Just think of what my life might be
In a world like I have seen!
I don’t think I can carry on
Carry on this cold and empty life

(Rush – 2112)

As camadas do Aether, o mundo etéreo, se desdobram verticalmente de acordo com a essência do subconsciente coletivo que forma cada uma delas. Realidades formadas por infinitas mentes, combinando seus pensamentos desde o surgimento da primeira criatura senciente no universo. Lidar com a matéria da existência é um princípio básico da magia, mas as entidades que habitam as camadas dispostas acima e abaixo de nós possuem um nível de consciência complexo demais para garantir um contato seguro.

É por essas limitações que decidi levar minhas pesquisas além, fundamentado em algo que a princípio parecia um delírio, mas vem se mostrando assombrosamente possível. As histórias do povo cigano sobre uma “estrada das estrelas” sempre me interessaram, mas não passavam de folclore de beira de estrada até o dia em que tive a felicidade de conhecer o Professor Arqueólogo Zaenir, um elfo negro do Instituto que se tornou meu principal parceiro de pesquisas neste passeio pela Estrada do Céu.

Se o Aether se estende verticalmente de acordo com as consciências que o compõem, o que o impediria de também se estender horizontalmente? De se estender até outros mundos formados não por corpos astrais, mas pela matéria física que compõe o nosso? Zaenir parece mais convencido do que eu de que estes universos paralelos existem, e de que podem ser visitados quando dispusermos do conhecimento necessário para tanto. Durante os séculos em que viveu, meu colega reuniu fragmentos de histórias sobre planetas distantes, separados de nós através das barreiras do espaço, tempo ou mesmo outros parâmetros dimensionais que sequer conhecemos.

Ele me contou sobre Eryx, um planeta próximo ao nosso sol coberto por selvas lamacentas que escondem labirintos invisíveis de cristal. Também me falou de Barsoom, com suas planícies vermelhas cavalgadas por impetuosos gigantes de quatro braços. O distante Sadalsund, com montanhas delgadas sustentando cidades esféricas acima do oceano, e também Cerúlea, com seus desertos de areias azuis se estendendo ao horizonte em uma eterna noite. Syrinx, um mundo mecânico e frio além da dimensão do tempo, controlado por uma teocracia não muito diferente da que já governou o nosso mundo. E finalmente as Terras do Sonhar, onde a cidade de Kadath serve de morada para Aeons estranhos.

Esta última se tornou o principal interesse de Zaenir, por algum motivo particular que ele se recusa a contar. Dramas pessoais à parte, estou mais interessado em um meio físico de alcançar estes mundos, como a ferrovia experimental que o Instituto pretende construir em Al-Dasht com o auxílio dos Engenheiros de Mavi. Porém, a Estrada do Céu é agora a grande estrela da comunidade arcano-científica, e não poderia deixar passar a oportunidade de conhecê-la. Por toda a região há resquícios de contato com outras realidades, relíquias de mundos distantes que o Führer em sua inocência pensou que poderia guardar só para si.

Um feitiço simples é o suficiente para me infiltrar no armazém da estação de pesquisa da Ordem da Meia-Noite. Nas caixas espalhadas pelas prateleiras encontro exóticos crânios de cristal e uma curiosa estátua desgastada, que parece representar um antigo ídolo com cabeça de polvo. Ainda estou examinando os artefatos quando escuto um gemido inumano vindo do corredor. Ao me virar, me deparo com um braço de pele costurada arrancando com violência uma das pesadas portas de ferro do recinto. O gigante que entra a seguir não passa de um amontoado grotesco de músculos, tubos de produtos químicos e pinos de ferro estalando com eletricidade. Uma máscara de couro negro cobre toda a sua face, permitindo ao monstro enxergar apenas pelos olhos vazios implantados nos antebraços. Apenas mais um produto da insana pseudo-ciência do Führer, tão cego e obtuso quanto os cientistas que o criaram.

Tenho tempo para uma única magia antes dele me alcançar. Uma conjuração de fogo poderia destruir o precioso material que eles tem aqui, então decido esfriar um pouco as coisas. O cristal na ponta de meu cajado brilha com uma luz gélida antes do raio polar ser disparado, criando uma trilha de cristais esbranquiçados até o gigante. Ele tenta em vão se proteger com o braço, mas logo sua carne em retalhos fica azulada e ele é coberto por uma grossa camada de gelo. A potente rajada elemental deveria transformar uma criatura desse porte em nada mais que uma estátua inerte e quebradiça. Porém, monstros artificiais como ele costumam ser um pouco mais teimosos, e mesmo congelado ele move seus olhos asquerosos em minha direção. Pelo menos isso o deixará quieto por alguns minutos, tempo que não posso perder agora para me livrar dele. Contornando o débil monte de carne, sigo em direção ao caminho que leva ao laboratório indicado no escritório da estação. Preciso descobrir o que está sendo guardado com tanta importância, e qual será seu papel em minha árdua jornada de conhecimento.

Encontro minha equipe de alunos ao retornar ao corredor. Estão exaustos pela luta contra os steamtroopers , e muitos sofreram ferimentos sérios. Parece que a brincadeira não foi tão divertida assim. Ignorando os protestos, peço que me acompanhem até o laboratório, onde a expressão de surpresa em seus rostos só não é maior que a minha própria.

Imersos como fadas engarrafadas nos tubos alquímicos da Ordem da Meia-Noite estão as criaturas mais belas que já contemplei. Seres adormecidos em um sono tranquilo, com uma expressão de profunda sabedoria. Sonhando talvez com os Aeons de Kadath, ou com as melodias proibidas da Syrinx de outro tempo. Há tantas coisas que preciso perguntar a eles…

Um alarme distante interrompe meus pensamentos, e percebo que o pelotão que havia deixado a base retornou. Logo uma horda de steamtroopers estará aqui. Pelo meu olhar, os alunos entendem que não deixarei este lugar. Eles não hesitam um único segundo antes de fugir, pois isso tudo é demais para suas pequenas mentes limitada, inebriadas por desejos juvenis.

Crianças tolas, sempre tão previsíveis. Acreditando estar diante do momento de resignação de seu mestre, que prefere passar seus últimos momentos admirando seu achado a tentar salvar a própria vida. Como sempre acontece nos romances de aventura baratos lidos por eles entre as aulas, onde sobrevivem os desapegados de conhecimento, os seguidores de costumes conservadores. Onde durante o calor da batalha sempre se enterra a perigosa descoberta, que os heróis ajudaram o obstinado estudioso a encontrar apenas pelo desafio.

Eles não terão a menor chance lá encima. Mesmo que pudessem lidar com a tropa três vezes maior do que aquela que nos recebeu, teriam que enfrentar também o monstro de carne, que já deve estar livre agora. Enquanto desenho o complexo círculo de teletransporte, escuto os gritos desesperados. A magia é uma arma perigosa nas mãos destes jovens arrogantes,  principalmente para eles mesmos. Este mundo miserável aprendeu a corromper as artes mais belas do conhecimento, as transformando em uma mera ferramenta para alcançar seus objetivos mesquinhos. É por esse motivo que meu trabalho na Estrada do Céu ainda não está terminado. Ainda não tenho as respostas que preciso.

Ainda não sei como os habitantes de outros mundos chegaram até aqui, e como eu poderei fazer o caminho de volta.

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