Like the Phoenix I fly
Leaving the lies behind
Future’s golden for me
There is no one who can stop me now 

(Stratovarius – Phoenix)

O garoto então conseguiu se lembrar de tudo o que havia acontecido. Junto a uma pequena comitiva dos Engenheiros de Mavi, ele adentrara a floresta rumo à costa, onde pretendia pegar um barco para Aurin. Foi quando um grupo de falarques havia subitamente atacado, disparando flechas das árvores. Pego de surpresa, o grupo se dispersara, e na confusão ele havia batido a cabeça em um galho e caído inconsciente. Mash’al não conseguia imaginar o porque de uma espécie pacífica como os falarques tê-lo capturado, mas parecia que a única maneira de ir embora dali seria falando com o tal Profeta.

-Já estou indo, pequeno servo. Espero que meu anfitrião tenha uma boa explicação para isso tudo – disse Mash’al secamente, pegando seus pertences amontoados debaixo da rede e resmungando por ter que aceitar ordens, embora admitisse para si mesmo que estava um pouco apreensivo com a situação.

Ele agora começava a se lembrar de uma visita na noite anterior, que de início parecia ter sido apenas um sonho. No aposento havia uma bela mulher de cabelos vermelhos, com sua pele da cor de marfim coberta apenas por faixas de tecido. Seus olhos dourados eram como os da Rainha Ifrit, faiscando com um fogo oculto, mas expressavam paixão ao invés de fúria. Se aquela mulher fosse a dita Profeta, então valeria a pena seguir os falarques para vê-la outra vez.

Olhando para fora da janela, o rapaz sentiu uma tontura ao descobrir que estava muito acima do chão. Outros homens-pássaro se espalhavam pelos galhos, com os olhos voltados para ele. O jovem arqueiro estava mais próximo, esperando, mas não havia nenhuma escada ou corda. Entendendo a situação com mais um suspiro de frustração, Mash’al começou uma longa e constrangedora jornada escalando pelo tronco, enquanto os falarques saltavam e faziam algazarra ao seu redor. Mais de uma vez o príncipe escorregou e teve que ser segurado pelos mais próximos, que apesar de parecerem se divertir não deixavam que o garoto se ferisse.

Quando finalmente chegou ao chão, Mash’al se viu diante de uma trilha marcada por archotes. Conversando com o arqueiro, cujo nome descobriu ser R’yak, ele aproveitou para perguntar sobre a Profeta. O falarque confirmou a descrição da mulher, mas sua expressão parecia enigmática ao perceber o interesse. O caminho então terminou em uma clareira cercada por grandes fogueiras, exalando a fumaça branca do olíbano, a resina sagrada encontrada apenas naquela floresta. Mais adiante, um círculo de falarques guerreiros erguia suas lanças em torno de uma espécie de trono, feito com galhos e vinhas entrelaçados.

Apenas ao se aproximar na fumaça espessa Mash’al conseguiu ver a Profeta, tomando um grande susto. Pois quem estava sentado não era a graciosa mulher de cabelos vermelhos, mas um forte homem de cabelo trançado e pele morena, como os da Tribo de Aswad. Ele tinha a mesma chama em seu olhar que a Profeta, e suas vestes eram as mesmas, embora adaptadas ao seu corpo masculino.

-Onde está… – Mash’al começou a dizer um pouco vacilante.

-Eu sou o Profeta – disse o homem com uma voz alta e grave – Sou um dos espíritos soberanos entre as fênix. Nascemos de nossas próprias cinzas, não precisamos nos separar entre o masculino e feminino. Eu te visitei na noite passada, mas em meu outro aspecto.

O garoto precisou de um tempo consideravelmente longo para assimilar o que acabara de ser dito. Olhando confuso em volta, ele viu R’yak parecer segurar o riso. Ainda atordoado com a surpresa e visivelmente frustrado, Mash’al tentou se recompor e voltou a atenção ao Profeta, que o encarava inexpressivo.

-Porquê me trouxe até aqui? – perguntou finalmente.

-Soube que o fardo das terras de Al-Dasht caiu sobre um novo herdeiro, mas que ele estava de passagem por meus domínios para tentar seguir com seus próprios planos.

-Bem, isso ao menos não é surpresa alguma. Acredito que meu distinto anfitrião também irá me chamar de covarde e dizer que estou fugindo das minhas responsabilidades, estou certo?

-Jovem Mash’al – O espírito da fênix abriu um largo sorriso – Ainda vejo uma fagulha do sangue de Aswad em você. Realmente, é minha função como ancestral desta terra censurar e aconselhar, mas você está antecipando as palavras de alguém que está há muito mais tempo nesse mundo. Eu precisava te colocar frente a mim para saber se você é capaz.

-Capaz de governar a nação? – Mash’al disse com desânimo.

-Não. Capaz de governar sua própria vida e de trilhar seu próprio caminho sabendo do fardo imposto a você. Capaz de lidar com o que o destino lhe trouxe e mesmo assim continuar sendo quem você escolheu ser.

Mash’al levantou o olhar lentamente, encarando pasmo o Profeta

-A estrada mais difícil de trilhar é aquela que escolhemos, Mash’al. -ele continuou. – Mas é somente nela que podemos buscar de maneira plena aquilo que desejamos. Porém, enquanto você não souber o que realmente deseja, não será você quem estará escolhendo o caminho, por mais que acredite nisso. Você será apenas um passageiro do destino.

-E como saberei o que realmente desejo? – Mash’al disse com uma certa ansiedade, as palavras saindo de sua boca quase involuntariamente.

-Buscando aquilo que nos torna quem realmente somos… liberdade. – respondeu o Profeta, fazendo R’yak assentir com a cabeça. – Você não pode fugir do que o destino lhe traz, mas deve ser livre na hora de fazer suas escolhas. Para trilhar sua própria estrada, você deve ser forte e ter a convicção necessária para não se deixar prender entre as duas armadilhas… o dever de fazer algo e a culpa por não tê-lo feito.

-Mas se eu não cumprir meu dever e nem me arrepender, o que irei fazer? – respondeu o garoto.

-Voar. – respondeu o Profeta enquanto sua forma começava a mudar,  se desfazendo em um trançado de chamas e se misturando à fumaça das fogueiras, para então surgir como uma enorme e brilhante fênix, a mais bela que Mash’al já havia visto em sua vida. -Voar livre, sem se estar preso ao que não lhe pertence. Apenas assim você poderá descobrir o que é verdadeiro em sua jornada.

A voz do pássaro combinava a melodia suave da mulher que o visitara durante a noite com a firmeza do homem que estava sentado no trono. Mash’al perdeu o fôlego, encantado por aquela visão, enquanto os falarques gritavam em êxtase.

-Agora vá, jovem herdeiro de Aswad. – disse a fênix, pairando com suas asas ardentes. – É preciso conhecer a razão de sua existência para ser capaz de liderar esta terra. Vá e descubra aquilo que ainda não sabe sobre o caminho que escolheu, e volte quando sua vontade for digna de guiar esse lugar assim como guia sua própria vida.

Deixando essas palavras, o Profeta das Fênix alçou voo, atravessando os céus como um sinal luminoso.

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