O som de uma flauta emerge nas sombras. Rostos de barro balançam nos galhos ao vento. Aranhas marrons se esgueiram tímidas pela ramagem da antiga ruína. É noite na Pedra da Caveira, e o Capitão Gonzalez não está sozinho.  O olhar entorpecido dos Krokan paira sobre ele. Atentos e sossegados, os homens-pássaro da Selva dos Sussurros se mesclam com a fumaça inebriante de ervas alucinógenas. Um deles traz em seu longo bico meia-dúzia de cachimbos acesos. Parece ser o mais velho, trajado com farrapos vermelhos e inúmeros amuletos de contas. Ele está entretido com pedaços de cristal, atirados fortuitamente sobre a relva. No escuro, os pequenos fragmentos parecem estrelas a dançar, guiadas pelo transe do xamã que se move ao som penetrante da música. Um outro pássaro se aproxima do velho pirata, parecendo emergir da folhagem com sua plumagem esverdeada. Ele tem em suas mãos um prato, feito a partir de uma grande concha. Uma infusão preenche o recipiente, seu cheiro é doce e penetrante. O líquido é oferecido ao capitão, que o sorve de uma só vez com uma careta de dor. Ele pede perdão pela heresia e mergulha nas profundezas da percepção.

O som de uma flauta ecoa nas sombras. Rostos de barro esvoaçam no ar turvo. Multidões de seres rastejantes se movem pelas ramagens da antiga ruína. É noite na Selva dos Sussurros, e o Capitão Gonzalez não está sozinho. O olhar distante de suas memórias paira sobre ele. Difusas e efêmeras, as lembranças de Aurin se mesclam ao painel cintilante de formas e cores. Uma delas traz em suas mãos um cálice santo. Rodeada por um halo de luz, a sacerdotisa de cabelos castanhos só pode ser um anjo enviado para auxiliar em sua missão. Pequenas flores flutuam no conteúdo esverdeado do cálice. Braços de musgo e vinhas esborram de seu interior em uma cascata vegetal, preenchendo a Rocha da Caveira até transformá-la em um lago pantanoso. Na superfície escura do lago, o velho pirata vê seu reflexo como um cadáver murcho e coberto de plantas. Seus cabelos e barba se tornam um líquen esverdeado, que escorre para se juntar ao pântano. Seus olhos desabrocham em flores compostas, o perfume é doce e penetrante. Uma voz chama pelo capitão nas profundezas do charco. Ele infla seus pulmões cobertos de musgo e mergulha na escuridão.

O som de uma flauta ressoa nas sombras. Rostos de barro cantam em uma ciranda espectral. Seres rastejantes se estendem pelas ramagens até os céus da antiga ruína. É noite em Urin Pacha, e o Capitão Gonzalez não está sozinho. O olhar vago dos mortos paira sobre ele. Lúgubres e fantasmagóricos, os antigos conquistadores de Andina se mesclam ao círculo de névoa leitosa. Um deles traz no peito uma gema turquesa. Ele gargalha em seu empertigado traje de navegador, encobrindo os gritos de inocentes assassinados. Dentro da jóia, um caleidoscópio brilhante se alastra como um túnel. Para além dele se estendem as profundezas de um mar escuro, onde fogos-fátuos bailam como medusas. Uma grande serpente surge do leito nebuloso e circunda o velho pirata. Seu corpo escamoso dança em um emaranhado translúcido. Ela estende a cabeça caolha e exala seu hálito, o perfume é doce e penetrante. Adentrando a garganta da cobra, o capitão percorre uma longa caverna submersa. O corredor de águas cinzentas desemboca em um grande salão, revelando a carcaça de um antigo navio. Em sua cabine fulgura uma luz turquesa, que diminui seu brilho até se tornar a lua minguante sobre a Pedra da Caveira.

Prostrado sobre a grama, o Capitão Gonzalez murmura uma prece, envolto pela algazarra dos homens-pássaro extasiados.

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