Seguindo o ritmo da respiração da cidadela maldita, as paredes da sala da caldeira pulsavam com energia, seus pulmões de aço expelindo enxofre por um emaranhado de dutos e chaminés. Refinando pessoalmente sua obra-prima, Wazir analisava cuidadosamente cada placa de metal, reparando as imperfeições com um maçarico de metano. Ele se sentia revigorado pelo calor, como se ele mesmo fosse parte da gigantesca estrutura mecânica. Era dali, daquela paisagem de engrenagens e pistões, que nasceria um novo Império, onde toda a humanidade seria governada por seu intelecto superior, no momento em que suas legiões de máquinas demoníacas estivessem prontas para esmagar qualquer resistência contra sua ascensão.

Terminando enfim de verificar o topo da caldeira, o homem nanico parou para contemplar aquela maravilha da engenharia, enxugando o suor da testa e se permitindo um raro sorriso. As lentes de seu óculos de proteção refletiam a luz avermelhada que recobria todo o lugar. O novo combustível estava funcionando muito bem, mas era preciso mais para que seus planos na cidadela de Khaldur pudessem continuar. Foi então que, enquanto pensava em esquemas para contornar o problema, a porta da sala da caldeira se abriu com um baque surdo, quebrando sua concentração e o deixando profundamente irritado.

-Quem ousa adentrar o Coração de Khaldur? Anuncie-se agora ou irá servir de graxa para as engrenagens da Cidadela Infernal!

Enquanto pronunciava essas palavras, Wazir surgiu em meio á fumaça nas tubulações da parede. Ele estava montado em uma espécie de aranha mecânica, com uma face horrenda que sibilava vapor. As quelíceras do barulhento construto zuniam com serras hidráulicas abaixo de um único olho grande e esverdeado, com uma pupila fendida de réptil. Sobre a aranha, Wazir conseguia disfarçar sua pequena estatura e parecer ameaçador, os óculos e os dois tufos de cabelo espetado na careca lhe dando uma aparência diabólica. Mesmo assim, o visitante não pareceu se abalar nem um pouco, caminhando em sua direção e falando tranquilamente.

-Fascinante, Wazir. Suas frases ensaiadas ficam mais criativas a cada vez que venho para esse lugar desagradável. Mas infelizmente não foi desta vez que a ineficiência de seus autômatos sentinelas foi provada.

-Ora, se não é meu inepto irmão Fatin – resmungou o nanico, levantando os óculos – espero que haja um bom motivo para esta inoportuna visita.

O outro homem permaneceu calmo, apoiando as mãos na bengala com cabeça de chacal que trazia consigo. Completamente diferente de seu irmão, Fatin era um homem alto e esguio que se vestia de maneira elegante. Sua sombra parecia nunca estar no mesmo lugar, e na luz vermelha da caldeira assumia formas grotescas, como um demônio escondido em meio aos vapores mefíticos das chaminés. Prostrado sobre seu ombro, um camaleão exibia uma expressão apática, como se estivesse desinteressado demais para se mexer.

-Não me daria ao trabalho de vir até sua toca fétida se não fosse importante – continuou Fatin, repuxando o cavanhaque pontudo – o Capitão Caliban deixou a nossa hospitalidade esta tarde, partindo rumo ao norte. Recebi informações de que houve um ataque no porto de Ravenest. Suponho que sua vasta inteligência saiba o que isto significa.

-Mas é claro que eu sei – respondeu Wazir com um largo sorriso, enquanto guiava a aranha até o chão – com Caliban fora do caminho, nada mais poderá impedir Khaldur de se tornar o maior Império de Keleb! Nem os Caveiras Caolhas, nem a Tribo de Iblis, nem ninguém!

-Ouvi dizer que os Hassassin estão visando nossa cidade agora que Gehenna se foi – disse Fatin com um discreto sorriso, fazendo o irmão dar uma sonora gargalhada.

-Hassassin? Hassassin!? Aqueles cretinos não passam de treino de tiro para meus soldados mecânicos! Que venham rastejando como vermes! Até mesmo um amador como você é capaz de colocá-los no devido lugar!

-Sinto lhe dizer que tenho preocupações mais importantes no momento – respondeu o outro, arqueando uma sobrancelha – A Organização Mitternacht vem a cada dia ampliando sua sombra no horizonte. E  em breve eles irão tentar se apoderar daquilo que está debaixo das areias de Al-Gober.

Wazir conduziu a aranha até a caldeira, sem parecer dar muita atenção ás palavras do irmão.

-Não tenho interesse em sua magia ultrapassada! Os motores de Khaldur estão prontos! Quando estiverem totalmente carregados a cidadela irá deixar esse banco de areia imprestável e caminhará para o alvorecer sombrio de uma nova era!

A sombra do mais alto se remexeu inquieta nas paredes da sala, se inclinando ameaçadora sobre o núcleo fumegante.

-E enquanto isso não acontece, o que pretende fazer Wazir?

-Ora, o mesmo que faço todas as noites, Fatin – respondeu seu irmão estreitando os olhos – tentar dominar o mundo!

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