Música

I’ve chased this dream since I was five
And I have barely stayed alive
While folks have fallen off this ship
Well, I have never lost my grip

A música do gramofone preenchia o escritório de Leomond Blakchawk naquela manhã ensolarada. Sentado perante uma das grandes vidraças do cômodo, o Coronel tomava seu chá enquanto admirava a grandiosidade do deserto de Al-Gober, seus quilômetros de areia escura que se perdiam no horizonte distorcido pelo calor. Aquela era a fronteira final para o Reino de Windlan, uma vastidão desolada e hostil que não poderia ser domada por ninguém senão os valentes homens da Coroa. Com sua determinação e superioridade tecnológica, eles logo conseguiriam trazer a civilização para aquele lugar estéril, ampliando suas colônias e rotas de comércio. Sem deixar, é claro, de se apropriar honestamente de qualquer riqueza que estivesse oculta sob aquele mar de areia interminável. Um pagamento justo por retirar os pobres nômades nativos de seus séculos de atraso.

Some folks will tell me I’m all wrong
(He’s all wrong)
But I won’t listen, well, not for long
(No, not for long)

Foi então que uma pequena nuvem escura e disforme surgiu no céu. Pela velocidade com que se movia e pela sua experiência na região, Leomond sabia que aquilo com certeza não era sinal de chuva. Caminhando rapidamente até sua escrivaninha, o Coronel girou uma manivela, fazendo com que do teto surgisse um tubo de cobre, cuja extremidade curva se abria em formato cônico e tinha a abertura coberta por uma grade metálica. – Atenção homens! – disse ele aproximando a boca da grade – Formação suspeita a sudoeste. Aguardando identificação.

-Sim, senhor! – respondeu uma voz chiada vinda do tubo, voltando a falar após alguns segundos – Gafanhotos, senhor! Estão se aproximando rápido, menos de dois minutos. Solicitando permissão para acionar o campo defensivo.

-Permissão concedida – respondeu Blackhawk, voltando para a vidraça enquanto seus homens trabalhavam no maquinário ou corriam para o interior do prédio. Ele nunca se cansava de ver aquilo, a luta do homem windlês contra os perigos dos recantos selvagens do mundo. Com um ruído ensurdecedor, as quatro estruturas metálicas do campo de proteção se ergueram da areia ao redor do forte. Elas se pareciam com patas de aranha viradas ao contrário, mas cada uma trazia em sua ponta uma esfera metálica, que faiscava com eletricidade. Quando os gafanhotos chegaram, obscurecendo a luz do sol e emitindo um ruído infernal, as esferas dispararam ao mesmo tempo, criando um campo elétrico que fritava os insetos antes deles conseguirem adentrar o forte, sem causar qualquer dano na construção ou nos seus ocupantes.

Say, by the way, doctor, is mystery your sole pleasure?
Young man, what could be more pleasant than mystery?
Well, music. I mean the kind of music men hum or whistle when they feel on top of the world!

Logo, só o que restava dos temidos gafanhotos carnívoros de Al-Gober era uma infinidade de cadáveres que forrava a área externa do forte. Deixando o escritório, ele se dirigiu até o salão de entrada do edifício, onde seus subordinados olhavam atônitos para o estrago. Era difícil para eles acreditar que aquela máquina havia funcionado. Principalmente para Amestan, o guarda-costas nativo de Leomond que nunca havia pisado em Windlan. Mesmo após a máquina ter sido desligada, o homem alto e negro hesitava em sair pela porta, e nenhum dos outros soldados parecia querer ser o primeiro a testar se ainda havia eletricidade do lado de fora. Vendo aquela cena patética, o Coronel terminou de tomar seu chá e pigarreou alto.

-O que estão esperando, seus borra-botas? A festa já acabou, agora limpem essa bagunça. Logo a Major virá com mais um carregamento, e quero que este forte esteja impecável quando ela chegar. Está claro, homens?

-Entendido, senhor! – responderam os homens sem muita animação, saindo para pegar vassouras e baldes. Tudo estava se saindo excepcionalmente bem. Em pouco tempo, Al-Gober ficaria sob domínio absoluto da Coroa. E o nome do Coronel Leomond Blackhawk ficaria gravado na história para sempre.

So hate me
You might as well hate me
And go on, berate me
Until the day you die

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