Ah! Justamente o que eu estava precisando! Você poderia acender pra mim? Assim, obrigado. Hmmm, esse é mesmo do bom, hehe! Nada melhor pra acalmar os nervos em uma noite como essa! Agora senta aí nesse toco que vou te contar o que você veio até aqui para ouvir. Você me procurou para saber sobre a Mãe d’Água, não é? Tem muitas histórias que os índios desse lugar contam, mas essa eu aposto meu olho bom que todas as tribos entre as Ilhas Marlim e a Selva dos Sussurros conhecem. E não se trata só de uma lenda famosa. Ela fala aquilo que você precisa saber, antes de se meter pela mata adentro como bicho solto. Essa terra chamada Ararauma esconde todo tipo de diabrura nas florestas, campos e serras. Mas nada, eu lhe digo, nada elas são comparadas ao que tá dentro da água. É a água, preste bem atenção, que é a fonte de todo milagre perverso que assombra esse lugar. É naquele fundo lamacento e escuro dos rios e dos mangues que nascem as coisas tenebrosas das histórias contadas à luz da fogueira nos bares imundos do Porto. E a primeira de todas elas foi a Mãe d’Água.

Muito antes de nós chegarmos aqui, houve um tempo em que existia a Aldeia de Barro, numa ilha próxima da costa, habitada pelos Nheengaíbas, povo que já não existe mais. Era uma tribo de gente encantada, com o dom de moldar a terra e a água de maneiras que um escultor apenas sonharia em fazer. Esse poder havia sido dado a eles por um espírito das águas antigo e poderoso, uma forma indefinida como a argila nas mãos de um oleiro. Sim, essa era a Mãe d’Água, uma entidade sem face e nem cor, pois era como barro vivo e se alimentava da arte daquela tribo que a modelava e remodelava em um sem-fim de formas de gente, de bicho e de coisas que só a imaginação pode criar.

Mesmo com seus poderes mágicos, o povo Nheengaíba era um povo modesto. Viviam da pesca e do cultivo, e seu único infortúnio eram as marés que vez por outra inundavam a aldeia. Para se proteger, passaram a fazer suas casas em cima de morros de terra, que erguiam com seus feitiços. A Aldeia de Barro foi se tornando um lugar encantado, cheio de torres e terraços enfeitados, até parecer um castelo de argila sobre uma ilha decorada com conchas, que formava desenhos quando a maré subia. Foi nessa época que outras tribos mais selvagens os descobriram. Mas não houve guerra, porque eles temiam a Mãe d’Água e queriam negociar suas caças e ferramentas pelas cerâmicas da Aldeia, bonitas como nunca haviam visto. Só que as histórias do barro encantado e de seus escultores viajaram depressa, e logo chegaram até ouvidos mais distantes.

Lá depois da Serra do Dragão, nas nascentes dos rios mais ao sul, existia uma tribo que também dominava a feitiçaria, mas eles não eram como os Nheengaíbas. Dizem que eles retiravam seus encantos de ruínas que encontraram em seu território, ruínas de alguma civilização antiga e perversa, que construiu templos de cristal nas entranhas da terra. Nessas cavernas eles encontraram montanhas de ouro, esmeraldas e diamantes. E isso mexeu com a cabeça deles. Você já deve ter ouvido falar da Febre do Ouro, que fez muita gente enlouquecer na mata. Foi lá que essa praga surgiu, e essa tribo chamada Curuton foi rapidamente contaminada. Obcecada pela ambição diabólica, ela passou a usar a magia que havia descoberto contra outros índios, sempre tentando conseguir mais poder. E quando souberam sobre a Aldeia de Barro e seus prodígios, não pensaram duas vezes antes de partirem para se apossar dos encantos da Mãe d’Água.

Mesmo que a Aldeia de Barro estivesse preparada, não havia como fazer frente ao ataque. Os índios invasores invocaram a ajuda de espíritos de fogo que voavam como esferas incandescentes, a quem chamavam de Mães do Ouro. Os Nheengaíbas resistiram como puderam, mas eram um povo artesão, não guerreiro. Todos morreram queimados em um massacre ligeiro, que cobriu toda a ilha em uma mancha de carvão. Foi o que selou o destino e a desgraça dos Curutons, na primeira das duas vezes em que as águas de Ararauma os amaldiçoaram.

