter a lealdade dos Seláquios, é impossível que não ocorram desavenças entre eles e outros colonizadores da nação, geralmente envolvendo acordos de terras e o tratamento aos nativos. Ainda que seja uma das menores esquadras, os Seláquios são uma força reconhecidamente temida quando provocada. O conhecimento que possuem dos terrenos selvagens e as centenas de guerreiros tribais dispostos a lutar em seu favor fazem com que seus portos sejam lugares temidos e evitados. Cercadas por estacas na areia ostentando ossadas de feras marinhas, as bases isoladas da Esquadra Seláquia deixam claro que o destemor pela morte e a violência sangrenta dos ‘demônios do mar’ podem ser tão reais quanto aparentam caso sejam necessários.

Marais sábado, nov 22 2014 

Marais é um território aurinês, ocupado principalmente por colonos navegadores e descendentes de escravos iroqueses. A pirataria é bastante comum no litoral, fazendo com que mesmo capitães de Aurin necessitem de cuidado ao navegar pelas águas da região.

O Grande Bayou atravessa boa parte da área continental e é uma região pantanosa e extensa, um verdadeiro labirinto para aqueles que não conhecem seus segredos. Ele também abriga Port Vert, a capital da colônia local.

As Ilhas Campeche são um arquipélago tropical que serve a Aurin como local de cultivo e abastecimento de frutas e especiarias diversas, uma rota comercial frequentemente visada por corsários e bucaneiros.

A Terra da Rainha Lagarto é um mundo perdido de feras gigantes, uma vastidão montanhosa ocupada por uma selva hostil, onde apenas algumas tribos nativas conseguem sobreviver.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Grande Bayou

Grande Bayou

Formado pela lenta correnteza do Rio Lafitte e seus afluentes, o Grande Bayou corta o sul de Asabikesh como uma extensa faixa de terreno pantanoso, ocupado por inúmeras pequenas ilhas e florestas alagadas. Alguns pontos são largos o suficiente para permitir até mesmo a passagem de navios de grande porte, porém mais de uma embarcação já se perdeu ou encalhou sendo abandonada para apodrecer ou vagar sem rumo como um fantasma. As águas escuras e esverdeadas abrigam de camarões e mariscos usados na culinária local até feras como crocodilos, cágados gigantes e monstros vegetais. Na foz do Lafitte fica Port Vert, a maior cidade dos colonos aurineses na região. Pelo interior se podem encontrar pequenos vilarejos de pescadores, alguns deles bastante isolados e escondidos. Muitos deles são habitados pelos Levee, um povo mestiço famoso por suas festividades e superstições. Suas histórias acerca da região falam sobre comunidades de lobisomens conhecidos como Loup-Garou, cabanas de feiticeiros guardadas por servos zumbificados e sinistros locais de culto dedicados aos Horrores Antigos.

Ilhas Campeche

Ilhas Campeche

Um arquipélago de treze ilhas tropicais se distribui ao sul de Marais, com areias brancas, matas de coqueiros e águas de um intenso azul. Controladas por corsários de Aurin, elas tem seus portos e rotas de comércio administrados pela Esquadra Delfina, enquanto a Esquadra Seláquia também tem passe livre, mantendo boas relações com os nativos e auxiliando na defesa. Navios do Império Windlês são alvos de saques costumeiros nas águas ao norte, e seus produtos roubados ajudam a estimular o comércio marítimo na região. Porém, o arquipélago por sua vez é vítima frequente de ataques de piratas independentes vindos das Ilhas Marlim ao sul, que recentemente têm tentado estabelecer esconderijos nos pontos mais isolados das próprias Campeche. Esse campo de batalha marítimo mancha de sangue e destroços as praias paradisíacas, mas o perigo não intimida a ambição dos aventureiros que enchem os vilarejos espalhados nas ilhas maiores.

As comunidades de sereias e elfos do mar que vivem nas águas profundas costumam ter uma associação pacífica com os colonos aurineses, mas o mesmo não pode ser dito das tribos de homens-macaco pigmeus que vivem nas matas mais densas. Ninhos de monstros marinhos, tesouros enterrados e ruínas misteriosas são outros elementos que tornam as Campeche tão terríveis quanto fascinantes para seus visitantes. Ultimamente, a abundante promessa de riqueza e prazer tem atraído até mesmo seres como gênios e demônios para as ilhas, interessados nos desejos ardentes que se concentram no arquipélago.

