Galeria – Esquadra Seláquia quarta-feira, dez 3 2014 

 

Em qualquer cidade portuária é possível encontrar alguém que tenha algo a mencionar sobre os ‘demônios do mar’ que navegam sob a bandeira de Aurin. De aparência considerada assustadora para os padrões civilizados, a Esquadra Seláquia é fruto do contato de corsários de sangue quente do Império Aurinês com diversas culturas de colônias tropicais. Assimilando em suas tripulações os aspectos mais visualmente chamativos dos povos com quem se relacionam, os Seláquios são vistos como delinquentes selvagens pelas outras esquadras, mas na verdade esses navegantes possuem um espírito livre e aventureiro, e sentem uma forte aversão em se ajustar à sociedade tradicional. Seus corpos são cobertos por tatuagens, escarificações e todo tipo de modificação corporal, e suas roupas adornadas por adereços tribais. Os Seláquios possuem uma preferência notável por armas de aspecto rústico, com entalhes de madeira e partes de osso. Suas características lâminas serrilhadas podem ser fabricadas de forma artificial, mas as mais tradicionais são revestidas com dentes de tubarão, o que deu origem ao nome da Esquadra.

Seus encontros com civilizações indígenas do Novo Mundo, do Continente Negro e de arquipélagos distantes, durante viagens com propósito original de comércio ou pirataria, acabaram por mostrá-los outras maneiras de enxergar a vida, dando a eles meios de romper com as amarras de que estavam fugindo ao ingressar no mar. Embora os líderes nativos desses locais nem sempre vejam os Seláquios com bons olhos, pela maneira algumas vezes superficial como absorvem seus traços culturais, eles os toleram pelo respeito que demonstram por seus costumes. Os capitães da Esquadra costumam de forma geral ter uma relação mais próxima com as populações das colônias aurinesas devido a essa abertura pessoal, permitindo que realizem cerimônias religiosas em seus portos e dando maior facilidade para nativos se integrarem em suas próprias tripulações. Embora a presença de não-aurineses em navios de corsários não seja incomum, a Esquadra Seláquia possui as tripulações mais diversificadas, e com maiores chances de um negro, indígena ou mestiço assumir uma posição de comando, podendo até mesmo vir a se tornar capitão de seu próprio navio.

O Império Aurinês sabe do valor da Esquadra para estabelecer acordos com as populações nativas ou obter informações sobre os territórios em que elas vivem. Por sua vez Chantal N’Diaye, a líder da esquadra, sabe que esse interesse raramente traz benefícios para seus aliados nativos, mas reconhece que sua frota é pequena e espalhada demais para se colocar contra o Imperador. Além disso, muitos dos capitães ainda possuem fortes raízes com Aurin e desejam provar seu valor à nação com o modo de vida que escolheram. Mesmo assim, ainda que o Império faça o possível para manter a lealdade dos Seláquios, é impossível que não ocorram desavenças entre eles e outros colonizadores da nação, geralmente envolvendo acordos de terras e o tratamento aos nativos. Ainda que seja uma das menores esquadras, os Seláquios são uma força reconhecidamente temida quando provocada. O conhecimento que possuem dos terrenos selvagens e as centenas de guerreiros tribais dispostos a lutar em seu favor fazem com que seus portos sejam lugares temidos e evitados. Cercadas por estacas na areia ostentando ossadas de feras marinhas, as bases isoladas da Esquadra Seláquia deixam claro que o destemor pela morte e a violência sangrenta dos ‘demônios do mar’ podem ser tão reais quanto aparentam caso sejam necessários.

Marais sábado, nov 22 2014 

Marais é um território aurinês, ocupado principalmente por colonos navegadores e descendentes de escravos iroqueses. A pirataria é bastante comum no litoral, fazendo com que mesmo capitães de Aurin necessitem de cuidado ao navegar pelas águas da região.

O Grande Bayou atravessa boa parte da área continental e é uma região pantanosa e extensa, um verdadeiro labirinto para aqueles que não conhecem seus segredos. Ele também abriga Port Vert, a capital da colônia local.

As Ilhas Campeche são um arquipélago tropical que serve a Aurin como local de cultivo e abastecimento de frutas e especiarias diversas, uma rota comercial frequentemente visada por corsários e bucaneiros.

A Terra da Rainha Lagarto é um mundo perdido de feras gigantes, uma vastidão montanhosa ocupada por uma selva hostil, onde apenas algumas tribos nativas conseguem sobreviver.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Grande Bayou

Grande Bayou

Formado pela lenta correnteza do Rio Lafitte e seus afluentes, o Grande Bayou corta o sul de Asabikesh como uma extensa faixa de terreno pantanoso, ocupado por inúmeras pequenas ilhas e florestas alagadas. Alguns pontos são largos o suficiente para permitir até mesmo a passagem de navios de grande porte, porém mais de uma embarcação já se perdeu ou encalhou sendo abandonada para apodrecer ou vagar sem rumo como um fantasma. As águas escuras e esverdeadas abrigam de camarões e mariscos usados na culinária local até feras como crocodilos, cágados gigantes e monstros vegetais. Na foz do Lafitte fica Port Vert, a maior cidade dos colonos aurineses na região. Pelo interior se podem encontrar pequenos vilarejos de pescadores, alguns deles bastante isolados e escondidos. Muitos deles são habitados pelos Levee, um povo mestiço famoso por suas festividades e superstições. Suas histórias acerca da região falam sobre comunidades de lobisomens conhecidos como Loup-Garou, cabanas de feiticeiros guardadas por servos zumbificados e sinistros locais de culto dedicados aos Horrores Antigos.

Ilhas Campeche

Ilhas Campeche

Um arquipélago de treze ilhas tropicais se distribui ao sul de Marais, com areias brancas, matas de coqueiros e águas de um intenso azul. Controladas por corsários de Aurin, elas tem seus portos e rotas de comércio administrados pela Esquadra Delfina, enquanto a Esquadra Seláquia também tem passe livre, mantendo boas relações com os nativos e auxiliando na defesa. Navios do Império Windlês são alvos de saques costumeiros nas águas ao norte, e seus produtos roubados ajudam a estimular o comércio marítimo na região. Porém, o arquipélago por sua vez é vítima frequente de ataques de piratas independentes vindos das Ilhas Marlim ao sul, que recentemente têm tentado estabelecer esconderijos nos pontos mais isolados das próprias Campeche. Esse campo de batalha marítimo mancha de sangue e destroços as praias paradisíacas, mas o perigo não intimida a ambição dos aventureiros que enchem os vilarejos espalhados nas ilhas maiores.

As comunidades de sereias e elfos do mar que vivem nas águas profundas costumam ter uma associação pacífica com os colonos aurineses, mas o mesmo não pode ser dito das tribos de homens-macaco pigmeus que vivem nas matas mais densas. Ninhos de monstros marinhos, tesouros enterrados e ruínas misteriosas são outros elementos que tornam as Campeche tão terríveis quanto fascinantes para seus visitantes. Ultimamente, a abundante promessa de riqueza e prazer tem atraído até mesmo seres como gênios e demônios para as ilhas, interessados nos desejos ardentes que se concentram no arquipélago.

Terra da Rainha Lagarto

Terra da Rainha Lagarto

Esquecida pelo tempo, a Terra da Rainha Lagarto é um santuário da Memória da Terra, uma ilha de matagais cobertos de neblina, vulcões ativos e imensas montanhas. Dinossauros e outras feras ancestrais caminham livremente pelo território da ilha, às vezes indo até a costa para se alimentarem de náufragos perdidos ou exploradores imprudentes. Aurin possui grande interesse nas riquezas naturais da ilha, em especial suas pedras preciosas e depósitos de óleo pétreo, mas sua maior dificuldade nessa empreitada está além dos ataques de animais selvagens. A própria Rainha Lagarto, uma fera sáurica desconhecida de proporções colossais que de alguma forma desenvolveu inteligência, protege suas terras com agressividade contra os invasores, comandando exércitos de humanoides reptilianos. Seus servos escamosos vivem em uma magnífica e antiga cidade de pedra, a última remanescente de uma série de ruínas que pode ser encontrada pela ilha. Nessa metrópole eles veneram sua soberana em seu trono de osso e diamante, se mantendo preparados para o eventual retorno dos horrores cósmicos que um dia devastaram seu reino. Nas profundezas da selva, vive também uma população de humanos nativos, deixados em paz pelos homens-lagarto que não consideram eles uma ameaça. Reclusos e endurecidos pela vida árdua no ambiente perigoso e infestado de monstros, os indígenas da ilha não estão exatamente abertos a confiar em estrangeiros, mas a necessidade de sobreviver costuma torná-los mais razoáveis em relação a ofertas de ajuda mútua.

