We are with you
Countless vicious souls
Fight! Fighting for freedom
United we stand (we stand!) 

(Arch Enemy – Nemesis)

Correntes incandescentes fulguravam nos braços enegrecidos do gigante de fogo, que se lançou para frente brandindo sua enorme espada de lâmina curva. O chão tremia acompanhando sua investida, mas mantive a calma e deslizei com agilidade sob a lâmina, esquivando de seu golpe e cravando minhas garras em suas pernas desnudas. Um jorro ígneo acompanhou o urro de dor do colosso, enquanto asas de poeira se fechavam a minha volta. Aleijado e cego pela fúria, o Campeão da Arena de Gehenn golpeava em vão a minha procura, apenas espalhando mais areia e permitindo que eu observasse seus movimentos à espera do momento certo. Apenas quando já era tarde demais ele percebeu seu erro, e a nuvem turva e cinzenta gerada por seus movimentos foi a última coisa que viu quando corri por suas costas e com um único golpe certeiro rasguei-lhe a garganta.

Após vencer o mais forte guerreiro do sultão, pedi como recompensa que minha proposta de servi-lo na segurança do palácio fosse aceita. Imobilizado de medo por minha perícia, o governante não teve outra escolha senão atender meu pedido.

Não demorou para que eu conseguisse o posto mais alto na guarda. Aquele palácio era um ninho de serpentes, mas o sultão tinha em mim um falcão experiente e confiável. Pelo menos até que o sussurro da morte viesse até mim mais uma vez.

Os dias foram se passando enquanto eu mantinha constante minha vigília sobre a cidade. Consegui restabelecer contato com a Ordem, e logo alguns irmãos Hassassin vieram me auxiliar na tarefa. Com eles espalhados pelas ruas, começamos a fechar o cerco contra os abutres, eliminando seus líderes pouco a pouco.

Mas foi então que a poeira na estrada começou a se revirar outra vez.

Com uma tempestade se iniciando no mundo lá fora, Gehenn não conseguiu permanecer alheia aos ventos da mudança. Mesmo encravada no meio da aridez abandonada, sua riqueza atraiu a atenção da grande águia prateada de Windlan, que enviou um falcão negro para se aninhar nas dunas de Al-Gober. Os abutres tentaram expulsá-lo como fizeram aos corvos de Iblis, mas o falcão negro trazia lanças de fogo sob suas asas, que feriram os abutres com pontas de chumbo. Os abutres então declararam guerra aos soldados do falcão negro, e isso foi apenas o começo.

Pouco tempo depois chegou a criança de Tawosret, trazendo as bênçãos que a muito haviam sido negadas a Al-Gober. Os relatos sobre os dons da pequena sacerdotisa logo se espalharam entre os nômades, e não demoraram para chegar ás ruas de Gehenn. Por pouco meus companheiros conseguiram capturá-la antes que os abutres o fizessem. Mas como era de se esperar, o avarento sultão desejava as graças da menina apenas para si, que durante sua estadia trouxe ao palácio mais harmonia do que ele jamais possuiu em toda a sua breve existência.

Então Dahaka retornou, e com ele veio o castigo que varreu Gehenn para as ruínas do passado.

Ele estava atrás da menina, a quem deveria matar seguindo as ordens de seu senhor. Por minha vez, eu tinha que protegê-la como uma hóspede do palácio, e longos foram os embates noturnos com meu antigo irmão de armas. Nos pátios de pedra carcomida e nas vielas esfarrapadas se podia ouvir o choque de nossas garras. Eu corria como uma sombra sobre os prédios, mas com a mesma velocidade que eu me movia sobre o solo, ele se movia abaixo dele. Nem mesmo os abutres ousavam se aproximar da contenda entre o falcão e o escorpião, que haviam se libertado dos muros da Arena para transformar toda Gehenna em seu campo de batalha.

Ainda que eu compreendesse o papel de um assassino, sentia que havia algo errado em sua missão, e a marca da meia-noite que ele trazia consigo aumentou minhas preocupações. Durante o tempo em que esteve longe, Dahaka descobriu segredos sobre sua própria terra, poderes que estavam adormecidos desde antes do Crepúsculo dos Deuses. E quando as vozes inumanas nas regiões distantes do deserto ficaram mais fortes, ele compreendeu que havia chegado a hora de trazer seu povo mais uma vez para a superfície, ainda que não tenha vivido para testemunhar sua glória.

Dahaka foi o arauto de Al-Azif, a legião de cem milhões de demônios, guiados por pequenas asas e por uma fome interminável. Ele foi o algoz da cidade condenada, que como uma carcaça abandonada na aridez, foi consumida por uma nuvem de insetos capaz de recobrir o sol. Todos os nascidos em Gehenna foram consumidos pelo deserto, que em sua fúria revelou os segredos mais abomináveis de suas entranhas.

Aquilo que aconteceu deixo agora para trás, oculto pela nuvem de poeira que os demônios levantam enquanto se espalham pela superfície, agitados depois de incontáveis eras aprisionados sob a areia. Dahaka não cumpriu sua missão como um instrumento da morte, pois a sacerdotisa resistiu ás privações dos Horrores Antigos e foi encontrada pelos andarilhos das estrelas, sendo salva pelo falcão de ferro de Tawosret, que com a ajuda de seus companheiros e do falcão negro derrotou os abutres, os fantasmas do deserto e por fim o escorpião de Gehenna, que morreu no lugar em que sua estrada começou.

Mas no último confronto com Dahaka ele me disse que após libertar Al-Azif, seu povo teria uma chance de não mais ter de obedecer aos Horrores Antigos, que por temerem a luz do dia não poderiam elevar sua voz para além das profundezas escuras da terra. Ele parecia gostar da idéia de sua gente descobrir aquele mundo da superfície por si própria, como ele mesmo havia feito.

Enquanto eu continuo a atravessar o deserto, ouvindo o farfalhar de um milhão de demônios as minhas costas, guiados por pequenas asas. E meu único conforto é pensar que aquela estranha criatura, a quem posso chamar de amigo, possa ter se sacrificado como um instrumento da liberdade.

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