Terra da Rainha Lagarto

Terra da Rainha Lagarto

Esquecida pelo tempo, a Terra da Rainha Lagarto é um santuário da Memória da Terra, uma ilha de matagais cobertos de neblina, vulcões ativos e imensas montanhas. Dinossauros e outras feras ancestrais caminham livremente pelo território da ilha, às vezes indo até a costa para se alimentarem de náufragos perdidos ou exploradores imprudentes. Aurin possui grande interesse nas riquezas naturais da ilha, em especial suas pedras preciosas e depósitos de óleo pétreo, mas sua maior dificuldade nessa empreitada está além dos ataques de animais selvagens. A própria Rainha Lagarto, uma fera sáurica desconhecida de proporções colossais que de alguma forma desenvolveu inteligência, protege suas terras com agressividade contra os invasores, comandando exércitos de humanoides reptilianos. Seus servos escamosos vivem em uma magnífica e antiga cidade de pedra, a última remanescente de uma série de ruínas que pode ser encontrada pela ilha. Nessa metrópole eles veneram sua soberana em seu trono de osso e diamante, se mantendo preparados para o eventual retorno dos horrores cósmicos que um dia devastaram seu reino. Nas profundezas da selva, vive também uma população de humanos nativos, deixados em paz pelos homens-lagarto que não consideram eles uma ameaça. Reclusos e endurecidos pela vida árdua no ambiente perigoso e infestado de monstros, os indígenas da ilha não estão exatamente abertos a confiar em estrangeiros, mas a necessidade de sobreviver costuma torná-los mais razoáveis em relação a ofertas de ajuda mútua.

Introdução – Marais domingo, nov 16 2014 

‘No calor abafado da escuridão eles arranham notas desafinadas, embalando uma noite de insônia e tormento’

A Rainha Bruxa de Marais. Era assim que a chamavam nas redondezas. O casebre de madeira parecia tão humilde quanto qualquer outro na região, mas não era preciso muita atenção para que Booziba sentisse que havia algo de especial naquele lugar. Uma trilha escavada no terreno úmido seguia em um rastro de serpente até o topo da colina, onde a cabana banhada pela lua cheia era guardada pelos crânios sorridentes de ancestrais. Crocodilos observavam silenciosos no abrigo das trevas, os olhares faiscantes de um fogo-fátuo convidando para uma morte certa. O doutor feiticeiro ignorava o perigo e seguia em frente, arrastando um pesado malote manchado de lama e sangue. Enxames de mosquitos se amontoavam sobre um pé que escapava da bagagem, pequenas gotas de rubi se fartando do néctar da carne. Mas não tocavam a pele negra de Booziba, pois seu corpo era pintado com ossos mágicos para repelir os espíritos famintos do pântano.

‘Dentro das paredes eles se arrastam invisíveis, até que a luz os chame para uma breve dança de paixão e declínio’

O doutor feiticeiro parou diante da porta bonita ladeada por vasos de planta, e bateu com a ponta de seu cajado. Ela se abriu sozinha dando passagem para um cômodo espaçoso iluminado por velas e perfumado pela fumaça de ervas. Uma mulher de pele escura como a noite estava sentada em uma cadeira de balanço, a cabeça coberta por um lenço colorido. Fumava um cigarro de palha enquanto cantarolava baixinho uma velha cantiga infantil.

Fazendo uma reverência, Booziba se agachou ao lado do malote e o abriu revelando em seu interior um senhor grisalho, preso por firmes amarras apesar do corpo macilento. Ainda estava respirando, mas entorpecido demais até para notar os cupins rastejando sobre seu corpo, as asas mais frágeis do que seus sonhos. Colocando cuidadosamente o homem inconsciente diante da anfitriã, o rapaz a encarou por trás dos dreadlocks em seu comprido penteado moicano e falou com em sua voz arrastada e tranquila:

-Trouxe a oferenda como suncê pediu, Tia Nancy. Esse daí num foi mole de pegá não, mas dá pra deixá suncê satisfeita inté a próxima lua.

‘Em cantos esquecidos do mundo elas caminham no ar, suspensas em fios prateados de astúcia e sonho’

A senhora colocou a mão em uma mesinha próxima e retirou um boneco de palha com as mesmas feições do homem amarrado diante de seus pés, o estendendo para Booziba enquanto falava em uma voz rouca e profunda:

-Sim, meu amado. Sabe o que tem que fazer. Mostra o dom que eu te ensinei e alimenta sua Tia.

O jovem doutor feiticeiro se sentou no chão com as pernas cruzadas, tirando uma agulha do bolso. De olhos fechados ele riscou o ar diante do boneco, até achar um lugar para fincar seu ferrão espiritual. Com a precisão de um cirurgião a ponta perfurou um ponto invisível, fazendo o cativo se contorcer em um súbito espasmo aterrorizado. O homem amarrado começou então a se debater furioso, um peixe fora de seu oceano de angústia e vício. Os olhos se cobriram de cinza enquanto ele gritava obscenidades com uma língua que não era a sua. Booziba permanecia calmo enquanto continuava sua operação, separando o espírito de seu paciente daquilo que o afligia. Em uma convulsão mais forte, um jato de fumaça negra escapou pela garganta do delirante, se agitando em formas monstruosas. Mas o demônio já estava preso em uma teia invisível, uma rede estendida sobre a encruzilhada dos mundos. Agarrado por quatro patas raiadas de aranha, ele foi arrastado até as presas de Tia Nancy. Todos os oito olhos vítreos da senhora tremeluziam de prazer enquanto a loa aranha se extasiava com sua refeição.