Introdução – Marais domingo, nov 16 2014 

‘No calor abafado da escuridão eles arranham notas desafinadas, embalando uma noite de insônia e tormento’

A Rainha Bruxa de Marais. Era assim que a chamavam nas redondezas. O casebre de madeira parecia tão humilde quanto qualquer outro na região, mas não era preciso muita atenção para que Booziba sentisse que havia algo de especial naquele lugar. Uma trilha escavada no terreno úmido seguia em um rastro de serpente até o topo da colina, onde a cabana banhada pela lua cheia era guardada pelos crânios sorridentes de ancestrais. Crocodilos observavam silenciosos no abrigo das trevas, os olhares faiscantes de um fogo-fátuo convidando para uma morte certa. O doutor feiticeiro ignorava o perigo e seguia em frente, arrastando um pesado malote manchado de lama e sangue. Enxames de mosquitos se amontoavam sobre um pé que escapava da bagagem, pequenas gotas de rubi se fartando do néctar da carne. Mas não tocavam a pele negra de Booziba, pois seu corpo era pintado com ossos mágicos para repelir os espíritos famintos do pântano.

‘Dentro das paredes eles se arrastam invisíveis, até que a luz os chame para uma breve dança de paixão e declínio’

O doutor feiticeiro parou diante da porta bonita ladeada por vasos de planta, e bateu com a ponta de seu cajado. Ela se abriu sozinha dando passagem para um cômodo espaçoso iluminado por velas e perfumado pela fumaça de ervas. Uma mulher de pele escura como a noite estava sentada em uma cadeira de balanço, a cabeça coberta por um lenço colorido. Fumava um cigarro de palha enquanto cantarolava baixinho uma velha cantiga infantil.

Fazendo uma reverência, Booziba se agachou ao lado do malote e o abriu revelando em seu interior um senhor grisalho, preso por firmes amarras apesar do corpo macilento. Ainda estava respirando, mas entorpecido demais até para notar os cupins rastejando sobre seu corpo, as asas mais frágeis do que seus sonhos. Colocando cuidadosamente o homem inconsciente diante da anfitriã, o rapaz a encarou por trás dos dreadlocks em seu comprido penteado moicano e falou com em sua voz arrastada e tranquila:

-Trouxe a oferenda como suncê pediu, Tia Nancy. Esse daí num foi mole de pegá não, mas dá pra deixá suncê satisfeita inté a próxima lua.

‘Em cantos esquecidos do mundo elas caminham no ar, suspensas em fios prateados de astúcia e sonho’

A senhora colocou a mão em uma mesinha próxima e retirou um boneco de palha com as mesmas feições do homem amarrado diante de seus pés, o estendendo para Booziba enquanto falava em uma voz rouca e profunda:

-Sim, meu amado. Sabe o que tem que fazer. Mostra o dom que eu te ensinei e alimenta sua Tia.

O jovem doutor feiticeiro se sentou no chão com as pernas cruzadas, tirando uma agulha do bolso. De olhos fechados ele riscou o ar diante do boneco, até achar um lugar para fincar seu ferrão espiritual. Com a precisão de um cirurgião a ponta perfurou um ponto invisível, fazendo o cativo se contorcer em um súbito espasmo aterrorizado. O homem amarrado começou então a se debater furioso, um peixe fora de seu oceano de angústia e vício. Os olhos se cobriram de cinza enquanto ele gritava obscenidades com uma língua que não era a sua. Booziba permanecia calmo enquanto continuava sua operação, separando o espírito de seu paciente daquilo que o afligia. Em uma convulsão mais forte, um jato de fumaça negra escapou pela garganta do delirante, se agitando em formas monstruosas. Mas o demônio já estava preso em uma teia invisível, uma rede estendida sobre a encruzilhada dos mundos. Agarrado por quatro patas raiadas de aranha, ele foi arrastado até as presas de Tia Nancy. Todos os oito olhos vítreos da senhora tremeluziam de prazer enquanto a loa aranha se extasiava com sua refeição.

Confuso e desorientado, o homem no chão tentava focar sua visão nublada enquanto Booziba gentilmente o soltava de suas amarras, fumando um cigarro de palha enquanto cantarolava uma velha cantiga infantil.

Sombras da Enchente Turva – Parte 2 sábado, nov 8 2014 

Once again you see an in, discolored skin gives you away
So afraid you kindly gurgle, out a date for me

(Alice in Chains – Sludge Factory)

Não pude fazer nada além de assistir impotente e aterrorizado as águas escuras do dique se lançando sobre Harbor Mill, com a força devastadora de um leviatã desperto de seu sono. O vilarejo que era meu dever proteger, onde havia passado os últimos anos de minha vida criando laços e raízes, agora se desfazia em um assombroso mosaico de pedaços de construções levados pela enxurrada. Saí cambaleando apressado na direção da entrada da fábrica, largando os papéis que havia encontrado pelo caminho. Qualquer esperança que ainda tinha de salvar aquele lugar da condenação havia sido levada embora pela enchente impiedosa.

Mesmo no estado de urgência e confusão mental em que me encontrava, não pude deixar de notar uma mudança de comportamento por parte dos funcionários do moinho. Se antes eles apenas cumpriam suas tarefas alheios a tudo, agora se dispersavam como um enxame de formigas, disparando pelos corredores e escadas com rapidez. Apenas quando alcancei a saída foi que percebi que o alvoroço não era causado pela enchente que atingia suas casas lá embaixo, pois não era para onde eu estava que se dirigiam e sim para o norte da fábrica, na direção da represa. Era como se estivessem sendo convocados por um alarme, embora eu não ouvisse qualquer som lá dentro além dos passos da correria.

Um tremor percorreu meu corpo ao me lembrar do que havia lido nos documentos da fábrica. Estariam aqueles operários submissos recebendo um chamado de seu suposto mestre no fundo do dique? Não pude deixar de lamentar a existência miserável daqueles homens, entregues a uma servidão tão desmedida que os cegava até para as próprias famílias que poderiam estar se afogando na inundação. Eu era o único ali que parecia ter ciência do quanto a situação era grave, e quando os trabalhadores sumiram na direção da barragem arrebentada me senti horrivelmente só diante daquela tragédia, sem possuir quaisquer meios de enfrentá-la.

Nesse momento de desalento me sobreveio outra vez o senso de dever. Se não poderia ajudar as vítimas daquela calamidade, ao menos deveria usar de minha autoridade contra os operários, desertores de seu próprio sangue. Mesmo que estivessem sendo submetidos a um regime de escravidão, nada justificava aquela atitude indiferente. E se necessário fosse para fazê-los retornar ao juízo, enfrentaria o desumano dirigente que os havia deixado naquela situação deplorável, ainda que meu total desconhecimento a respeito de sua identidade enraizasse em minha mente uma desconfiança que continuava a se desenvolver nas mais temerosas suposições.

Foi com estranha surpresa que cheguei até a passarela que margeava a represa e encontrei o local inteiramente deserto, sem qualquer sinal dos operários que haviam seguido por aquele caminho. No fundo do dique, a água que não escoara pela abertura havia formado uma lagoa cuja superfície se agitava com a chuva incessante. Avistei então as escadas de ferro escurecido que conduziam até o lamaçal que rodeava o pequeno lago, e pensei ter visto alguns rastros se desfazendo no lodo ensopado. A baixa profundidade da água tornava impossível que o contingente da fábrica estivesse oculto ali, o que me fez considerar algum tipo de passagem submersa presente desde a construção do lugar.

