(Amirah por Janaina Freitas. Confira outros trabalhos dela aqui)

“On to the lands we must go to warn all”
Said the Snake, to the Eagle and the Lion
“Beg them to repent so they might be saved
From the fury and the anger that shall claim them”

(Orphaned Land – A Call to Awake)

Afastando delicadamente com os dedos a cortina de seda azulada, Amirah vislumbrou o grande salão circular diante da pequena sacada onde estava escondida. Ela podia ver a silhueta do sultão Behrouz, seu pai, prostrado em seu trono ornado de pérola e cristal, grande o suficiente para acomodar seu corpo largo e bem alimentado. Pela movimentação, ela percebeu que o sultão estava esperando uma audiência, conversando com um sujeito de voz áspera e rude. Amirah esboçou um sorriso no canto dos lábios, movimentando seus dedos ornamentados de jóias para produzir um som cristalino, que foi respondido por um discreto ruflar de asas. Pouco depois, um pássaro surgiu ao seu lado, pousando sem fazer ruído sobre o chão de mármore. Sua plumagem era de um profundo azul, como o céu de uma noite clara. Ele tinha a ferocidade e vigor de uma ave de rapina. Porém, longas plumas de pavão saíam da cauda e do alto da cabeça, terminando em manchas de cor esmeralda. Seus olhos eram como lustrosas pérolas negras, e possuíam o mesmo brilho de inteligência do olhar da princesa. Pois aquele era um eidolon, parte da própria alma de Amirah, que apenas invocadores como ela manifestavam no mundo físico.

-Parece que o gênio estava certo, Ziz – disse Amirah – Ninguém irá me ver daqui. Já sabe o que deve fazer.

O pássaro acenou em concordância e retornou pelo corredor escuro, alçando vôo por uma das janelas. Amirah voltou a observar o salão de ágata enquanto esperava, ficando apreensiva por alguns instantes. Sentindo então a presença dele mais próxima, ela intuitivamente voltou seu olhar para uma pequena janela mais próxima ao trono. E percebeu que seu eidolon estava ali, camuflado entre as enormes e intricadas tapeçarias que pendiam por todo o salão. Respirando fundo, Amirah se concentrou nos sentidos do eidolon, passando a enxergar através dos olhos de Ziz.

A primeira coisa que Amirah viu foi o homem de voz áspera. Ele tinha o corpo coberto por bandagens e estava trajado como o capitão de um navio, embora não ostentasse o símbolo de nenhuma Marinha. Ele resmungava algo sobre um estúpido sacerdote elfo das terras nórdicas que havia transformado todo um estoque de armas de fogo em madeira. O sultão não parecia demonstrar muito interesse na história, levando em consideração seus murmúrios enfadados. Mas soltou uma exclamação de surpresa quando os outros convidados foram anunciados. O primeiro a entrar era um nativo de Jezirat, de baixa estatura, com uma longa barba grisalha sobre o robe de alquimista. Um curioso suricato farejava o ar enquanto andava ao seu lado. O sultão ficou tão empolgado ao ver o homem que se levantou do trono com dificuldade, algo que raramente fazia.

-Sharian! Que as bênçãos de Atargatis caiam sobre você, meu amigo! Que tenha boa fortuna e seus filhos cresçam fortes e saudáveis! Quando o Capitão Hassar me falou que havia trazido você até aqui eu não acreditei, mas meus olhos se enchem de felicidade agora ao ver que está vivo, e meu coração sente uma profunda alegria com sua visita!

Behrouz abriu um largo sorriso e abraçou Sharian, que havia passado as últimas cinco décadas longe de Jezirat, estudando e ensinando as ciências alquímicas na distante cidade de Hedgeshire, em Windlan. Embora um tanto surpreso e embaraçado, o idoso alquimista retribuiu a cordialidade do sultão, um bom velho amigo que não via desde que era apenas um assistente de boticário no palácio, na época em que o avô de Amirah regia a nação.

Porém, o afetuoso reencontro foi interrompido pela chegada do terceiro convidado. A senhora que adentrava o salão de ágata tinha o rosto marcado pelo tempo e cabelos grisalhos cortados na altura do ombro, mas se movia com firmeza e elegância. Trajada de negro, ela exibia em seu rosto a marca dos Hassassin, embora fosse sem dúvida uma estrangeira. Seu nome era Dora, ex-mercenária de Windlan, treinada pelos Hassassin e líder do grupo independente conhecido como Black Wolves, banido do país por intrigas políticas. O sultão não conteve uma expressão de desagrado ao ver aquela figura perigosa em seus domínios, embora soubesse que Zarkan, o Marid do palácio, estava nos arredores pronto para agir caso fosse necessário.

-Está com medo de uma raposa velha, nobre sultão?- disse Dora, com um calculado tom de escárnio na voz.

-Ah, que os generosos espíritos celestes me protejam dos ardis de sua língua, mulher! – disse Behrouz, retornando ao trono – Muitas foram as vezes em que saí para caçar na minha distante juventude, e sei reconhecer quando uma raposa velha ainda tem os dentes bem afiados.

Dora respondeu apenas com um sorriso debochado, enquanto o sultão dirigia a palavra a Sharian

-Por que vil motivo trouxeste esta serpente consigo, meu velho amigo? Por um irônico acaso cansaste de todas as vezes em que ajudou a curar minhas enfermidades e pretende agora me envenenar?

Sharian ficou mais uma vez embaraçado com aquele discurso exagerado, que o sultão havia notadamente aprimorado durante os anos em que esteve longe.

-J-jamais, meu bom amigo e sultão. Peço por sua infinita sabedoria que não me acuse tão injustamente! A senhorita Dora me ajudou a escapar daquela cidade, que lugar tenebroso ela se tornou! Gárgulas sobrevoam as ruas como abutres, e guerreiros de ferro vivo marcham sob o comando do Conde Demônio!

A expressão do alquimista se agravou. Seus olhos se estreitaram, por um momento perdidos em memórias sombrias.

-Sem o auxílio dela, ainda seria prisioneiro em Hedgeshire. E além disso, meu senhor – os olhos de Sharian se ergueram na direção de  Behrouz – Ela tem informações sobre o paradeiro de seu filho.

Anúncios