Confuso e desorientado, o homem no chão tentava focar sua visão nublada enquanto Booziba gentilmente o soltava de suas amarras, fumando um cigarro de palha enquanto cantarolava uma velha cantiga infantil.

Sombras da Enchente Turva – Parte 2 sábado, nov 8 2014 

Once again you see an in, discolored skin gives you away
So afraid you kindly gurgle, out a date for me

(Alice in Chains – Sludge Factory)

Não pude fazer nada além de assistir impotente e aterrorizado as águas escuras do dique se lançando sobre Harbor Mill, com a força devastadora de um leviatã desperto de seu sono. O vilarejo que era meu dever proteger, onde havia passado os últimos anos de minha vida criando laços e raízes, agora se desfazia em um assombroso mosaico de pedaços de construções levados pela enxurrada. Saí cambaleando apressado na direção da entrada da fábrica, largando os papéis que havia encontrado pelo caminho. Qualquer esperança que ainda tinha de salvar aquele lugar da condenação havia sido levada embora pela enchente impiedosa.

Mesmo no estado de urgência e confusão mental em que me encontrava, não pude deixar de notar uma mudança de comportamento por parte dos funcionários do moinho. Se antes eles apenas cumpriam suas tarefas alheios a tudo, agora se dispersavam como um enxame de formigas, disparando pelos corredores e escadas com rapidez. Apenas quando alcancei a saída foi que percebi que o alvoroço não era causado pela enchente que atingia suas casas lá embaixo, pois não era para onde eu estava que se dirigiam e sim para o norte da fábrica, na direção da represa. Era como se estivessem sendo convocados por um alarme, embora eu não ouvisse qualquer som lá dentro além dos passos da correria.

Um tremor percorreu meu corpo ao me lembrar do que havia lido nos documentos da fábrica. Estariam aqueles operários submissos recebendo um chamado de seu suposto mestre no fundo do dique? Não pude deixar de lamentar a existência miserável daqueles homens, entregues a uma servidão tão desmedida que os cegava até para as próprias famílias que poderiam estar se afogando na inundação. Eu era o único ali que parecia ter ciência do quanto a situação era grave, e quando os trabalhadores sumiram na direção da barragem arrebentada me senti horrivelmente só diante daquela tragédia, sem possuir quaisquer meios de enfrentá-la.

Nesse momento de desalento me sobreveio outra vez o senso de dever. Se não poderia ajudar as vítimas daquela calamidade, ao menos deveria usar de minha autoridade contra os operários, desertores de seu próprio sangue. Mesmo que estivessem sendo submetidos a um regime de escravidão, nada justificava aquela atitude indiferente. E se necessário fosse para fazê-los retornar ao juízo, enfrentaria o desumano dirigente que os havia deixado naquela situação deplorável, ainda que meu total desconhecimento a respeito de sua identidade enraizasse em minha mente uma desconfiança que continuava a se desenvolver nas mais temerosas suposições.

Foi com estranha surpresa que cheguei até a passarela que margeava a represa e encontrei o local inteiramente deserto, sem qualquer sinal dos operários que haviam seguido por aquele caminho. No fundo do dique, a água que não escoara pela abertura havia formado uma lagoa cuja superfície se agitava com a chuva incessante. Avistei então as escadas de ferro escurecido que conduziam até o lamaçal que rodeava o pequeno lago, e pensei ter visto alguns rastros se desfazendo no lodo ensopado. A baixa profundidade da água tornava impossível que o contingente da fábrica estivesse oculto ali, o que me fez considerar algum tipo de passagem submersa presente desde a construção do lugar.

A figura na capa de chuva que havia visto da janela também tinha desaparecido. Me aproximei um pouco mais da represa, analisando se seria prudente descer e investigar, quando fui tomado de assalto por uma súbita vertigem. Minha visão se tornou nublada, e por um instante tive a impressão de ver um corredor coberto de limo, por onde alguma coisa rastejava na escuridão. O devaneio não durou mais que alguns segundos, mas despertei apenas quando já me encontrava quase despencando para dentro do tanque. A sorte e o preparo físico de minha função me salvaram por um triz, e agarrei rapidamente na beirada do dique enquanto meus pés escorregavam para a morte certa.

Me arrastei de volta para a segurança com dificuldade, sentindo a tontura voltar cada vez que o esforço me fazia perder a concentração em ficar alerta. Era como se aquela imagem do corredor insistisse em invadir meus pensamentos, sem jamais se tornar nítida o bastante para me permitir enxergar o que ela tentava mostrar. Não que isso fosse algo desfavorável, pois a forma sinistra que deslizava através da visão sugeria algo que só poderia sair de um pesadelo. Me questionando se a causa daquilo não seria simplesmente o cansaço pela falta de sono da noite anterior após o crime bárbaro, me afastei daquele lugar perigoso com a sensação constante de que algo me observava das águas inquietas abaixo.