A figura na capa de chuva que havia visto da janela também tinha desaparecido. Me aproximei um pouco mais da represa, analisando se seria prudente descer e investigar, quando fui tomado de assalto por uma súbita vertigem. Minha visão se tornou nublada, e por um instante tive a impressão de ver um corredor coberto de limo, por onde alguma coisa rastejava na escuridão. O devaneio não durou mais que alguns segundos, mas despertei apenas quando já me encontrava quase despencando para dentro do tanque. A sorte e o preparo físico de minha função me salvaram por um triz, e agarrei rapidamente na beirada do dique enquanto meus pés escorregavam para a morte certa.

Me arrastei de volta para a segurança com dificuldade, sentindo a tontura voltar cada vez que o esforço me fazia perder a concentração em ficar alerta. Era como se aquela imagem do corredor insistisse em invadir meus pensamentos, sem jamais se tornar nítida o bastante para me permitir enxergar o que ela tentava mostrar. Não que isso fosse algo desfavorável, pois a forma sinistra que deslizava através da visão sugeria algo que só poderia sair de um pesadelo. Me questionando se a causa daquilo não seria simplesmente o cansaço pela falta de sono da noite anterior após o crime bárbaro, me afastei daquele lugar perigoso com a sensação constante de que algo me observava das águas inquietas abaixo.

O nível da inundação sobre o vilarejo já havia baixado o suficiente para que eu pudesse deixar o moinho e começar uma busca por sobreviventes nas ruas. Com a água nos meus joelhos, trafeguei com cuidado entre as pilhas flutuantes de entulho que ocupavam a paisagem desoladora e arruinada. Não era fácil vislumbrar o lugar que era minha morada reduzido a um labirinto de destroços, mas logo a angústia foi dando lugar a uma crescente interrogação. A despeito da rápida e devastadora catástrofe, o número de cadáveres que havia encontrado boiando na chuva ou espremido entre os escombros era bem menor do que o esperado, mesmo nas minhas estimativas mais otimistas.

Foi quando me aproximava das docas que o encontrei, olhando na direção do mar em sua capa de lona grossa e amarelada. Me perturbava imensamente a maneira indiferente como reagia à devastação ao seu redor, e o cheiro oleoso de peixe que não conseguia discernir ter origem em suas vestes ou nos depósitos de pescado em ruínas. Ele era como um fantasma da extinta Harbor Mill, um ceifador nascido da enchente que contemplava sua obra hedionda de destruição. E ao me aproximar, ele me encarou com a face repulsiva e escamosa de um filho bastardo do oceano, sorrindo de forma demoníaca com seus dentes afiados de fera marinha.

Imediatamente recuei alguns passos, levando a mão ao cabo de meu machado. O sórdido mestiço permaneceu inabalável, apenas caminhando calmamente em minha direção. Ele então simplesmente parou diante de mim e me analisou com seu olhar inerte debaixo da chuva que aos poucos voltava a aumentar. Sua mão direita carregava um peixe ainda fresco, que escorria sangue por onde sua cabeça havia sido arrancada. Engoli em seco ao me dar conta que aquele certamente era o assassino brutal que havia deixado suas vítimas na praça e na fábrica. Sua postura insensível e o sorriso atroz em seu rosto eliminavam a possibilidade de sua presença ali ser apenas coincidência.

Eu precisava me manter preparado para qualquer movimento suspeito vindo daquela figura ameaçadora, embora soubesse que eram ínfimas minhas chances em um combate corporal. Minha pistola de pederneira estava oculta pelo sobretudo, ao alcance de minha mão, e o elemento surpresa era meu único plano de sobrevivência naquele momento. O homem-peixe porém continuou onde estava, e falou comigo em uma voz tranquila porém áspera, como se houvessem outras fileiras de presas descendo até sua garganta. ‘Eles estão no mar, homenzinho. Seguros em seus barcos. Todos eles já sabiam o que ia acontecer. Eles ouviram o chamado.’

Demorei um instante para compreender que ele estava falando sobre os habitantes das docas. Desviei meu olhar por um breve instante para o mar e pude distinguir na distância as formas escuras das embarcações flutuando sobre as ondas agitadas. Agora se tornava evidente que até mesmo os esquivos pescadores de Harbor Mill estavam envolvidos no esquema abominável que aos poucos se revelava enquanto as águas da inundação baixavam sobre o vilarejo. Tentando me manter calmo enquanto o sujeito medonho permanecia afastado, arrisquei questioná-lo enquanto me mantinha pronto para reagir: -O que significa tudo isso? Por que matou aqueles homens na fábrica?

O homem-peixe simplesmente virou as costas para mim e seguiu seu caminho, enquanto falava desinteressado. ‘Isso não é assunto seu, policial. Agradeça por estar vivo e dê o fora desse lugar. Não há mais nada para você aqui’. Minha vontade foi de aproveitar a oportunidade para disparar contra ele pelas costas, mas mesmo que conseguisse executá-lo isso não me traria respostas ou encerraria o assunto. Ele era apenas o estopim de todos aqueles acontecimentos sinistros, e indubitavelmente sabia sobre o que estava oculto abaixo da superfície. Foi por essa razão que tomei a decisão descuidada de segui-lo em silêncio, algo de que tardiamente me arrependeria.

Não foi uma tarefa simples acompanhá-lo entre os destroços do cais, chapinhando entre a água que ainda escoava da represa e a rebentação do oceano. Durante o percurso, pensei ter ouvido um cântico agourento vindo dos barcos distantes, mas qualquer distração poderia fazer com que eu perdesse o sujeito de vista. Quando finalmente ele parou, eu já me encontrava completamente exausto e coberto de lama da cintura para baixo. O homem-peixe estava diante da abertura circular de um cano de escoamento de esgoto, rodeada por grandes pedaços de escombros. Dentro da tubulação, eu conseguia entrever alguns símbolos singulares, desenhados em uma curiosa tinta de pigmentação azul-elétrica.

Me esgueirando por trás de uma parede de tijolos em ruínas, me acerquei com cuidado e constatei que aquele encanamento só poderia pertencer à fábrica do vilarejo, dadas as suas proporções. Tudo começava a fazer sentido. As marcas azuis no duto tinham o propósito de sinalizar aquele ponto, provavelmente uma rota de fuga dos operários que havia perdido de vista mais cedo. Afastei a água da chuva que escorria pelo meu rosto para enxergá-las melhor quando subitamente a vertigem que havia sentido na represa retornou. Tentei ignorá-la a princípio, mas a maneira como o homem na capa de chuva parecia se preparar me dava a incômoda impressão de que alguma coisa terrível se aproximava.

Nem minha pior perspectiva da situação me deixaria preparado para o que veio a seguir. A coisa volumosa e hedionda surgiu se arrastando pelo interior do cano, exatamente como havia visto em minha visão no dique. Era algo imensuravelmente grotesco, um monstro de corpo oleaginoso da cor do lodo, que se contorcia através da passagem enquanto seus longos tentáculos se contorciam como enguias desvairadas. Mais hórrido do que seu aspecto, no entanto, era o brilho sórdido que emanava dos seus três olhos, me enxergando com uma inteligência vil que se insinuava em minha mente. Aquele era o verdadeiro proprietário do moinho, desejando que eu me tornasse mais um de seus empregados.

Em minha angústia eu entendia o inferno que se abateria em breve sobre o vilarejo, com aquela criatura repulsiva assumindo o controle de cada alma condenada ao seu alcance. Me tornaria mais um entre seus pálidos funcionários, perdendo minha própria identidade na rotina apática e sufocante da fábrica até chegar minha vez de ser deformado nas galerias submersas. Ao erguer a pistola na direção do homem-peixe, cheguei a cogitar disparar em minha própria têmpora para evitar esse insuportável destino, mas para meu absoluto horror essa decisão já me havia sido negada, com todos os meus movimentos agora conduzidos pelo imundo mestre que se aboletava nas profundezas de Harbor Mill.

Não há como descrever os momentos em que fiquei a mercê da presença psíquica daquela abominável entidade de pesadelo, com meus músculos convulsionando contra minha vontade e os dentes batendo em um espasmo frenético. Tudo o que me recordo é de ter atirado contra o homem na capa de chuva, que parecia já estar preparado para aquilo. Escapando de meu disparo, o mestiço avançou em minha direção enquanto o monstro na tubulação parecia de alguma forma impedido de sair pelos símbolos pintados lá dentro. As figuras brilhavam em uma luz intensa e espectral, e só então compreendi que não estavam ali para sinalizar o cano, e sim como um encantamento para impedir aquela coisa de escapar.

