Whoa thought it was a nightmare
Lord it was so true

They told me don’t go walking slow
The devil’s on the loose

(Creedence Celarwater Revival – Run Through the Jungle)

As hélices da aeronave à vapor rangiam com esforço, como se estivessem em uma luta fatigante contra o ar embaçado de calor. Ao redor o céu estava limpo, mas na distância nuvens de fuligem se amontoavam sobre as montanhas, pulsando com um clarão vermelho a cada estrondo causado pelos vulcões ocultos no negrume. Vigiando em uma das correntes que prendiam o balão ao convés, um diabrete aproximou da boca uma corneta improvisada feita com o bocal de uma velha caixa de música e tocou uma nota alta e estridente, anunciando que a Erichto estava chegando a seu destino.

Como se estivessem respondendo ao sinal, um bando de répteis alados surgiu do litoral da ilha, batendo suas largas asas de couro enquanto passavam ao lado do veículo voador. Pareciam enormes cegonhas desengonçadas e de penugem curta, o tipo de besta que só poderia habitar uma paisagem prístina e selvagem como aquela. Na amurada da aeronave, um homem observava o espetáculo com um misto de repulsa e curiosidade estampado em seus olhos dourados sem pupilas. Alisando sua barbicha, ele resmungava entre dentes afiados: -Parece que os súditos da Rainha Lagarto vieram nos dar as boas-vindas. Então essas feras grotescas são os tão célebres dinossauros da ilha.

-Pterossauros não são dinossauros, monsieur Damien. São espécies diferentes. – interrompeu a voz suave de uma mulher alta e atlética, que apoiou os cotovelos no corrimão do convés para observar as criaturas em seu voo vespertino. – Eles são praticamente tão distintos quanto um morcego é de um cão. Mas tenho certeza de que avistaremos alguns dinossauros propriamente ditos quando estivermos em terra. Há uma grande variedade deles lá embaixo. – ela explicou deixando Damien com uma careta aborrecida, arqueando as sobrancelhas enquanto dava as costas para a paisagem e acendia seu cachimbo com a chama azulada de um pequeno aparelho metálico.

-Você deve ser tão incrível em festas, madame Beaumont. – ele comentou, deixando a fumaça espiralar entre os chifres de sua testa. Regine Beaumont não lhe deu muita atenção, continuando a admirar a paisagem que estendia um carpete esmeralda de selva abaixo de seus pés. A Erichto começava a diminuir de velocidade e voar mais baixo, se aproximando de uma baía isolada onde era possível ver algumas fogueiras crepitando. – Com todo respeito, tenho lugares mais interessantes para ir do que festas, e o senhor sabe muito bem que isto aqui não é uma. – ela respondeu finalmente, arrumando o rifle de três canos na bandoleira e se preparando para desembarcar.

Entre as escuras rochas vulcânicas da baía se abrigava um acampamento indígena, com algumas dúzias de cabanas de estacas e sapê arrumadas ao redor das fogueiras. Regine prendeu a respiração ao correr os olhos pela rústica aldeia, admirando cada novo detalhe que conseguia encontrar. Havia naquele lugar uma aura de ancestralidade palpável, que dava a uma antropóloga como ela a certeza de estar diante de uma cultura quase intocada pelo mundo exterior. Um tesouro de sabedoria até então perdida, que havia perdurado e crescido durante séculos como uma semente rara em um solo hostil e esquecido pelas eras.

Esse era o motivo pelo qual havia aceitado fazer parte da expedição comercial de Damien Chandelier até a Terra da Rainha Lagarto, mas não era a única razão de estar ali. Um grupo de trabalhadores de uma futura plataforma de extração de óleo pétreo, que havia tido contato com aquele acampamento meses antes, tinha encontrado uma garota aurinesa vivendo entre os indígenas. A descrição da menina batia com a de Beatrice Chardonneau, filha única de comerciantes de cana-de-açúcar, cujo cargueiro havia naufragado cinco anos antes nas proximidades da ilha. A jovem porém parecia não se recordar de quem era, e nem sequer falava uma única palavra em seu idioma natal.

Regine seria a responsável por resgatar Beatrice e acompanhá-la de volta a Aurin, sem causar um desentendimento com os nativos. Não era uma missão com a qual se sentia muito confortável, uma vez que a garota parecia totalmente integrada com a tribo que a havia resgatado e acolhido. Mas a antropóloga sabia que para uma comunidade tão isolada como aquela, levar a menina poderia ser o melhor para ambos. Não apenas estaria dando para Beatrice a chance de conhecer sua origem e as oportunidades que havia deixado em Aurin, como também estaria ajudando a preservar os próprios nativos de um contato mais invasivo de estrangeiros curiosos.

Ela sabia bem o circo que aquilo poderia se tornar na sociedade aurinesa caso a questão não fosse logo resolvida. Os indígenas por sua vez a observavam desconfiados enquanto ela adentrava o acampamento, tomando cuidado para não fazer nenhum movimento que pudesse ser interpretado como uma ameaça. Fisicamente não possuíam nenhuma diferença dos nativos que habitavam o Grande Bayou no continente, com a pele em um tom avermelhado e os cabelos de cor escura, raspados nos homens em um penteado moicano. A simplicidade de suas tendas sugeria um modo de vida nômade, algo bastante adequado naquele terreno perigoso de vulcões e feras reptilianas.