O nível da inundação sobre o vilarejo já havia baixado o suficiente para que eu pudesse deixar o moinho e começar uma busca por sobreviventes nas ruas. Com a água nos meus joelhos, trafeguei com cuidado entre as pilhas flutuantes de entulho que ocupavam a paisagem desoladora e arruinada. Não era fácil vislumbrar o lugar que era minha morada reduzido a um labirinto de destroços, mas logo a angústia foi dando lugar a uma crescente interrogação. A despeito da rápida e devastadora catástrofe, o número de cadáveres que havia encontrado boiando na chuva ou espremido entre os escombros era bem menor do que o esperado, mesmo nas minhas estimativas mais otimistas.

Foi quando me aproximava das docas que o encontrei, olhando na direção do mar em sua capa de lona grossa e amarelada. Me perturbava imensamente a maneira indiferente como reagia à devastação ao seu redor, e o cheiro oleoso de peixe que não conseguia discernir ter origem em suas vestes ou nos depósitos de pescado em ruínas. Ele era como um fantasma da extinta Harbor Mill, um ceifador nascido da enchente que contemplava sua obra hedionda de destruição. E ao me aproximar, ele me encarou com a face repulsiva e escamosa de um filho bastardo do oceano, sorrindo de forma demoníaca com seus dentes afiados de fera marinha.

Imediatamente recuei alguns passos, levando a mão ao cabo de meu machado. O sórdido mestiço permaneceu inabalável, apenas caminhando calmamente em minha direção. Ele então simplesmente parou diante de mim e me analisou com seu olhar inerte debaixo da chuva que aos poucos voltava a aumentar. Sua mão direita carregava um peixe ainda fresco, que escorria sangue por onde sua cabeça havia sido arrancada. Engoli em seco ao me dar conta que aquele certamente era o assassino brutal que havia deixado suas vítimas na praça e na fábrica. Sua postura insensível e o sorriso atroz em seu rosto eliminavam a possibilidade de sua presença ali ser apenas coincidência.

Eu precisava me manter preparado para qualquer movimento suspeito vindo daquela figura ameaçadora, embora soubesse que eram ínfimas minhas chances em um combate corporal. Minha pistola de pederneira estava oculta pelo sobretudo, ao alcance de minha mão, e o elemento surpresa era meu único plano de sobrevivência naquele momento. O homem-peixe porém continuou onde estava, e falou comigo em uma voz tranquila porém áspera, como se houvessem outras fileiras de presas descendo até sua garganta. ‘Eles estão no mar, homenzinho. Seguros em seus barcos. Todos eles já sabiam o que ia acontecer. Eles ouviram o chamado.’

Demorei um instante para compreender que ele estava falando sobre os habitantes das docas. Desviei meu olhar por um breve instante para o mar e pude distinguir na distância as formas escuras das embarcações flutuando sobre as ondas agitadas. Agora se tornava evidente que até mesmo os esquivos pescadores de Harbor Mill estavam envolvidos no esquema abominável que aos poucos se revelava enquanto as águas da inundação baixavam sobre o vilarejo. Tentando me manter calmo enquanto o sujeito medonho permanecia afastado, arrisquei questioná-lo enquanto me mantinha pronto para reagir: -O que significa tudo isso? Por que matou aqueles homens na fábrica?

O homem-peixe simplesmente virou as costas para mim e seguiu seu caminho, enquanto falava desinteressado. ‘Isso não é assunto seu, policial. Agradeça por estar vivo e dê o fora desse lugar. Não há mais nada para você aqui’. Minha vontade foi de aproveitar a oportunidade para disparar contra ele pelas costas, mas mesmo que conseguisse executá-lo isso não me traria respostas ou encerraria o assunto. Ele era apenas o estopim de todos aqueles acontecimentos sinistros, e indubitavelmente sabia sobre o que estava oculto abaixo da superfície. Foi por essa razão que tomei a decisão descuidada de segui-lo em silêncio, algo de que tardiamente me arrependeria.

Não foi uma tarefa simples acompanhá-lo entre os destroços do cais, chapinhando entre a água que ainda escoava da represa e a rebentação do oceano. Durante o percurso, pensei ter ouvido um cântico agourento vindo dos barcos distantes, mas qualquer distração poderia fazer com que eu perdesse o sujeito de vista. Quando finalmente ele parou, eu já me encontrava completamente exausto e coberto de lama da cintura para baixo. O homem-peixe estava diante da abertura circular de um cano de escoamento de esgoto, rodeada por grandes pedaços de escombros. Dentro da tubulação, eu conseguia entrever alguns símbolos singulares, desenhados em uma curiosa tinta de pigmentação azul-elétrica.

