I wandered home though the silent streets
And fell into a fitful sleep
Escape to realms beyond the night
Dream can’t you show me the light?

(Rush – 2112)

Um cabelo-de-anjo roça em meu rosto quando volto meu olhar em direção ao horizonte. Vejo mais uma coluna de radiação cósmica cortar o céu como um relâmpago, iluminando o céu rubro e lançando um tremor sob os meus pés.

Já estive nos palácios encantados de monarcas esquecidos, em ruínas ciclópicas de cidadelas perdidas e em templos profanos dedicados a entidades abissais. Mas nunca estive em um lugar tão peculiar quanto esse.

Para um experiente estudioso do arcano, é difícil se espantar com alguma coisa. Mas confesso que sinto uma ansiedade crescente enquanto caminho através deste deserto abandonado pelo tempo, onde um poder esquecido deixou  geoglifos gravados na terra como letras meio apagadas de um pergaminho perdido.

É uma pena não poder dizer o mesmo da pequena expedição que me acompanha, escolhida entre alguns dos estudantes de destaque do Instituto Marque de Sauge. É notável como ignoram o valor das descobertas que estamos fazendo, reclamando o tempo inteiro do cansaço e do calor. Apesar de suas conquistas acadêmicas, lhes falta o conhecimento de campo e o respeito pela arte. São crianças irresponsáveis, que gastam suas energias de forma banal e fútil. Me envergonho do balé pirotécnico de suas conjurações, tão distantes da essência sutil e prática da magia. Se entendessem a importância de se saber onde está pisando antes de agir como imbecis piromaníacos, poderiam ter evitado o infeliz incidente nas ruínas que exploramos pela manhã.

Tudo por conta de dois garotos arrogantes que tiveram a ideia imbecil de atacar uma massa amorfa protoplasmática, uma espécie de limo alquímico que se alimentava de magia e os engoliu sem demora. Eles estavam cientes desse tipo de perigo, mas a militarização da Academia e a presença crescente da burguesia em nossas cadeiras cria essa falsa ilusão de onipotência. Não é sempre que o despreparo se mostra fatal, mas isso servirá de exemplo aos demais que as coisas funcionam de forma diferente longe de casa. Agora temos coisas mais importantes para nos preocupar, pois estamos nos aproximando de uma pequena estação de pesquisa que ao que tudo indica pertence à Ordem da Meia-Noite.

Quem diria que chegariam antes de nós desta vez? Parece que o Círculo dos Adivinhos estava certo ao afirmar que eles são mais do que um incômodo. Todavia, devo acrescentar que o fato deles tem interesse neste deserto isolado do mundo é apenas mais uma peça a se encaixar no quebra-cabeça que tento resolver. E tenho a impressão de que lá dentro podem estar outras.

Esperamos até o final da tarde, quando um zepelim parte levando boa parte das tropas alojadas para algum lugar ao Leste. Invadimos o lugar assim que encontro seu ponto vulnerável, não dando chance de reação aos steamtroopers restantes. Enquanto as crianças se divertem um pouco, usando seus feitiços de ataque contra os soldados, vasculho as salas estreitas em busca de alguma pista do que a Ordem estava aprontando ali. Entre grossos livros de registro e aparelhos de medição magnética encontro menções a experimentos guardados nos andares inferiores, como sempre identificados apenas por números. Plantas de ruínas como a que exploramos ocupam as paredes do escritório da estação, onde encontro mais informações a respeito do que se esconde no laboratório mais afastado. Eles parecem estar de posse de algo extraordinário, mas felizmente ainda são incapazes de compreender o que representa a Estrada do Céu, onde pode estar as prova de minhas teses mais ousadas.

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