Mesmo aprisionado, aquele horror aberrante continuava a me manipular como uma marionete, utilizando-me para enfrentar seu carcereiro enquanto observava com uma calma aterrorizante. Sem nada poder fazer além de assistir de dentro do corpo que me havia sido usurpado, ergui o machado pronto para defender aquele monstro repugnante como um obediente cão de guarda. Antes que eu pudesse desferir o golpe, o homem-peixe agarrou meu antebraço com uma força descomunal, levando sua outra mão membranosa até minha garganta. Seus olhos que nunca piscavam eram tão frios e inumanos quanto os do monstro na tubulação, e eu sabia que ele não teria hesitação em rasgar meu pescoço.

Jamais saberei se foi o preciso controle que a criatura exercia sobre mim ou o instinto de sobrevivência que agiu naquele momento, mas com um movimento mais ágil do que teria tempo de pensar, apanhei minha faca da cintura e a usei para perfurar a mão que me sufocava. Com um grito de dor e surpresa do assassino consegui me libertar do aperto, mas o alívio durou apenas por um instante antes que uma brutal mordida dilacerasse meu braço esquerdo. Com a dor excruciante da ferida aberta, eu não percebi de imediato que havia recuperado o controle sobre meu corpo, e que o horror da represa aproveitava a distração de meu algoz para deslizar de volta ao seu imundo covil na escuridão úmida dos esgotos.

Foi a fuga oportuna daquele terror inominável que, ironicamente, me salvou de ser esquartejado pelo assassino enfurecido. Com uma careta de desaprovação, o homem-peixe quebrou meu outro braço em um movimento brusco, me empurrando com violência na direção do mar antes de sair em perseguição à criatura pelo duto. Incapaz de impedir minha queda, escorreguei pela superfície íngreme e enlameada até mergulhar nas águas escuras e turvadas pela chuva, deixando um rastro de sangue através do horrível ferimento causado pela mordida enquanto afundava. Minhas pernas se debatiam mas não conseguiam vencer a rebentação das ondas, e nesse infrutífero esforço eu senti meu fôlego se esvaindo.

Tudo que me lembro a seguir são fragmentos confusos de luzes no fundo do oceano, brilhando com o mesmo azul intenso e fantasmagórico dos símbolos inarráveis gravados dentro das tubulações de Harbor Mill. Mais tarde eu despertei com o balanço vigoroso do mar, e me vi no interior de uma cabine em um navio à vapor. Cardis estava sentada perto de mim, observando pela pequena janela o forte temporal que se abatia lá fora. Tentei me erguer dos lençóis na vã esperança de que havia acabado de despertar de um pesadelo insano e horripilante, mas o choque agoniante que isso me causou foi sobrepujado apenas pela dor lancinante de meus braços enfaixados, um deles com a atadura ensopada de sangue.

Cardis e eu fomos os únicos sobreviventes encontrados pela tripulação do navio, além dos barcos de pescadores no meio da tempestade que não enviaram qualquer resposta aos sinais da embarcação. Ela jamais me disse como conseguiu escapar da inundação praticamente ilesa, e como me encontrou desacordado já quase sendo devorado pelos caranguejos no fundo do oceano. É possível que as histórias que outrora ouvi sobre ela ter em seu sangue a marca de uma bruxa do mar fossem afinal verdadeiras, mas tendo ela salvado a minha vida, não teria a ingratidão de insistir em um assunto que ela visivelmente não era aberta a falar. Todos temos horrores particulares que preferimos manter nas trevas da ignorância.

No presente momento, enquanto o Império se prepara para enviar soldados e especialistas até Harbor Mill, aproveitando a expansão da nova estrada de ferro, eu tento me readaptar à vida agitada no centro da colônia. As frivolidades cotidianas me distraem dos eventos traumáticos que presenciei, mas não consigo deixar de ouvir atentamente os rumores sobre um culto esotérico desautorizado por Sua Majestade crescendo entre as pequenas aldeias de pescadores do Novo Mundo. Sempre que avisto o agora infausto oceano, me pergunto se não estamos todos ilhados entre uma guerra de leviatãs, apenas aguardando que as águas turbulentas se ergam para sermos tragados por um abismo lúgubre e infindável.

Sombras da Enchente Turva – Parte 1 terça-feira, out 21 2014 

You insult me in my home, you’re forgiven this time
Things go well, your eyes dilate, you shake, and I’m high?

(Alice in Chains – Sludge Factory)

Sobre meu relato a respeito da grande enchente que devastou o vilarejo industrial de Harbor Mill na última primavera e os eventos que culminaram na pavorosa catástrofe que carregou em suas águas mais de uma centena de vidas, peço que aqueles que o tenham em mãos atentem ao que tentarei extrair de minhas ainda confusas memórias. Ainda que os assuntos envolvidos na resolução dessa tragédia possam já estar acima da alçada de minha posição, vejo como minha obrigação alertar sobre a ameaça que pode estar ainda furtiva entre aquelas ruínas encobertas por entulho e lama, e que muitos colonos do Novo Mundo podem estar desinformados a respeito.

Meu nome é Zachary Allen, e como membro da Milícia Cinzenta do Império, havia sido designado como oficial responsável por Harbor Mill, uma responsabilidade que aceitei com dignidade e honra mesmo sabendo que isso me deixaria isolado da agitação das colônias de Asabikesh. Ter a sensação de dever cumprido perante a Coroa era para mim mais significativo do que os confortos e frivolidades advindos da capital, e a tranquilidade do vilarejo cercado de florestas e banhado por um mar de ondas preguiçosas muito me cativava, fazendo com que eu realmente não me importasse em despender minha carreira naquele povoado esquecido e remoto.

Naquela primavera úmida o clima estava mais cerrado que o habitual, e a chuva era quase incessante. Toda a paisagem havia se tornado um melancólico borrão escuro, e o gotejar das infiltrações era minha companhia habitual durante as parcas horas de sono. O pouco movimento no vilarejo diminuíra ainda mais, com apenas um navio ocasional balançando suas velas de forma fantasmagórica no cais. Como raramente haviam ocorrências a serem registradas, eu passava meu tempo entre as patrulhas abrigado no casebre que me havia sido oferecido próximo ao solitário farol, fumando enquanto mirava o soturno oceano da janela embaçada situada nos fundos de meu aposento.

Já estava escuro quando ouvi as batidas apressadas em minha porta e a entreabri para me deparar com os olhos púrpura de Cardis, uma jovem funcionária do governo que cuidava de questões burocráticas em Harbor Mill. Seu sobrenome não era a única coisa que sabia desconhecer a seu respeito. Apesar da aparência franzina, com os cabelos esbranquiçados e curtos sempre cobertos por um simples chapéu de feltro, ela me dava a impressão de alguém mais velho e competente do que tentava parecer. Uma vez, disseram-me que ela era filha de uma bruxa do mar, e sendo isso verdade ou não, penso que talvez tenha se refugiado naquele vilarejo distante para fugir de alguma adversidade obscura em seu passado.

De qualquer forma, ela não tinha se dirigido até minha cabana apenas para uma visita, e quando nem sequer fez menção de entrar para se proteger da água que açoitava as ruas, eu sabia que a questão era urgente. ‘”Tem uma ocorrência na praça central. Você precisa vir'” disse ela na sua voz sempre reservada, dando tempo apenas para que eu pegasse meu casaco, a lanterna e as armas do ofício. Foi assim que adentrei a chuva e a escuridão naquela que seria uma extensa noite, a primeira dentre as mais fatigantes desde que eu assumira meu posto. Naquele momento, preocupado apenas em responder o chamado repentino, eu sequer imaginava o esquema perverso que se encontrava em curso.