Molestados pela Febre do Ouro, os Curutons desceram como formigas atrás da Mãe d’Água pela gruta no centro da ilha. Quando perceberam que estavam cutucando onça com vara curta, já era tarde demais. Existem muitas coisas nesse mundo com que não se deve mexer, e eles tiveram a ousadia de adentrar no próprio domínio de uma delas. Houve uma maré cheia naquele dia, a maior desde que a Aldeia de Barro havia sido erguida, e ela surgiu de súbito com o grito de fúria de uma das forças mais poderosas de Ararauma. Mas os Curutons apanhados pela enchente não se afogaram, porque a água escura que os envolveu transformou seus corpos em uma mistura de peixe e de gente. Eles se tornaram Ipupiaras, com longas caudas escamadas e bigodes de bagre. E foram condenados a viver  no fundo do mar, guardando a ilha agora deserta.

Chorosa e angustiada por perder aqueles que lhe davam forma, a Mãe d’Água deixou a Aldeia de Barro e se deixou levar pela ressaca do oceano, deslizando pela areia da praia e pela lama negra dos manguezais. Ali ela permaneceu algum tempo, mas sentia falta do carinho das mãos de um artesão. Tendo recuperado suas forças, ela se lançou contra a corrente do primeiro riacho que encontrou. Não se sabe quanto tempo ela viajou colorindo o leito dos rios, mas uma noite ela encontrou um grande lago. Esse lago era o Iaci-Uaru, o espelho que refletia a lua, e a Mãe d’Água decidiu que ali seria seu novo lugar.

As margens do lago eram habitadas pelas Icamiabas, uma tribo de amazonas que dominava toda a região. Eram mulheres fortes e ágeis, capazes de acertar uma flecha em um marimbondo voando no alto de uma árvore. Não havia índio que mexesse com elas, e a única época em que aceitavam ser cortejadas era durante a maior lua cheia do ano, quando toda a superfície do lago era banhada em prata pela luz de Iaci, que era o nome que as amazonas davam à lua, sua deusa-mãe. Muitos rapazes de aldeias próximas tentavam chegar ao lago nesse dia, mas apenas os escolhidos por Iaci recebiam o direito de tentar gerar o filho de uma Icamiaba. Os outros se perdiam na mata, ou sofriam coisa pior se a deusa enxergasse alguma safadeza em suas intenções. Apenas as filhas nascidas mulheres eram criadas por elas. Os filhos eram levados para serem criados pelos pais, e sempre se mostravam guerreiros fortes e corajosos como a mãe.

A primeira índia a descobrir a presença da Mãe d’Água no Iaci-Uaru foi Yara. Ela era a melhor nadadora da tribo, e havia se apaixonado pelo homem com quem se deitou na lua daquele ano. Antes dele partir ela queria agraciá-lo com alguma prenda, e por isso mergulhou ao fundo do lago para encontrar alguma pedra preciosa ou concha com que pudesse fazer um amuleto. Foi então que ela se deparou com um barro branco como a lua, e ao tomá-lo em suas mãos notou que ele era macio e parecia querer se moldar sozinho ao seu toque. Pensando nos animais que viviam ao redor, ela sem esforço modelou um pequeno sapo. Já era suficiente para que se desse por satisfeita, e ela voltou para entregar o presente ao amado. Imagine o assombro daquela gente selvagem quando o pingente reluziu o luar prateado, como se fosse ele mesmo um pedaço de Iaci. Na hora eles entenderam aquele feitiço como uma bênção da deusa, mas a partir daquela noite uma voz passou a falar com Yara nos sonhos, contando que aquela também era uma dádiva do espírito que tinha vindo morar nas águas da tribo.

As Icamiabas deram à Mãe d’Água o nome de Mãe Muiraquitã, por acharem o amuleto parecido com um nó de árvore. Yara acabou tomando o lugar da pajé da tribo e em todas as luas seguintes as amazonas presenteavam os pais de seus filhos com um pingente da argila branca. Assim elas viveram em paz por algum tempo, até que a ameaça dos Curutons retornou.

Os sobreviventes da enchente na Aldeia de Barro não haviam esquecido da desgraça que sofreram, mas agora desejavam vingança pela maldição que levou embora a humanidade de seus companheiros. Eles seguiram durante anos o rastro dos fenômenos que apontavam a presença da Mãe d’Água, e certos de que não podiam enfrentá-la cara-a-cara, fizeram um pacto com Pirarucu, um dos demônios mais miseráveis que já rastejou nas águas de Ararauma. Ele era um homem-peixe grande e negro como a noite, com olhos de fogo e caveiras penduradas em sua lança. Diziam que ele já havia sido um grande guerreiro, transformado em uma fera imortal por sua crueldade e por desrespeitar os deuses da floresta. Mesmo que não fosse capaz de matar a Mãe d’Água, ele iria macular o lago com a arma maldita que trazia em mãos, entregue a ele pelo próprio Anhangá, o espírito da morte que atormenta os que vivem na mata.

