(Sultão Behrouz por Mari Petróvana. Confira outros trabalhos dela aqui)

“And so they set sail across the land ans seas alike
In a quest to avoid the setting of the sun”

(Orphaned Land – A Call to Awake)

-Meu filho! Meu amado Sahid! – exclamou Behrouz arregalando os olhos e voltando sua face para Dora – Sempre que me recordo da última vez em que o vi, antes dele partir naquela desafortunada viagem, meu coração palpita como uma manada de elefantes! Vamos mulher, conte-me tudo o que sabe sobre o paradeiro de meu querido martim-pescador, e será bem recompensada!

Dora estava de braços cruzados, fitando o sultão com uma expressão de tédio e descrença. Mas a última frase, em especial a palavra “recompensa”, fez com que sua atenção retornasse. E então ela começou a contar sua longa história ao soberano de Jezirat.

História que Amirah ouviu com atenção, ficando mais surpresa a cada momento. Uma mulher que se transformava em águia, um gigante devoto dos Aeons da guerra, uma fanática inquisição tentando castigar o mundo com os horrores do Abismo… E seu irmão Sahid, que depois de se envolver naquela série de acontecimentos fantásticos, havia se tornado Príncipe Mercador da distante cidade de Seawyrm, poucos meses antes de desaparecer sem deixar rastros.

-Então – disse o sultão com uma expressão sombria – o atual conde dessa cidade mercante, que lutou ao seu lado contra as hostes de Ahriman, assumiu seu posto logo após meu amado Sahid sumir deste mundo. Ah, infeliz maré revoltosa do destino! Me diga agora mulher, e que as gaivotas arranquem sua língua se estiver mentindo, acha que este Conde Owen pode ter matado meu filho?

-Não ele  – respondeu Dora – Ele é um homem ambicioso, mas não possui o sabor de sangue inocente em sua lâmina. Porém – ela continuou com um sorriso malicioso – há outra pessoa de quem desconfio, e tenho contas a acertar com ela.

-Então traga a cabeça deste animal miserável para mim se ele realmente tirou a vida de meu amado Sahid, e irei te presentear com tantas pérolas e jóias que um só navio não será capaz de transportá-las! Ah, mas que terrível maldição se abateu sobre este mundo? Primeiro o herdeiro do Califa Misbah, que as graças de Mitra caiam sobre ele, e agora meu querido e bondoso filho! Diante de tanta tristeza, tremo ao pensar no que ainda está por vir!

Amirah  já havia ouvido o suficiente. Momentos depois ela e Ziz se esgueiravam para uma das saídas do palácio, aproveitando a luz fraca da madrugada. Foi então que se depararam com uma figura azulada recostada na fonte principal, com os braços musculosos cruzados e olhos de um branco luminoso os encarando.

-Não está um pouco cedo para passear pelo jardim, princesa? – disse Zarkan, o gênio das águas que protegia o Palácio de Sharyar – desse jeito irá se atrasar denovo para suas aulas pré-nupciais.

Amirah respirou fundo e encarou o Marid com um olhar firme, a trança negra balançando em suas costas com o súbito movimento de sua cabeça – Meu pai nem sabe o quanto está enganado se me vê como um presente para os bárbaros de Aswad. Se Sahid não for encontrado, me tornarei uma moeda de troca, uma “jóia valiosa” como ele mesmo diz, para casar com aquele garoto insuportável e manter a linhagem nobre das Tribos. Isso me deixa enojada.

-São leis antigas que vêm desde o tempo dos nômades, minha graciosa jovem – disse o gênio, coçando a barba esverdeada como alga marinha – mas por mais sólida que seja uma rocha, ela pode um dia ser quebrada por uma maré forte o bastante. Agora que já sabe qual pode ter sido o destino de seu pobre irmão, o que pretende fazer?

-O que mais faria, senão atender ao anseio de meu querido pai? – disse Amirah com um brilho nos olhos – no momento não há maior anseio para ele senão o de rever Sahid. Quero te pedir um favor, Zarkan. Me ajude a embarcar no navio daqueles que estavam no Salão de Ágata esta noite. Irei para Windlan, e se meu irmão estiver vivo, o encontrarei. E como humilde recompensa por meus esforços, pedirei para me ver livre do noivado com aquele demônio da areia.

Vendo então que o dia amanhecia, Amirah se interrompeu e se despediu do gênio, continuando o fio de sua própria história na noite seguinte, quando o navio do Capitão Hassar partiu rumo a Seawyrm.

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