Extraído de um Papiro na Biblioteca de Rosetta. Anotações de Abdul Allhazred

Dizem os ancestrais que a muitas eras atrás, quando as estrelas eram jovens, a terra desolada de Al-Gober já foi uma planície fértil, que rodeava um lago de águas escuras e esverdeadas. Bosques de árvores exuberantes e bandos de animais majestosos, que já não existem mais, se espalhavam por sua margem. Nesse lugar paradisíaco prosperou um povo de pescadores, que usava arpões de osso para caçar as feras do lago e facas de rocha esverdeada para se defender dos predadores da mata.

Acredita-se que este povo forte e simples tenha sido um dos primeiros grupos de humanos a povoar o mundo. O fato de, mesmo nessa época, eles se depararem com algo indubitavelmente mais antigo do que eles, mostra como nosso período de existência é ínfimo diante da ancestralidade do cosmo.

Um dia, um grupo de pescadores encontrou nas águas escuras e lodosas das profundezas do lago uma caverna, em cujas profundezas algo vivia. Algo dormia. Algo sonhava. E seus sonhos inquietos faziam com que a terra, a água e os animais sofressem como se atingidos por um fogo invisível, que parecia se condensar na neblina fantasmagórica que saía da gruta.

Foi ao dormir nas margens próximas a essa caverna que as pessoas tiveram seus primeiros pesadelos.

Com eles veio um medo com o qual o povo do lago não sabia lidar, pois não era algo definido como o instinto de auto-preservação que os protegia dos predadores, mas sim algo que nunca era visto por mais que vigiassem, atacando assim que fechavam os olhos para descansar. A maioria dos pescadores logo abandonou aquele lugar, para poder voltar a repousar em paz. Mas houve aqueles que permaneceram, pois se sentiam atraídos, curiosos em descobrir o que era aquela bruma que lhes trazia visões grotescas durante o sono, que de tão estranhas não podiam ser descritas por palavras.

Segundo recentes pesquisas arqueológicas no Campo de Escavação Blackhawk, estes remanescentes assumiram aos poucos comportamentos infaustos e passaram a ser evitados como loucos, sendo em poucos anos abandonados pelo seu povo. Aparentemente, com o tempo alguns deles descobriram em meio ao pandemônio abominável que invadia suas mentes um padrão, uma linguagem proibida e nefasta, oriunda de um abismo perdido na escuridão além do tempo.

Mesmo sem decifrar o que dizia, eles descobriram que o lago tinha consciência de suas existências e tentava se comunicar. As mentes destes oráculos foram estilhaçadas nesse processo, sacrificadas em troca dos segredos ancestrais que se desvelavam em seus pesadelos sombrios. Todo conhecimento exige um custo, mas logo o invisível tutor passou a exigir mais por seus ensinamentos proibidos.

Quando as pessoas começaram a desaparecer na escuridão da noite, o povo do lago sabia que havia algo errado. Os exilados ergueram uma vila, e gravavam desenhos estranhos na pedra, desenhos que não se pareciam com nenhum animal já visto. Um dia, uma das pessoas desaparecidas foi encontrada, agarrada em uma canoa. Ela estava muito assustada, e falou sobre uma cidade de pedra nas águas escuras, formada de torres esburacadas que não haviam sido construídas por qualquer ofício do povo do lago.

Seu portão de entrada estava naquela caverna escura, e seus habitantes queriam voltar para a superfície, guiados pelos exilados. O homem que disse isso nunca mais dormiu outra vez. Os homens do lago se reuniram e todos concordaram que algo precisava ser feito. Os guerreiros mais fortes partiram então para a vila dos exilados, levando suas lanças e facas de pedra esverdeada para afugentar de volta os habitantes da cidade além da caverna.

Apenas um retornou, em estado ainda pior do que aquele que havia sido encontrado no lago. Ele não conseguiu falar o que havia acontecido com os outros, e morreu gritando em desespero na primeira vez em que adormeceu.

Todo o povo pescador foi tomado pelo medo e pela agonia. Alguns fugiram para o mar, em busca de outra terra. Outros tentaram se  juntar aos exilados, mas encontraram apenas a morte, oferecidos como sacrifício para a caverna.

Não se sabe o que aconteceu com aqueles que fugiram, mas neste movimento migratório eles provavelmente deram origem a outros povos, cuja identidade podemos apenas conjeturar. Porém, existe também um pequeno grupo que permaneceu em Al-Gober, ancestral dos atuais nômades que vivem naquele deserto. Foram eles que guardaram esta história, passada oralmente entre seus descendentes através de inúmeras gerações e aqui registrada nos documentos dos antigos escribas de Tawosret, durante o domínio que foi exercido sobre o povo de Al-Gober no reinado da Rainha Seshafi.

Houve um dia em que uma das canoas retornou, e os que com ela vieram disseram ter chegado a uma ilha distante, na qual a luz do sol e da lua refletia em um mar de águas prateadas. Eles traziam consigo um profeta que possuía o poder de silenciar as sombras da caverna, pois era tão ou mais antigo que elas. E ele ensinou esse poder aos homens do lago, despertando neles entidades poderosas, feitas de palavras e estrelas. Estas entidades passaram a governar o destino dos homens, as protegendo de todo o mal e elegendo aqueles que por direito deveriam receber sua infinita sabedoria e glória.

A última frase deste papiro provavelmente não faz parte da história original, que eu mesmo ouvi dos anciões nômades de Al-Gober. Acredito que o escriba a tenha acrescido para justificar o poder exercido pela teocracia da época. Os detalhes sobre o que ocorreu a seguir são confusos, e variam de acordo com a versão de cada família. Alguns filósofos debatem que parte da força narrativa da guerra entre as entidades (que mais tarde seriam chamadas de Aeons) e os seres da caverna, está justamente em como a mente humana a vê e nela espelha suas próprias esperanças e temores.

Um outro detalhe que merece nota é que a tradição dos nômades menciona um momento em que as criaturas da caverna, já perto de serem derrotadas, lançaram uma maldição sobre Al-Gober. Segundo eles, após um longo terremoto surgiu das entranhas da terra uma gigantesca praga, que foi chamada de Al-Azif. Esta praga devorou em pouco tempo quase tudo que havia ao redor do lago, tornando o local estéril e desolado. Furiosos, os discípulos do profeta deram seu golpe final. Após fazerem com que toda a água do lago desaparecesse, eles ergueram até a superfície a cidade inumana. Pegos de surpresa e incapazes de se adaptar á claridade e ao calor, as entidades do lago recuaram para as profundezas de seus pilares de pedra, onde voltaram a dormir… até recentemente.


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