A primeira tribo a encarar a violência dos Curutons foi as dos Guacaris, a maior entre os aliados das Icamiabas. Os pobres desgraçados não duraram uma noite. O único a escapar foi o amante de Yara, mas ele havia sido ferido pela lança de Pirarucu e morreu nos braços da pajé. Dizem que foi o poder do muiraquitã que o manteve vivo e o guiou até o lago para que pudesse se despedir. Cheia de agonia, Yara se atirou nas águas do lago, desaparecendo nas águas escuras daquela noite sem lua.

As outras amazonas ficaram assombradas,  sabendo que não podiam com a magia do inimigo que invadia Iaci-Uaru. Mas eram mulheres guerreiras, e iriam lutar até não terem mais dedos nem dentes para segurar uma arma. O brilho das Mães do Ouro já surgia na cumeeira, e elas ouviam os gritos selvagens dos Curutons, como primatas possuídos pelo demônio. Foi nessa hora que as águas do lago sagrado borbulharam, e Yara surgiu da espuma branca, transformada pelo encanto da Mãe d’Água.

A pajé havia se tornado uma sereia dos rios, com a pele fria de uma rã e olhos verdes como jade. Ela começou a cantar em uma língua nunca ouvida acima da terra, paralisando os invasores de medo. Então a argila branca de Iaci-Uaru começou a subir, como se uma arraia gigante estivesse se remexendo lá embaixo. As ondas da superfície se agitavam e brilhavam com uma luz prateada, ofuscando o fogo profano das Mães do Ouro. Quando toda a água do lago sagrado se cobriu com ela, parecia que a lua tinha descido do céu e vindo se banhar em suas águas. Era o chamado da Mãe d’Água, fortalecida pelo poder de Iaci.

As guerreiras Icamiabas atenderam faceiras, saltando graciosas nas ondas brancas e prateadas de Iaci-Uaru. Cada uma que mergulhava voltava enfeitiçada, acrescentando outra voz na canção da pajé. Encantados pela magia de Yara, os Curutons se aproximaram devagar, vindo até a margem. Quando já estavam quase entrando na água, as amazonas pararam de cantar, e saltaram sobre eles com dentes de piranha e força de sucuri, arrastando os mais desgraçados para o fundo e tingindo a brancura do lago de sangue.

Depois de terem acordado do encanto, os Curutons reagiram com violência, mas os que não foram estraçalhados pelas Icamiabas acabaram fugindo para longe da serra. A maldição da Mãe d’Água os perseguiu, e na manhã seguinte eles haviam se tornado Cururus, homens-sapo que não podiam mais sair na luz do dia, tendo que se esconder na umidade e nas sombras. A maioria retornou para as grutas de seu território, se entocando lá dentro e nunca mais retornando. As Mães do Ouro queimaram toda a aldeia, mas as amazonas já não precisavam de casas na terra. Quando o feitiço dos Curutons acabou os espíritos de fogo se apagaram no chão, deixando ouro e diamantes entre as cinzas. Muitas Icamiabas foram mortas por Pirarucu, que rasgou Iaci-Uaru com sua lança maldita. A Mãe d’Água sabia que não podia mais morar ali, mas estava contente porque Yara e suas companheiras a seguiriam para todo lugar como filhas leais. Ninguém sabe o que aconteceu com o homem-peixe durante a batalha, se foi morto pelas Icamiabas ou se escapou rio acima, mas ainda se contam histórias sobre o guerreiro de Anhangá que vira as canoas à noite para empalar os navegantes.

Ninguém sabe onde o espírito das águas vive agora, mas em qualquer lugar que você for na terra de Ararauma, vai ouvir histórias sobre coisas que vivem no fundo escuro dos rios, lampejando na superfície em noites de lua cheia pra assombrar os nativos. E eu te digo que é tudo obra dos feitiços da Mãe d’Água, e que todo alagado, riacho e mangue por onde ela passa se torna uma nova fonte de coisas medonhas. Agora passe o resto desse fumo pra cá. Já é tarde, e não é bom ficar tão perto do lago depois que as luzes se apagam.

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