Me esgueirando por trás de uma parede de tijolos em ruínas, me acerquei com cuidado e constatei que aquele encanamento só poderia pertencer à fábrica do vilarejo, dadas as suas proporções. Tudo começava a fazer sentido. As marcas azuis no duto tinham o propósito de sinalizar aquele ponto, provavelmente uma rota de fuga dos operários que havia perdido de vista mais cedo. Afastei a água da chuva que escorria pelo meu rosto para enxergá-las melhor quando subitamente a vertigem que havia sentido na represa retornou. Tentei ignorá-la a princípio, mas a maneira como o homem na capa de chuva parecia se preparar me dava a incômoda impressão de que alguma coisa terrível se aproximava.

Nem minha pior perspectiva da situação me deixaria preparado para o que veio a seguir. A coisa volumosa e hedionda surgiu se arrastando pelo interior do cano, exatamente como havia visto em minha visão no dique. Era algo imensuravelmente grotesco, um monstro de corpo oleaginoso da cor do lodo, que se contorcia através da passagem enquanto seus longos tentáculos se contorciam como enguias desvairadas. Mais hórrido do que seu aspecto, no entanto, era o brilho sórdido que emanava dos seus três olhos, me enxergando com uma inteligência vil que se insinuava em minha mente. Aquele era o verdadeiro proprietário do moinho, desejando que eu me tornasse mais um de seus empregados.

Em minha angústia eu entendia o inferno que se abateria em breve sobre o vilarejo, com aquela criatura repulsiva assumindo o controle de cada alma condenada ao seu alcance. Me tornaria mais um entre seus pálidos funcionários, perdendo minha própria identidade na rotina apática e sufocante da fábrica até chegar minha vez de ser deformado nas galerias submersas. Ao erguer a pistola na direção do homem-peixe, cheguei a cogitar disparar em minha própria têmpora para evitar esse insuportável destino, mas para meu absoluto horror essa decisão já me havia sido negada, com todos os meus movimentos agora conduzidos pelo imundo mestre que se aboletava nas profundezas de Harbor Mill.

Não há como descrever os momentos em que fiquei a mercê da presença psíquica daquela abominável entidade de pesadelo, com meus músculos convulsionando contra minha vontade e os dentes batendo em um espasmo frenético. Tudo o que me recordo é de ter atirado contra o homem na capa de chuva, que parecia já estar preparado para aquilo. Escapando de meu disparo, o mestiço avançou em minha direção enquanto o monstro na tubulação parecia de alguma forma impedido de sair pelos símbolos pintados lá dentro. As figuras brilhavam em uma luz intensa e espectral, e só então compreendi que não estavam ali para sinalizar o cano, e sim como um encantamento para impedir aquela coisa de escapar.

Mesmo aprisionado, aquele horror aberrante continuava a me manipular como uma marionete, utilizando-me para enfrentar seu carcereiro enquanto observava com uma calma aterrorizante. Sem nada poder fazer além de assistir de dentro do corpo que me havia sido usurpado, ergui o machado pronto para defender aquele monstro repugnante como um obediente cão de guarda. Antes que eu pudesse desferir o golpe, o homem-peixe agarrou meu antebraço com uma força descomunal, levando sua outra mão membranosa até minha garganta. Seus olhos que nunca piscavam eram tão frios e inumanos quanto os do monstro na tubulação, e eu sabia que ele não teria hesitação em rasgar meu pescoço.

Jamais saberei se foi o preciso controle que a criatura exercia sobre mim ou o instinto de sobrevivência que agiu naquele momento, mas com um movimento mais ágil do que teria tempo de pensar, apanhei minha faca da cintura e a usei para perfurar a mão que me sufocava. Com um grito de dor e surpresa do assassino consegui me libertar do aperto, mas o alívio durou apenas por um instante antes que uma brutal mordida dilacerasse meu braço esquerdo. Com a dor excruciante da ferida aberta, eu não percebi de imediato que havia recuperado o controle sobre meu corpo, e que o horror da represa aproveitava a distração de meu algoz para deslizar de volta ao seu imundo covil na escuridão úmida dos esgotos.

Foi a fuga oportuna daquele terror inominável que, ironicamente, me salvou de ser esquartejado pelo assassino enfurecido. Com uma careta de desaprovação, o homem-peixe quebrou meu outro braço em um movimento brusco, me empurrando com violência na direção do mar antes de sair em perseguição à criatura pelo duto. Incapaz de impedir minha queda, escorreguei pela superfície íngreme e enlameada até mergulhar nas águas escuras e turvadas pela chuva, deixando um rastro de sangue através do horrível ferimento causado pela mordida enquanto afundava. Minhas pernas se debatiam mas não conseguiam vencer a rebentação das ondas, e nesse infrutífero esforço eu senti meu fôlego se esvaindo.