Caminhar rapidamente pelas vielas de terra próximas ao cais era uma atividade penosa com o tempo inclemente, e era impossível evitar as poças maiores que tremeluziam com as chamas dos poucos lampiões ainda acesos no interior das modestas residências de madeira carcomida. Ali era o lar dos pescadores e carregadores das docas, que espiavam minha passagem de forma furtiva atrás das janelas acortinadas por redes de pesca. Eles eram os habitantes mais antigos do vilarejo, e os mais desfavorecidos também. Era uma gente desagradável e suspeitosa, mas não eram de causar problemas, desde que ninguém se intrometesse no modo de vida frugal a que estavam acostumados.

Quando cheguei até a praça central, um grupo de residentes da área em pesados sobretudos e guarda-chuvas cercavam um corpo estendido em uma calçada como um bando de corvos negros. Um odor desagradável de peixe impregnava o ar, e apenas quando me aproximei percebi que era exalado pelo indivíduo que era objeto daquela curiosidade. Estava morto, cercado por uma nuvem de sangue escuro diluído na água que o cobria parcialmente. As pernas e o tronco não mostravam nenhum ferimento mortal, possuindo apenas algumas escoriações e manchas de lama. Tentei avistar seu rosto, mas então notei que estava mergulhado em um bueiro aberto, que rugia alimentado pelas águas da chuva.

Apenas quando me acerquei mais e puxei o cadáver pela camisa foi que percebi com um engulho na garganta que não restava mais nada do pescoço para cima. A cabeça do morto havia sido arrancada de forma brutal, deixando pedaços da carne pálida da vítima pendendo da ferida aberta. Tentando não fitar diretamente aquela visão repugnante, arrumei o defunto sobre a calçada e me ajoelhei esfregando a mão sobre meu rosto para tentar conter a náusea. Não era apenas o ferimento grotesco e o fedor incessante de peixe que me fazia embrulhar as entranhas. Havia algo naquela situação que começava a me perturbar imensamente, embora eu ainda não fizesse a menor ideia do que estava acontecendo.

Perante os olhares de pavor dos presentes que aos poucos se aglomeravam naquela cena sangrenta, estava convicto de que deveria encontrar o quanto antes uma resposta para o enigma atroz que era aquela morte. Olhei em volta buscando pela grade enferrujada que deveria tampar aquela boca-de-lobo, ainda esperançoso de que aquilo tivesse sido apenas um terrível acidente causado por um escorregão fatal. Porém, iluminando a rua escura encontrei a proteção de ferro arremessada vários metros abaixo, e a forma como estava dobrada me sugeria de forma perniciosa que havia sido arrancada por mãos fortes o bastante para rasgar um pescoço sem nenhuma dificuldade.

Com a noite avançando e a chuva sem dar sinais de trégua, não restava muito o que fazer naquele momento além de solicitar que ensacassem o cadáver enquanto eu buscava relutante por alguma pista nos bolsos de seu macacão. Não havia nada, salvo algumas ferramentas e objetos pessoais insignificantes. Era intrigante ele estar usando um uniforme do moinho ao lado da represa sem nenhuma identificação, mas o que realmente me assombrou foram as suas mãos, inteiramente pálidas e cobertas por uma pele rançosa e irregular, que formava membranas entre os dedos. Repentinamente, senti quase um alívio por não ter que olhar para o rosto daquela incógnita vítima.

Nenhuma das testemunhas sabia exatamente o que tinha acontecido. Mesmo os que se aventuravam fora de casa dificilmente enxergariam algo na visibilidade precária causada pelo aguaceiro noturno. O carroceiro apavorado que tinha encontrado o corpo dizia ter ouvido um grito abafado, seguido pelo som de algo pesado se chocando contra a via alagada. Seja como fosse, o homem parecia visivelmente perturbado e olhava com uma aversão quase obstinada para o estranho cadáver do operário. O único indício confiável era o macacão industrial do moinho, e concluí que era para lá que deveria me dirigir na manhã seguinte para poder ao menos descobrir a identidade do morto.

Sob um alvorecer cinzento e lúgubre eu caminhava pela escadaria de pedra que seguia até a entrada do nevoento moinho. Cardis havia ficado na prefeitura para ajudar a amenizar o pânico que começava a crescer dentro do populacho à medida que a notícia do suposto assassinato violento se espalhava. Minha única companhia eram os homens de expressão apática que seguiam para o expediente. Não poderia dizer que meu estado de espírito estava muito melhor que o deles. Me sentia profundamente abatido com o fim de minha tranquilidade na outrora pacata Harbor Mill, e o senso de trabalho a ser feito era a única coisa que me mantinha andando naquele momento.

O interior do edifício era ruidoso e opressivo, com paredes se descascando e grandes maquinários corroídos de ferrugem rangendo suas titânicas engrenagens enquanto exalavam uma nuvem de vapor fraco. Mesmo com o lugar em pleno funcionamento tudo ao redor parecia úmido e frio, como uma tumba submersa. Os funcionários caminhavam como tristes fantasmas por aquela paisagem, e enquanto os observava pude começar a entender a razão dos habitantes do vilarejo em geral não simpatizarem com aquela gente. Todos portavam identificações em seus uniformes e não tinham qualquer deformidade física, mas a indiferença com que trafegavam naquele ambiente insalubre me deixava muito desconfortável.

No escuro andar administrativo a atmosfera era ainda pior. Dos corredores fantasmagóricos, uma galeria de quadros extravagantes exibindo todo tipo de criatura marinha me observava com os olhos esgazeados de suas imagens desbotadas. Aquela decoração sinistra conseguia apenas agravar os pensamentos que se aninhavam em minha mente, sobre estar descobrindo um abismo maligno oculto nas entranhas daquele vilarejo. Eu apenas queria interrogar o diretor do moinho e deixar sem demora aquela fábrica funesta, mas ao chegar diante da porta que levava ao fétido escritório principal fui assaltado por uma visão que me atingiu com um golpe ainda mais forte de horror.

Inclinado em sua cadeira, o diretor me recebia inerte, com um buraco ensanguentado na janela encardida ocupando o lugar onde deveria estar sua cabeça. A luz débil que atravessava as vidraças esverdeadas tornava a cena ainda mais nauseante, e tive que me segurar na porta para me recompor daquele cenário de pesadelo. Dois trabalhadores estavam esparramados sobre o chão, mortos da mesma maneira, e enquanto adentrava notei que tinham a mesma pele escamosa daquele que havia sido encontrado na praça da cidade. Recuei então um passo quando percebi que havia uma inscrição grosseira no assoalho, feita com o sangue escuro e oleoso das vítimas. Uma única palavra: ‘ESKUMALHA’.

Estava tudo errado em Harbor Mill. Da noite para o dia, o lugarejo onde pretendia desfrutar de uma vida tranquila tinha se tornado um palco de abominações, e uma monstruosidade ainda pior as estava caçando. Eu nunca tinha dado muita atenção ao moinho, e naquele momento me assombrava a letargia dos trabalhadores, que continuavam a operar as máquinas sem desconfiar de nada. Documentos amarelados e livros de anotações haviam sido mexidos e espalhados na cena do crime. Sem perder mais tempo, recolhi o que podia e me retirei para outro aposento, obstinado a descobrir algo que ao menos me ajudasse a entender o que estava acontecendo, salvando minha mente das próprias especulações.

Enquanto um estrondoso temporal atingia a fábrica, eu vasculhava os papéis sob a luz de minha lanterna, mas nada do que eu encontrava conseguia trazer alguma sobriedade para aquele caso macabro. Ao contrário, eu parecia estar diante de um insólito esquema que consistia em alienar e transformar aqueles trabalhadores do moinho em alguma espécie de escravo especializado, por meio de experimentos e de algum tipo de culto empresarial compulsório. Aqueles que, após um processo gradual, estavam prontos para serem ‘recolhidos’, como era o termo usado nos documentos, eram então levados até um ‘mestre’ que, e essa parte me vi sendo obrigado a reler, os aguardava no fundo da represa.

O moinho nada mais era do que um criadouro de condenados, fabricados para algum propósito inumano. Continuando a ler, descobri que a longo prazo toda Harbor Mill seria incluída nesse esquema terrível. Eu não poderia me permitir ficar ali sentado, deixando que aquela insanidade seguisse adiante. Recolhi todas aquelas evidências para apresentá-las ao Império, mas no momento em que me levantei avistei ao longe pela janela um estranho vulto em uma capa de chuva, parecendo encarar as águas turbulentas do dique. Foi nesse momento que tudo ao redor estremeceu, e com um rugido colossal a parede da represa se partiu, libertando sobre o vilarejo um dilúvio de morte e desespero.

