We walk this earth
With fire in our hands
Eye for an eye
We are Nemesis

(Arch Enemy – Nemesis)

Meu nome é Ihmed, e enquanto junto a meus companheiros atravesso as areias escaldantes do Deserto das Dunas Negras, ouço o farfalhar de um milhão de demônios ao meu redor, guiados por pequenas asas. Fazem apenas dois dias que deixei a cidade condenada, onde agora há apenas fantasmas e destroços de ambições e esperanças. Não olho para trás, e mesmo se olhasse veria apenas uma imensa nuvem de poeira, que segue nosso rastro como um presságio sombrio e recobre o horizonte. Logo chegarei aos portões da cidadela de ferro, onde o julgamento daqueles que se dizem donos dessa terra irá continuar.

Trago a morte comigo em minha lâmina e em meus sonhos despertos, e ela para mim é uma irmã. Assim tem sido desde que aceitei o caminho que me foi designado, sendo treinado na fortaleza dos Hassassin em Jezirat, minha terra natal, da qual me restam apenas vagas recordações. Naquelas terras aprendi a ser um instrumento da morte. Apenas na terra desolada de Al-Gober, onde fui um escravo, aprendi a ser um instrumento da liberdade.

Nela eu cheguei como um emissário do Califado de Al-Dasht, e meu destino era o Sultanato de Gehenn, uma colônia afortunada, nascida de um entreposto de caravanas que cruzavam Al-Gober. Meu dever era o de ser como uma leal ave de rapina, oferecendo meus olhos e minhas garras para minha nação. A grande preocupação do grande califa e de meus irmãos Hassassin era de que a Tribo de Iblis estendesse suas mãos impuras sobre aquela caixa de jóias, deixada vulnerável nas areias distantes.

Mas durante meu longo voo até Gehenn, nenhum sinal avistei dos corvos imundos de Iblis, e logo descobri a razão. Uma revoada de abutres já dominava aquele lugar, tendo espantado os corvos ao mesmo tempo que rodeava o Sultanato com olhos cobiçosos. Assaltantes de caravanas, contrabandistas e matadores grosseiros, que durante décadas controlaram os nômades da região pelo medo, agora se espalhavam pelas ruas da cidade como moscas em um cadáver, transformando Gehenn em um lugar onde a vida e a morte tinham seu valor pesado em ouro.

Aquela era a cidade condenada que agora deixo para trás, abandonada não apenas por mim, mas também pelas areias do tempo.

Enquanto bandidos da pior espécie mantinham o controle do mercado e das ruas, o sultão nada fazia. Tendo seu título comprado e não merecido, ele passou seus últimos dias trancado em seu palácio com seu harém e sua guarda pessoal, que nada mais eram do que aqueles que haviam covardemente vendido sua lealdade em troca da proteção das muralhas.

Percebendo que minhas penas manchadas de sangue atrairiam a atenção dos abutres, tentei ser visto como apenas um andarilho em Gehenn, me misturando a pastores e mendigos. Meu disfarce não durou muito, e pouco depois de descobrir que os portões do palácio estavam trancados para mim, fui reconhecido como forasteiro e capturado bem diante dos olhos do sultão, que nada fez por um enviado de sua terra. Correntes me foram postas, e fui levado como escravo para as sombrias tendas do mercado.

Ao me revistarem e encontrarem minhas garras, os olhares desconfiados dos abutres faiscaram em minha direção, mas os convenci de que se fosse minha intenção cravá-las em seus corpos imundos, o teria feito no momento da minha captura. Foi pela Fortuna dos Assassinos que os bárbaros do deserto não reconheceram minhas marcas, o que denunciaria minha missão e faria com que ela escorresse pela areia junto a meu sangue.

Demonstrei aos mercadores da cidade minhas habilidades com a cimitarra, tentando atrair a atenção do sultão para a proteção que poderia lhe oferecer, o que me garantiria entrada no palácio. Ao invés disso, fui comprado por um pequeno homem de saúde frágil, que usava uma máscara com óculos de couro e um filtro de metal para respirar na poeira. Ele pretendia me usar como gladiador, para fazer dinheiro na arena que havia naquele lugar.

O pequeno homem, que vivia não só das apostas mas também de seus serviços como ferreiro, possuía um outro escravo, um sujeito silencioso que andava com o corpo inteiro coberto por um manto púrpura e carregava uma arma estranha, a qual eu nunca havia visto antes. Era uma espécie de bastão de madeira, com as pontas terminadas em argolas de metal afiadas. Ele se movia de maneira nervosa, e as vezes parecia haver um leve zumbido vindo de seu corpo. Não demorou para que eu descobrisse o porquê.

Aquele gladiador, de nome Dahaka, pertencia a um povo inseto que durante séculos viveu sob a Aridez Sombria. Ele havia aprendido minha língua com o ferreiro, embora falasse em um dos sotaques mais estranhos que já ouvi. Vendo que muitas vezes ele se mostrava confuso com os costumes da superfície, eu o ajudei a compreender coisas comuns que o intrigavam ou atrapalhavam. Após algum tempo nos tornamos também bons companheiros de batalha, e longas eram as nossas conversas entre as lutas na arena.

Enquanto eu o ajudava a entender o mundo dos humanos, ele também me contava sobre sua espécie e sobre o lugar onde vivia. Ele dizia que o tamanho de Gehenn mal podia ser comparado ao do lugar onde nasceu. Porém, suas noções de medida e arquitetura eram muito diferentes das minhas, e ele descrevia sua terra natal como uma rede de túneis, estendidos de forma parecida com uma colmeia pelo subterrâneo. Não duvido que ela possa ser maior do que muitas cidades humanas.

O mesmo digo sobre quantos de sua raça lá vivem, pois a maneira como ele parecia realizar contagens era ainda mais incompreensível. Às vezes, quando observo as dunas no horizonte, imagino um enxame infinito de homens-inseto, se movendo abaixo da areia em uma espécie de consciência coletiva que Dahaka tentou explicar, embora não houvesse palavras em nosso idioma para descrevê-la.

Minha jornada como gladiador durou por alguns anos tortuosos. Como um espectro formado pela poeira sufocante do lugar, a cobiça daquele povo miserável colhia as almas dos perdedores com uma mão enquanto com a outra entregava o ouro aos apostadores.

Eu não pretendia continuar por muito tempo naquela vida, pois tinha um destino a cumprir, e o mesmo pensava Dahaka. Naquele tempo, eu não sabia que o fardo que guiara meu estranho porém leal companheiro até a superfície era mais terrível do que eu poderia conceber.

Então veio o dia em que um homem do leste chegou á cidade condenada. Ele havia sido um assassino, mas agora vagava pelo mundo, pois havia se decepcionado com a humanidade. Um dia, quando retornei para as tendas ao anoitecer, o vi conversando com Dahaka. Ele parecia muito interessado em algo que meu camarada falava sobre as antigas tradições de seu povo-inseto.

No dia seguinte, meu companheiro de batalha foi comprado pelo homem do leste para servi-lo como guarda-costas. Dessa forma nossas estradas se separaram, e senti que havia chegado a hora de deixar a arena e terminar meu dever.

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