As escadarias de Chakana pareciam intermináveis sob o céu das montanhas, onde as nuvens se espalhavam em pequenas plumas brancas após a tempestade. Saltando sobre os degraus molhados, Pisco ofegava e desviava atrapalhada dos pastores de lhamas, vendedores de batatas e tocadores de flauta que zanzavam pelas ruas estreitas naquela manhã. Ninguém dava muita atenção à menina, igual a tantas outras com seu xale de lã e seu chapéu de abas largas, de onde escapavam duas tranças negras presas em um laço na ponta. Todos estavam ocupados em retomar suas tarefas, após a forte chuva da noite anterior. A agonia que sentia pertencia apenas à ela, enquanto a paisagem formada pelos prédios, pessoas e pequenas barracas de palha era um mosaico impassível que ela tentava transpor enquanto corria contra o tempo.

Finalmente, com um suspiro de alívio, ela avistou a bolsa vermelha do balão em um dos terraços mais altos, ainda não completamente cheia. Um pequeno grupo de pessoas formava um círculo ao redor do veículo, a maioria soldados e outras pessoas importantes que Pisco não conhecia. Os empurrando pela cintura de lado enquanto passava, ela correu até o grande cesto da aeronave, gritando e acenando quando viu que seu irmão estava lá.

-Pahuac! Pahuac! – ela chamou, fazendo com que o rapaz se virasse com um sorriso.

-Pisco! Você não deveria estar tomando conta do rebanho, menina?

A garotinha se aproximou aflita, revelando um olhar marejado de lágrimas quando pôs as mãos sobre a borda da cesta e ergueu o rosto para Pahuac.

-Você vai mesmo embora? – disse ela com a voz embargada de choro.

Pahuac suspirou e tentou desviar o olhar da irmã, enquanto sorria melancólico. Pisco nunca entenderia o que estava acontecendo. Ela ainda era muito nova para perceber que Chakana não estava mais segura, após a cobiça dos estrangeiros ter conseguido atravessar as barreiras que durante séculos haviam protegido o Povo do Sol. As relações diplomáticas de seu Imperador com Windlan já eram preocupantes, mas agora que uma ameaça ainda maior havia surgido não havia escolha a não ser se juntar aos que se declaravam aliados, para impedir que a assim chamada Ordem da Meia-Noite pusesse as mãos no solo sagrado da Estrada do Céu. Pahuac era um dos que havia percebido que esse conflito não poderia ficar apenas nas mãos dos estrangeiros, ou eles ficariam perdidos em meio ao fogo cruzado. Por isso, ele havia se alistado junto aos Aeróstatas, para combater os zepelins da Ordem que se agrupavam próximos à Estrada, e que ameaçavam seguir até o sul, onde pessoas inocentes como Pisco sequer imaginavam o que estava por vir.

-É só por um tempo, maninha. – disse o aviador, levantando a menina pela cintura e a colocando dentro do cesto – Assim que espantarmos os homens que estão causando problemas lá na Estrada do Céu eu volto. O Capitão Markham vai nos ajudar, nos levando no balão dele pra gente poder ir e voltar mais rápido!

Pisco observava o interior da aeronave com curiosidade, espantada com as válvulas que sibilavam com vapor acima de sua cabeça. Ela não entendia porque aqueles homens brancos haviam vindo de tão longe em seus barcos voadores, e porque precisavam de todos aqueles aparelhos estranhos e barulhentos. Será que a terra deles havia ficado tão apertada com aquelas máquinas grandes que eles agora precisavam levá-las para a terra de outras pessoas? E porque seu irmão tinha que ir junto com eles? Ele nunca deveria ter aprendido a mexer naquelas coisas, que machucavam pessoas e enchiam as fazendas de buracos lamacentos. Mas ela sabia que nunca iria convencê-lo a ficar, então desamarrou a manta enrolada que trazia em suas costas, revelando um grande poncho de lã.

-Toma. Eu que fiz. É de alpaca. Vai te manter aquecido lá no alto.

O aprendiz de aviador pegou a peça de roupa lilás com delicadeza e a enrolou ao redor do corpo, abraçando a irmã em seguida e beijando-lhe a face. Nesse momento, uma algazarra de gritos e o toque de uma corneta anunciaram que o balão estava pronto para subir. Enquanto os soldados verificavam os últimos detalhes, o rapaz rapidamente colocou a irmã em segurança do lado de fora, bem na hora em que ele começava sua lenta decolagem.

-Pahuac! – gritou a menina, segurando o chapéu contra a forte ventania que saía do balão motorizado – E se você ficar triste e com saudade de casa?

-Não se preocupe irmãzinha! – respondeu o rapaz, já se afastando enquanto as amarras do balão se soltavam de Chakana – Você nunca pode estar triste em um poncho!

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