Port Smoke sábado, ago 9 2014 

Flutuando calmamente sobre as costas de uma colossal baleia mecânica, a cidade de Port Smoke serve como base para os colonos windleses de Asabikesh. Seu lento percurso contorna boa parte do litoral leste da nação, indo do norte temperado próximo da fronteira com Lukannon até o sul tropical, indo até os limites de Marais. Construída pela avançada tecnologia dos Arautos do Vapor, a cidade fervilha com homens de negócios, inventores, soldados e expedicionários, ficando sempre cercada por uma variedade de barcos que a segue como um cardume.

Asabikesh não serve apenas de entreposto como também protege as rotas do norte entre Windlan e o Novo Mundo, atacando com seus canhões qualquer embarcação que não se identifique como aliada. Nativos de Asabikesh e mercadores do oriente costumam ser recebidos sem maiores problemas, mas já ocorreram conflitos com aurineses de Marais, piratas das Ilhas Marlim e até mesmo com os veículos submarinos da Organização Mitternacht.

(Clique no nome do distrito para ouvir a trilha sonora correspondente)

Distrito da Luz de Gás

A luz ambárica de postes de ferro negro brilha fosca entre o vapor e a fumaça que paira como neblina no distrito comercial de Port Smoke. Aqui também é onde vivem as pessoas mais abastadas, em prédios de tijolos vermelhos ou em luxuosos casarões com vista para os graciosos parques e praças do centro da cidade, onde cavalheiros e damas bem-vestidos passeiam entre barracas de cachorro-quente, campos esportivos e brinquedos mecânicos criados pelos Arautos do Vapor. Uma locomotiva em trilhos suspensos conduz os passageiros dos os mirantes à beira-mar até as ruas internas, pontilhadas por hidrantes e saídas de ventilação do maquinário abaixo. Por todo lugar é possível encontrar restaurantes, livrarias, casas de barcos e outros estabelecimentos frequentados por locais e visitantes. A forte presença de imigrantes é evidenciada por ruas ocupadas inteiramente por estrangeiros, como Mingtown com suas lojas de porcelana e Pequena Rosetta com seus exóticos cafés.

Docas de Ferro

As ruas encardidas da zona portuária de Port Smoke abrigam uma confusão de estaleiros, armazéns e balsas flutuantes sacolejando nas laterais da ilha móvel, mantendo um movimento intenso a qualquer hora do dia. As inúmeras embarcações trazem fazendeiros e soldados do continente, além de muitos estrangeiros em busca de oportunidades. Carroças de madeira dispostas nos espaços mais amplos formam uma feira improvisada onde é possível encontrar todo tipo de produto cultivado nas colônias, de espigas de milho e legumes a frutos do mar. Tavernas fétidas, teatros decadentes e bordéis duvidosos são frequentados pelos trabalhadores do porto, por soldados e bombeiros de baixo posto e também pelos membros das gangues que infestam a área. Fruto do fluxo incontrolável de pessoas, da pobreza dos operários e da corrupção da milícia local, as gangues de Port Smoke abrigam os mais diversos tipos de contrabandistas, arruaceiros, mendigos, batedores de carteira e marginais em geral. Entre elas estão os Fiery Axes, desertores dos Caveiras Caolhas liderados por um meio-orc que grava uma marca em seu machado para cada vítima, e os anarquistas da Stone Helix Cult, famosos por causar tumultos e pela devoção religiosa a uma misteriosa entidade aquática.

Undertown

Entre as tubulações de esgoto e trilhos de trem subterrâneo de Port Smoke, um distrito inteiro mantém funcionando o maquinário da grande baleia que sustenta a cidade. Depósitos de gás, motores secundários e salas de controle são patrulhados por autômatos e operados por um enorme contingente de operários e engenheiros vestidos em macacões. Os Trabalhadores de Undertown possuem uma comunidade própria, que responde apenas à Underboss, a  líder do distrito. Para alguns, a astuta mulher em um encardido sobretudo blindado é a maior chefe de gangue de Port Smoke, tendo todos os Trabalhadores como seus capangas. Para outros, ela é a heroína que impede a cidade de afundar, embora todos concordem que ela jamais faz algo de graça. Não obstante, a Underboss não é a única coisa com que se deve ter cuidado nas passagens subterrâneas da cidade flutuante. Hordas de ratos atrozes, crocodilos gigantes e bandos de vampiros são apenas alguns dos perigos que espreitam nos túneis úmidos e escuros. Rumores falam sobre um culto da Ordem Esotérica de Dagon que se reúne nas áreas mais isoladas, e sobre cardumes de Profundos rondando nas galerias submersas de água salgada.

Dome Society

Localizada sobre a cabeça da grande baleia, a Dome Society é o imponente centro de comando não só de Port Smoke como de toda a colônia. Os altos prédios  distribuídos pelo conglomerado incluem a Torre Lovelace, lar do prefeito Bill Crosby, um Porto Aéreo da Guilda dos Aeróstatas e o Sétimo Farol da Igreja dos Marinheiros, cercado pelo cemitério da cidade. Oficinas e escritórios dos Arautos do Vapor também ocupam os edifícios, que contam com sofisticados elevadores hidráulicos. O nome do distrito vem de uma antiga instituição acadêmica que ajudou a financiar a construção de Port Smoke, e que alguns acreditam ainda exercer sua influência sobre a cidade. Um dos membros dessa sociedade era Ernest Crow, navegador do lendário Capitão Roberts, e a herança de sua presença ainda pode ser encontrada nos museus e bibliotecas locais. Embora histórias sobre fantasmas e cultos secretos no distrito sejam comuns, a maior curiosidade daqueles que não fazem parte da Dome Society está relacionada com os projetos desenvolvidos pelos Arautos longe da vista popular. Relatos falam sobre robôs a vapor gigantes, veículos avançados, prodígios alquímicos e até mesmo uma gigantesca máquina capaz de armazenar e processar informações através de cartões perfurados.

Introdução – Port Smoke sábado, maio 31 2014 

A luz esbranquiçada das lâmpadas a gás brilhava fantasmagórica no restaurante ocupado por cavalheiros e damas de classe. Uma canção indecente saía arranhada do gramofone em forma de sereia, a cauda servindo de amplificador e um dos dedos de agulha. Foi quando o primeiro entrou. Poderia ter passado despercebido com seus trajes de viagem formais, não fosse a pele avermelhada e os traços de um nativo do Povo do Céu. Era jovem, nascido não mais que duas dúzias de invernos atrás, e caminhava confiante até uma mesa na varanda dos fundos. Ali, diante do parapeito que dava para o mar cinzento, um homem elegante de olhos claros e barba castanha comia um caranguejo gigante acompanhado de mercadores ricos do oriente, junto com toda sorte de gente que tinha tempo e dinheiro para servir de enfeite em um evento social. Dois autômatos de guarda se levantaram para receber o recém-chegado, mas o homem na mesa sequer virou o rosto quando escutou ele falar.

-Sou Kisecaw Chuck, terceiro filho de Ahtahkakoop. Sua companhia de mineração invadiu nossas terras e meus irmãos passam fome. Foi um caminho longo e difícil para chegar até aqui.

Os dois guardas mecânicos se aproximaram para retirar Kisecaw. Os reunidos resmungavam sobre o inconveniente enquanto o homem respondia incomodado a acusação.

-Olhe rapaz, eu tenho permissão da Coroa para explorar aquela área. Sinto muito por sua família, mas não vou negociar.

-Eu não vim negociar.

