‘No calor abafado da escuridão eles arranham notas desafinadas, embalando uma noite de insônia e tormento’

A Rainha Bruxa de Marais. Era assim que a chamavam nas redondezas. O casebre de madeira parecia tão humilde quanto qualquer outro na região, mas não era preciso muita atenção para que Booziba sentisse que havia algo de especial naquele lugar. Uma trilha escavada no terreno úmido seguia em um rastro de serpente até o topo da colina, onde a cabana banhada pela lua cheia era guardada pelos crânios sorridentes de ancestrais. Crocodilos observavam silenciosos no abrigo das trevas, os olhares faiscantes de um fogo-fátuo convidando para uma morte certa. O doutor feiticeiro ignorava o perigo e seguia em frente, arrastando um pesado malote manchado de lama e sangue. Enxames de mosquitos se amontoavam sobre um pé que escapava da bagagem, pequenas gotas de rubi se fartando do néctar da carne. Mas não tocavam a pele negra de Booziba, pois seu corpo era pintado com ossos mágicos para repelir os espíritos famintos do pântano.

‘Dentro das paredes eles se arrastam invisíveis, até que a luz os chame para uma breve dança de paixão e declínio’

O doutor feiticeiro parou diante da porta bonita ladeada por vasos de planta, e bateu com a ponta de seu cajado. Ela se abriu sozinha dando passagem para um cômodo espaçoso iluminado por velas e perfumado pela fumaça de ervas. Uma mulher de pele escura como a noite estava sentada em uma cadeira de balanço, a cabeça coberta por um lenço colorido. Fumava um cigarro de palha enquanto cantarolava baixinho uma velha cantiga infantil.

Fazendo uma reverência, Booziba se agachou ao lado do malote e o abriu revelando em seu interior um senhor grisalho, preso por firmes amarras apesar do corpo macilento. Ainda estava respirando, mas entorpecido demais até para notar os cupins rastejando sobre seu corpo, as asas mais frágeis do que seus sonhos. Colocando cuidadosamente o homem inconsciente diante da anfitriã, o rapaz a encarou por trás dos dreadlocks em seu comprido penteado moicano e falou com em sua voz arrastada e tranquila:

-Trouxe a oferenda como suncê pediu, Tia Nancy. Esse daí num foi mole de pegá não, mas dá pra deixá suncê satisfeita inté a próxima lua.

‘Em cantos esquecidos do mundo elas caminham no ar, suspensas em fios prateados de astúcia e sonho’

A senhora colocou a mão em uma mesinha próxima e retirou um boneco de palha com as mesmas feições do homem amarrado diante de seus pés, o estendendo para Booziba enquanto falava em uma voz rouca e profunda:

-Sim, meu amado. Sabe o que tem que fazer. Mostra o dom que eu te ensinei e alimenta sua Tia.

O jovem doutor feiticeiro se sentou no chão com as pernas cruzadas, tirando uma agulha do bolso. De olhos fechados ele riscou o ar diante do boneco, até achar um lugar para fincar seu ferrão espiritual. Com a precisão de um cirurgião a ponta perfurou um ponto invisível, fazendo o cativo se contorcer em um súbito espasmo aterrorizado. O homem amarrado começou então a se debater furioso, um peixe fora de seu oceano de angústia e vício. Os olhos se cobriram de cinza enquanto ele gritava obscenidades com uma língua que não era a sua. Booziba permanecia calmo enquanto continuava sua operação, separando o espírito de seu paciente daquilo que o afligia. Em uma convulsão mais forte, um jato de fumaça negra escapou pela garganta do delirante, se agitando em formas monstruosas. Mas o demônio já estava preso em uma teia invisível, uma rede estendida sobre a encruzilhada dos mundos. Agarrado por quatro patas raiadas de aranha, ele foi arrastado até as presas de Tia Nancy. Todos os oito olhos vítreos da senhora tremeluziam de prazer enquanto a loa aranha se extasiava com sua refeição.

Confuso e desorientado, o homem no chão tentava focar sua visão nublada enquanto Booziba gentilmente o soltava de suas amarras, fumando um cigarro de palha enquanto cantarolava uma velha cantiga infantil.

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