Uma escuridão azulada preenchia a caverna submersa, onde o Emissário nadava graciosamente entre estalagmites de gelo. Seus olhos vasculhavam as paredes espelhadas, até finalmente encontrarem a passagem por onde se lançou com um movimento vigoroso de suas asas membranosas. O som da água espirrando ao emergir ecoou pelo silencioso túnel de pedra, desgastado pelos milhares de anos de abandono. Na total ausência de luz, a criatura usou seus filamentos sensoriais para encontrar o caminho até as escadarias que conduziam para a antiga cidade na superfície. Enquanto prosseguia, as extremidades de seus tentáculos tateavam as figuras em alto-relevo nas paredes, imagens de um passado que ele havia testemunhado. Aquele lugar já havia sido uma grandiosa metrópole, habitada por seus irmãos da superfície. As gravuras ainda traziam o contorno dos primeiros Antigos chegando a Keleb como estrelas cadentes, dando início a uma próspera colonização. Um período de paz e esplendor, antes da terrível rebelião que condenou sua espécie a ser caçada pelos próprios filhos pródigos de sua avançada ciência.

O brilho fraco da luz solar atraiu a atenção do Emissário até uma larga torre circular, que se estendia acima até uma claraboia em formato de estrela. Em um dos andares inferiores havia uma porta entreaberta, de onde se podia ouvir o barulho do Cientista trabalhando nos espécimes que havia coletado após a grande hibernação. Embora fosse um dos últimos sobreviventes da casta terrestre, o estudioso mantinha o pragmatismo comum à sua equipe.

De pé no centro da sala, o Cientista parecia ter voltado aos tempos áureos de sua civilização. Cada tentáculo ramificado se ocupava em uma atividade diferente, dando ao pesquisador um aspecto pitoresco em sua simetria radial. Os olhos cor de rubi eram movidos constantemente pelos apêndices da cabeça em forma de estrela-do-mar, analisando com cuidado as amostras e placas de leitura espalhadas no balcão circular ao seu redor. Ainda assim, um deles se voltou ao Emissário, voltando a atenção ao trabalho após um breve instante. Só ao terminar uma anotação com sua pequena haste energizada o Cientista o saudou, falando através da música melodiosa e penetrante emitida por seus orifícios vocais.

É interessante como algumas das criaturas deste planeta sofreram alterações ínfimas nos últimos milênios. Os mares próximos à sua cidade estão povoados por águas-vivas praticamente idênticas às que seu povo comercializava como iguaria.”

O Emissário respondeu em uma melodia mais grave e profunda, enquanto recolhia as asas para passar pela porta do laboratório.

Não são necessárias grandes mudanças quando já se tem o suficiente.”

O Cientista silvou antes de responder.

“Esse conceito se aplica apenas a seres desprovidos de racionalidade, é claro. Se nossas mentes desenvolvidas estivessem presas a este idealismo simplório, jamais teríamos construído prodígios como essa cidade.”

Utilizando como mão-de-obra as criaturas que quase nos destruíram depois” rebateu o outro Antigo.

Isto foi apenas uma falha causada pela nossa distração durante a guerra com os outros colonizadores. Se tivéssemos continuado a direcionar nossos esforços no aprimoramento dos escravos eles jamais teriam se libertado do controle psíquico. E assim teríamos resistido até mesmo à glaciação.”

O Emissário não contestou, embora não concordasse. Os Antigos da superfície confiavam demais em sua tecnologia para resolver qualquer impasse durante a colonização de um novo planeta. Eles eram sempre os pioneiros, os aventureiros que levavam seus esporos aos locais mais inóspitos. E, na maioria das vezes, eram também os que mais sofriam os reveses em épocas difíceis. Ao observar os painéis que recobriam as paredes da sala, ele vislumbrou um retrato da paisagem durante o auge daquela cidade. Selvas exuberantes cercavam suas torres e passadiços, abrigando lagartos bípedes e gigantescas feras. Agora, nada mais restava além de um deserto coberto de gelo.

“Os mares deste mundo ainda são familiares mesmo depois de tanto tempo” – disse finalmente o Emissário – “Mas não posso dizer o mesmo daqui. No fim, este próprio mundo encontrou meios de nos repelir”

Mas nós prevalecemos. Podemos dar início a uma segunda colonização. Você pensa que ainda estamos no final da glaciação, mas a verdade é que nós estamos confinados aqui. Além do oceano existem terras que não estão congeladas, e lá outras formas de vida se desenvolveram. É curioso como a atual espécie dominante descende daqueles primatas sem cauda, que haviam começado a se tornar populares como animal de estimação durante os últimos séculos antes da hibernação”.

“Então este planeta encontrou seu próprio rumo. Se ele desenvolveu uma espécie inteligente nativa, não há mais razão em tentar povoá-lo. Nossa raça não suportaria uma nova guerra. Estamos em desvantagem numérica, e não conhecemos nada sobre o novo ambiente”.

Ainda podemos utilizar os escravos. Meus companheiros estão à procura deles agora.  Aparentemente, após a glaciação eles se esconderam em locais remotos, nas cavernas ou em nossas próprias cidades. Se desenvolvermos uma nova maneira de controlá-los…”

O diplomata não deixou que terminasse de falar. Antes que o Cientista pudesse esboçar qualquer reação, o Antigo da casta aquática se lançou sobre ele, o derrubando atrás do balcão e dando início a uma lenta e violenta luta, cortando com precisão cirúrgica o corpo rígido do estudioso com a ponta de seus tentáculos. Se erguendo vitorioso, o Emissário das Profundezas caminhou de volta até o centro da torre, ainda coberto pelo sangue verde-escuro do Antigo despedaçado. Erguendo suas asas, ele alçou voo através da claraboia, se distanciando rapidamente da cidade agora vazia. Ele não podia deixar que sua raça cometesse os mesmos erros do passado, atiçando os horrores gerados pela ambição contra um mundo agora povoado e contra a sua própria espécie.

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