Naquela comunidade não havia espaço para modestos negociantes de peles ou artesãos despreocupados. Cada um daqueles homens e mulheres tinha de ser um guerreiro robusto para conseguir chegar ao final de cada dia. Seus músculos salientes eram temperados pelo calor das explosões de magma fervente, e seus corpos enrijecidos eram cobertos de cicatrizes causadas pelas coisas terríveis que rastejavam nas profundezas da selva ou abaixo das ondas. Os escudos adornados com penas coloridas eram feitos das escamas de alguma fera gigantesca, e seus arcos fabricados com os ossos resistentes dos pterossauros que eram abatidos no alto dos penhascos.

Porém, aquela luta constante pela sobrevivência não os impedia de possuir suas histórias e crenças, que Regine conseguia enxergar nos totens e amuletos que protegiam as tendas e nos desenhos complexos que cobriam os escudos e ornamentos dos indígenas. A antropóloga rejeitava a visão de vários de seus colegas acadêmicos que tratava os povos do novo mundo como ‘bárbaros’ de cultura primitiva. Mesmo ali naquela ilha, à deriva em uma região estagnada das marés do tempo, aqueles indivíduos haviam se tornado mais do que simples homens das cavernas, ainda que estivessem à margem do império milenar da Rainha Lagarto.

Era possível perceber dentro daquela comunidade uma profunda e respeitosa devoção pelos espíritos primordiais da natureza, que se manifestavam nas escarpas cobertas de névoa, nas furiosas ondas que rebentavam na entrada da baía e na fumaça que subia das crateras flamejantes. Os indígenas os representavam como marcas irregulares de raios e espirais, pintados nas lonas das tendas e em suas próprias peles. Também pareciam possuir uma certa reverência pelos jaguares de dentes-de-sabre, animais que como eles viviam na sombra dos grandes dinossauros, e muitos dos guerreiros utilizavam as peles e presas dos felinos como fetiches de caça e proteção.

Ao chegar diante da maior das fogueiras no centro do acampamento, Regine se viu diante de um homem com longos cabelos brancos e o rosto profundamente marcado de rugas, mas ainda corpulento apesar da idade avançada. Os olhos escuros e fundos do ancião fitavam as chamas intensas, que pareciam dançar à sua frente. Ele não pareceu dar atenção à forasteira, mas mesmo assim a antropóloga deixou seu rifle e seu facão no chão antes de sentar-se próximo ao velho. Seus lábios murchos cantarolavam algo incompreensível, e a quantidade de colares de garras e outros apetrechos totêmicos que usava pelo corpo mostrava que tinha uma posição espiritual elevada na tribo.

O ancião terminou sua melodia e permaneceu olhando para o vazio por alguns segundos antes de voltar a cabeça para Regine, examinando a expressão dela por mais algum tempo até pegar um punhado de cinzas e areia do chão e soprá-las de maneira fortuita no rosto da mulher. A antropóloga apenas cerrou os olhos, mas antes de abri-los de novo ouviu a voz do velho xamã falando não em seu idioma nativo, que ela levaria semanas para aprender, mas na língua remota e trovejante usada pelos elementos primordiais quando decidiam se comunicar com o mundo.
-Os espíritos gostam de quem possui paciência para ouvi-los. Agora me conte o motivo de estar aqui.

Regine não conseguiu conter sua animação com aquela oportunidade de diálogo com a tribo, e desatou a fazer uma infinidade de perguntas sobre aquela comunidade. Descobriu que os povos indígenas da ilha se chamavam de Nakna’Ohti e que o nome do ancião era Hukmi. Que a espiritualidade daquele povo estava ligada ao calor e vigor da terra e dos seres de sangue quente, centralizadas na figura da Mãe Vulcão, um totem ancestral temido até mesmo pela Rainha Lagarto e seus súditos. Os xamãs da Mãe Vulcão como Hukmi eram capazes de prever erupções e tempestades, e se utilizavam dessa sabedoria para guiar as mudanças de acampamento.

Apenas quando uma pequena parte de sua curiosidade já estava satisfeita foi que a antropóloga percebeu o quanto estava empolgada, e com um sorriso sem graça perguntou apressadamente sobre Beatrice. Não havia visto nenhum sinal da garota desde que havia chegado, embora muitos dos indígenas estivessem observando escondidos de suas cabanas ou das margens da selva. O ancião confirmou que a filha dos Chardonneau estava com eles, que havia sido encontrada pela tribo anos antes naquela mesma baía e era uma menina com forte instinto de sobrevivência. Porém, havia um tom de preocupação na voz do xamã que deixou Regine com um pressentimento ruim sobre a situação.

Quando ela pediu que Hukmi lhe dissesse onde a jovem estava, o velho índio suspirou pesadamente e se levantou. -Sei onde ela deve estar agora. Mas irei te alertar de que Iluta, a quem você chama de Beatrice, pode não ser mais a pessoa que você procura. O espírito dela se tornou inquieto e assombrado por uma sede de sangue. – mal o xamã havia terminado de pronunciar essas palavras, um trovão estrondeou por trás das árvores na direção em que estavam indo, como um sinal fatídico do que estava por vir. Regine sentiu o coração dar um salto ao perceber que o céu estava limpo sobre a baía e que aquilo que havia acabado de escutar eram disparos da tripulação da Erichto.

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