Tudo que me lembro a seguir são fragmentos confusos de luzes no fundo do oceano, brilhando com o mesmo azul intenso e fantasmagórico dos símbolos inarráveis gravados dentro das tubulações de Harbor Mill. Mais tarde eu despertei com o balanço vigoroso do mar, e me vi no interior de uma cabine em um navio à vapor. Cardis estava sentada perto de mim, observando pela pequena janela o forte temporal que se abatia lá fora. Tentei me erguer dos lençóis na vã esperança de que havia acabado de despertar de um pesadelo insano e horripilante, mas o choque agoniante que isso me causou foi sobrepujado apenas pela dor lancinante de meus braços enfaixados, um deles com a atadura ensopada de sangue.

Cardis e eu fomos os únicos sobreviventes encontrados pela tripulação do navio, além dos barcos de pescadores no meio da tempestade que não enviaram qualquer resposta aos sinais da embarcação. Ela jamais me disse como conseguiu escapar da inundação praticamente ilesa, e como me encontrou desacordado já quase sendo devorado pelos caranguejos no fundo do oceano. É possível que as histórias que outrora ouvi sobre ela ter em seu sangue a marca de uma bruxa do mar fossem afinal verdadeiras, mas tendo ela salvado a minha vida, não teria a ingratidão de insistir em um assunto que ela visivelmente não era aberta a falar. Todos temos horrores particulares que preferimos manter nas trevas da ignorância.

No presente momento, enquanto o Império se prepara para enviar soldados e especialistas até Harbor Mill, aproveitando a expansão da nova estrada de ferro, eu tento me readaptar à vida agitada no centro da colônia. As frivolidades cotidianas me distraem dos eventos traumáticos que presenciei, mas não consigo deixar de ouvir atentamente os rumores sobre um culto esotérico desautorizado por Sua Majestade crescendo entre as pequenas aldeias de pescadores do Novo Mundo. Sempre que avisto o agora infausto oceano, me pergunto se não estamos todos ilhados entre uma guerra de leviatãs, apenas aguardando que as águas turbulentas se ergam para sermos tragados por um abismo lúgubre e infindável.

Sombras da Enchente Turva – Parte 1 terça-feira, out 21 2014 

You insult me in my home, you’re forgiven this time
Things go well, your eyes dilate, you shake, and I’m high?

(Alice in Chains – Sludge Factory)

Sobre meu relato a respeito da grande enchente que devastou o vilarejo industrial de Harbor Mill na última primavera e os eventos que culminaram na pavorosa catástrofe que carregou em suas águas mais de uma centena de vidas, peço que aqueles que o tenham em mãos atentem ao que tentarei extrair de minhas ainda confusas memórias. Ainda que os assuntos envolvidos na resolução dessa tragédia possam já estar acima da alçada de minha posição, vejo como minha obrigação alertar sobre a ameaça que pode estar ainda furtiva entre aquelas ruínas encobertas por entulho e lama, e que muitos colonos do Novo Mundo podem estar desinformados a respeito.

Meu nome é Zachary Allen, e como membro da Milícia Cinzenta do Império, havia sido designado como oficial responsável por Harbor Mill, uma responsabilidade que aceitei com dignidade e honra mesmo sabendo que isso me deixaria isolado da agitação das colônias de Asabikesh. Ter a sensação de dever cumprido perante a Coroa era para mim mais significativo do que os confortos e frivolidades advindos da capital, e a tranquilidade do vilarejo cercado de florestas e banhado por um mar de ondas preguiçosas muito me cativava, fazendo com que eu realmente não me importasse em despender minha carreira naquele povoado esquecido e remoto.

Naquela primavera úmida o clima estava mais cerrado que o habitual, e a chuva era quase incessante. Toda a paisagem havia se tornado um melancólico borrão escuro, e o gotejar das infiltrações era minha companhia habitual durante as parcas horas de sono. O pouco movimento no vilarejo diminuíra ainda mais, com apenas um navio ocasional balançando suas velas de forma fantasmagórica no cais. Como raramente haviam ocorrências a serem registradas, eu passava meu tempo entre as patrulhas abrigado no casebre que me havia sido oferecido próximo ao solitário farol, fumando enquanto mirava o soturno oceano da janela embaçada situada nos fundos de meu aposento.

Já estava escuro quando ouvi as batidas apressadas em minha porta e a entreabri para me deparar com os olhos púrpura de Cardis, uma jovem funcionária do governo que cuidava de questões burocráticas em Harbor Mill. Seu sobrenome não era a única coisa que sabia desconhecer a seu respeito. Apesar da aparência franzina, com os cabelos esbranquiçados e curtos sempre cobertos por um simples chapéu de feltro, ela me dava a impressão de alguém mais velho e competente do que tentava parecer. Uma vez, disseram-me que ela era filha de uma bruxa do mar, e sendo isso verdade ou não, penso que talvez tenha se refugiado naquele vilarejo distante para fugir de alguma adversidade obscura em seu passado.