Três disparos, nenhum tempo para reagir. Sangue, fumaça e engrenagens se espalhando no ar. O cano longo da arma de Kisecaw fumegava e as miçangas de seu coldre ornamentado balançavam enquanto os dois autômatos se desequilibravam ao chão e o dono da companhia de mineração tinha a cabeça jogada para trás com o impacto do tiro. Foi quando o segundo entrou. Todos ainda olhavam atônitos para o homem que acabara de ser morto quando a claraboia do restaurante explodiu em uma chuva de brasas e cacos de vidro. Um homem gigantesco caiu por ela, de pintura de guerra nos olhos e chifres de touro nos cabelos trançados. Era Masichuvio, o Guerreiro Vaga-Lume do Povo do Céu. Seguranças, capangas e idiotas que não podiam perder uma briga partiram para cima do invasor, e ele os recebeu com seu par de machadinhas enfeitiçadas, deixando um rastro luminoso de fogo a cada golpe amplo que desferia na multidão enquanto abria caminho.

-Mas o que diacho está acontecendo aqui? – disse uma voz autoritária seguida pela silhueta de um homem em uniforme militar escancarando a porta dupla do restaurante – Abriram as portas do inferno?

O Xerife Conroy ajustou o chapéu sobre sua cabeleira branca e rala, enquanto seus homens se posicionavam a seu lado e engatilhavam os mosquetes. Foi quando o terceiro entrou. Saindo da cozinha, o rapaz de moicano e corpo coberto de pinturas caminhou tranquilo entre o pandemônio de clientes fugindo, mesas virando e garrafas quebrando. Era Ourayi, o Caçador de Bruxos nascido no Bayou. Se posicionando na varanda junto com Masichuvio, ele ergueu a arma que trazia: um simples arco e flecha, e disparou um tiro de aviso diante dos pés do xerife.

-Seus comparsas vão precisar de mais que um graveto para salvar sua pele dessa vez, Kisecaw! – disse o Xerife com um sorriso.

-Permissão para falar, senhor! – anunciou um dos soldados com uma expressão nervosa.

-Permissão concedida, rapaz!

-Tem uma dinamite amarrada na flech…

Estrondo, gritos e fogo.  A explosão arrebentou as vidraças do restaurante e fez o chão tremer enquanto os três companheiros saltavam para o mar. Logo as bombas totêmicas deixadas por Masichuvio e Ourayi no lugar detonaram em uma reação em cadeia, fazendo todo o estabelecimento ir pelos ares. O aviso estava dado, e eles podiam agora retornar para as suas terras, onde estariam preparados para a guerra.

Criaturas de Roonock segunda-feira, fev 17 2014 

Pukjinkwest

Naquela noite, Pukjinskwest sonhou com ovos de tartaruga, como de costume. Ela deitou em sua cama forrada com ossos de sereia, rosnando em deleite. Então, ela acordou e caminhou para o mar, com seus olhos iluminados pela lua brilhando à sua frente como guia.

(Howard Norman – How Glooskap Outwits The Ice Giants and Other Tales of the Maritime Indians)

Temidas pelos habitantes da Costa de Brimmouth, essas criaturas amarguradas aparecem como uma bruxa de cabelos de musgo, com olhos que emitem um intenso brilho pálido como o luar. Habitando as profundezas de pântanos salgados, as Pukjinkwest vagam por seus territórios na forma de um predador, como uma marta pescadora ou um puma. Nesse disfarce atacam passantes desavisados, preferindo crianças. Elas também são conhecidas por atrair vítimas até seus lares, fingindo um choro pesaroso que ecoa em seus domínios lamacentos. Seus poderes mágicos vão além de encantos mentais, incluindo o domínio sobre as feras do pântano e a capacidade de se transformar em uma nuvem de mosquitos. Rejeitadas pelas criaturas do mar aberto, as Pukjinkwest são sempre perturbadas por gaivotas, mesmo quando estão disfarçadas por magia. Parte dessa repulsa natural vem de sua dieta carnívora, que além de animais e humanos inclui sereias. Meninas de qualquer espécie capturadas por uma Pukjinkwest são às vezes criadas como suas próprias filhas, adquirindo poderes mágicos e um aspecto sobrenatural. Essas crias são muitas vezes parte de planos mesquinhos para tomar o controle de povoados e tribos, mas a solidão das bruxas pode fazer brotar um sentimento materno legítimo, ainda que deturpado.


Rebanho do Diabo

Their brands were still on fire and their hooves were made of steel 
Their horns were black and shiny and their hot breath he could feel 
A bolt of fear went through him as they thundered through the sky 
For he saw the Riders coming hard and he heard their mournful cry

(Stan Jones – Ghost Riders in the Sky)

Histórias de máquinas assombradas e misteriosas são mais comuns em Asabikesh do que em qualquer lugar de Keleb. Entre todas, a mais conhecida é a do Rebanho do Diabo, um estranho esquadrão de aeronaves negras que de tempos em tempos é avistado sobre o Deserto de Cobre. Feitas de metal negro e abastecidas por um combustível ígneo de vermelho intenso, elas cruzam os céus em grandes bandos, aparecendo sempre à noite ou em dias de tempestade, quando iluminam o céu escuro com seus faróis infernais. Sua forma precisa varia de acordo com a testemunha, e eles já foram descritos como locomotivas voadoras ou como grandes touros mecânicos. Ninguém sabe sua origem ou propósito, mas boatos se disseminam nas pequenas vilas mineradoras de que são conduzidos por fantasmas ou de que suas fornalhas são abastecidas com as almas dos condenados. Para os indígenas, essas criaturas são os arautos de um poderoso mau espírito trazido pela cobiça dos colonos, e o mero hálito de seus motores é capaz de transformar um homem em uma estátua inerte de prata.

Titã das Profundezas

Então, de repente, eu a vi. Com uma leve agitação para indicar sua subida à superfície, a coisa emergiu para fora das águas escuras. Enorme, polifêmica e repugnante, ela disparou como o monstro fabuloso de um pesadelo para o monólito, ao redor do qual arrojou seus gigantescos braços escamosos enquanto inclinava a cabeça horripilante, produzindo sons ritmados.

(H. P. Lovecraft – Dagon)

Insanamente enormes e capazes de viver durante eras, os Titãs das Profundezas são considerados por muitos como avatares de Dagon, o Horror Antigo que atormenta os oceanos. Apesar de serem fisicamente parecidos com os seres anfíbios parte homem e parte peixe que infestam as hostes de seu sombrio lorde aquático, possuindo um corpo bípede recoberto de escamas, esses colossos são indubitavelmente mais antigos e malignos, ostentando uma carapaça de corais e anêmonas que brilha com uma luz fluorescente. Os Titãs das Profundezas passam a maior parte de seu tempo em fossas submarinas e cavernas nunca tocadas pela luz do sol, caçando baleias e lulas gigantes nas águas profundas e entalhando espantosos monólitos de pedra. Eles emergem apenas quando os Cultos de Dagon realizam cerimônias e sacrifícios para invocá-los, ou quando grandes fenômenos naturais os impelem acima.

É difícil mensurar quanta destruição um desses monstros poderia causar em uma cidade costeira, mas felizmente eles costumam passar apenas algumas horas na superfície antes de retornar para seus lares sombrios. Acostumados a receber nada menos que devoção daqueles que vivem acima das ondas, eles enxergam as criaturas que respiram ar de forma não muito diferente como um mergulhador enxergaria um verme rastejando no leito marinho. Para os Titãs das Profundezas, os humanos não passam de meros objetos de curiosidade, indignos até mesmo de pena e úteis apenas como cobaias para os propósitos de seu senhor das águas obscuras.

Galeria – Arautos do Vapor quarta-feira, jan 8 2014 

 

Aventureiros destemidos e gênios da tecnologia, os Arautos do Vapor viajam longas distâncias a bordo de seus navios motorizados, buscando novas descobertas e tentando superar seus próprios limites. Originalmente uma união de diversas guildas de mecânicos e inventores, que ganharam fama e prestígio durante a rápida industrialização de Windlan, os Arautos  se tornaram uma esquadra após o sucesso da Guilda Horseley em construir as primeiras embarcações à vapor capazes de navegar em alto mar. Apesar de ainda manterem oficinas e fábricas em terra firme e supervisionarem grandes obras da Coroa, eles estão entre os principais entusiastas das expedições windlesas para lugares distantes, que atiçam sua sede de conhecimento e trazem desafios irresistíveis. Os Arautos do Vapor preferem deixar as obrigações militares com os Dragões de Rubi e Caveiras Caolhas, priorizando a descoberta de novas rotas marítimas e viagens de caráter científico.

