As tábuas do convés rangiam de forma estranha. Um bom capitão precisa estar atento a todos os sons de seu navio, mas talvez fosse apenas a falta de familiaridade com a nova embarcação. Sim, era apenas isso. Há menos de uma semana tinha sido designado ao posto, e mal conhecia a tripulação.

A partida de Porto Negro foi apressada, já que a Esquadra Delfina precisava do maior número possível de naus trabalhando na costa. Havia escutado muitas conversas no porto, sobre tribos indígenas se aliando aos inimigos windleses. Pensava em suas longas viagens, quando ainda era apenas um imediato a serviço de Aurin, sempre acompanhando o rastro de destruição mútua entre sua nação e  os exércitos de Windlan.

‘Não importa o rumo, a tempestade sempre alcança’ pensou, sorrindo irônico. ‘E desde quando o Capitão Guerra procura por paz?’ disse ao vento, atravessando o passadiço iluminado pela enorme lua cheia, que reluzia abaixo na maré calma.

Em noites como aquela costumava subir até a gávea, para ficar observando o oceano e o horizonte, mas dessa vez estava disposto a passear no convés, e quem sabe encontrar alguém com quem dividir uma garrafa de rum. Pensou na cozinheira cigana, mas ela deveria estar  cuidando de seus afazeres. Foi quando as notas de uma canção em uma língua que não conhecia chegaram aos ouvidos.

A melodia daquela música o lembrava  de sua infância nas ruas salgadas do porto. Procurando a origem do som com a cabeça, encontrou a elfa do mar debruçada sobre a proa, usando uma simples camisola branca de seda. A pele azulada e os longos cabelos verdes como algas não combinavam em nada com o traje humano, mas ainda assim ela estava  à vontade naquele barco, muito mais do que ele.

Certamente era difícil se acostumar a Serullya, a exótica viúva do capitão anterior do navio, que à noite costumava perambular como um fantasma pelo convés. Pelo jeito iria demorar para se acostumar. ‘Seria prudente trocar uma palavra com ela’ pensou, arrumando seu casaco rasgado com largas ombreiras douradas. ‘Ela precisa saber quem dá as ordens na embarcação agora, de qualquer forma’.

Subiu até a proa pela escada estreita, fazendo com que as orelhas da elfa se movessem de leve, atentas. Ela interrompeu sua canção e se virou para encará-lo de maneira serena, cruzando as mãos sobre a cintura e se inclinando para cumprimentá-lo.

-Capitão – disse de maneira educada, mesmo não parecendo muito confortável com sua presença ali.

-Não é tarde para estar fora de seus aposentos? – respondeu Guerra com sutileza, apoiando uma das mãos sobre o parapeito da proa.

-É mais difícil que alguém da tripulação me incomode durante a noite – Serullya respondeu de forma seca, voltando a vislumbrar as ondas batendo no casco.

-Espero que não esteja se referindo a mim, señorita. – respondeu em um tom inquisitivo, como se estivesse repreendendo um marujo.

-Absolutamente não, Capitão. Já fez muito por mim permitindo que eu ficasse no navio – disse com respeito, embora ele soubesse que ela jamais sairia viva de perto daquele velho casco coberto de lodo.

-Sim, eu fiz. – anunciou satisfeito – Mas saiba que essa nau poderá tomar um novo rumo sob o meu comando.

-Não há mudança de rumo para os que navegam acima do mar. – a elfa respondeu o olhando com tristeza, como se perdida em lembranças – Fama. Fortuna. Aventura. Todos vocês procuram as mesmas coisas, não?

Guerra tossiu uma risada, surpreso com a resposta.

-Todo poderoso Netuno! Nisso você está certa. – ele disse, arrumando as mangas do casaco – E algo me diz que não iremos demorar a encontrá-las. Retire-se antes da mudança de turno, madame. Não quero os grumetes me perturbando com histórias supersticiosas pela manhã.

O capitão girou em seus calcanhares e desapareceu nas sombras do convés abaixo. Novamente sozinha, a jovem viúva se inclinou sobre a amurada e acariciou a superfície de madeira carcomida pela maresia, como se estivesse afagando seu próprio marido.

-Não se preocupe com ele, meu amor. – cochichou Serullya para o navio – Ele ainda saberá que você possui seu próprio rumo.

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