De qualquer forma, ela não tinha se dirigido até minha cabana apenas para uma visita, e quando nem sequer fez menção de entrar para se proteger da água que açoitava as ruas, eu sabia que a questão era urgente. ‘”Tem uma ocorrência na praça central. Você precisa vir'” disse ela na sua voz sempre reservada, dando tempo apenas para que eu pegasse meu casaco, a lanterna e as armas do ofício. Foi assim que adentrei a chuva e a escuridão naquela que seria uma extensa noite, a primeira dentre as mais fatigantes desde que eu assumira meu posto. Naquele momento, preocupado apenas em responder o chamado repentino, eu sequer imaginava o esquema perverso que se encontrava em curso.

Caminhar rapidamente pelas vielas de terra próximas ao cais era uma atividade penosa com o tempo inclemente, e era impossível evitar as poças maiores que tremeluziam com as chamas dos poucos lampiões ainda acesos no interior das modestas residências de madeira carcomida. Ali era o lar dos pescadores e carregadores das docas, que espiavam minha passagem de forma furtiva atrás das janelas acortinadas por redes de pesca. Eles eram os habitantes mais antigos do vilarejo, e os mais desfavorecidos também. Era uma gente desagradável e suspeitosa, mas não eram de causar problemas, desde que ninguém se intrometesse no modo de vida frugal a que estavam acostumados.

Quando cheguei até a praça central, um grupo de residentes da área em pesados sobretudos e guarda-chuvas cercavam um corpo estendido em uma calçada como um bando de corvos negros. Um odor desagradável de peixe impregnava o ar, e apenas quando me aproximei percebi que era exalado pelo indivíduo que era objeto daquela curiosidade. Estava morto, cercado por uma nuvem de sangue escuro diluído na água que o cobria parcialmente. As pernas e o tronco não mostravam nenhum ferimento mortal, possuindo apenas algumas escoriações e manchas de lama. Tentei avistar seu rosto, mas então notei que estava mergulhado em um bueiro aberto, que rugia alimentado pelas águas da chuva.

Apenas quando me acerquei mais e puxei o cadáver pela camisa foi que percebi com um engulho na garganta que não restava mais nada do pescoço para cima. A cabeça do morto havia sido arrancada de forma brutal, deixando pedaços da carne pálida da vítima pendendo da ferida aberta. Tentando não fitar diretamente aquela visão repugnante, arrumei o defunto sobre a calçada e me ajoelhei esfregando a mão sobre meu rosto para tentar conter a náusea. Não era apenas o ferimento grotesco e o fedor incessante de peixe que me fazia embrulhar as entranhas. Havia algo naquela situação que começava a me perturbar imensamente, embora eu ainda não fizesse a menor ideia do que estava acontecendo.

Perante os olhares de pavor dos presentes que aos poucos se aglomeravam naquela cena sangrenta, estava convicto de que deveria encontrar o quanto antes uma resposta para o enigma atroz que era aquela morte. Olhei em volta buscando pela grade enferrujada que deveria tampar aquela boca-de-lobo, ainda esperançoso de que aquilo tivesse sido apenas um terrível acidente causado por um escorregão fatal. Porém, iluminando a rua escura encontrei a proteção de ferro arremessada vários metros abaixo, e a forma como estava dobrada me sugeria de forma perniciosa que havia sido arrancada por mãos fortes o bastante para rasgar um pescoço sem nenhuma dificuldade.

Com a noite avançando e a chuva sem dar sinais de trégua, não restava muito o que fazer naquele momento além de solicitar que ensacassem o cadáver enquanto eu buscava relutante por alguma pista nos bolsos de seu macacão. Não havia nada, salvo algumas ferramentas e objetos pessoais insignificantes. Era intrigante ele estar usando um uniforme do moinho ao lado da represa sem nenhuma identificação, mas o que realmente me assombrou foram as suas mãos, inteiramente pálidas e cobertas por uma pele rançosa e irregular, que formava membranas entre os dedos. Repentinamente, senti quase um alívio por não ter que olhar para o rosto daquela incógnita vítima.

Nenhuma das testemunhas sabia exatamente o que tinha acontecido. Mesmo os que se aventuravam fora de casa dificilmente enxergariam algo na visibilidade precária causada pelo aguaceiro noturno. O carroceiro apavorado que tinha encontrado o corpo dizia ter ouvido um grito abafado, seguido pelo som de algo pesado se chocando contra a via alagada. Seja como fosse, o homem parecia visivelmente perturbado e olhava com uma aversão quase obstinada para o estranho cadáver do operário. O único indício confiável era o macacão industrial do moinho, e concluí que era para lá que deveria me dirigir na manhã seguinte para poder ao menos descobrir a identidade do morto.

