Os cabelos de ébano descendo em caracóis pelas costas nuas. O perfume inebriante de uma flor selvagem, deslizando pelo ar como uma serpente. Os olhos de uma fera exótica, rara, brilhando no quarto esfumaçado como jóias no fundo do oceano.

Somente para ele.

As histórias sobre as fantásticas riquezas de Aratta eram reais. Era isso que Duncan Sharpwind, Comissário da Expedição Winterwolf de Windlan, pensava enquanto admirava aquela mulher, ansiosa para satisfazer seus desejos. As palavras empolgadas de um mercador nativo o haviam guiado até a luxuosa casa noturna, com suas colunas de mármore de frente para o mar, em uma das ruas mais abastadas do Bazar. Aquela cidade fabulosa não parecia poder existir de verdade. Em nenhum outro lugar do mundo um estrangeiro seria tratado com tanta hospitalidade e gentileza. Desde que ele chegara, havia recebido uma cordialidade calorosa, tão diferente da frieza mecânica a que estava acostumado em Ravenest. E ainda havia mais além disso. Aratta entregava seus tesouros mais preciosos como quem atira comida aos porcos. Bastava ser um estrangeiro para receber honras dignas de um monarca, e não havia um dia sequer em que ele não fosse convidado a partilhar de uma mesa farta, ou da animação de um salão imerso em música. E agora lá estava ela, a mais linda escrava de Madame Jawharah, reservada apenas aos clientes mais afortunados.

Os braços esguios aprisionando o desejo em correntes sutis. O quadril recoberto de jóias, se movendo em um oscilar diabólico. Os lábios ocultos por um véu de seda, sussurrando feitiços sem palavras.

Somente para ele.

Não eram poucos os motivos que tornavam Mahasti tão especial. Ela era um elfa de porte nobre, nascida nas florestas de Bergard e capturada ainda jovem pelos Piratas de Wulfgar, passando então para as mãos da Esquadra Delfim de Aurin e finalmente servindo ao Sultão de Jezirat. Seu nome verdadeiro havia sido esquecido e não importava a mais ninguém. A beleza nórdica de seu povo havia se mesclado aos costumes da Tribo de Sharyar em uma exótica e sedutora combinação. Sua pele havia sido escurecida pelo sol, mas ela preservava os traços angulados e os olhos feéricos, dourados como topázios. Ela havia sido treinada nas artes de sedução dos haréns de Aratta, e Madame Jawharah enfatizara que era também uma mulher culta, fluente em várias línguas. Seu corpo vestido em um pequeno traje de odalisca revelava estranhas tatuagens. Algumas eram inscrições na língua nativa de Al-Dasht, outras se pareciam com estigmas de magia. Mas para Duncan só o que importava agora era sentir cada centímetro da pele macia da elfa, se livrando das peças de roupa que os recobriam enquanto ela o enlaçava com as pernas, retirando o véu e sorvendo sua boca em um beijo ardente.

O suor traçando linhas efêmeras nas curvas do corpo ofegante. A silhueta extasiada de uma deusa, se contorcendo na luz do fogo filtrada pelas cortinas. O sangue escurecido pelo veneno, escorrendo da adaga fincada em seu coração.

Somente para ele.

Mahasti deixou que o corpo inerte do oficial caísse sobre a cama, removendo delicadamente a lâmina curva. Duncan morreu sem perceber o golpe do estreito gume que atravessou seu peito, inebriado pelo prazer e anestesiado pela toxina paralisante. Morreu sem perceber que Mahasti trazia no corpo a marca do pacto feito no Fosso das Serpentes, um dos rituais de passagem mais perigosos da Ordem dos Hassassin. Morreu sem perceber que em Aratta a hospitalidade não é sinal de amizade, e sim do haaruf, o código ancestral da Tribo de Sharyar usado para dissimular as reais intenções através da educação e bom tratamento. Morreu sem saber que nenhum elfo aceitava a escravidão, e que a dama a quem dera seu último suspiro havia se libertado de seus grilhões ainda em Aurin, após ter sido salva pela Esquadra Delfim.

E morreu sem perceber que Jezirat jamais deixaria ao alcance das mãos cobiçosas de Windlan o tesouro tão precioso que era a sua liberdade.

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