Os Arautos do Vapor costumam usar roupas peculiares, geralmente em tons de marrom e branco. Acessórios como suspensórios, óculos de couro e cintos de ferramentas são uma marca registrada em seus trajes. Os capitães usam vestimentas mais elegantes, mantendo um ar de cavalheiros excêntricos do mar, enquanto suas tripulações lembram uma multidão de mecânicos alegres e bêbados. Aqueles que perderam alguma parte do corpo em serviço usam próteses feitas com sofisticadas peças de metal, muitas vezes movidas por pistões ou por mecanismos de relógio.  Esses membros artificiais costumam ter gravado o símbolo da esquadra: um polvo enroscado em uma grande engrenagem. Cefalópodes são de fato uma figura constante nos navios dos Arautos, seja em entalhes nas embarcações ou em utensílios de aparência curiosa.

Não é difícil reconhecer um navio dos Arautos do Vapor, com suas enormes rodas de pá mecânicas e chaminés exalando fumaça. Apesar de estarem entre as mais rápidas do mundo, as embarcações exigem manutenção constante e ocasionalmente sofrem avarias ou até mesmo acidentes graves, que podem dar um final trágico a uma viagem. Os sobreviventes desses naufrágios são às vezes encontrados em ilhas distantes, e não raro estão totalmente imersos na cultura local, fascinados como são por lugares e costumes exóticos. Muitas das missões dos Arautos do Vapor têm como objetivo resgatar um desses marinheiros perdidos ou estudar qualquer estranha descoberta que tenham feito por acaso. Esse tipo de expedição, no entanto, costuma ser delegada a tripulações menores. Os capitães mais poderosos da esquadra, portadores da insígnia da Âncora Dourada e liderados pelo Capitão-Chefe Nicholas Brasshand, empreendem seus atuais esforços em desvendar a insólita tecnologia náutica da Organização Mitternacht, usando de todo conhecimento disponível para encontrar meios de pesquisar e enfrentar os veículos submarinos e leviatãs mecânicos que têm sido avistados com frequência cada vez maior nas águas da Coroa.

Mapa de Roonock quinta-feira, nov 21 2013 

Roonock é a maior colônia Windlesa no continente ocidental de Gasparia. Suas variadas paisagens fornecem inúmeros recursos úteis para a Coroa, que estabeleceu algumas cidades no litoral e agora avança rumo ao oeste selvagem.

Boa parte do litoral é ocupado pela acidentada Costa de Brimmouth, uma extensa faixa rochosa à beira-mar que abriga Port Smoke, capital da colônia, além de vilarejos e ruínas.

O Deserto de Cobre percorre com suas areias avermelhadas boa parte da extensão de Roonock, e é lar da maioria das tribos indígenas de Asabikesh, que se vêem em conflitos constantes com os colonos invasores.

As tropicais Ilhas Kupuna ficam bastante afastadas do litoral, a Oeste, e são conhecidas por seus grandes vulcões e sua cultura exótica.

(Clique no nome da região para ouvir a trilha sonora correspondente)

Costa de Brimmouth

Brimmouth

Brimmouth é um lugar úmido e sombrio, onde violentas ondas marítimas quebram contra ilhas e penhascos rochosos. Nas praias de areia cinzenta, chuvas constantes criam estuários escorregadios e pântanos escuros, cobertos por uma névoa salgada. As tormentas costumam trazer peixes das profundezas abissais até a superfície, e às vezes coisas piores. Vagando entre as águas nas costas de uma monstruosa baleia mecânica, a cidade de Port Smoke cruza as águas escuras com suas brilhantes luzes de sinalização e imensas chaminés. Ela orienta seu trajeto por uma série de faróis dispostos pela costa, mantidos pelos sacerdotes de uma ordem religiosa conhecida como a Igreja dos Marinheiros. Próximo a eles, pequenas vilas de pescadores surgem amontoadas nos estreitos locais onde conseguem se empilhar entre as marés e os paredões de rocha. Esses lugarejos melancólicos são uma confusão de docas, pontes e telhados, e são habitados por gente rude e arisca, que se interessa em falar com forasteiros apenas para negociar os frutos do mar que recolhem em fartos volumes. Histórias falam sobre a bizarra aparência ‘peixosa’ dos moradores de algumas dessas vilas, e sobre terríveis cultos dedicados a Horrores marinhos, realizados em antigas ruínas e cavernas conectadas ao mar.

Deserto de Cobre

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Recebendo seu nome pela cor alaranjada de seu solo, o Deserto de Cobre possui na verdade uma variedade de paisagens que vai além de intermináveis mares de areia pontilhados por rochas. Cânions gigantescos, florestas de pinheiros e até mesmo vales cobertos de neve surgem na imensidão agreste, onde as caravanas de colonos windleses seguem trilhas acidentadas entre vilarejos rústicos, mantidos pela mão de ferro de seus xerifes. A cada ano, centenas de novos desbravadores chegam até o Deserto em busca de preciosos veios de Prata Celeste, ocultos nas montanhas avermelhadas. Um verdadeiro labirinto formado pelos trilhos das minas de extração já se ramifica em alguns lugares, e a promessa de riqueza fácil atrai todo tipo de oportunista ambicioso, incluindo bandidos perigosos e barões escravocratas. Segundo alguns especialistas no oculto, essa ganância excessiva é a principal causa do grande número de relatos de assombrações na região.

Grandes totens e rochas cobertas por petróglifos anunciam os territórios do Povo do Céu, divididos entre muitas tribos de nativos com pele vermelha e olhos profundos. Espirais de fumaça ritual se erguem entre aldeias de pedra e cabanas de pele, onde os chefes se reúnem com seu povo sob a luz das estrelas. Preocupados com a invasão crescente de seus territórios, os valentes indígenas estão dispostos a tudo para resistir à ameaça dos colonos, mas ainda estão aprendendo a lidar com a avançada tecnologia do vapor e da pólvora, e seus rebanhos de bisões diminuem a cada estação, ameaçando matá-los de fome. Entretanto, eles sabem que não são os únicos a terem o Deserto de Cobre como lar. Além das imensas Feras do Trovão em suas muitas formas, populações inteiras de korak, catfolk, lobisomens e outros humanoides bestiais espreitam nas matas, rios e desfiladeiros. Dentre os mais poderosos habitantes da região, os dragões de cobre da Linhagem de Uktena vagam pelos sinuosos labirintos de rocha, dispostos a dividir seus conhecimentos com os xamãs que se mostrem dignos de derrotá-los em um jogo de astúcia.

Ilhas Kupuna

Kupuna

O paradisíaco arquipélago das Ilhas Kupuna seria o destino perfeito para qualquer navegante, não fosse seu isolamento e difícil acesso. Ainda assim, o local é usado como base pela esquadra dos Arautos do Vapor e por ocasionais corsários de Windlan. A deslumbrante paisagem tropical esconde os vulcões ativos no centro das ilhas maiores, que sem aviso podem explodir em uma tempestade de cinzas e fumaça. Os nativos das ilhas, um povo exótico conhecido como Hui, venera os espíritos de fogo desses vulcões, reunidos na imagem de uma Aeon conhecida como Pela. Eles entendem as catástrofes como um ciclo natural da terra, e vêem como algo sagrado o encontro das torrentes de lava com as águas do oceano, de onde nascerão novas ilhas no futuro. Seus sábios, chamados Kahuna, entendem como ninguém o ciclo das marés e são capazes de entrar em comunhão com o mar, recebendo as bênçãos das imensas ondas que quebram no litoral.

Festivos e hospitaleiros, os Hui se dividem em vários clãs familiares conhecidos como Ohana, e possuem uma rica cultura apesar de seus modos rústicos. Além deles, uma variedade de raças aquáticas vive nos atóis de coral, sendo uma das mais estranhas os Squibbon, uma espécie de cefalópodes inteligentes que fazem contato frequente com os Hui. O povo-molusco idolatra uma misteriosa entidade-polvo chamada Kanaloa, que possui uma perturbadora semelhança com algumas histórias dos Horrores Antigos.

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