Sob um alvorecer cinzento e lúgubre eu caminhava pela escadaria de pedra que seguia até a entrada do nevoento moinho. Cardis havia ficado na prefeitura para ajudar a amenizar o pânico que começava a crescer dentro do populacho à medida que a notícia do suposto assassinato violento se espalhava. Minha única companhia eram os homens de expressão apática que seguiam para o expediente. Não poderia dizer que meu estado de espírito estava muito melhor que o deles. Me sentia profundamente abatido com o fim de minha tranquilidade na outrora pacata Harbor Mill, e o senso de trabalho a ser feito era a única coisa que me mantinha andando naquele momento.

O interior do edifício era ruidoso e opressivo, com paredes se descascando e grandes maquinários corroídos de ferrugem rangendo suas titânicas engrenagens enquanto exalavam uma nuvem de vapor fraco. Mesmo com o lugar em pleno funcionamento tudo ao redor parecia úmido e frio, como uma tumba submersa. Os funcionários caminhavam como tristes fantasmas por aquela paisagem, e enquanto os observava pude começar a entender a razão dos habitantes do vilarejo em geral não simpatizarem com aquela gente. Todos portavam identificações em seus uniformes e não tinham qualquer deformidade física, mas a indiferença com que trafegavam naquele ambiente insalubre me deixava muito desconfortável.

No escuro andar administrativo a atmosfera era ainda pior. Dos corredores fantasmagóricos, uma galeria de quadros extravagantes exibindo todo tipo de criatura marinha me observava com os olhos esgazeados de suas imagens desbotadas. Aquela decoração sinistra conseguia apenas agravar os pensamentos que se aninhavam em minha mente, sobre estar descobrindo um abismo maligno oculto nas entranhas daquele vilarejo. Eu apenas queria interrogar o diretor do moinho e deixar sem demora aquela fábrica funesta, mas ao chegar diante da porta que levava ao fétido escritório principal fui assaltado por uma visão que me atingiu com um golpe ainda mais forte de horror.

Inclinado em sua cadeira, o diretor me recebia inerte, com um buraco ensanguentado na janela encardida ocupando o lugar onde deveria estar sua cabeça. A luz débil que atravessava as vidraças esverdeadas tornava a cena ainda mais nauseante, e tive que me segurar na porta para me recompor daquele cenário de pesadelo. Dois trabalhadores estavam esparramados sobre o chão, mortos da mesma maneira, e enquanto adentrava notei que tinham a mesma pele escamosa daquele que havia sido encontrado na praça da cidade. Recuei então um passo quando percebi que havia uma inscrição grosseira no assoalho, feita com o sangue escuro e oleoso das vítimas. Uma única palavra: ‘ESKUMALHA’.

Estava tudo errado em Harbor Mill. Da noite para o dia, o lugarejo onde pretendia desfrutar de uma vida tranquila tinha se tornado um palco de abominações, e uma monstruosidade ainda pior as estava caçando. Eu nunca tinha dado muita atenção ao moinho, e naquele momento me assombrava a letargia dos trabalhadores, que continuavam a operar as máquinas sem desconfiar de nada. Documentos amarelados e livros de anotações haviam sido mexidos e espalhados na cena do crime. Sem perder mais tempo, recolhi o que podia e me retirei para outro aposento, obstinado a descobrir algo que ao menos me ajudasse a entender o que estava acontecendo, salvando minha mente das próprias especulações.

Enquanto um estrondoso temporal atingia a fábrica, eu vasculhava os papéis sob a luz de minha lanterna, mas nada do que eu encontrava conseguia trazer alguma sobriedade para aquele caso macabro. Ao contrário, eu parecia estar diante de um insólito esquema que consistia em alienar e transformar aqueles trabalhadores do moinho em alguma espécie de escravo especializado, por meio de experimentos e de algum tipo de culto empresarial compulsório. Aqueles que, após um processo gradual, estavam prontos para serem ‘recolhidos’, como era o termo usado nos documentos, eram então levados até um ‘mestre’ que, e essa parte me vi sendo obrigado a reler, os aguardava no fundo da represa.

O moinho nada mais era do que um criadouro de condenados, fabricados para algum propósito inumano. Continuando a ler, descobri que a longo prazo toda Harbor Mill seria incluída nesse esquema terrível. Eu não poderia me permitir ficar ali sentado, deixando que aquela insanidade seguisse adiante. Recolhi todas aquelas evidências para apresentá-las ao Império, mas no momento em que me levantei avistei ao longe pela janela um estranho vulto em uma capa de chuva, parecendo encarar as águas turbulentas do dique. Foi nesse momento que tudo ao redor estremeceu, e com um rugido colossal a parede da represa se partiu, libertando sobre o vilarejo um dilúvio de morte e desespero.

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